terça-feira, 6 de maio de 2014
A APOLOGIA DA MEDIOCRIDADE NO BRASIL
Por Alexandre Figueiredo
Infelizmente, muitos estão tão acostumados com a mediocrização do Brasil que acham estranho que um blogue como este venha a questionar praticamente todos os problemas brasileiros. São pessoas que, até pela pouca idade e pelo desconhecimento dos fatos - não por culpa delas, em muitos casos - , não têm noção do quanto o Brasil retrocedeu nos últimos 50 anos.
Se existisse uma máquina do tempo e alguém pudesse "viajar" até mais ou menos 1963, ano em que o Brasil estava ainda tranquilo, mesmo às vésperas de encarar tensões que propiciaram o golpe civil-militar de abril de 1964, ficaria simplesmente transtornado e entenderia as críticas "radicais" que aparecem aqui e ali no país.
Isso porque o Brasil teve um projeto de país bastante ousado. A mediocrização cultural não tinha a intensidade de hoje, a cultura do povo pobre era de primeira, os partidos políticos, mesmo os mais assépticos, ainda tinham algum projeto de país e mesmo um reacionário extremo como Carlos Lacerda era de uma erudição e uma inteligência admiráveis.
Hoje chegamos ao absurdo de ver internautas preocupados em defender, com uma raiva doentia, ideias, valores e personalidades de gosto duvidoso, com uma persistência que nem o reacionarismo do IPES e do IBAD - entidades que reuniam pensadores e ativistas de direita no Brasil, como o Instituto Millenium hoje - seria capaz de exercer.
Muitos ficam assustados quando alguém critica tantos absurdos. "Fulano é mal humorado", "sicrano é do contra", costumam dizer. De repente, para ser normal tem que aceitar pelo menos 20% de toda a estupidez e seus absurdos que acontecem no país. O Brasil foi além do Febeapá de Sérgio Porto, virou filme de Luís Buñuel e já está virando livro de Franz Kafka!!
Nem mesmo os mais velhos conseguem perceber o teor dos retrocessos no nosso país. Só quando são muito idosos, que viveram tempos em que o Brasil procurava se evoluir, e não esconder as diversas sujeiras por debaixo do tapete. Mas eles não são ouvidos.
Hoje, para piorar, há uma campanha de anti-intelectualismo, que, por incrível que pareça, tem na intelectualidade "bacana" seus maiores defensores. Eles é que, defendendo o "estabelecido" pela indústria do entretenimento, inventam que isso é "o novo folclore popular" e inserem uma série de teorias delirantes que só mesmo um intelectual de verdade iria contestá-los com segurança e firmeza.
Contestar e questionar, processos naturais do raciocínio humano, de repente viraram sinônimo de "inveja", "radicalismo" e, pasmem, "desinformação" (?) e "preconceito" (?!?!). Se conhecemos algum fenômeno, verificamos, analisamos mas contestamos, somos "preconceituosos", e virou lugar comum essa visão um tanto delirante e esquizofrênica sobre preconceito.
Ter preconceito é não conhecer as coisas. Só que virou moda dizer que ter preconceito é conhecer algo e recusá-lo, enquanto tem gente que "rompe com preconceitos" sem entender o que realmente está aceitando. Ou seja, tem gente que "não tem preconceitos" fazendo noção pré-concebida das coisas.
Raciocinar passou a ser sinônimo de aceitar e tentar explicar a aceitação de qualquer coisa. Criou-se um conservadorismo terrível da aceitação das coisas. O "estabelecido", com todos seus absurdos, com todas suas aberrações, tem que ser aceito, até na sua quase totalidade, sob pena do contestador sofrer certos estigmas "desagradáveis".
Ele acaba sendo vítima do verdadeiro preconceito. Por questionar a maioria dos absurdos do nosso país, ele é visto como "radical", "antissocial", "preconceituoso", "invejoso", "desinformado", "de mal com a vida", "pessimista", "polêmico demais" e outras coisas absurdas que nem correspondem necessariamente à personalidade do questionador.
Muitas vezes, pessoas que aceitam mais as coisas é que são mais temperamentais, invejosas, preconceituosas, intolerantes e outras coisas negativas. A trolagem que se faz em prol de valores difundidos pela mídia, pela política e pelo mercado é que revela o grau de intolerância, de reacionarismo e de preconceitos de gente que se diz "da paz" e "sem preconceitos".
Essas pessoas é que não aguentam o pensamento diferente. Preferem impor o pensamento único de que a bregalização do país é legal, que os estereótipos vão salvar as classes populares ou esperar posturas pré-estabelecidas sobre quem deve ou não questionar as coisas.
Um exemplo. Se você questiona a imbecilização cultural do "funk" e o mercantilismo voraz da axé-music, espera-se que você esteja do lado de Rachel Sheherazade e Reinaldo Azevedo. Ou se você questiona o neoliberalismo e a ditadura midiática, é esperado que você aceite o "funk" e todas as suas baixarias, certo? Errado!
Defender o "funk" é que vai contra a defesa das classes populares, já que o ritmo carioca explora uma imagem caricata do povo pobre, e isso se torna tão claro que, dentro das esquerdas, existe uma indignação dura contra aqueles que se tornam apologistas do gênero.
O "funk" é um ritmo que glamouriza a pobreza, a ignorância e até mesmo a imoralidade, além de fazer com que o povo pobre se torne prisioneiro de suas próprias condições de pobreza, só se "emancipando" quando se torna claro que são as elites que intervém nessa suposta melhoria de vida.
A mediocridade tornou-se tão hegemônica que a decadência da TV aberta e do rádio FM tornam-se claras. A do rádio FM ainda não é reconhecida por muitos, mas sua decadência é muito mais grave do que se imagina, e sua crise, nos bastidores, já significou demissões em massa que atingem até mesmo rádios que parecem ter "boa audiência" segundo os números mortos do Ibope.
O Brasil ficou bem mais castrado do que há 50 anos. Uma emissora comercial da primeira metade dos anos 60, como a TV Paulista (que tinha uma reputação comercial equivalente à Rede TV!), em São Paulo, era capaz de lançar um programa vanguardista na forma e conteúdo como o Móbile, que atualmente é produzido pela TV Cultura.
Em 1960, ano em que até Renato Russo e Ayrton Senna eram bebês recém-nascidos, um filósofo como Jean-Paul Sartre atraía muita audiência para a TV Tupi, numa situação "inconcebível" nos dias de hoje, em que os astros são sub-celebridades dotados da arte de transformar suas próprias nulidades em "sucesso permanente".
