THIAGUINHO E MARIA GADU - O sambrega tenta cooptar a MPB cada vez mais cansada.
Por Alexandre Figueiredo
A MPB está velha e cansada, mas nem por isso bregalizar é a solução. Reclamem como reclamem os internautas, intelectuais, artistas, celebridades, jornalistas etc, porque a bregalização nem de longe representa a verdadeira cultura popular.
Numa sociedade midiatizada, tudo hoje parece natural, diante da banalização e da supremacia de tantos fenômenos midiáticos. Tudo ficou hipermediatizado, até corações e mentes são pautados pelo poder midiático e isso é inserido no inconsciente coletivo de tal forma que tudo parece tão natural quanto o ar que respiramos.
Mas não é. Estamos perdendo o essencial do sentimento humano, enquanto as pessoas se carregam de pretensões diversas. Todos estão querendo ser tudo: de nerds a zapatistas, exceto ser si próprias. O pretensiosismo vanguardista passa acima de vocações, identidades e até mesmo da honestidade.
Isso se reflete na cultura brasileira da forma mais cruel e hipócrita possível. O entretenimento e o comercialismo musical hoje se pautam por pseudo-teorias que tentam justificar tudo e veem ativismo até em bobagens sem sentido, numa mania espalhada pela blindagem intelectual.
ANTES, BREGA ERA SÓ PIADA E DIVERSÃO
O brega até que não incomodava muito. Era apenas um tipo de música e de expressões comportamentais associado ao comercialismo explícito, quase humorístico e feito meramente por pura diversão.
A situação mudou muito quando o brega, em parte mesclado com arremedos de ritmos populares regionais, tornou-se hegemônico, foi levado a sério demais por uma intensa campanha midiática e intelectual, e que criou um pretensiosismo sem limites que preocupa seriamente pelo seu teor.
A situação piorou até para quem defende o brega que, em vez de curtir tranquilamente seus ídolos, se preocupam demais com as críticas e ficam "sociologizando" demais aquilo que curtem. Em vez de dizer "eu gosto de fulano ou sicrano", ficam criando teses "cabeça" e surreais sobre supostas funções ativistas ou revolucionárias desses ídolos.
Tudo virou um lobby violento que quase não temos MPB autêntica no Brasil. Artistas com opiniões fortes e uma postura insubmissa às leis do mercado estão dando lugar a ídolos "maleáveis" que aceitam tudo em nome do sucesso, mesmo quando forjam algum pretenso ativismo ou provocação.
O CANSAÇO DA MPB
A MPB que causou um grande impacto nos anos 60 e 70 hoje está reduzida a uma geração de jovens inócuos, que na prática já nem fazem música brasileira, mas um pop romântico inofensivo, às vezes simpático, mas sem qualquer criatividade plena.
Já desde os últimos anos, quando a indústria fonográfica fez a MPB sucumbir a um comercialismo pomposo, a música brasileira de qualidade tornou-se elitista, e o distanciamento das classes populares às próprias raízes musicais, iniciada durante a ditadura militar, se aprofundou cada vez mais.
A cultura popular tornou-se subordinada ao poderio midiático, às regras de mercado. Enquanto isso, o que sobra da MPB autêntica está em processo de gradual desaparecimento. Saem os artistas espontâneos, morrendo aos poucos, enquanto os últimos focos emepebistas se diluem em legados que já não são mais pós-tropicalistas, mas puro pop americanizado.
A MPB se entregou para fórmulas comerciais, se banalizou em clichês, virou imitação de seus próprios êxitos e compactuou com a breguice dominante, em busca de espaço de divulgação. Perdida, envelhecida e perdendo seus mestres, a MPB autêntica já perdeu a representatividade entre o público jovem, que o rádio fez acostumarem-se com a bregalização.
APENAS "PROFISSIONAIS"
A direita midiática, que fez crescer a bregalização, inventou o discurso "ativista". Ideólogos que apostavam na bregalização eram acadêmicos ligados a uma linha de pensamento difundida pelo PSDB ou estavam a serviço na Folha de São Paulo e na Rede Globo.
Foi na direita midiática - que agora tenta renegar a responsabilidade de defender a bregalização - e seus intelectuais (que tentaram se infiltrar na mídia esquerdista e também renegam o vínculo com a mídia da qual vieram) que o discurso pseudo-ativista que defendeu desde o brega de raiz até o "funk" começou a ser difundido e ampliado.
Isso já tornou o brega um quase monopólio na cultura brasileira, não só musical, mas também comportamental. O paradigma de cultura popular se subordinou a estereótipos que foram divulgados na marra, a pretexto da "ruptura de preconceitos", uma desculpa para tendências cafonas ampliarem reservas de mercado, atingindo públicos considerados "conceituados".
A partir daí, a grande mídia, que em muitos casos não mediu escrúpulos para depreciar a MPB autêntica ou, quando muito, torná-la cada vez mais figurante do espetáculo brega - logo os bregas, que eram os penetras da festa, se passam agora por "anfitriões" - que atinge até mesmo os altos rincões das elites.
Hoje o que se vê são ídolos apenas mais "profissionais". Tecnicamente corretos, mas que em nenhum momento equivalem à criatividade espontânea dos antigos emepebistas, os ídolos neo-bregas, de Chitãozinho & Xororó a Thiaguinho, apenas fazem discos "digeríveis" para públicos de elite, mas nada somam em linguagem ao que já foi produzido na MPB.
MÚ$ICA POPULAR BRASILEIRA
Os barões da mídia querem usar agora os bregas veteranos para criar um modelo de MPB mais inofensivo, mais tendencioso. A ideia é transformar a MPB numa linha de montagem para bregas veteranos imitarem, sem dar um acréscimo de criatividade.
Às vezes, pode-se até carregar na pretensão, como Leandro Lehart tentando imitar o hoje esquecido Monsueto, ou Mumuzinho querer bancar o "novo Simonal". Tudo por uma questão de boas roupas, boas roupagens, banho de loja e de técnica. E dá-lhe Daniel e Leonardo gravando covers de MPB em arranjos pasteurizados.
A grande mídia e o mercado, respaldado por multinacionais, juntamente com o patrocínio do latifúndio, quer esvaziar a MPB autêntica, seja isolando-a nas elites, seja promovendo uma imagem cada vez mais pejorativa. E a cada ano ela elitiza até mesmo os ritmos populares de outrora, jogando o samba de raiz e o baião para plateias mais ricas, privando o povo de suas raízes musicais.
Com uma campanha ideológica pró-brega e anti-MPB, com uma articulação comparável ao do antigo IPES-IBAD - eu costumo chamar os pró-bregas de "CPC do IPES" - , um lobby de intelectuais, famosos, empresários, jornalistas, acadêmicos e executivos de mídia quer extinguir a MPB e, na melhor das hipóteses, jogar o antigo patrimônio musical brasileiro para museus e mansões.
Com isso, eles tentam "zerar" a música brasileira e apostar no brega que surgiu em total desprezo com as raízes musicais, de tão ocupado estava com a imitação tardia e matuta do pop norte-americano. E fazem isso com fúria, embora com uma convicção digna de um Francis Fukuyama, seu mentor oculto de suas visões culturais.
Depois disso, eles usam os ídolos bregas para forjar os caminhos da "nova MPB" que querem: sem espontaneidade nem criatividade, mas tendenciosa, pedante e adaptável às regras de mercado, com cantores e grupos submissos, às vezes falsamente rebeldes e pseudo-ativistas, mas que não ameaçam o status quo como ameaçam ainda Beth Carvalho, Alceu Valença, Edu Lobo e Chico Buarque.
Por isso, é um processo perverso e hipócrita. A grande mídia quer matar a MPB e depois fazê-la ressurgir domesticada através dos ídolos bregas. A sociedade não percebe as armadilhas que estão por trás e acha isso maravilhoso, sem verificar que o status quo tenta reescrever a história da MPB escrevendo "música" com cifrão: MÚ$ICA POPULAR BRASILEIRA.
sábado, 17 de maio de 2014
sexta-feira, 16 de maio de 2014
"INDÚSTRIA CULTURAL" CRIA FALSO MANIQUEÍSMO ENTRE "FUNK" E O POP-ROCK
Por Alexandre Figueiredo
Nota-se, na sociedade influenciada pela chamada "indústria cultural", a formação de um falso maniqueísmo que polariza forças pseudo-progressistas com outras abertamente reacionárias, num suposto conflito de classes que não apresenta real ameaça ao status quo.
Esse "teatro dos conflitos" se expressa, de um lado, entre o populismo marcado pela bregalização cultural, ancorada sobretudo no "funk", e, de outro, de um neo-conservadorismo de verniz rebelde marcado pela domesticação da cultura rock pelas emissoras 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ).
Na tentativa de evitar as revoltas sociais - algo que vem se demonstrando pouco eficiente, vide as diversas tensões sociais que vivemos - , a mídia conservadora, ainda desde o auge da ditadura militar, se empenhou em promover a domesticação sócio-cultural tanto de pobres quanto de jovens.
Isso se dava de diversos modos, seja através da diluição da cultura popular, seja pelo comercialismo extremo da chamada "cultura pop" internacional, que no Brasil tentou cooptar até mesmo tendências consideradas alternativas, que eram esvaziadas na essência e transformadas em estereótipos.
Nos anos 90, isso se tornou evidente e, curiosamente, paralelo. Se, de um lado, tínhamos o crescimento vertiginoso da bregalização da cultura popular, de outro, tínhamos o processo não menos agressivo de deturpação da cultura rock, reduzindo o tom de rebeldia a aspectos formais e aparentes, mas escondendo uma ideologia de essência bastante conservadora e reacionária.
Isso se deu sobretudo quando rádios FM e emissoras de TV tiveram o apadrinhamento político do então presidente da República, José Sarney, e seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.
Ambos "coronéis" políticos de seus Estados, Maranhão e Bahia - Sarney ainda tem domicílio político no Amapá - , eles presentearam aliados políticos e empresariais com novas outorgas de rádio e TV feitas sem qualquer critério técnico, mas por puro clientelismo político.
Isso influiu em boa parte do "mapa" da "cultura popular" do Brasil, com a bregalização avançando de forma avassaladora, tomando reservas de mercado maiores e estabelecendo um quase monopólio que já coloca a geração neo-brega dos anos 80 e 90 (Michael Sullivan, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Daniel, Leonardo e Raça Negra) numa ala pretensamente "emepebista".
Outro efeito desse âmbito é a glamourização do "funk carioca", antes uma tolice sem qualquer relevância, hoje produto de uma campanha discursiva engenhosa que atribui, equivocadamente mas de forma verossímil, o ritmo popularesco carioca (que já tem uma "sucursal" paulista, o "funk ostentação") a clichês do discurso etnográfico, ativista e pós-modernista.
Mas as concessões de Sarney e ACM também refletem um cenário político que favoreceu as chamadas "rádios rock". A 89 FM de São Paulo tem como um dos donos o patriarca José Camargo, que também foi político da ARENA / PDS durante a ditadura e foi afilhado político de Paulo Maluf.
Crescendo vertiginosamente apoiando o presidente Fernando Collor, no início da década de 90, a 89 FM rompeu com Paulo Maluf e hoje apoia o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, através do DEM, partido pelo qual os donos são filiados.
A Rádio Cidade também se "aventurou" no perfil "roqueiro" respaldando o poder político do PSDB e do DEM, tendo sido politicamente favorecida pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, já em 1995, que era apoiado na época pelo Jornal do Brasil. Apenas depois, quando virou afiliada da 89 FM, a Cidade manteve a mesma orientação, enquanto o jornal passava para a oposição.