Daí que criticar tudo e todas as coisas é um ato de coragem. No caminho, quem contesta um maior número de problemas é chamado de "invejoso", "preconceituoso" e até "burro". E este é o preconceito maior, vindo daqueles que "não têm preconceito" contra o "estabelecido", mas possuem um preconceito cruel e até criminoso contra quem não pensa igual a eles.
E isso num tempo democrático, de governo considerado progressista etc. E ver que, mesmo nos primeiros anos da ditadura militar (1964-1968) havia maior estímulo para contestar as coisas do que hoje. Mas, felizmente, também se criam condições para questionamentos ainda mais profundos, por mais que os contestadores sejam vistos como "antissociais" e "preconceituosos".
Os troleiros ladram e um dia são "apedrejados" quando seu reacionarismo pega pesado demais. E a cada dia a mediocridade é cada vez mais contestada, se desgastando pela sua natural vocação para a mesmice. Hoje assusta demais falar mal do "estabelecido" quando ele é guiado pela mediocridade e imbecilização. Mas amanhã será vergonhoso demais alguém defender esse "estabelecido".
segunda-feira, 5 de maio de 2014
COM "FUNK" E "MENSALÃO", ESQUERDAS FAVORECEM REAÇÃO DA DIREITA
Por Alexandre Figueiredo
Parece um ciclo vicioso. Por influência de "alienígenas" como Pedro Alexandre Sanches - que aprendeu, pelo Projeto Folha de Otávio Frias Filho, o que deve ser a "esquerda amestrada" - , as esquerdas apostam na bregalização cultural, com toda a imbecilização nela expressa, sob o pretexto de que o "popular" permite tudo e tal idiotização expressaria a "inocência" e "felicidade popular".
Enquanto isso, se a intelectualidade de esquerda, comprometida com as causas progressistas, acaba sucumbindo a esse projeto de "Brasil mais cafona", como se a bregalização cultural quisesse transformar o Brasil numa "nova Cuba", ela acaba influenciando a reação de direitistas conservadores que, de repente, tornaram-se "defensores" da qualidade de vida para as classes populares.
Para começo de conversa, a bregalização nunca iria transformar o Brasil numa nova Cuba. Aquelas cidades permanentemente suburbanas, de carros antigos e comércio modesto de Havana, com toda a sua controvérsia, pouco têm a ver com a pobreza glamourizada da prostituição, do alcoolismo, das periferias sujas de casas mal-construídas e gente sem muita escolaridade do Brasil.
A bregalização só vai levar mais consumo às classes pobres. Isso é fato. A glamourização da pobreza, da ignorância, da imoralidade ou mesmo da prostituição, uma visão intelectual supostamente generosa, mas que transforma o povo pobre prisioneiro de sua própria pobreza, acaba manchando a reputação das esquerdas tanto quanto suas posturas em relação ao "mensalão".
FALTA AUTOCRÍTICA AOS "MENSALEIROS"
O que se observa nas esquerdas, no caso do escândalo do "mensalão", do esquema de propinas lançado pelo publicitário Marcos Valério, que aliciou o PT depois de ter se aliado com o arqui-inimigo dos internautas, Eduardo Azeredo, foi uma falta de autocrítica no episódio que transformou José Dirceu e José Genoíno em algumas das pessoas mais odiadas pelos brasileiros.
Vemos que os dois apenas se limitam a serem considerados "vítimas" sem que possam aproveitar seu natural direito de defesa - garantido expressamente pela Constituição - para ao menos assumir seus erros e até explicar por que erraram e por que não perceberam as consequências do que fizeram.
Eles apenas se julgaram "perseguidos". José Genoíno, "torturado moralmente", e José Dirceu, vítima de um "novo AI-5". Tudo bem, tem o oportunismo de um Joaquim Barbosa que precipita demais nos processos judiciais quando o réu é o PT, pois se fosse o PSDB o tratamento seria bem outro. Mas falta a Dirceu e Genoíno aquela autocrítica necessária para ajustar contas com a sociedade.
Num determinado momento, eles gostaram de estarem envolvidos com Marcos Valério. O PT teve esse cacoete, de se aliar com pessoas e instituições suspeitas quando visava obter vantagens imediatas, sobretudo eleitorais. E isso não é uma tese da oposição, ela é confirmada pelas mais diversas correntes que atuaram dentro do partido e que saíram por conta de divergências com as decisões centrais.
Faltou a José Genoíno e José Dirceu dizerem "sim, nos envolvemos com o 'mensalão' e, quando foi conveniente, apoiamos esse esquema, mas hoje nos arrependemos muito e sentimos muito termos traído os brasileiros que acreditaram na nossa missão histórica". Se adotassem esse posicionamento, eles talvez tivessem mais chance de darem a volta por cima em suas carreiras.
A simples defesa sentimental aos dois, sem que tal autocrítica fosse feita, é que permitiu que a direita reagisse a ponto de Marchas da Família, mesmo patéticas e impopulares, fossem feitas. E se hoje mais pobres cometem vandalismo em atos de protesto, é sinal que o governo do PT se limita a retóricas, sem resolver os problemas tanto do país quanto do próprio partido.
O "FUNK"
O que também permite a reação triunfal das direitas é que a defesa das esquerdas ao "funk", num discurso que já começa a cansar de tão repetitivo - aquelas alegações falsas ao "fim dos preconceitos", aquelas falsas analogias ao samba e à negritude - , numa postura completamente estranha à natureza progressista.
Isso porque o "funk" nunca foi cultura de verdade, porque ele nunca correspondeu ao verdadeiro progresso social. Esse discurso todo em favor do gênero foi inventado até pela mídia reacionária, a Rede Globo e a Folha de São Paulo. Graças a ela, se empurra "funk" até em desfiles de moda e exposição em museus de arte.
Mas o "funk", pensando objetivamente, é muito nocivo. E isso não é moralismo elitista, não. O próprio "funk" aposta numa visão caricata do povo pobre, glamourizando a pobreza, a ignorância, a imoralidade, a pornografia, a prostituição, criando paradigmas que mais fazem o povo pobre ser prisioneiro de seus próprios símbolos de pobreza do que trazer alguma melhoria.
O discurso esquerdista, quando vai em favor do gênero, é confuso, contraditório, por vezes improcedente e por outras dotado de qualquer tipo de desinformação. A repórter de Caros Amigos afirmar, por exemplo, que Mr. Catra, mesmo após várias aparições na Rede Globo, seguia "invisível aos olhos das corporações da mídia" foi de uma desinformação vergonhosa.
O bitolamento desses intelectuais, que se julgam os "mais sábios" e dizem "compreender fielmente" a cultura das classes populares, é tanto que muitos deles pensam que o povo pobre dos morros só consome duas coisas, "funk" e hip-hop. Isso com todo o legado cultural que as classes populares produziram em séculos!!