"PACOTE REACIONÁRIO"
Ambos os processos buscaram respaldo não só em políticos, mas também em empresários, celebridades e artistas. Se o brega-popularesco, sobretudo o "funk", se serviu de intelectuais das ciências sociais (antropólogos, sociólogos e historiadores) de jornalistas e de famosos identificados com alguma causa pós-tropicalista (ou seja, receptiva à "cultura de massa"), o pop-rock também armou sua estrutura de propaganda.
Os contextos, no fundo igualmente conservadores, tentam parecer diferentes, como na velha dicotomia entre liberais e conservadores. Os "liberais" da bregalização tentam parecer progressistas, com seu populismo carregado de ideias neoliberais dissimuladas por pretextos supostamente modernistas, com na retórica pós-tropicalista de Caetano Veloso.
Já os conservadores do pop-rock - nome que vamos usar para o "rock comercial" da 89 e Cidade - se inserem num contexto em que a direita se serve de um elenco "mais atraente", que, nesses momentos de crises sociais e de fraco desempenho do PT, tentam adotar uma postura "mais consistente".
Pois, de um lado, tínhamos a blindagem pró-brega de jornalistas "sabedores", antropólogos "empenhados" e historiadores "batalhadores", como, respectivamente, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna e Paulo César Araújo.
Volta e meia tinha um tecnocrata tipo Ronaldo Lemos, uma militante como Ivana Bentes, um ativista tipo Capilé ou um reaça enrustido como Eugênio Raggi, ou então uma discreta Mônica Neves Leme ao lado dos fanfarrões baianos Milton Moura e Roberto Albergaria.
A reboque, os pró-bregas tinham também a contribuição de nomes como Regina Casé, Zeca Baleiro, Fernanda Abreu, Mariana Ximenes, Leandra Leal. Havia também "instituições" como o Coletivo Fora do Eixo, a Rádio Zona (FM comunitária de prostitutas) e outras engajadas na espetacularização do ativismo, incluindo Paradas Gay dotadas de homossexuais e feministas estereotipados.
Passada essa fanfarronice promovida às custas de verbas estatais do governo petista, agora é a vez da "direita zangada" mudar o tom e trazer para si o público que antes apreciava bregas e pseudo-ativistas, convertendo-os para formas domesticadas de rock que fazem a trilha sonora do "idealismo" conservador do momento.
Portanto, é a 89 FM e a Rádio Cidade que se relançam num contexto em o outrora rebelde Lobão, o intelectual Rodrigo Constantino, o agressivo Reinaldo Azevedo e a bela moralista Rachel Sheherazade empolgam a juventude exagerando nas críticas que se deve fazer ao chamado lulo-petismo.
A trilha sonora "nervosa", mas não a ponto de representar algum perigo para as classes dominantes, é o tom dessas duas rádios, juntamente com uma linguagem quase infantiloide de locutores que parecem animadores de gincanas infantis. Ou seja, "rádios rock" completamente desprovidas de qualquer estado de espírito roqueiro, associado a uma rebeldia que normalmente assusta os poderosos.
Portanto, deixado de lado o populismo um tanto romântico do discurso pró-bregalização, que defendia uma imagem estereotipada e um tanto abobalhada das classes populares, entra o discurso pop-roqueiro, que defende uma imagem não menos estereotipada da juventude brasileira, mas reduzindo a rebeldia a um estereótipo de gestos e aparência que, ideologicamente, é conservador.
No fundo, uma coisa e outra não diferem muito na essência. Em tempos de explosão dos protestos de ruas e do risco de ascensão das forças progressistas - aparentemente superado pelos erros cometidos pelas esquerdas, sobretudo por um Governo Federal pouco ousado e pouco eficiente - , domesticar pobres e jovens é a tônica do baronato midiático para a manipulação social no país.
Através dessa manipulação, as populações são inseridas num ideal de consumismo pleno, enquanto se evita a conscientização de mentes e a formação de uma sociedade preparada para reagir com inteligência aos abusos do poder dominante. Através do brega-popularesco e do pop-rock, as populações são amestradas para que possam, aos olhos das elites, serem menos ameaçadoras.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
BREGA TENTA FORÇAR O VÍNCULO COM A CULTURA ALTERNATIVA
Por Alexandre Figueiredo
A blindagem intelectual em torno do brega-popularesco criou uma situação cada vez pior. Inseriu em ídolos medíocres um pretensiosismo que eles nunca tiveram na origem e que, em últimas consequências, os leva a delírios ou oportunismos bastante constrangedores e forçados.
Os ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas nunca foram grande coisa. E nem se tornarão. Mas no começo da carreira eles, num sentido dúbio, nunca quiseram fazer cultura de qualidade. Foi um bem e um mal, porque no começo eles eram assumidamente ruins, e hoje eles se tornaram muito mais confusos diante das cobranças de melhorias que as circunstâncias e conveniências fazem para eles.
Já vimos os neo-bregas dos anos 80 e 90 aderirem a um pretensiosismo de sofisticação, assimilando todo um ritual de pompa e luxo que marcou a fase "burguesa" da MPB autêntica, a mesma que afastou a MPB do público jovem, mas que hoje foi poupada pela intelectualidade, que agora usa a geração bossa-novista dos anos 60 como bode expiatório dos males cometidos pela MPB mais comercial.
Agora, há uma ala de bregas que são empurrados, pela blindagem intelectual supostamente "provocativa", para o público alternativo. Algo que empurrar óleo de ricino na goela de uma criança. Juntar extremos antagônicos, a retaguarda do brega e a vanguarda do alternativo, tornou-se cada vez mais comum, respaldado em alegações falsamente modernistas.
E isso contagia não só músicos como também sub-celebridades que, marcadas pelo vazio intelectual, agora tentam compensar o tempo "perdido" para se associarem a algum pretexto supostamente vanguardista.
Na música, vemos o caso do "funk", que se apoia aos mais contraditórios discursos avançados, numa campanha de defesa do ritmo que mostra argumentos confusos, chorosos, ilógicos e nem tão vanguardistas quanto parecem, mas que garantem sua popularização e visibilidade por parte de um público com maior poder aquisitivo.
O "funk" lança mão até de discursos comparativos nada procedentes, porque apenas evocam coincidências superficiais. Da Semana de Arte Moderna à Contracultura dos anos 60, as comparações tendenciosas e falsas do "funk" converteram em falso ativismo social, sobretudo racial e sexual, todo seu perfil ideológico, no fundo associado ao mais rasteiro machismo e racismo anti-negros.
Daí por exemplo empurrar a Valesca Popozuda a um contexto fashion associado à pop-art de Andy Wahrol, ela que havia sido classificada como "pensadora" por uma "polêmica" questão escolar. Ou então jogar um inexpressivo grupo de funqueiras para abrir uma mostra sobre Josephine Baker através de uma vaga, tendenciosa e improcedente comparação.
Em outros gêneros, como o "pagode romântico", além da promoção tardia do cantor Leandro Lehart em suposto "artista visionário" - se tornando uma imitação barata do falecido e hoje esquecido Monsueto (1924-1973) - , temos também a forçada associação de nomes como Raça Negra, Grupo Molejo e até o "pagodão" do É O Tchan a contextos alternativos.
O Raça Negra foi empurrado para o público alternativo através de um disco-tributo produzido e depois distribuído pela Internet, e cuja capa imita a estética de álbuns de grupos como Sonic Youth, mostrando uma garota franzina numa loja de discos de vinil que destacava os LPs do RN.
O Grupo Molejo foi empurrado para esse público através de uma camiseta que imitava a estética da camisa oficial dos Ramones, incluindo a descrição dos nomes dos integrantes à maneira do que se foi feito com os membros originais (três deles já falecidos) da antiga banda nova-iorquina.
Já o É O Tchan havia sido enquadrado numa suposta cena "independente" descrita em monografia por Mônica Neves Leme, trabalho que resultou no livro Que Tchan é Esse?, de 2003, a partir de um projeto de pesquisa bancado, ainda que indiretamente, pela CIA (agência de informação dos EUA) a partir da Fundação Ford.
Mas agora o grupo, ícone das baixarias culturais que marcaram a década de 1990, incluindo apologias à erotização infantil e até ao estupro, tenta ser reabilitado por uma "provocativa" mixagem de um DJ, de nome Bertazi, que incluiu o vocal de Morrissey na música "This Charming Man", da extinta banda inglesa The Smiths.
A mixagem, disponível no YouTube, é algo que soaria ofensivo não só aos fãs dos Smiths como também ao próprio Morrissey. O perfil ideológico do É O Tchan é extremamente oposto ao dos Smiths, da mesma forma que o nazismo é para a cultura judaica.
Mixar É O Tchan com Smiths tem o mesmo sentido de convidar Morrissey, um vegetariano convicto que considera o abatimento de carne como um genocídio, a participar de um churrasco a rodízio. A intelectualidade "bacana" gosta, porque para ela qualquer idiotização lhes soa "libertária" e, com seu "sangue de barata", fica tranquila até quando 99% da sociedade reage com tais "provocações".
No entanto, a atitude do DJ Bertazi faz os fãs se lembrarem do verso final de "Panic", outra conhecida música dos Smiths, feita em protesto contra a veiculação de uma música de George Michael após a notícia do acidente nuclear em Chernobyl: "Hang the DJ" que, traduzida, quer dizer "enforquem o DJ".
Fora da música, é a vez das "boazudas" também partirem para a pretensão pseudo-vanguardista, puxadas pela "animadora" gafe de uma prova escolar se referir à Valesca Popozuda como "pensadora", enquanto, tempos depois, a jornalista Ticiana Villas-Boas expressa sua alienação cultural. A pretensão já era antecipada por alegações de suposto feminismo e "liberdade do corpo".
Andressa Urach, a sinistra vice-Miss Bumbum sobre a qual surgem boatos de que ela seria prostituta ou que estaria namorando capanga de banqueiro de bicho, havia contratado um cientista político (?!?!) para treiná-la para ser apresentadora de um novo programa de televisão.
No mesmo rastro da Popozuda, há a ex-integrante da Banheira do Gugu, Solange Gomes, agora fazendo festinha infantil, além de Geisy Arruda também querer bancar a "intelectual" e as paniquetes e ex-paniquetes estarem à mercê de um novo trainée que as faça parecerem "mais legais" para um público mais intelectualizado, ou quase isso.
A única coisa que "une" bregas e alternativos é a suposta rejeição por parte do público médio consumidor de fenômenos de "maior sucesso". Só que essa é uma coincidência superficial e sem qualquer importância comparativa, e que está sujeita a uma espécie de mal-entendidos e interpretações equivocadas que põe as elites pensantes de hoje em xeque-mate.
Primeiro, porque o brega nunca teve a ver com vanguarda e nem tem. O brega sempre se serviu de restos do que fazia sucesso em períodos anteriores, sendo uma colcha-de-retalhos de referências já mofadas e datadas da "cultura de massa". Portanto, ser brega sempre esteve associado à retaguarda cultural e não o contrário.
O alternativo é diferente. Se o brega é o "último a saber" das coisas e se alimenta de tendências ultrapassadas, o alternativo é o "primeiro a fazer" e a antecipar movimentos artístico-culturais lançando expressões de linguagem que podem até não serem inéditas, mas sempre carregam algo de inovador e expressivo.
O brega se ancora na idiotização cultural, na glamourização da pobreza, da ignorância e até do vazio de valores morais e sócio-culturais. É uma espécie de pop norte-americano traduzido de forma matuta no Brasil, sob o ponto de vista de um povo pobre subordinado ao poder latifundiário a dominar áreas rurais e ter equivalentes nos subúrbios e até no "mundo" midiático.
O alternativo, pelo contrário, se ancora na denúncia dessa opressão que os bregas aceitam com certa resignação. Estabelece linguagens que rompem com paradigmas dominantes, como os que prevalecem no pop norte-americano, e primam não pela mediocridade criativa nem com a postura de coitadinho, mas por uma cultura de cabeça realmente erguida e não necessariamente popular.
A série de contradições e equívocos que o discurso intelectual dominante e defensor da bregalização faz com que se confundam demais as coisas, acreditando que todos são vanguardistas porque são rejeitados e que tanto faz fazer sucesso primeiro com gafes e depois querer parecer "decente".
Ninguém espera muito tempo para tentar dar conta do recado. Ninguém se realiza primeiro cometendo gafes de propósito e depois querer fazer tudo direitinho. Ninguém vira gênio com pose de coitadinho e ninguém se torna vanguardista porque é "popular", na maioria das vezes sendo até o oposto disso. Estas são constatações que passam longe do discurso intelectualoide que ainda deslumbra muitos.
Forçar a barra para juntar bregas e alternativos não contribui de forma alguma para o aprimoramento de nossa cultura. As vanguardas não existem para servir à vaidade pedante das retaguardas. Isso em nada contribui para os medíocres tornarem-se geniais, quando muito eles se tornarão apenas imitadores tecnicamente corretos mas superficiais do que os mestres já fizeram antes.
Juntar bregas e alternativos na marra só ajuda mesmo na presunção retórica de uma geração de intelectuais para os quais só tem valor o que desagrada e incomoda, qualidades que, no entanto, são muito mais negativas que positivas. E, sendo negativas, nada nos dizem no enriquecimento e renovação de nosso patrimônio cultural.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
SOLTEIRICE, MACHISMO E "HIGIENIZAÇÃO" SOCIAL
Por Alexandre Figueiredo
O grande contraste que tem entre a elite de musas da televisão, em sua maioria em relações conjugais estáveis, e as consideradas "populares", que se projetam num aparente celibato, nos faz a pensar no que é a visão de vida conjugal desejada pela "indústria cultural" de nosso país.
A serviço de grandes empresas, sobretudo multinacionais, e de elites brasileiras que vão dos barões da grande mídia, nacionais e regionais, aos latifundiários, a "indústria cultural" cria modelos de "cultura popular" que não podem ferir os interesses dominantes, mesmo que apelem para ativismos tidos como "revolucionários", porém no fundo bastante inofensivos.
E isso influi até mesmo no padrão que a "cultura de massa" trabalha da "mulher solteira". O estereótipo da solteira brasileira não pode estar associado a uma mulher que aproveita a vida para ampliar conhecimentos e viver sem estrelismos ou apelações, e de preferência deva ser representado por mulheres que já expressam valores machistas por conta própria.
Sim, porque o status quo determina que as mulheres não escapem muito dos valores machistas. Se a mulher é bem instruída, tem opiniões consistentes e não depende de ser objeto sexual para vencer na vida, ela precisa ter sua "independência" regulada por um marido influente, geralmente um empresário, executivo ou profissional liberal (médico, advogado, engenheiro, economista etc).
Se a mulher, no entanto, se projeta na sua imagem de objeto sexual, pouco importando os arremedos de ativismo social que desempenha - como defender a causa LGBT ou protestar contra atos de apologia ao estupro - , ela já presta serviço aos valores machistas, o suficiente para deixar de viver à sombra de um homem.
Em outras palavras, a mulher brasileira é aconselhada pelo status quo a viver sob a sombra do machismo. Se ela não se submete sequer ao machismo mais cordial, buscando o máximo de independência pessoal possível, ela precisa ser "regulada" pela figura de um marido importante, que em tese "patrocinaria" a emancipação sócio-econômica de sua mulher.
Isso cria momentos constrangedores. Como, por exemplo, as gafes cometidas pela jornalista Ticiana Villas-Boas, da TV Bandeirantes. Alguém imaginaria que ela teria dito o que disse se não tivesse se casado com o empresário Joesley Batista, da Friboi? Se optasse pela solteirice, talvez ela tivesse uma trajetória bem mais realista e mais "pé no chão".
Por outro lado, as chamadas "musas populares" já seguem, simbolicamente, o receituário machista, elas não precisam se projetar sob a sombra de um homem porque elas já fazem, sozinhas, o que os machistas querem. Pouco importa se esse machismo de glúteos siliconados é travestido do "feminismo mais corajoso", o receituário machista é cumprido de forma exemplar, de alguma forma.
VIDAS AMOROSAS
Atrizes e jornalistas de tevê, em sua grande maioria, são geralmente comprometidas e só a elas cabe a mídia trabalhar a imagem da felicidade conjugal. É só comparar as famosas mais prestigiadas entre as elites com as famosas que se destacam no âmbito do "popular" que se nota a diferença.
Enquanto as "musas populares" se queixam das cobranças da vida amorosa, seu discurso porém revela o inverso, oculto nas palavras nervosas de uma solteirice forçosamente desesperada. Na verdade, o problema não é elas serem cobradas para ter algum namorado ou marido, mas simplesmente serem impedidas de tê-los.
A própria imagem ideológica cria um contraste. Só dois exemplos, o da atriz Bianca Rinaldi, estrela da novela Em Família, da Rede Globo, e da sub-celebridade convertida a dublê de apresentadora, modelo e atriz Geisy Arruda, que há cinco anos montou um factoide numa universidade particular paulista.
Casada com um homem bem mais velho e com fortes divergências de personalidade (é um empresário sisudo), a ex-paquita Bianca, de aparência jovial para seus 40 anos, define seu marido, de 61 anos, como "um grande companheiro", numa alusão ao cuidado dele com as filhas e como uma demonstração às relações estáveis que seu contexto estimula efetivar.
Já Geisy Arruda, grávida do ex-jogador e empresário Ricardo de Souza, afirma que está solteira e sem namorado, já que rompeu com o pai de sua criança porque "brigava muito" com ele. O contexto "popular" revela uma facilidade fora do comum de mulheres situadas neste contexto dissolverem relações de namoro ou casamento diante da menor divergência.
No âmbito popularesco, a figura do homem é trabalhada de forma bastante negativa, tanto que as "musas" chegam a se irritarem quando alguém lhes aconselha se casarem com alguém. Tentam se autoafirmarem com uma solteirice masoquista, num contraditório sentimento de carência amorosa e conformação com a solidão.
"HIGIENIZAÇÃO"
Por que é que ocorre isso? Por que, por mais que figuras da elite de musas, com relativo apelo popular como Juliana Paes e Giovanna Antonelli estejam casadas, as chamadas "musas populares" insistem em ficarem sozinhas, mesmo quando a fama e o prestígio poderia lher render mais proveito na companhia de homens?
O que acontece é que, como as "musas populares" estão a serviço de um modelo conservador de "cultura popular", feito para evitar qualquer ameaça aos interesses das classes dirigentes, elas também se servem a um modelo de vida que visa sobretudo evitar o desenvolvimento de famílias conjugais estáveis nas classes pobres e, evitar assim, a solidariedade e a união nas mobilização popular.
Por isso é que, quando a famosa simboliza os interesses das classes mais abastadas, seu marido, podendo ser mais velho e mais sisudo, é "companheiro", mas se a famosa simboliza o universo das classes populares, pode ser até o namorado considerado "alma gêmea", que a relação se dissolve e o homem acaba com a reputação arranhada.
É como se o dinheiro fosse um fator para unir os casais. Pouco importa se o amor se exerce melhor nas classes populares do que nas classes ricas. A grande mídia não gosta de casais afins. Na Bahia, cuja mídia é herdeira do coronelismo de Antônio Carlos Magalhães, as moças pobres são "aconselhadas" a rejeitar pretendentes que apenas gostam de se divertir jogando bola na praia.
Na alta sociedade, casais sem afinidade ficam mais tempo casados do que os casais afins nas classes populares. E esse processo, além de regular o machismo em todas as classes sociais, representa um potencial e sutil processo de "limpeza social" nas classes populares.
ÓRFÃO DE PAI VIVO
Daí a ênfase das "solteiras" entre as ditas "musas populares". Mulheres que, contraditoriamente, reclamam da falta de um grande amor mas se julgam "felizes" na solidão. Elas representam o "ideal de vida", o "modelo" a ser seguido pelas jovens pobres, daí a atitude estratégica da mídia, pouco importando se a solteirice das "musas" é verdadeira ou falsa, mas sempre tem que ser aparente.
Isso desestimula, nas classes populares, a busca de casais afins. Famosas se autopromovem como mães solteiras ou separadas, a ponto de jovens pobres sacrificarem até mesmo as limitações econômicas para formar famílias de vários filhos sem a proteção do marido, e com uma sobrecarga de trabalho que as impede de desenvolver afeto e carinho com os próprios filhos.
A figura do "pai" acaba sendo precariamente exercida seja pela mãe da jovem, avó dos filhos desta, ou então do mais velho dos filhos masculinos da garota, muitas vezes mãe na adolescência. E os filhos crescem ou até mesmo nascem sendo órfãos de pai vivo, sem o convívio e a proteção da figura do pai.
Com isso, a desestruturação familiar, agravada pela pobreza, cria jovens revoltados, homens grotescos que depois vão fazer a má reputação na grande mídia, em relações forçadamente rompidas com suas namoradas, as "musas" do momento. As próprias mães, sem maridos e com mais trabalho e menos dinheiro, acabam, estressadas, também agredindo seus próprios filhos.
A intelectualidade dominante - aquela mais "bacaninha" e cheia de "coisas legais" para contar - , "sem preconceitos" mas muito preconceituosa, reforça essa visão "higienista", para a qual casais afins só podem existir nas classes abastadas.
Na pobreza, o "ideal" é forçar a solteirice, as famílias matriarcais sem recursos financeiros, em que crianças órfãs do pai vivo são jogadas, sem receber a afeição constante de uma mãe sobrecarregada nos trabalhos, ao emprego precoce e precário, numa infância difícil, dramática e estressante que cobrará o preço na vida adulta, com homens violentos ou ingênuos e mulheres batalhando acima de suas próprias condições e limitações.
Além disso, sem a solidariedade familiar ensinadas pela união de pais e mães a seus filhos, as classes pobres não têm o referencial exato de solidariedade social necessário para a união de seus indivíduos para reivindicarem mudanças sociais a eles benéficas, mas que ameaçam os interesses das classes dominantes.
A desestruturação dos lares cria um misto de revolta e conformismo, no vazio de valores sócio-culturais, que impede que a mobilização social popular ocorra de forma mais ampliada. Tudo isso começando com o desestímulo do poder midiático ao companheirismo de maridos e esposas, estabelecendo uma "rivalidade" simbólica entre homens e mulheres no povo pobre.