Que regulação da mídia se esperará de pessoas assim? Daí que a direita, por mais que defenda apenas a "casa grande" e pregue a supremacia do capital privado, começa a articular um discurso falsamente favorável às classes populares.
Os intelectuais, desperdiçando seu status de elite pensante, não questionam os problemas sociais e acham que a "revolução social" será feita com "funk". Chegam mesmo a distorcer os conceitos de ativismo social se aproveitando dos "rolezinhos" do "funk ostentação" ou de factoides pseudo-feministas das funqueiras.
E aí cria-se um maniqueísmo. Se Pedro Alexandre Sanches sonha com um Brasil que copie, em suas periferias, uma mistura pseudo-africanizada e pseudo-cubanizada das áreas pobres de Miami, de Austin (cidade do Texas, um dos Estados conservadores dos EUA) e dos guetos de Brooklyn, em Nova York, Rodrigo Constantino sonha com as vilas operárias da Áustria.
Ambos não pensam o Brasil como o Brasil. E se muitos esquerdistas, boboalegremente, ainda dão ouvidos a um Pedro Alexandre Sanches encharcado de Francis Fukuyama nas suas palavras, elas acabam criando condições para que o reacionarismo obscurantista de Constantino, Rachel Sheherazade e até Reinaldo Azevedo passem a ser feitos "em defesa do povo".
Já vi coisas constrangedoras de esquerdistas que, em parte, até admiro. Como defender o direitista Waldick Soriano e achar que José Augusto e Amado Batista cantam para a "gente simples". Gente que nunca sofreu uma desilusão amorosa na vida passando a defender supostos porta-vozes dos males afetivos.
Quanto a mim, que sofri tais desilusões, sempre preferi me consolar ouvindo Smiths, pois o brega nunca falou para mim, não tinha a ver com minha realidade, já que o brega sempre me pareceu patético, superficial e muito piegas.
Outras coisas constrangedoras foram a defesa apaixonada de um jabazeiro traiçoeiro como Michael Sullivan, ou a crença um tanto tola de que uma antiga canção de axé-music, composta por um rico empresário, poderia constar de uma tese "marxista", algo tão tolo quanto dizer que o McDonalds é comunista porque tem vermelho na sua estética visual.
É essa esquerda que aplaude quando um professor chama uma funqueira de "grande pensadora contemporânea". E que acha que faremos socialismo com brega, com "funk", com "dança da bundinha", com "beijinho no ombro" e coisa e tal. Tanta "liberdade" acaba favorecendo a réplica da direita.
Por isso é que os farofafeiros, por exemplo, acabam sendo garotos-propaganda dos direitistas. Por mais que Pedro Alexandre Sanches faça seus falsos ataques ao Instituto Millenium, como um jogador de um time ataca o adversário pelo qual será artilheiro tempos depois, ele muito mais ajuda que atrapalha na alta reputação dos "urubus da mídia" em parte da sociedade.
É só ver o Facebook. O direitismo é tal que Reinaldo Azevedo, com todo seu jeito troleiro de escrever, atrai leitores em todo o país, sobretudo num Rio de Janeiro cada vez mais neocon. E quanto mais os intelectuais "do outro lado", mesmo apoiados num pregador de um pós-tropicalismo neoliberal que é Sanches, se sentem felizes em atacar a "urubologia", mais munição oferecem para ela.
CONCLUSÃO
Aí você junta a falta de autocrítica dos acusados de envolvimento com o "mensalão" com a complacência que intelectuais de esquerda têm com a bregalização cultural (que, para lembrar bem, é em grande parte patrocinada pelo latifúndio mais cruel) e vemos uma direita fortalecida que já começa a ameaçar seriamente a reeleição de Dilma Rousseff.
A situação brasileira já não é aquela sonhada pouco antes e noto entre os esquerdistas uma maré baixa depois de uma breve ascensão midiática. Isso de um ano para cá. As esquerdas, com seus erros mal avaliados e mantidos, permitiram a volta de uma direita repaginada, que inclui até mesmo um porta-voz roqueiro, ninguém menos que o antigo ícone de rebeldia Lobão.
Se Lobão agora virou amigo do neo-medieval Olavo de Carvalho, devemos agradecer a Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches que as esquerdas preferiram dar ouvidos. Devemos agradecer à complacência e até uma defesa neurótica de intelectuais progressistas ao "funk" e sua forma caricatural de ver as classes populares.
As esquerdas não conseguiram sequer explicar a contradição que fazem combatendo as baixarias sexuais e machistas em comerciais de TV e a defesa dessas mesmas baixarias no "funk", definindo-as, no caso, como "discurso direto". Tanto ativismo barato para Rachel Sheherazade aparecer da "casa grande" e crescer com seu moralismo obscurantista.
Portanto, as esquerdas erraram nesse sentido. Este blogue passou o tempo todo criticando, mesmo não tendo metade da visibilidade que os intelectuais pró-bregalização possuem. Fizemos muitas advertências, mas a intelectualidade esquerdista não deu ouvidos. Agora elas terão que encarar baixa reputação e chorar quando abrem o Facebook e verem tantos conservadores se expressando.
As esquerdas não contribuíram para a verdadeira transformação no âmbito cultural, ético e outras coisas. Acabaram herdando valores antiquados da ditadura militar e permitiram que a direita, mesmo a golpista, se aproveitasse dessas fraquezas do "fisiologismo" político para adotarem um discurso, verossímil mas tendencioso, de "moralidade" e "conscientização social".
Foram os erros e omissões das esquerdas que fizeram a direita se renovar, com seus roqueiros, filósofos, antropólogos, belas jornalistas, "pit-bulls" jornalísticos e "imortais" da ABL, numa roupagem intelectual bem mais articulada e coesa. As esquerdas precisam ter mais autocrítica, em vez de cantarem vitória nos escombros da derrota. Não se dá voo de Fênix bancando a vítima.
domingo, 4 de maio de 2014
TICIANA VILLAS-BOAS E SEU ELITISMO-OSTENTAÇÃO
AGORA, O NOSSO MAPA DA PREVISÃO - Nuvens pesadas e frente fria chegam na vida de Ticiana Villas-Boas, depois de entrevista que irritou até seu marido.
Por Alexandre Figueiredo
Lindíssima, sexy, formosa, com um jeito meigo de falar e olhares de pura sedução. Ticiana Villas-Boas, que faz aquele tipo de mulher dos sonhos, morena de supercílios grossos, beleza agressiva mas jeito gracioso, todavia se destacou de forma bastante negativa nos últimos meses.