Daí o lado grave do "sonho maravilhoso" das "solteiras populares". Daí o lado cruel e sombrio. A grande mídia, com essa "liberdade", promove a desestruturação familiar que gerará um desequilíbrio social que irá repetir os mesmos dramas e violências vividos pelas classes pobres, e que também resultam nas numerosas tragédias que dizimam a população pobre em proporções bélicas.
terça-feira, 13 de maio de 2014
NEY MATOGROSSO E SEU "PARECER" SOBRE O BRASIL
Por Alexandre Figueiredo
Em turnê em Portugal intitulada Atento aos Sinais, título do seu disco mais recente, o cantor Ney Matogrosso, uma das personalidades mais influentes do país, causou séria polêmica por conta de uma entrevista, dias atrás, ao jornalista daquele país Vítor Gonçalves, âncora do programa RTP Informação, do canal da mesma sigla.
Ele havia feito duras críticas à forma que se organiza a Copa do Mundo no Brasil. "Não há padrão FIFA, é padrão favela. Os negros estão no porão, ainda", disse ele, que entre outros comentários, manifestou séria indignação com o cenário político do Brasil.
As esquerdas médias ficaram assustadas com as críticas de Ney Matogrosso ao PT. De fato, ele pauta muitas dessas críticas ao que ele lê na mídia impressa e eletrônica, majoritariamente reacionária e com outra parte ainda conservadora à sua maneira (como Bandeirantes, Isto É, O Dia, A Tarde e O Estado de Minas, só para citar alguns).
Mas, de todo modo, ele dá seu questionamento, embora um tanto exagerado, ao Bolsa Família, que as esquerdas também exageram na sua importância, já que na verdade não é uma medida definitiva de emancipação social, mas um paliativo válido como ponto de partida para impulsionar melhorias.
Ney disse que, para receber o Bolsa Família, as famílias precisam colocar seus filhos na escola, acrescentando que o benefício estaria também incentivando as classes pobres a terem mais filhos, para que assim recebam mais dinheiro do programa.
Embora as esquerdas médias reclamem do desconhecimento de Ney sobre o programa e questionassem a cobrança educacional supracitada, Ney é pertinente ao dizer que o programa mata a fome das pessoas e não contribui para a melhoria definitiva de qualidade de vida.
Em algumas queixas, Ney parece equivocado, como dizer que a corrupção do Partido dos Trabalhadores é "mais visível". Não, não é. Ela pode ser bem visível e consequência da obsessão do PT em obter vantagens políticas mais fáceis, sobretudo em alianças nada confiáveis com José Sarney e Fernando Collor.
Mesmo assim, Ney admite que existe corrupção em todos os partidos políticos. "Sempre imaginei que houvesse algum ideal levado na política. Não vemos isso. É corrupção diariamente, semanalmente, escândalo de corrupção no país".
Mas Ney acerta quando reclama que existem recursos para a construção de estádios para a Copa do Mundo - que, ainda assim, geram trágicos acidentes de trabalho, que geraram nove operários mortos em várias capitais do país - , mas não existem para investir em Educação e Saúde.
"O Brasil está gastando milhões para fazer essa Copa, todos os estádios dobraram e triplicaram de preço, mas a saúde é uma vergonha, está lastimável, cada vez pior; a educação é zero, nessas coisas internacionais que medem a educação no mundo o Brasil vem em cento e tal, no rabo da história; a polícia cada vez mais assassina, mais violenta… Então eu tenho que falar disso!", diz o cantor.
Ele faz duras críticas à violência policial, mas também não dá uma visão positiva da favela. Como na declaração dita no alto, em que compara a favela a uma escravidão, ao afirmar que os negros continuam no porão. Quanto à polícia, ele a definiu como fascista.
Ney faz críticas por todos os lados. Só que as "esquerdas médias", assustadas, tentam ver no cantor sul-matogrossense quase um novo Lobão. No entanto, suas críticas são acima dos partidos, acima dos planos ideológicos e envolvem os diversos aspectos de um país despreparado para receber um evento como a Copa do Mundo da FIFA.
Portanto, as declarações incomodaram, mas não partem de um novo neocon. Podem não parecer críticas muito progressistas, ao menos à primeira vista, mas também não são de um reacionarismo barato, por mais que, no meio do caminho, reaças como Reinaldo Azevedo e Rachel Sheherazade venham pegar carona nos sinais atentos de Ney Matogrosso.
domingo, 11 de maio de 2014
POR QUE A IDIOTIZAÇÃO CULTURAL GANHOU STATUS "POSITIVO"?
Por Alexandre Figueiredo
Deixemos o politicamente correto de lado. O processo de mediocrização ou mesmo de idiotização cultural que culminou na década de 1990 tornou-se ainda mais hegemônico quando ganhou a blindagem intelectual já nos anos 2000.
Os alertas de Mauro Dias sobre o "massacre cultural sem precedentes", da supremacia da imbecilização, da degradação sócio-cultural, lá pelos idos de 1999, deram em algo pior do que se imagina, pois a degradação ultrapassou os limites do grande público popularesco.
Afinal, a degradação chegou aos níveis das elites acadêmicas, ativistas, jornalísticas e artísticas, que passaram a defender a bregalização, que é esse processo de imbecilização sócio-cultural feito no Brasil, numa campanha bastante engenhosa, de argumentos confusos, contraditórios mas suficientemente apelativos para seduzir a opinião pública e criar um aparente consenso.
Ninguém com visibilidade suficiente para encarar um Hermano Vianna ou um Paulo César Araújo veio para replicar a argumentação dele e de uma multidão de intelectuais, artistas, jornalistas, acadêmicos e outros que defendam a bregalização do país de que "romper o preconceito" é aceitar qualquer coisa sob o rótulo de "popular", mesmo que seja uma aceitação pré-concebida.
Mesmo que seja uma aceitação nada verificada, do tipo "não comi e A-DO-REI", prevaleceu sempre essa visão de que "perder o preconceito" seria aceitar tudo de tudo, ver cabelo em ovo, se contentar com os piores defeitos e dizer, para si mesmo, "faz parte".
Não houve alguém com visibilidade para rebater esse mito tão largamente difundido pela grande mídia, mas também difundido pela mídia esquerdista já que os intelectuais pró-brega, em parte, foram entrar como penetras na festa progressista e tentar convencer alguns incautos de que ser brega é ser rebelde, por mais ridículas que sejam suas teses. Ridículas, mas sedutoras.
O que significava cafonice, imbecilização, mediocrização e outros defeitos que atingiram a cultura popular em tempos de ditadura militar, ou de neoliberalismo selvagem, ou de coronelismo sanguinário, até mais ou menos 1999, de repente virou sinônimo de "emancipação popular" ou de "verdadeiro folclore brasileiro".
Juntou-se, no engodo discursivo da intelectualidade, clichês misturados do discurso libertário esquerdista, do discurso das vanguardas modernistas, da retórica tropicalista e um pouco do discurso ativista. Como alguém que prepara salgados deliciosos sem higiene, manipulando massas de pastéis e coxinhas com as mãos sujas de pano de chão, os intelectuais fazem um discurso "porco", mas atraente.
Eles tentam até desvincular seu discurso do poderio midiático, o que é impossível, mas muita gente acredita. Afinal, muito do que essa intelectualidade "bacana", mesmo a dita mais progressista, é claramente defendido pelos barões da mídia e foi patrocinado até pelos latifundiários mais sanguinários, desses que mandam exterminar até padres progressistas.
Num momento ou em outro, aquele intelectual "bacaninha" tentou inventar que o breguinha tal e o funqueiro qual, ou qualquer outro ídolo tão cafona ou provocativo quanto, fazia apavorar os donos da mídia, era discriminado pelo poder midiático etc. Essas informações, às vezes inseridas até em monografias, documentários ou reportagens "sérias", são no fundo mentirosas e sem lógica.
O discurso intelectual dominante e "atraente" de hoje até colocou por debaixo do tapete o principal fator de crescimento da bregalização do país. Foi a medida, típica do clientelismo político, do então presidente da República, José Sarney, e seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, de distribuir concessões de rádio e TV para empresários e políticos aliados.
São dois "coronéis" regionais, famosos pela prepotência, pela corrupção, pelo culto da personalidade, que cresceram e foram beneficiados pela ditadura militar. Daí a incoerência da "cultura popular" tão defendida hoje como "verdadeira" se sua popularidade se deve justamente a essas emissoras de rádio e TV controladas por oligarquias regionais, por deputados de "fundo de quintal" e latifundiários?
Muitos desses ídolos "populares", defendidos com o mais triunfante discurso intelectual de verniz modernista-progressista, construíram sua popularidade sob o sangue derramado de agricultores, sindicalistas, seringueiros, missionários etc. Isso não é exagero nem preconceito, é fato.
É só perceber, só no caso do "forró eletrônico", que só a intelectualidade "bacana" do eixo RJ-SP acha o máximo, que as primeiras apresentações desses grupos e cantores sempre contaram com o apoio de deputados e vereadores aliados do poder coronelista da região. E isso vale até para os conhecidos Calcinha Preta, Banda Calypso e Aviões do Forró.
No meio do caminho, a intelectualidade "bacana" cai no ridículo quando os ídolos por ela defendidos mostram seu reacionarismo explícito. Zezé di Camargo e Joelma do Calypso são casos ilustrativos, mas há também os casos da revelação do direitismo de Waldick Soriano e de como MC Guimê ficou feliz sendo capa de uma Veja que "criminaliza" até tribos indígenas.
CULTURA "TRANSBRASILEIRA" OU "TRANSGÊNICA"?
A intelectualidade, em primeira instância, argumenta, implora, apela, chora, pula, esperneia, só para que todos nós aceitemos a bregalização como algo "inevitável" e "crucial" para o progresso (?!) da cultura popular brasileira. Como se lotar plateias em menos tempo fosse suficiente para qualquer aventureiro "cultural" tivesse algum valor na vida.
No entanto, se nota o quanto essa suposta cultura popular, agora tida como "transbrasileira" para justificar seus americanismos e hispanismos caricata e forçadamente assimilados, na verdade não é mais do que uma "cultura transgênica", trabalhada ou retrabalhada por espertos empresários do entretenimento.
Tudo é construído de forma tendenciosa. A mediocridade é estimulada no começo de carreira, sem escrúpulos de cometer gafes e factoides ridículos. Os ídolos "populares" primeiro mostram o que eles têm de ridículo, de piegas, de grotesco e de patético, para depois, legitimados pela intelectualidade influente, se "aprimorassem" não por vontade própria, mas pelas conveniências do momento.
É completamente constrangedor ver bregas, neo-bregas e pós-bregas que nunca se preocuparam na vida em expressar uma cultura de qualidade e, apenas duas décadas depois, tentar provar que "sabem" fazer algo decente, justamente tudo aquilo que eles se recusaram a fazer até de forma intransigente.
O que irrita muitos é esse vira-casaquismo de ídolos bregas, de sub-celebridades, de musas "calipígias" que antes não se interessavam por cultura de qualidade porque ela "era coisa de riquinho ou de doutor" e, muito tardiamente, passam a ter obsessão em fazer ou alcançar aquilo que rejeitavam com certo radicalismo.
Por que, por exemplo, Leandro Lehart não quis fazer um sambalanço decente no começo de carreira, quando ele optou, feliz da vida, pelo sambrega mais risível? Foi preciso esperar 20 anos para ele tentar fazer o que o saudoso Monsueto fez, e com muito mais competência e criatividade, no começo da carreira?
Por que Valesca Popozuda só tardiamente decidiu que pretende remover em breve o silicone de seus glúteos, se muito recentemente ela aumentou o volume desse silicone nestas partes corporais? Qual vai ser a próxima armação da funqueira, posar de "bonequinha de luxo" em uma sessão fotográfica arrumada por um esperto estilista de moda? Completamente ridículo e patético!!
E Michael Sullivan, o "Rei do Jabá" de projeções fribovinas (Joesley Batista que o diga), que destruiu a MPB e quis domesticar vários artistas, agora vem com o descaramento de querer resgatar a sofisticação da MPB autêntica que ele mesmo quis destruir e corromper há 25 anos atrás?
E quando vamos ter que aturar canastrões como Alexandre Pires, Daniel e Chitãozinho & Xororó se aventurando em tendenciosas covers de MPB sucessivamente gravadas para plantarem notícias na mídia e depois desaparecerem sob as gavetas das inutilidades do tempo?
E quando vamos ter que aturar intelectuais e ativistas engraçadinhos empurrando coisas constrangedoras em eventos culturais sérios, sob o pretexto da "provocatividade" que só empurra uma visão acadêmico-elitista de "cultura popular" para a aceitação pré-concebida mas "sem preconceitos" da sociedade "esclarecida"?
A idiotização cultural do brega-popularesco mostra, com esses exemplos, o quanto temos de vira-casaquismo, de gente que primeiro promove e estimula o ridículo, fazendo sucesso desempenhando papéis patéticos e constrangedores, para depois promoverem "melhorias" que no fundo tais pessoas não são capazes de fazer.
A intelectualidade apenas fez piorar as coisas, esvaziando os debates culturais através de uma "positivação" de algo que é claramente constrangedor, e que transforma as classes populares em caricaturas e estereótipos de si mesmas, num processo que acaba travando sua luta pela qualidade de vida.
sábado, 10 de maio de 2014
A BURGUESIA ACEITA MELHOR O BREGA. BREGUESIA?
Por Alexandre Figueiredo
As elites aristocráticas estão aceitando melhor o brega, agora associado aos novos-ricos "fabricados" por loterias e outras premiações excepcionais. Mas no fundo a suposta rejeição das elites a esses igualmente supostos sucessos "populares" não passa de um mito plantado por uma elite de intelectuais influentes, também igualmente elitista, mas dita "amiga das causas populares".
O brega, na verdade, só foi rejeitado mesmo por uma minoria de críticos e especialistas em música e cultura popular que questionavam o gosto duvidoso da música e da estética de seus ídolos. Eles geralmente estavam situados em cadernos culturais dos jornais ou em revistas especializadas em música.
A maioria da mídia sempre foi receptiva aos bregas. Sobretudo a mídia coronelista, patrocinado sobretudo por grandes fazendeiros que se envolvem em conflitos no campo. Deixemos de ser politicamente corretos. Até os grupos do mais alegre "forró eletrônico" são patrocinados sob o sangue derramado de agricultores, sindicalistas e ativistas rurais. Que "reforma agrária na MPB" é essa?
Mas se alguém decidir ler as revistas de fofocas e os jornais mais popularescos, ou ligar a TV aberta nas emissoras que simbolizam o poder midiático em suas regiões, verá que os ídolos bregas são sempre elogiados, sim. Da mesma forma, rádios controladas por políticos e latifundiários também endeusam tais ídolos.
Daí o caráter mentiroso, falacioso, da intelectualidade que diz que os ídolos bregas apavoraram a ditadura, ameaçam o latifúndio, horrorizam as elites e enojam os barões da mídia. Tais visões são claramente mentirosas, mesmo quando são descritas em monografias, documentários ou reportagens "sérias" e "objetivas". A reputação dos autores desses textos não ajuda, ou pelo menos não deveria.
As elites sempre gostaram do brega. As forças conservadoras também deram o maior apoio. E continuam dando, e estão dando mais do que antigamente. Para a sociedade conservadora, para as elites aristocráticas, é muito melhor a bregalização cultural porque ela é inofensiva, anestesia o povo, cria uma resignação com a miséria e o sofrimento humano, glamouriza a mediocridade.
Entre um cantor brega que canta, com sua voz pequena e os arranjos toscos, os sofrimentos amorosos de forma resignada, e um ativista rural que ameaça o poderio dos fazendeiros, as elites preferem o primeiro. Não há como equiparar um e outro, porque o brega é conformista, resignado, medíocre e conservador, e o ativista é o contrário de tudo isso.
E A MPB?
A MPB burguesa anda também apoiando muito o brega. Nos anos 80, havia muitas queixas de como a MPB que produzia um repertório vigoroso e instigante nos anos 60 e 70 havia se acomodado com fórmulas comerciais e pasteurizadas que afastaram os jovens de ouvir música brasileira.
Graças a isso, os jovens passaram a ouvir o então vigoroso e instigante Rock Brasil, ainda que muito mal mixado e sonoramente "podado" pelas gravadoras. Só que hoje até o Rock Brasil está muito mais comportado, e mesmo um punk como Clemente, que, novato, enfrentou um Gilberto Gil no auge da popularidade, ultimamente age como carneirinho até diante de Gaby Amarantos.
Houve até uma sutil alteração de discurso da intelligentzia, que antes falava mal daquela MPB que produzia letras sobre transas de casais, gravava mais músicas românticas e se influenciava mais em boleros e canções de Hollywood do que de modinhas, toadas e sambas.
Em vez de criticar a MPB mais empostada e burguesa, hoje o foco de ataques está na turma bossanovista-cepecista dos anos 60 que não compactua com o "convívio harmonioso" com as tendências comerciais. Em outras palavras, se antes o alvo era a MPB domesticada dos anos 80, hoje quem leva surra é a MPB mais instigante dos anos 60-70.
Isso foi uma estratégia bastante sutil. Pois a MPB burguesificada, pasteurizada e comportada, "podada" pelas gravadoras nos anos 80, serviu de fonte, já no final dos anos 90, para a reciclagem musical dos neo-bregas que faziam "pagode romântico" e "sertanejo" no início dos anos 90.
Desse modo, nomes como Guilherme Arantes, que eram considerados "vidraça" nos anos 80, agora são muito mais poupados do que Chico Buarque e Edu Lobo, antes muito elogiados. Não que Arantes merecesse os ataques que recebeu, mas sua música, competente mas pouco engajada, atende mais aos interesses comerciais respaldados pela intelectualidade atual.
E aí vemos mais uma prova de que a MPB comportada dos anos 80, que serviu de base para a canastrice pseudo-MPB dos neo-bregas de 1990-1992, se envolveu num dueto com um desses ídolos da "geração 90".
Pois ninguém menos que Guilherme Arantes foi relançar seu antigo sucesso, "Meu Mundo e Nada Mais", com a participação do breganejo Daniel, um cantor que nunca teve um sucesso de lavra autoral, se autopromovendo às custas de covers, embora guarde para si uma falsa reputação de "grande artista".
Isso já deixa os intelectuais pró-brega num sério impasse. Se eles se ascenderam através de uma postura contra a MPB que eles consideravam pasteurizada e elitista, por que eles passaram a apoiá-la quando a geração neo-brega dos anos 90 passou a imitar seu padrão estético e musical?
E o público mais elitista, que cada vez mais produz suas festinhas de aniversário, em seus condomínios de luxo, tocando "sertanejo universitário", "funk", "pagode romântico" e outros estilos? Onde está o tal "horror" dito pelos intelectuais "bacanas"?
De eventos de moda a feiras de agropecuária, a bregalização musical vai muito bem na conta do status quo. Não há discriminação e ninguém é "injustiçado". O brega sempre foi comercial e sempre esteve a favor do "sistema" e do mercado. E nunca apavorou as elites nem os barões da mídia, que preferem um povo brega do que uma rebelião popular de verdade.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
O BRASIL COMO PANELA DE PRESSÃO EM VIAS DE EXPLODIR
IZABELLA NARDONI E BERNARDO BOLDRINI - Vítimas inocentes de ódios conjugais.
Por Alexandre Figueiredo
Que relação existe entre ônibus queimados, moradora estuprada e morta por zelador, agências bancárias depredadas, torcedor assassinado por um vaso sanitário, mulher linchada por um boato de sequestro e policiais matando namoradas na rua?
Isso quando não se fala em crianças inocentes mortas por conta de ódios ou desavenças conjugais, como os simpáticos Izabella Nardoni e Bernardo Boldrini, mortos no meio de um caminho entre pais e madrastas em discussão.
A banalização da violência contraria as expectativas de um Brasil desenvolvido e próspero. Afinal, um conjunto de fatores mostra o quanto nosso país está em crise, numa violenta crise sócio-cultural, crise de valores que influi em diversos aspectos, da arte à política, da criminalidade à libertinagem.
Ontem houve uma série de atos de vandalismo depredando nada menos que 467 ônibus no Rio de Janeiro, além de outros em várias capitais do país onde se realizaram greve dos rodoviários. E ainda se refletem os atos da mulher linchada no Guarujá por causa de um boato de que ela teria sido sequestradora, e do torcedor que foi morto por um rival que jogou um vaso sanitário contra a vítima.
De um lado, a permissividade, a corrupção, o desprezo ético. De outro, a raiva daqueles que querem perder privilégios que nem percebem se são benéficos ou se realmente eles gostam de tais benefícios. Ou então a indignação de quem não tem sequer o que precisa, e joga sua raiva contra quem representa algo negativo contra aquele.
São reflexos que vem desde a ditadura militar, que veio para tentar resolver - pelo menos sob a ótica da sociedade conservadora - as tensões sociais que ocorreram em 1964, mas não só não resolveu como criou e agravou muitas tensões, abafadas durante anos seja pela impunidade da corrupção e do crime, seja pela ilusão de um otimismo e uma paz que na verdade não existem.
CRISE DO DESEJO
Uns querem mais, sem necessidade. E tem muito quando não valorizam. Outros não tem sequer o básico. A desigualdade social no Brasil é uma crise do desejo, porque as pessoas que obtém privilégios e benefícios não sabem o que querem, não têm noção de perda, e isso vale desde políticos carreiristas até feminicidas.
O Brasil sofre uma crise até pior do que aquela que muitos tentavam evitar em 1964. Porque hoje a corrupção está tão banalizada e a política tão asséptica e sem gosto, insossa na teoria e amarga na prática, a cultura popular, se antes era apenas precária, hoje sucumbe à imbecilização mais escancarada.
A nossa mídia também está muito grotesca. Antes tínhamos um Carlos Lacerda esbanjando fúria na televisão. Atualmente são os "urubólogos" que não tem a erudição do político udenista. Se muitos reclamavam de um Zé Trindade, em 1964, hoje temos que reclamar contra centenas de milhares de péssimos comediantes, péssimos músicos "populares" e sub-celebridades.
O Brasil tinha um projeto em 1964. Mas hoje ele não foi reencontrado. Há quem veja saudosismo no "milagre brasileiro" (1969-1974) e tem ainda o cinismo de se proclamar "progressista". Hoje o Brasil não se encontra e está perdido por um surto de vandalismos, crimes cometidos por pessoas "comuns", corrupção justificada por alegações "técnicas", imbecilização cultural tida como "libertária" etc.
Daí que a trilha sonora dos bancos depredados e ônibus incendiados, de donas-de-casa linchadas sob falsa acusação de sequestro, policiais dando tiro em namoradas nas ruas e torcedor agredindo outro jogando vaso sanitário só não pode ser outra coisa.