Tudo porque, nos bastidores da TV Bandeirantes de São Paulo, onde a jornalista baiana radicada na capital paulista, ela já causava problemas chegando atrasada para os trabalhos de produção do Jornal da Band - feita a partir de horas de antecedência até pouco antes das transmissões para garantir a eficiência do programa - e, segundo os colegas, já exibe ares de dondoca extravagante e presunçosa.
As coisas começaram de uns três anos para cá, quando ela passou a se relacionar amorosamente com o emergente empresário Joesley Batista, que com seu irmão Wesley, controlam o grupo empresarial JBS, responsável pelas marcas frigoríficas Seara e Friboi, além dos produtos de limpeza corporal Neutrox e Francis.
Só com as marcas Friboi e Seara, os irmãos Batista - nada a ver com outro Batista, o Eike, que também se projetou com esposa famosa e chegou a ser um dos homens mais ricos do país - promoveram seus produtos chamando, como garotos-propagandas, o ator Tony Ramos, o cantor Roberto Carlos e a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes.
Desde 2012, Ticiana está casada com Joesley. A pompa foi tão grande que o casamento teve três cerimônias nupciais. Ela passou a ser considerada a primeira-dama do Friboi, por ser a mais famosa das esposas dos empresários. E hoje ela ostenta um dos maiores salários do telejornalismo da Band.
Com isso, a vaidade da moça - antes uma baiana de classe média que tem até uma foto de biquíni e prancha de surf publicada na Internet - aumentou e ela passou a fazer festas chiques e a buscar maior destaque na chamada alta sociedade.
Até aí, nada demais, mas o problema é que Ticiana passou a comparecer menos aos trabalhos do Jornal da Band, onde ela ajuda a editar as notícias sob o comando de Ricardo Boechat, âncora e colega de bancada, chegando a se ausentar por uns dias só para se concentrar a uma produtora que ela criou com a ajuda do marido, cuja empresa é a maior cliente dos filmes publicitários a serem produzidos.
Isso causou reclamação de colegas, que apelidavam Ticiana de "rainha do camarote", e já causava incômodo até em Boechat, a princípio acostumado com o coleguismo da moça e gentil até com o marido dela. Mesmo assim, o pior só apareceu um pouco mais adiante.
Na semana passada, Ticiana foi entrevistada para a revista Veja e, nela, a jornalista deixou vazar informações sobre os bens de seu marido que, discreto, não queria que fossem alardeados. Além disso, Ticiana acabou dizendo bobagens com as seguintes palavras:
"Eu chego em casa, meu carro já está abastecido, meu motorista faz isso. Outro dia me perguntei quanto era o litro da gasolina. Não sabia. É bom ter dinheiro, não fazer conta, sair para jantar a hora que quiser no restaurante que quiser, poder reformar sempre a casa, ter funcionário na casa".
A entrevista repercutiu tão mal que pode representar um risco sério para a profissão e até para o casamento de Ticiana. Em ambos os casos, a repercussão da entrevista e do elitismo-ostentação da jovem baiana criou impasses terríveis que pesam negativamente para os interesses de crescimento empresarial dos irmãos Batista.
Primeiro, porque seu colega Ricardo Boechat, figura influente no telejornalismo da emissora, já começa a ficar incomodado com os abusos de Ticiana. É certo que o telejornalismo da Band é conservador e tem seus chiliques reacionários, como os ataques ao Movimento dos Sem-Terra e a uma tribo indígena e a contratação de um Bóris Casoy que se revelou bastante reacionário e elitista.
No entanto, a Band prima, mesmo nesses limites ideológicos, por um profissionalismo que a faz ter um relativo diferencial em relação à Globo e à própria Veja, que às vezes parecem produzir panfletos disfarçados de reportagens. É indiscutível a competência profissional de Ricardo Boechat e sua larga experiência como repórter e editor de notícias.
Boechat já está articulando a substituição de Ticiana por Ana Paula Padrão, que havia saído do Jornal da Record e por enquanto está fora da televisão. Se ela se efetivar, o que pode ser bem provável, a empresa JBS ameaça romper com os contratos publicitários nos intervalos do telejornal.
Tudo bem, é possível que a Band arrume mais espaço para os concorrentes da JBS, e pode se virar com marcas como Sadia e Unilever (que trabalha com várias marcas de limpeza corporal e também investe em alimentos), mas é isso mesmo que irá complicar mais as coisas para Ticiana.
O próprio marido ficou irritado com a entrevista da mulher. Discreto e ainda se considerando um empresário em ascensão, Joesley deu uma dura bronca na mulher porque ela deu as informações sobre os bens do marido, que incluem imóvel em Nova York, casa em Angra dos Reis e um jato Legacy, além das próprias fortunas que Joesley e seu irmão Wesley conquistaram como empresários.
Num país em que uma destacada funqueira se autoproclama "100% solteira" para, muito provavelmente, proteger a privacidade de seu marido e evitar envolvê-los em factoides, a atitude da jornalista da Band foi "suicida", o que pode fazer com que o casamento dela com Joesley, se não ruir, o que parece pouco provável, ficará bastante abalado.
A entrevista de Ticiana repercutiu muito mal, de tal forma que dois dos principais colunistas de fofocas da TV, Léo Dias, do jornal carioca O Dia, e Fabíola Reipert, da TV Record de São Paulo, noticiaram os efeitos da mesma.
Com isso, Ticiana Villas-Boas atraiu "nuvens pesadas" para sua vida pessoal, na medida em que criou complicações para os interesses comerciais da TV Bandeirantes e para os projetos empresariais do próprio marido.
Por Alexandre Figueiredo
Lindíssima, sexy, formosa, com um jeito meigo de falar e olhares de pura sedução. Ticiana Villas-Boas, que faz aquele tipo de mulher dos sonhos, morena de supercílios grossos, beleza agressiva mas jeito gracioso, todavia se destacou de forma bastante negativa nos últimos meses.
Tudo porque, nos bastidores da TV Bandeirantes de São Paulo, onde a jornalista baiana radicada na capital paulista, ela já causava problemas chegando atrasada para os trabalhos de produção do Jornal da Band - feita a partir de horas de antecedência até pouco antes das transmissões para garantir a eficiência do programa - e, segundo os colegas, já exibe ares de dondoca extravagante e presunçosa.
As coisas começaram de uns três anos para cá, quando ela passou a se relacionar amorosamente com o emergente empresário Joesley Batista, que com seu irmão Wesley, controlam o grupo empresarial JBS, responsável pelas marcas frigoríficas Seara e Friboi, além dos produtos de limpeza corporal Neutrox e Francis.