A trilha só pode ser a do "funk" que promove pseudo-ativismo às custas de suas baixarias "provocativas". Ou a do "sertanejo universitário" que louva a união entre a embriaguez e o controle do volante dos automóveis. Ou a do "brega de raiz", o de Waldick e Odair, falsamente libertário mas feito sob medida para as marchas da família que pedem "intervenção militar" no Brasil.
Ou então são as "fusões" como os tributos falsamente "alternativos" de Raça Negra e quejandos, o Grupo Molejo bancando o engraçadinho com camiseta na estética Ramones, o tributo cinicamente "emepebista" do "Rei do Jabá" Michael Sullivan e a tortura de juntar Smiths e É O Tchan numa mesma mixagem, algo tão ofensivo quanto convidar o vegetariano Morrissey para um churrasco.
Junto a isso, há o "jornalismo verdade" dos programas policialescos que mais parecem "indústrias do crime", já que, ao espetacularizar a violência, exibida impunemente num horário altamente acessível ao público infantil, cria condições para que os violentos de ocasião tivessem seus quinze minutos de má fama às custas de um impulso nervoso que lhe dê algum sentido, ainda que mau, à sua vida.
E a própria intelectualidade está sintonizada no espírito que faz surgirem vândalos, torcedores violentos e linchadores e destruidores de bens públicos. Em vez de questionar os problemas sócio-culturais, nossas elites pensantes as reafirmam, em vez de desejarem qualidade de vida elas só querem um Brasil mais promíscuo, mais prostituído, mais drogado.
Se as elites pensantes só querem um país libertino que satisfaça suas vaidades pessoais, bastante paternalistas com as classes populares mas no fundo temerosas com qualquer despertar do povo pobre, então a crise que o país passa está muito, muito grave.
Não serão chuvas de dinheiro, seja de Guido Mantega, seja do(a) ministro(a) da Cultura de plantão, que irão resolver as coisas. Não serão, da mesma forma, os gols de Neymar e seus amigos na copa do próximo mês. E também não será a promessa de que as novas mídias digitais irão revolucionar o país, até porque esse papo esconde o antigo mito, reciclado, da coisificação do homem ante a máquina.
É bom que haja muitas crises, porque assim os problemas se tornam escancarados. O problema é que essas crises aumentam mais e mais, e o Brasil sucumbe a essa situação caótica que as esquerdas otimistas não previram e a direita pedante não conseguirá resolver. Isso porque os problemas são muito mais complexos, e até agora as melhores soluções ainda são desconhecidas por muitos.
Por Alexandre Figueiredo
Que relação existe entre ônibus queimados, moradora estuprada e morta por zelador, agências bancárias depredadas, torcedor assassinado por um vaso sanitário, mulher linchada por um boato de sequestro e policiais matando namoradas na rua?
Isso quando não se fala em crianças inocentes mortas por conta de ódios ou desavenças conjugais, como os simpáticos Izabella Nardoni e Bernardo Boldrini, mortos no meio de um caminho entre pais e madrastas em discussão.
A banalização da violência contraria as expectativas de um Brasil desenvolvido e próspero. Afinal, um conjunto de fatores mostra o quanto nosso país está em crise, numa violenta crise sócio-cultural, crise de valores que influi em diversos aspectos, da arte à política, da criminalidade à libertinagem.
Ontem houve uma série de atos de vandalismo depredando nada menos que 467 ônibus no Rio de Janeiro, além de outros em várias capitais do país onde se realizaram greve dos rodoviários. E ainda se refletem os atos da mulher linchada no Guarujá por causa de um boato de que ela teria sido sequestradora, e do torcedor que foi morto por um rival que jogou um vaso sanitário contra a vítima.
De um lado, a permissividade, a corrupção, o desprezo ético. De outro, a raiva daqueles que querem perder privilégios que nem percebem se são benéficos ou se realmente eles gostam de tais benefícios. Ou então a indignação de quem não tem sequer o que precisa, e joga sua raiva contra quem representa algo negativo contra aquele.
São reflexos que vem desde a ditadura militar, que veio para tentar resolver - pelo menos sob a ótica da sociedade conservadora - as tensões sociais que ocorreram em 1964, mas não só não resolveu como criou e agravou muitas tensões, abafadas durante anos seja pela impunidade da corrupção e do crime, seja pela ilusão de um otimismo e uma paz que na verdade não existem.
CRISE DO DESEJO
Uns querem mais, sem necessidade. E tem muito quando não valorizam. Outros não tem sequer o básico. A desigualdade social no Brasil é uma crise do desejo, porque as pessoas que obtém privilégios e benefícios não sabem o que querem, não têm noção de perda, e isso vale desde políticos carreiristas até feminicidas.
O Brasil sofre uma crise até pior do que aquela que muitos tentavam evitar em 1964. Porque hoje a corrupção está tão banalizada e a política tão asséptica e sem gosto, insossa na teoria e amarga na prática, a cultura popular, se antes era apenas precária, hoje sucumbe à imbecilização mais escancarada.
A nossa mídia também está muito grotesca. Antes tínhamos um Carlos Lacerda esbanjando fúria na televisão. Atualmente são os "urubólogos" que não tem a erudição do político udenista. Se muitos reclamavam de um Zé Trindade, em 1964, hoje temos que reclamar contra centenas de milhares de péssimos comediantes, péssimos músicos "populares" e sub-celebridades.
O Brasil tinha um projeto em 1964. Mas hoje ele não foi reencontrado. Há quem veja saudosismo no "milagre brasileiro" (1969-1974) e tem ainda o cinismo de se proclamar "progressista". Hoje o Brasil não se encontra e está perdido por um surto de vandalismos, crimes cometidos por pessoas "comuns", corrupção justificada por alegações "técnicas", imbecilização cultural tida como "libertária" etc.
Daí que a trilha sonora dos bancos depredados e ônibus incendiados, de donas-de-casa linchadas sob falsa acusação de sequestro, policiais dando tiro em namoradas nas ruas e torcedor agredindo outro jogando vaso sanitário só não pode ser outra coisa.
A trilha só pode ser a do "funk" que promove pseudo-ativismo às custas de suas baixarias "provocativas". Ou a do "sertanejo universitário" que louva a união entre a embriaguez e o controle do volante dos automóveis. Ou a do "brega de raiz", o de Waldick e Odair, falsamente libertário mas feito sob medida para as marchas da família que pedem "intervenção militar" no Brasil.
Ou então são as "fusões" como os tributos falsamente "alternativos" de Raça Negra e quejandos, o Grupo Molejo bancando o engraçadinho com camiseta na estética Ramones, o tributo cinicamente "emepebista" do "Rei do Jabá" Michael Sullivan e a tortura de juntar Smiths e É O Tchan numa mesma mixagem, algo tão ofensivo quanto convidar o vegetariano Morrissey para um churrasco.
Junto a isso, há o "jornalismo verdade" dos programas policialescos que mais parecem "indústrias do crime", já que, ao espetacularizar a violência, exibida impunemente num horário altamente acessível ao público infantil, cria condições para que os violentos de ocasião tivessem seus quinze minutos de má fama às custas de um impulso nervoso que lhe dê algum sentido, ainda que mau, à sua vida.
E a própria intelectualidade está sintonizada no espírito que faz surgirem vândalos, torcedores violentos e linchadores e destruidores de bens públicos. Em vez de questionar os problemas sócio-culturais, nossas elites pensantes as reafirmam, em vez de desejarem qualidade de vida elas só querem um Brasil mais promíscuo, mais prostituído, mais drogado.
Se as elites pensantes só querem um país libertino que satisfaça suas vaidades pessoais, bastante paternalistas com as classes populares mas no fundo temerosas com qualquer despertar do povo pobre, então a crise que o país passa está muito, muito grave.
Não serão chuvas de dinheiro, seja de Guido Mantega, seja do(a) ministro(a) da Cultura de plantão, que irão resolver as coisas. Não serão, da mesma forma, os gols de Neymar e seus amigos na copa do próximo mês. E também não será a promessa de que as novas mídias digitais irão revolucionar o país, até porque esse papo esconde o antigo mito, reciclado, da coisificação do homem ante a máquina.
É bom que haja muitas crises, porque assim os problemas se tornam escancarados. O problema é que essas crises aumentam mais e mais, e o Brasil sucumbe a essa situação caótica que as esquerdas otimistas não previram e a direita pedante não conseguirá resolver. Isso porque os problemas são muito mais complexos, e até agora as melhores soluções ainda são desconhecidas por muitos.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
JAIR RODRIGUES E A VELHICE DA MPB AUTÊNTICA
Por Alexandre Figueiredo
Já escrevemos que a MPB autêntica está ficando velha, que seus artistas, que um dia eram jovens que provocaram uma revolução cultural formidável nos anos 60 e 70, já estão na terceira idade e alguns deles já estão morrendo, deixando a música brasileira órfã.
Hoje se foi mais um. Jair Rodrigues até resistiu, chegando aos 75 anos, mas hoje foi se juntar a Elis Regina e Wilson Simonal, seus amigos e "irmãos" artísticos, cujos filhos também formaram um grupo bem articulado e coeso.
O súbito falecimento de Jair Rodrigues se equipara ao do ator José Wilker, tanto pela relevância histórica quanto pela jovialidade que ambos mantiveram até o fim da vida. Embora Jair praticamente estivesse gravando discos recentes de revival de sua carreira, ele tornou-se subestimado até pelo que ele pôde fazer para a MPB.
Pois se a MPB moderna se projetou e as gerações 60 e 70 apareceram e cresceram, Jair Rodrigues é um dos maiores responsáveis por isso. Foi ele que se apresentou, com Elis Regina, o programa O Fino da Bossa, um dos espaços estratégicos de expressão, em pleno início da ditadura, de cantores e músicos que estabeleceram as diretrizes contemporâneas da MPB autêntica.
Era a época em que, devido ao arbítrio militar e à intensa repressão que os generais promoveram logo após a queda do governo João Goulart, os outrora divergentes segmentos da música brasileira, os sofisticados da Bossa Nova e os engajados da música de raiz dos CPCs da UNE, se fundiram criando os elementos musicais, artísticos e expressivos que os brasileiros conhecem até hoje.
Jair também foi um dos que impulsionaram o sambalanço à sua maneira, antecipando o rap brasileiro através da música "Deixa Isso Pra Lá", de 1964. E se projetou para o mundo vencendo, no Festival da Canção em 1966, com a contundente canção "Disparada", de Geraldo Vandré, cuja letra relata a opressão do latifúndio e a emancipação do trabalhador rural.
Jair compôs pouco, sendo mais intérprete de outros compositores. E, juntando talento e comportamento, ele estava numa das "pontas" entre os dois cantores que influenciaram Wilson Simonal, já que este conseguiu unir, a seu modo, a jovialidade moleque de Jair com a empostação sofisticada de Agostinho dos Santos. Todos os três, distintos talentos de reconhecido valor.
É verdade que Jair Rodrigues passou a fazer parte de uma ala da MPB autêntica que, mesmo de grandioso talento, é aceita pela intelectualidade "bacana" por não adotar uma postura de confronto com a bregalização. Nos anos 80, Jair aceitou gravar um dueto com os canastrões breganejos Chitãozinho & Xororó, na música "Sua Majestade o Sabiá", da também breganeja Roberta Miranda.
No entanto, Jair, até pela sua experiência nos discos dos anos 60 e 70 e nas relações que teve com diversos artistas brasileiros, até mesmo como divulgador, vale por uma contribuição ímpar, numa época em que a MPB vive uma situação bastante delicada.
Afinal, é preocupante que a MPB autêntica viva de homenagens e tributos, como se ela não fosse mais uma música presente no nosso cotidiano. E é igualmente preocupante o desinteresse das gerações mais recentes à MPB autêntica, que só aceitam quando é possível inserir nela algum vínculo, por mais patético que seja, dos ídolos bregas que a rapaziada consome hoje em dia.
Por isso Jair Rodrigues se soma a muitos mestres da MPB autêntica - que valiam não necessariamente por lotar plateias com facilidade, mas por oferecer talento e competência - que se foram, deixando órfã a música brasileira de qualidade. Órfã e quase acéfala.
Afinal, a MPB não se salvará na cena atual, com ídolos cada vez mais patéticos, nem com a tardia, tendenciosa, oportunista e pouco competente adesão de neo-bregas dos anos 90, que apenas copiam fórmulas da boa MPB em trabalhos burocráticos, "corretos" mas superficiais.
A morte de Jair, como a de Emílio Santiago e Dominguinhos tempos atrás, soam como um grande alerta para o fato de que a boa música brasileira está ficando velha, o que requer um rompimento com a breguice dominante que se tornou até um vandalismo cultural, com a mania de "provocação" de vários "artistas" e "produtores" de quinta categoria.
Convém resgatarmos a MPB autêntica na sua essência e na sua verdade artística. Antes que ela desapareça de vez, sob homenagens e tributos que soam antecipadamente fúnebres.
O GOLPISMO FESTIVO PARA TURISTA VER (E SOFRER)
Por Alexandre Figueiredo
Virou uma coisa séria. De repente, aqueles símbolos de tudo que foi negativo no começo da década de 1990 foram facilmente reabilitados, transformados em exemplo de suposta integridade, de pretenso idealismo e alvo até mesmo de surtos saudosistas orquestrados por elites simpatizantes na Internet.
Tudo que era sinônimo de jabaculê, fisiologismo político e tendenciosismo midiático, descontando aquelas expressões claramente reacionárias, passou a ser defendido até mesmo sob o pretexto da "modernidade progressista", mesmo quando pessoas não medem escrúpulos para defender até mesmo alguns "filhotes da ditadura".
É o caso de Jaime Lerner, Fernando Collor e, no contexto regional da Bahia, o pseudo-radialista Mário Kertèsz. Todos "filhotes da ditadura", anti-janguistas convictos na juventude, todos prefeitos biônicos (nomeados pelos generais da ditadura) e envolvidos em corrupção e demagogia.
No entanto, todos eles tiveram algum jeito, um jogo de cintura e uma multidão de incautos defensores - alguns infelizmente alinhados à esquerda, para alegria maior dos Azevedos, Constantinos e Sheherazades de plantão - e sorte suficiente para sobreviverem quase incólumes às transformações do país e aos avanços práticos da redemocratização.
Jaime Lerner e seus horríveis ônibus padronizados e seu "futurismo urbanista" digno dos tempos do "milagre brasileiro", em que uma visão de "progresso" ainda segue uma orientação retrógrada de derrubar áreas ambientais, casas populares e, se deixarem, até patrimônios históricos tombados, virou o paradigma "atual" de sistema de ônibus e de mobilidade a serem adotados nas capitais brasileiras.
Acusado de improbidade administrativa, Lerner acionou uma habilidosa equipe de advogados que, se aproveitando de brechas na lei, sair "limpo" na Justiça. Graças a isso, ele pôde colocar debaixo do tapete seu histórico de político privatista doente, que governa contra as classes trabalhadoras, que atropela a lei quando quer e não passa de um tecnocrata antiquado dos tempos do governo Médici.
Fernando Collor também se livrou de acusações de corrupção na Justiça. Ele agora posa de injustiçado e se beneficia com a imagem "duas caras" que atualmente se trabalha em relação a ele, como se o ex-presidente fosse uma pessoa completamente diferente do atual senador, mesmo sendo uma só pessoa.
Sim, porque certos cronistas políticos chegam mesmo a descrever negativamente a trajetória do ex-presidente como demagogo "fabricado" pela Folha e pela Veja e depois "popularizado" pela Rede Globo, que confiscou as poupanças dos brasileiros, quis até privatizar as Universidades federais e se envolveu num esquema de corrupção "coordenado" pelo empresário Paulo César Farias.
Para piorar, o tesoureiro de campanha de Fernando Collor e, dizem, o verdadeiro beneficiário dos depósitos financeiros dos brasileiros, foi assassinado misteriosamente em 1996 com sua então namorada, em clara intenção de "queima de arquivo". Com PC, morreram com ele informações preciosas que esclareceriam melhor a corrupção durante o governo Collor.
Nem mesmo Jânio Quadros, de um esquisito e breve governo presidencial de 1961, constantemente comparado a Collor (que seria uma versão yuppie de Jânio) e, ironicamente, falecido durante o governo do "caçador de marajás", teve uma reabilitação política tão grande, se limitando a seguir carreira, até os anos 80, como um discreto e relativamente eficaz político conservador.
Na Bahia, Mário Kertèsz, o engenheiro apadrinhado por Antônio Carlos Magalhães, virou dublê de radiojornalista, quis "comprar" para si o apoio de socialites e socialistas, bancou o "dono das esquerdas" e quis castrar as mídias progressistas vinculando-as à sua imagem. E todo mundo acreditando nele até Kertèsz soltar surtos reacionários de fazer Reinaldo Azevedo ficar boquiaberto.
Mas isso não fica somente na política, em que se reabilita políticos "fabricados" pela ARENA e, "navegando" no fisiologismo político, "compram" espaços progressistas para empastelá-los e deles obterem vantagens pessoais e tentarem vincular as transformações do país à sua imagem. Também a coisa não para em projetos resgatados da ditadura, como a Hidrelétrica de Belo Monte.
A coisa vai além. No âmbito cultural, vemos a reabilitação, mais fácil do que furtar pirulito de criança pequena, de Michael Sullivan, uma figura que tantou transformar a música brasileira num engodo comercial americanizado, e que agora foi promovido a "ícone máximo" da "boa sofisticação" e do "bom zelo" às verdadeiras expressões da MPB.
Isso é rir da cara do cidadão brasileiro. As elites "bacaninhas", que se julgam entender de "cultura popular" - sua compreensão, porém, não é diferente da de um gerente de motel de rodovia, por exemplo - fica até feliz em ver Michael Sullivan aparecendo ao lado até de Sérgio Ricardo, o contundente músico que fez a trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Gláuber Rocha.
As pessoas ficam felizes neste caso sem saber a armadilha que está por trás. Se Michael Sullivan era capaz de domesticar artistas de MPB, que respeito ele teria com a obra do sofisticado e engajado Sérgio Ricardo? Sob sua batuta, Sérgio teria que moldar sua música para letras debilmente inofensivas e com elementos musicais americanizados tirados talvez de Lionel Richie e Bee Gees.
Mas a reabilitação atinge também os "filhos" artísticos de Michael Sullivan, como os sambregas Só Pra Contrariar, Raça Negra e Grupo Molejo, que, a exemplo dos roqueiros fajutos do poser metal dos EUA, agora foram promovidos tendenciosamente pela grande mídia e pelo mercado como "música de verdade". Falsos roqueiros e falsos sambistas agora são tidos como "modernos", em vez de fajutos.
Grupos e cantores que mal traduziam as influências de Odair José e Waldick Soriano a instrumentos sambistas mal tocados, gente que não sabe a diferença entre jongo e caxambu, entre samba-de-roda e samba de gafieira, agora é tida como "samba moderno" e, pasmem, guia do samba do futuro.
O próprio "funk", que em 1990 não passava de uma tolice que parodiava o andamento de cantigas de roda, agora está sendo levado a sério até demais, sobretudo por uma intelectualidade de centro-esquerda que associa ao inócuo ritmo referenciais ausentes nele como ideias modernistas, ativismo social e revoluções comportamentais.
Isso criou um lobby tão poderoso que faz com que o "funk" volta e meia venha com algum factoide e algum fato ou fator oportunista. Criam-se "ousadias" calculadas e tendenciosas como chamar funqueira de "pensadora" numa questão escolar e colocar um grupo funqueiro para abrir uma exposição de fotografias num museu tido para ser conceituado.
De repente, temos que lidar com a mediocridade crescente que avassala o país, que já tem dificuldades de lutar por justiça social e qualidade de vida e ainda tem que enfrentar pessoas "bacanas" e instituições "transparentes" que reabilitam políticos corruptos oriundos da ditadura, produtores musicais perversos e músicos medíocres artisticamente constrangedores.
Tudo isso ocorre porque os reabilitados, longe de representarem alguma causa realmente progressista ou alguma promessa de verdadeiro desenvolvimento sócio-cultural, só prevalecem por causa de um relativo sucesso econômico ou administrativo. São apenas peças influentes para um projeto que envolve urbanismo, política, mídia, cultura, turismo e economia que agrada determinadas elites.
Só que eles acabam representando, também, um golpismo festivo, feito para turista ver e sofrer, seja se confundindo diante de diferentes empresas de ônibus que são forçadas a exibir a mesma pintura, seja aturando canções ruins e covers pessimamente arranjadas de ídolos neo-bregas "resgatados" para o mercado para alimentar os faturamentos de casas noturnas e "viradas culturais".
Esses reabilitados não promoverão o progresso social. Apenas mostrarão sua "simpática" demagogia, tentando se vincular aos novos tempos e às transformações sociais vividas pelo país não para se adaptarem a elas, mas para minimizar seus efeitos através desse vínculo oportunista e tendencioso. Tudo em nome de um Brasil plastificado a ser exibido na Copa, no próximo mês.
E assim, eles apenas promoverão o enriquecimento das elites envolvidas, só farão mover a roda financeira que envolve políticos, empresários, tecnocratas, jornalistas, músicos e intelectuais que acreditam não num Brasil mais justo, mas num Brasil financeiramente viável para eles e seus beneficiários. O povo que aceite e que fique esperando pelas migalhas do fim desta festa.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
VEJA E A DESINFORMAÇÃO MUSICAL
DESDE QUANDO MENUDO É OU FOI UMA BANDA?
Por Alexandre Figueiredo
A revista Veja é não apenas o reduto do reacionarismo mais oportunista do país, mas também é responsável pela degradação cultural do país, aquela que a intelectualidade "bacana" atribui como uma atitude "de esquerda", ou, na pior das hipóteses, "acima de qualquer ideologia".
Pois não é mera coincidência que Veja aposta na degradação cultural e, para desespero da intelectualidade "bacana" metida a engajada, abraçou tendências como o arrocha e o "funk ostentação", com MC Guimê virando capa de uma revista cujos astros são Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino.
Seguindo o rumo da bregalização e da desinformação cultural, eis que vemos, no suplemento Veja Rio - que, evidentemente, não iria fugir da orientação central da matriz - a mania da mídia brasileira de chamar grupos vocais de "bandas", em clara afronta ao trabalho árduo da classe dos músicos.
A reportagem de capa, sobre o grupo One Direction e outros ícones adolescentes, cita até mesmo o termo "banda de garotos", uma tradução equivocada do termo boy band, já que o termo band se refere a "conjunto" e "grupo", como no filme Band of Brothers, e não como "banda".
Quantas vezes teremos que dizer para os jornalistas culturais que existe uma grande diferença entre alguém que se dedica horas e horas a tocar instrumento e forma grupos com outros instrumentistas e, quando muito, um ou poucos que apenas cantam, e alguém que apenas dança e canta, e se junta com outros cantores e dançarinos que mal se dedicam a compor letras adicionais com produtores?