Só com as marcas Friboi e Seara, os irmãos Batista - nada a ver com outro Batista, o Eike, que também se projetou com esposa famosa e chegou a ser um dos homens mais ricos do país - promoveram seus produtos chamando, como garotos-propagandas, o ator Tony Ramos, o cantor Roberto Carlos e a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes.
Desde 2012, Ticiana está casada com Joesley. A pompa foi tão grande que o casamento teve três cerimônias nupciais. Ela passou a ser considerada a primeira-dama do Friboi, por ser a mais famosa das esposas dos empresários. E hoje ela ostenta um dos maiores salários do telejornalismo da Band.
Com isso, a vaidade da moça - antes uma baiana de classe média que tem até uma foto de biquíni e prancha de surf publicada na Internet - aumentou e ela passou a fazer festas chiques e a buscar maior destaque na chamada alta sociedade.
Até aí, nada demais, mas o problema é que Ticiana passou a comparecer menos aos trabalhos do Jornal da Band, onde ela ajuda a editar as notícias sob o comando de Ricardo Boechat, âncora e colega de bancada, chegando a se ausentar por uns dias só para se concentrar a uma produtora que ela criou com a ajuda do marido, cuja empresa é a maior cliente dos filmes publicitários a serem produzidos.
Isso causou reclamação de colegas, que apelidavam Ticiana de "rainha do camarote", e já causava incômodo até em Boechat, a princípio acostumado com o coleguismo da moça e gentil até com o marido dela. Mesmo assim, o pior só apareceu um pouco mais adiante.
Na semana passada, Ticiana foi entrevistada para a revista Veja e, nela, a jornalista deixou vazar informações sobre os bens de seu marido que, discreto, não queria que fossem alardeados. Além disso, Ticiana acabou dizendo bobagens com as seguintes palavras:
"Eu chego em casa, meu carro já está abastecido, meu motorista faz isso. Outro dia me perguntei quanto era o litro da gasolina. Não sabia. É bom ter dinheiro, não fazer conta, sair para jantar a hora que quiser no restaurante que quiser, poder reformar sempre a casa, ter funcionário na casa".
A entrevista repercutiu tão mal que pode representar um risco sério para a profissão e até para o casamento de Ticiana. Em ambos os casos, a repercussão da entrevista e do elitismo-ostentação da jovem baiana criou impasses terríveis que pesam negativamente para os interesses de crescimento empresarial dos irmãos Batista.
Primeiro, porque seu colega Ricardo Boechat, figura influente no telejornalismo da emissora, já começa a ficar incomodado com os abusos de Ticiana. É certo que o telejornalismo da Band é conservador e tem seus chiliques reacionários, como os ataques ao Movimento dos Sem-Terra e a uma tribo indígena e a contratação de um Bóris Casoy que se revelou bastante reacionário e elitista.
No entanto, a Band prima, mesmo nesses limites ideológicos, por um profissionalismo que a faz ter um relativo diferencial em relação à Globo e à própria Veja, que às vezes parecem produzir panfletos disfarçados de reportagens. É indiscutível a competência profissional de Ricardo Boechat e sua larga experiência como repórter e editor de notícias.
Boechat já está articulando a substituição de Ticiana por Ana Paula Padrão, que havia saído do Jornal da Record e por enquanto está fora da televisão. Se ela se efetivar, o que pode ser bem provável, a empresa JBS ameaça romper com os contratos publicitários nos intervalos do telejornal.
Tudo bem, é possível que a Band arrume mais espaço para os concorrentes da JBS, e pode se virar com marcas como Sadia e Unilever (que trabalha com várias marcas de limpeza corporal e também investe em alimentos), mas é isso mesmo que irá complicar mais as coisas para Ticiana.
O próprio marido ficou irritado com a entrevista da mulher. Discreto e ainda se considerando um empresário em ascensão, Joesley deu uma dura bronca na mulher porque ela deu as informações sobre os bens do marido, que incluem imóvel em Nova York, casa em Angra dos Reis e um jato Legacy, além das próprias fortunas que Joesley e seu irmão Wesley conquistaram como empresários.
Num país em que uma destacada funqueira se autoproclama "100% solteira" para, muito provavelmente, proteger a privacidade de seu marido e evitar envolvê-los em factoides, a atitude da jornalista da Band foi "suicida", o que pode fazer com que o casamento dela com Joesley, se não ruir, o que parece pouco provável, ficará bastante abalado.
A entrevista de Ticiana repercutiu muito mal, de tal forma que dois dos principais colunistas de fofocas da TV, Léo Dias, do jornal carioca O Dia, e Fabíola Reipert, da TV Record de São Paulo, noticiaram os efeitos da mesma.
Com isso, Ticiana Villas-Boas atraiu "nuvens pesadas" para sua vida pessoal, na medida em que criou complicações para os interesses comerciais da TV Bandeirantes e para os projetos empresariais do próprio marido.
sábado, 3 de maio de 2014
A SENTIDA MORTE DE DOM TOMÁS BALDUÍNO
COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Faleceu na noite de ontem o bispo emérito da cidade de Goiás, antiga capital do Estado homônimo, Dom Tomás Balduíno. Ele esteve à frente em muitos projetos progressistas, como defesa da educação aos pobres, do fortalecimento e integração das comunidades, da reforma agrária e da proteção aos perseguidos pela ditadura militar. Um religioso ativista, que setores conservadores da Igreja Católica não costumam aprovar.
A sentida morte de Dom Tomás Balduino
Por Altamiro Borges - Blog do Miro
A Rádio Nacional da Amazônia foi a primeira a dar a triste notícia do falecimento de um dos maiores símbolos da igreja progressista no Brasil e no mundo. “Morreu nessa sexta-feira (2), às 23h30, em Goiânia, o bispo emérito da cidade de Goiás, dom Tomás Balduino. O religioso tinha 91 anos e morreu em decorrência de uma tromboembolia pulmonar. Ele ficou internado de 14 a 24 de abril no Hospital Anis Rassi, em Goiânia. Teve alta hospitalar no dia 24, mas foi novamente internado no dia seguinte, no Hospital Neurológico, onde permaneceu até ontem”, informou a repórter Maíra Heinen. Para quem teve a alegria de conhecer o carismático dom Tomás Balduino em algumas reuniões, a notícia foi um choque.
Em nota divulgada neste sábado (3), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) fez um breve relato da trajetória combativa e abnegada do líder religioso - que reproduzo abaixo na íntegra:
*****
NOTA DE FALECIMENTO
Dom Tomás Balduino, fundador da CPT, fez a sua páscoa
“Para tudo há uma ocasião certa;
há um tempo certo para cada propósito
debaixo do céu: Tempo de nascer e tempo de morrer,
tempo de plantar
e tempo de arrancar o que se plantou...
tempo de lutar e tempo de viver em paz”.