Não se espera que o jornalista musical seja um professor universitário de música, mas que pelo menos divulgue informações pelo menos honestas e corretas, ainda que dentro de um padrão ideológico conservador, reacionário e até mesmo antissocial. Espera-se que, pelo menos, se construa "jornalisticamente" textos que provem que, por exemplo, privatizar tudo é ótimo.
Porém, como vivemos em época de mau jornalismo, faz sentido haver, de vez em quando, algum jornalista musical creditar como "banda" um amontoado de cantores e dançarinos, porque é uma pessoa apressada, mal informada e mal orientada, que já faz péssimos cursos universitários e encontra nas redações patrões mais estúpidos que ela.
O que se vê é que a nossa mídia transforma a desinformação em hábito e arruma desculpa para dizer que "são outros padrões". E o mau jornalismo faz com que grupos que só cantam e dançam e que são amestrados por empresários e produtores se equiparem a grupos cujos integrantes dão duro para aprender instrumentos e compor partituras.
Está na hora da Ordem dos Músicos agir contra essa pasmaceira de "bandas de garotos", porque esse negócio de bandas sem instrumentistas é algo que vai contra todo o trabalho da classe.
Por Alexandre Figueiredo
A revista Veja é não apenas o reduto do reacionarismo mais oportunista do país, mas também é responsável pela degradação cultural do país, aquela que a intelectualidade "bacana" atribui como uma atitude "de esquerda", ou, na pior das hipóteses, "acima de qualquer ideologia".
Pois não é mera coincidência que Veja aposta na degradação cultural e, para desespero da intelectualidade "bacana" metida a engajada, abraçou tendências como o arrocha e o "funk ostentação", com MC Guimê virando capa de uma revista cujos astros são Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino.
Seguindo o rumo da bregalização e da desinformação cultural, eis que vemos, no suplemento Veja Rio - que, evidentemente, não iria fugir da orientação central da matriz - a mania da mídia brasileira de chamar grupos vocais de "bandas", em clara afronta ao trabalho árduo da classe dos músicos.
A reportagem de capa, sobre o grupo One Direction e outros ícones adolescentes, cita até mesmo o termo "banda de garotos", uma tradução equivocada do termo boy band, já que o termo band se refere a "conjunto" e "grupo", como no filme Band of Brothers, e não como "banda".
Quantas vezes teremos que dizer para os jornalistas culturais que existe uma grande diferença entre alguém que se dedica horas e horas a tocar instrumento e forma grupos com outros instrumentistas e, quando muito, um ou poucos que apenas cantam, e alguém que apenas dança e canta, e se junta com outros cantores e dançarinos que mal se dedicam a compor letras adicionais com produtores?
Não se espera que o jornalista musical seja um professor universitário de música, mas que pelo menos divulgue informações pelo menos honestas e corretas, ainda que dentro de um padrão ideológico conservador, reacionário e até mesmo antissocial. Espera-se que, pelo menos, se construa "jornalisticamente" textos que provem que, por exemplo, privatizar tudo é ótimo.
Porém, como vivemos em época de mau jornalismo, faz sentido haver, de vez em quando, algum jornalista musical creditar como "banda" um amontoado de cantores e dançarinos, porque é uma pessoa apressada, mal informada e mal orientada, que já faz péssimos cursos universitários e encontra nas redações patrões mais estúpidos que ela.
O que se vê é que a nossa mídia transforma a desinformação em hábito e arruma desculpa para dizer que "são outros padrões". E o mau jornalismo faz com que grupos que só cantam e dançam e que são amestrados por empresários e produtores se equiparem a grupos cujos integrantes dão duro para aprender instrumentos e compor partituras.
Está na hora da Ordem dos Músicos agir contra essa pasmaceira de "bandas de garotos", porque esse negócio de bandas sem instrumentistas é algo que vai contra todo o trabalho da classe.
terça-feira, 6 de maio de 2014
A APOLOGIA DA MEDIOCRIDADE NO BRASIL
Por Alexandre Figueiredo
Infelizmente, muitos estão tão acostumados com a mediocrização do Brasil que acham estranho que um blogue como este venha a questionar praticamente todos os problemas brasileiros. São pessoas que, até pela pouca idade e pelo desconhecimento dos fatos - não por culpa delas, em muitos casos - , não têm noção do quanto o Brasil retrocedeu nos últimos 50 anos.
Se existisse uma máquina do tempo e alguém pudesse "viajar" até mais ou menos 1963, ano em que o Brasil estava ainda tranquilo, mesmo às vésperas de encarar tensões que propiciaram o golpe civil-militar de abril de 1964, ficaria simplesmente transtornado e entenderia as críticas "radicais" que aparecem aqui e ali no país.
Isso porque o Brasil teve um projeto de país bastante ousado. A mediocrização cultural não tinha a intensidade de hoje, a cultura do povo pobre era de primeira, os partidos políticos, mesmo os mais assépticos, ainda tinham algum projeto de país e mesmo um reacionário extremo como Carlos Lacerda era de uma erudição e uma inteligência admiráveis.
Hoje chegamos ao absurdo de ver internautas preocupados em defender, com uma raiva doentia, ideias, valores e personalidades de gosto duvidoso, com uma persistência que nem o reacionarismo do IPES e do IBAD - entidades que reuniam pensadores e ativistas de direita no Brasil, como o Instituto Millenium hoje - seria capaz de exercer.
Muitos ficam assustados quando alguém critica tantos absurdos. "Fulano é mal humorado", "sicrano é do contra", costumam dizer. De repente, para ser normal tem que aceitar pelo menos 20% de toda a estupidez e seus absurdos que acontecem no país. O Brasil foi além do Febeapá de Sérgio Porto, virou filme de Luís Buñuel e já está virando livro de Franz Kafka!!
Nem mesmo os mais velhos conseguem perceber o teor dos retrocessos no nosso país. Só quando são muito idosos, que viveram tempos em que o Brasil procurava se evoluir, e não esconder as diversas sujeiras por debaixo do tapete. Mas eles não são ouvidos.
Hoje, para piorar, há uma campanha de anti-intelectualismo, que, por incrível que pareça, tem na intelectualidade "bacana" seus maiores defensores. Eles é que, defendendo o "estabelecido" pela indústria do entretenimento, inventam que isso é "o novo folclore popular" e inserem uma série de teorias delirantes que só mesmo um intelectual de verdade iria contestá-los com segurança e firmeza.
Contestar e questionar, processos naturais do raciocínio humano, de repente viraram sinônimo de "inveja", "radicalismo" e, pasmem, "desinformação" (?) e "preconceito" (?!?!). Se conhecemos algum fenômeno, verificamos, analisamos mas contestamos, somos "preconceituosos", e virou lugar comum essa visão um tanto delirante e esquizofrênica sobre preconceito.
Ter preconceito é não conhecer as coisas. Só que virou moda dizer que ter preconceito é conhecer algo e recusá-lo, enquanto tem gente que "rompe com preconceitos" sem entender o que realmente está aceitando. Ou seja, tem gente que "não tem preconceitos" fazendo noção pré-concebida das coisas.
Raciocinar passou a ser sinônimo de aceitar e tentar explicar a aceitação de qualquer coisa. Criou-se um conservadorismo terrível da aceitação das coisas. O "estabelecido", com todos seus absurdos, com todas suas aberrações, tem que ser aceito, até na sua quase totalidade, sob pena do contestador sofrer certos estigmas "desagradáveis".
Ele acaba sendo vítima do verdadeiro preconceito. Por questionar a maioria dos absurdos do nosso país, ele é visto como "radical", "antissocial", "preconceituoso", "invejoso", "desinformado", "de mal com a vida", "pessimista", "polêmico demais" e outras coisas absurdas que nem correspondem necessariamente à personalidade do questionador.
Muitas vezes, pessoas que aceitam mais as coisas é que são mais temperamentais, invejosas, preconceituosas, intolerantes e outras coisas negativas. A trolagem que se faz em prol de valores difundidos pela mídia, pela política e pelo mercado é que revela o grau de intolerância, de reacionarismo e de preconceitos de gente que se diz "da paz" e "sem preconceitos".
Essas pessoas é que não aguentam o pensamento diferente. Preferem impor o pensamento único de que a bregalização do país é legal, que os estereótipos vão salvar as classes populares ou esperar posturas pré-estabelecidas sobre quem deve ou não questionar as coisas.
Um exemplo. Se você questiona a imbecilização cultural do "funk" e o mercantilismo voraz da axé-music, espera-se que você esteja do lado de Rachel Sheherazade e Reinaldo Azevedo. Ou se você questiona o neoliberalismo e a ditadura midiática, é esperado que você aceite o "funk" e todas as suas baixarias, certo? Errado!
Defender o "funk" é que vai contra a defesa das classes populares, já que o ritmo carioca explora uma imagem caricata do povo pobre, e isso se torna tão claro que, dentro das esquerdas, existe uma indignação dura contra aqueles que se tornam apologistas do gênero.
O "funk" é um ritmo que glamouriza a pobreza, a ignorância e até mesmo a imoralidade, além de fazer com que o povo pobre se torne prisioneiro de suas próprias condições de pobreza, só se "emancipando" quando se torna claro que são as elites que intervém nessa suposta melhoria de vida.
A mediocridade tornou-se tão hegemônica que a decadência da TV aberta e do rádio FM tornam-se claras. A do rádio FM ainda não é reconhecida por muitos, mas sua decadência é muito mais grave do que se imagina, e sua crise, nos bastidores, já significou demissões em massa que atingem até mesmo rádios que parecem ter "boa audiência" segundo os números mortos do Ibope.
O Brasil ficou bem mais castrado do que há 50 anos. Uma emissora comercial da primeira metade dos anos 60, como a TV Paulista (que tinha uma reputação comercial equivalente à Rede TV!), em São Paulo, era capaz de lançar um programa vanguardista na forma e conteúdo como o Móbile, que atualmente é produzido pela TV Cultura.
Em 1960, ano em que até Renato Russo e Ayrton Senna eram bebês recém-nascidos, um filósofo como Jean-Paul Sartre atraía muita audiência para a TV Tupi, numa situação "inconcebível" nos dias de hoje, em que os astros são sub-celebridades dotados da arte de transformar suas próprias nulidades em "sucesso permanente".
Daí que criticar tudo e todas as coisas é um ato de coragem. No caminho, quem contesta um maior número de problemas é chamado de "invejoso", "preconceituoso" e até "burro". E este é o preconceito maior, vindo daqueles que "não têm preconceito" contra o "estabelecido", mas possuem um preconceito cruel e até criminoso contra quem não pensa igual a eles.
E isso num tempo democrático, de governo considerado progressista etc. E ver que, mesmo nos primeiros anos da ditadura militar (1964-1968) havia maior estímulo para contestar as coisas do que hoje. Mas, felizmente, também se criam condições para questionamentos ainda mais profundos, por mais que os contestadores sejam vistos como "antissociais" e "preconceituosos".
Os troleiros ladram e um dia são "apedrejados" quando seu reacionarismo pega pesado demais. E a cada dia a mediocridade é cada vez mais contestada, se desgastando pela sua natural vocação para a mesmice. Hoje assusta demais falar mal do "estabelecido" quando ele é guiado pela mediocridade e imbecilização. Mas amanhã será vergonhoso demais alguém defender esse "estabelecido".
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