(Eclesiastes 3:1-8)
É com grande pesar e muita tristeza que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) comunica a todos e todas o falecimento de Dom Tomás Balduino. Fundador da CPT, bispo emérito da cidade de Goiás e frade dominicano, Dom Tomás lutou por toda sua vida pela defesa dos direitos dos pobres da terra, dos indígenas, das demais comunidades tradicionais, e por justiça social. Nem mesmo com a saúde debilitada e internado no hospital ele deixava de se preocupar com a questão da terra e pedia, em conversas, para saber o que estava acontecendo no mundo.
Aos 91 anos, completados em dezembro passado, Dom Tomás Balduino, o bispo da reforma agrária e dos indígenas, nos deixa seu exemplo de luta, esperança e crença no Deus dos pobres. Ficamos, hoje, todos e todas um pouco órfãos, mas seguimos na certeza de quem Dom Tomás está e estará presente sempre, nos pés que marcham por esse país e nas bandeiras que tremulam por esse mundo em busca de uma sociedade mais justa e igualitária.
Dom Tomás faleceu em decorrência de uma trombo embolia pulmonar, às 23h30 de ontem, 02 de maio de 2014. Ele permaneceu internado entre os dias 14 e 24 de abril último no hospital Anis Rassi, em Goiânia. Teve alta hospitalar dia 24, e no dia seguinte foi novamente internado, porém desta vez no Hospital Neurológico, também em Goiânia.
O Corpo será velado na Igreja São Judas Tadeu, no Setor Coimbra, em Goiânia, até às 10 horas do domingo, dia 4 de maio, momento em que será concelebrada a Eucaristia, e logo em seguida será transladado para a cidade de Goiás (GO), onde será velado na Catedral da cidade até às 9 horas da segunda-feira, 5 de maio, e logo em seguida será sepultado na própria Catedral.
Biografia de Dom Tomás Balduino
Dom Tomás Balduino nasceu em Posse, Goiás, no dia 31 de dezembro de 1922. Ele é filho de José Balduino de Sousa Décio, goiano, e de Felicidade de Sousa Ortiz, paulista. Seu nome de batismo é Paulo, Paulo Balduino de Sousa Décio. Foi o último filho homem de uma família de onze filhos, três homens e oito mulheres. Ao se tornar religioso dominicano recebeu o nome de Frei Tomás, como era costume.
Até os cinco anos de idade viveu em Posse. Depois a família migrou para Formosa, onde seu pai se tornou promotor público, depois juiz e se aposentou como tal.
Fez o Seminário Menor – Escola Apostólica Dominicana – em Juiz de Fora, MG. Fez os estudos secundários no Colégio Diocesano, dirigido pelos irmãos maristas, em Uberaba. Cursou filosofia em São Paulo e Teologia em Saint Maximin, na França, onde também fez mestrado em Teologia.
Em 1950, lecionou filosofia em Uberaba. Em 1951 foi transferido para Juiz de Fora como vice-reitor da então Escola Apostólica Dominicana e lecionou filosofia, na Faculdade de Filosofia da cidade.
Em 1957, foi nomeado superior da missão dos dominicanos da Prelazia de Conceição do Araguaia, estado do Pará, onde viveu de perto a realidade indígena e sertaneja. Na época a Pastoral da Prelazia acompanhava sete grupos indígenas. Para desenvolver um trabalho mais eficaz junto aos índios, fez mestrado em Antropologia e Linguística, na UNB, que concluiu em 1965. Estudou e aprendeu a língua dos índios Xicrin, do grupo Bacajá, e Kayapó.
Para melhor atender a enorme região da Prelazia que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do baixo Araguaia mato-grossense, fez o curso de piloto de aviação. Amigos solidários da Itália o presentearam com um teco-teco com o qual prestou inestimável serviço, sobretudo no apoio e articulação dos povos indígenas. Também ajudou a salvar pessoas perseguidas pela Ditadura Militar.
Em 1965, ano em que terminou o Concílio Ecumênico Vaticano II, foi nomeado Prelado de Conceição do Araguaia. Lá viveu de maneira determinante e combativa os primeiros conflitos com as grandes empresas agropecuárias que se estabeleciam na região com os incentivos fiscais da então SUDAM, e que invadiam áreas indígenas, expulsavam famílias sertanejas, os posseiros, e traziam trabalhadores braçais de outros Estados, sobretudo do nordeste brasileiro, que eram submetidos, muitas vezes, a regimes análogos ao trabalho escravo.
Em 1967, foi nomeado bispo diocesano da Cidade de Goiás. Nesse mesmo ano foi ordenado bispo e assumiu o pastoreio da Diocese, onde permaneceu durante 31 anos, até 1999 quando, ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia e mudou-se para Goiânia. Seu ministério episcopal coincidiu, a maior parte do tempo, com a Ditadura Militar (1964-1985).
Dom Tomás, junto à Diocese de Goiás, procurou adequar a Diocese ao novo espírito do Concílio Ecumênico Vaticano II e de Medellín (1968). Por isso sua atuação, ao lado dos pobres, no espírito da opção pelos pobres, marcou profundamente a Diocese e seu povo. Lavradores se reuniam no Centro de Treinamento onde Dom Tomás morava, para definir suas formas de organização e suas estratégias de luta. Esta atuação provocou a ira do governo militar e dos latifundiários que perseguiram e assassinaram algumas lideranças dos trabalhadores. Em julho de 1976, Dom Tomás foi ao sepultamento do Padre Rodolfo Lunkenbein e do índio Simão Bororo, assassinados pelos jagunços, na aldeia de Merure, Mato Grosso. Em sua agenda estava programada uma outra atividade. Soube depois, por um jornalista, que durante esta atividade programada, estava sendo preparada uma emboscada para eliminá-lo.
Alguns movimentos nacionais como o Movimento do Custo de Vida, a Campanha Nacional pela Reforma Agrária, encontraram apoio e guarida de Dom Tomás e nasceram na Diocese de Goiás.
Dom Tomás foi personagem fundamental no processo de criação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em 1972, e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975. Nas duas instituições Dom Tomás sempre teve atuação destacada, tendo sido presidente do CIMI, de 1980 a 1984 e presidente da CPT de 1999 a2005. A Assembleia Geral da CPT, em 2005, o nomeou Conselheiro Permanente.
Depois de deixar a Diocese, além de ser presidente da CPT, desenvolveu uma extensa e longa pauta de conferências e palestras em Seminários, Simpósios e Congressos, tanto no Brasil quanto no exterior. Por sua atuação firme e corajosa recebeu diversas condecorações e homenagens Brasil afora. Em 2002, a Assembleia Legislativa do Estado de Goiás lhe concedeu a medalha do Mérito Legislativo Pedro Ludovico Teixeira. No mesmo ano recebeu o Título de Cidadão Goianiense, outorgado pela Câmara Municipal de Goiânia.
Foi designado, em 2003, membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, CDES, do Governo Federal, cargo que deixou por sentir que pouco ou nada contribuía para as mudanças almejadas pela nação brasileira. Foi também nomeado membro do Conselho Nacional de Educação.
No dia 8 de novembro de 2006, Dom Tomás recebeu da Universidade Católica de Goiás (UCG) o título de Doutor Honoris Causa, devido ao comprometimento de Dom Tomás com a luta pelo povo pobre de Deus.
No dia 18 de abril de 2008 recebeu em Oklahoma City (EUA), da Oklahoma City National Memorial Foudation, o prêmio Reflections of Hope. A organização considerou que as ações de Dom Tomás são exemplos de esperança na solução das causas que levam a miséria de tantas pessoas em todo o mundo. A premiação Reflections of Hope foi criada em 2005 para lembrar o 10º aniversário do atentado terrorista de Oklahoma – quando um caminhão-bomba explodiu em frente a um edifício, matando 168 pessoas – e para homenagear aqueles que representam a esperança em meio à tragédia e dedicam suas vidas para melhorar a vida do próximo.
De 22 até 29 de março 2009 foi em Roma para participar das palestras em homenagem de Dom Oscar Romero e dos 29 anos do seu assassinato.
Em 2012 a Universidade Federal de Goiás (UFG) também lhe outorgou o título de Doutor Honoris Causa. Em dezembro do mesmo ano, durante as comemorações dos seus 90 anos, a CPT homenageou-o dando o seu nome ao Setor de Documentação da Secretaria Nacional, que passou a se chamar “Centro de Documentação Dom Tomás Balduino”.
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Na última vez em que estive com dom Tomas Balduino, no Colégio Pio XI, em São Paulo, ele se mostrou preocupado com os rumos políticos do Brasil. Para ele, o governo Dilma Rousseff, com sua visão “economicista e tecnocrática”, teria firmado um pacto com os barões do agronegócio, preocupado apenas com o saldo da balança comercial, e já não teria compromissos com a reforma agrária e justiça social no campo. Ele também se mostrou temeroso com o rebaixamento do debate político, antevendo que isto favoreceria a direita nativa. Apesar do diagnóstico pessimista, ele não abandonara o seu otimismo para a luta. Beirando os 90 de idade, ele se comportava como um jovem cheio de energia transformadora.
Mesmo com as críticas aos governos de Lula e Dilma, dom Tomás Balduino nunca perdeu o rumo e o prumo. Na disputa presidencial de 2010, ele não vacilou em apoiar a continuidade deste projeto. Na véspera do segundo turno da eleição, ele articulou um manifesto de lideranças católicas e evangélicas favorável à candidatura petista. Em entrevista ao site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), ele explicou sua atitude: “Só temos duas alternativas: Serra ou Dilma. Agora, é salvar o que se pode salvar. A questão não é o amor a Dilma, mas o ódio ao projeto de Serra. O significado da opção por Dilma é a possibilidade da caminhada dos sem-terra, dos negros, dos índios sem repressão... Trata-se de derrotar a ‘direitona’ que é contra os pobres, negros, índios e camponeses. Em oito anos, Lula teve muitos defeitos e equívocos, mas ele não implementou a repressão”.
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quinta-feira, 1 de maio de 2014
ROBERTO CARLOS LANÇA LIVRO DE FOTOS, COMO APERITIVO PARA AUTOBIOGRAFIA
PARA DESESPERO DOS FAROFAFEIROS, O "REVOLUCIONÁRIO" LUAN SANTANA FOI CUMPRIMENTAR ROBERTO CARLOS. PROCUREM SABER!!
Por Alexandre Figueiredo
Roberto Carlos, o líder daquele movimento Procure Saber, que condenava a produção de biografias não-autorizadas, lançou seu livro anteontem, numa livraria de um shopping em São Paulo. Não, não se trata ainda da prometida autobiografia, mas de um livro de fotos de vários momentos de sua carreira. Mas é um aperitivo para o prometido livro do "Rei".
Ultimamente, a reputação do cantor capixaba, antes considerado uma unanimidade até por intelectuais festivos e por artistas pós-tropicalistas, ficou arranhada por causa do episódio do Procure Saber, que expressou um zelo excessivo de Roberto com sua imagem particular, se esquecendo que ele hoje se trata de uma figura pública.
Nem mesmo o episódio de um acidente que o fez amputar uma perna Roberto tem interesse em explicar, embora prometesse esclarecer o episódio na sua autobiografia. Ou mesmo suas superstições, sua obsessão por determinadas cores, a aversão por outras, Roberto se recusa a esclarecer sobre sua estranhezas pessoais.
Já "abalado" pelo Procure Saber, Roberto ainda mostrou mais uma estranheza. Declarando-se não comer carne vermelha há muito tempo, o que fez a imprensa sensacionalista exagerar e classificar o cantor como "vegetariano" (deixemos a coincidência com o cantor inglês Morrissey para o simples ato de jogar flores para a plateia), ele fez um comercial para a indústria de carnes Friboi.
Roberto Carlos havia sido cortejado por intelectuais e artistas de corrente pós-tropicalista e simpatizantes da bregalização cultural depois que, introduzindo o pop comercial na música brasileira, liderou uma corrente de fusão do comercialismo pop e do provincianismo popularesco simbolizada por Odair José, Michael Sullivan, Amado Batista, Dom & Ravel, José Augusto e Fábio Jr..
Essa unanimidade durou muito tempo, sobretudo apoiada por um Caetano Veloso no auge da carreira, antes do cantor baiano começar a ter sua reputação abalada com as brigas com a imprensa, que acusava o tropicalista de oportunista e prepotente. Caetano também não é mais a unanimidade que havia sido antes.
Mas, "reis" desacreditados, reinado mantido. Todo o programa de governo da aliança jovemguardo-tropicalista foi mantido, apesar do descrédito de seus precursores, e a intelectualidade "bacana", diante do episódio Procure Saber (que teve, em primeira instância, o apoio de Caetano), quis trocar o seis pelo meia-dúzia, julgando que a cultura se salvará com Luan Santana, Michel Teló e Thiaguinho.
Sim, e foi através do Farofafá que esses queridinhos das Organizações Globo, na cara da mídia esquerdista, eram promovidos como se fossem a "salvação" para a caretice dos medalhões emepebistas que se juntavam no movimento Procure Saber que, por incrível que pareça, era de corrente oposta a de outros medalhões que se juntavam no episódio do ECAD.
E, para desespero dos farofafeiros, que acham que a revolução zapatista-guevarista-bolivariana se dará com Luan Santana, Thiaguinho, Michel Teló e, sobretudo, todo o "funk carioca", o primeiro destes citados foi com muito prazer para o evento de Roberto Carlos cumprimentar o próprio, como se vê claramente na foto.
Claro, a intelectualidade "bacana" tem a tentação de dizer que se trata de uma invasão conspiratória. Luan Santana, o "guerrilheiro" da "cultura transbrasileira", foi lá para dizer ao "rei deposto" que o reino dele já era e que agora a "rebelião popular" de arqueobregas e simpatizantes, inclusive funqueiros, instaurou a "revolução socialista" no país.
Só que, numa invasão, a vítima não aparece sorrindo ao lado do algoz. Não há abraços entre invadido e invasor. A intelectualidade fez vista grossa quando Joelma e Chimbinha apareceram abraçados ao neocon Marcelo Madureira e só caíram na real quando Joelma desagradou os intelectuais "bacaninhas" expressando uma homofobia digna de um Marco Feliciano.
O que se afirma, no momento, é que Roberto apresentou aos leitores sua biografia fotográfica, enquanto ele mesmo escreve sua biografia oficial, provavelmente sob a ajuda de algum outro escritor. O que Roberto revelará ou esconderá de si só será mesmo observado depois que o livro for publicado. Até lá, não procuremos saber muita coisa agora. Porque iremos sabê-las ou não no momento certo.
Por Alexandre Figueiredo
Roberto Carlos, o líder daquele movimento Procure Saber, que condenava a produção de biografias não-autorizadas, lançou seu livro anteontem, numa livraria de um shopping em São Paulo. Não, não se trata ainda da prometida autobiografia, mas de um livro de fotos de vários momentos de sua carreira. Mas é um aperitivo para o prometido livro do "Rei".
Ultimamente, a reputação do cantor capixaba, antes considerado uma unanimidade até por intelectuais festivos e por artistas pós-tropicalistas, ficou arranhada por causa do episódio do Procure Saber, que expressou um zelo excessivo de Roberto com sua imagem particular, se esquecendo que ele hoje se trata de uma figura pública.
Nem mesmo o episódio de um acidente que o fez amputar uma perna Roberto tem interesse em explicar, embora prometesse esclarecer o episódio na sua autobiografia. Ou mesmo suas superstições, sua obsessão por determinadas cores, a aversão por outras, Roberto se recusa a esclarecer sobre sua estranhezas pessoais.
Já "abalado" pelo Procure Saber, Roberto ainda mostrou mais uma estranheza. Declarando-se não comer carne vermelha há muito tempo, o que fez a imprensa sensacionalista exagerar e classificar o cantor como "vegetariano" (deixemos a coincidência com o cantor inglês Morrissey para o simples ato de jogar flores para a plateia), ele fez um comercial para a indústria de carnes Friboi.
Roberto Carlos havia sido cortejado por intelectuais e artistas de corrente pós-tropicalista e simpatizantes da bregalização cultural depois que, introduzindo o pop comercial na música brasileira, liderou uma corrente de fusão do comercialismo pop e do provincianismo popularesco simbolizada por Odair José, Michael Sullivan, Amado Batista, Dom & Ravel, José Augusto e Fábio Jr..
Essa unanimidade durou muito tempo, sobretudo apoiada por um Caetano Veloso no auge da carreira, antes do cantor baiano começar a ter sua reputação abalada com as brigas com a imprensa, que acusava o tropicalista de oportunista e prepotente. Caetano também não é mais a unanimidade que havia sido antes.
Mas, "reis" desacreditados, reinado mantido. Todo o programa de governo da aliança jovemguardo-tropicalista foi mantido, apesar do descrédito de seus precursores, e a intelectualidade "bacana", diante do episódio Procure Saber (que teve, em primeira instância, o apoio de Caetano), quis trocar o seis pelo meia-dúzia, julgando que a cultura se salvará com Luan Santana, Michel Teló e Thiaguinho.
Sim, e foi através do Farofafá que esses queridinhos das Organizações Globo, na cara da mídia esquerdista, eram promovidos como se fossem a "salvação" para a caretice dos medalhões emepebistas que se juntavam no movimento Procure Saber que, por incrível que pareça, era de corrente oposta a de outros medalhões que se juntavam no episódio do ECAD.
E, para desespero dos farofafeiros, que acham que a revolução zapatista-guevarista-bolivariana se dará com Luan Santana, Thiaguinho, Michel Teló e, sobretudo, todo o "funk carioca", o primeiro destes citados foi com muito prazer para o evento de Roberto Carlos cumprimentar o próprio, como se vê claramente na foto.
Claro, a intelectualidade "bacana" tem a tentação de dizer que se trata de uma invasão conspiratória. Luan Santana, o "guerrilheiro" da "cultura transbrasileira", foi lá para dizer ao "rei deposto" que o reino dele já era e que agora a "rebelião popular" de arqueobregas e simpatizantes, inclusive funqueiros, instaurou a "revolução socialista" no país.
Só que, numa invasão, a vítima não aparece sorrindo ao lado do algoz. Não há abraços entre invadido e invasor. A intelectualidade fez vista grossa quando Joelma e Chimbinha apareceram abraçados ao neocon Marcelo Madureira e só caíram na real quando Joelma desagradou os intelectuais "bacaninhas" expressando uma homofobia digna de um Marco Feliciano.
O que se afirma, no momento, é que Roberto apresentou aos leitores sua biografia fotográfica, enquanto ele mesmo escreve sua biografia oficial, provavelmente sob a ajuda de algum outro escritor. O que Roberto revelará ou esconderá de si só será mesmo observado depois que o livro for publicado. Até lá, não procuremos saber muita coisa agora. Porque iremos sabê-las ou não no momento certo.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
"FUNK", FIFA E A ESQUERDA DOMESTICADA QUE A DIREITA GOSTA
Por Alexandre Figueiredo
A intelectualidade "bacaninha" se prepara para a Copa. Seus elogios ao "País do Futebol", dos queridinhos da intelligentzia, Emicida e MC Guimê, fazendo a trilha sonora daquela visão de "periferia dos sonhos" que os intelectuais "mais legais do país", porque só eles detém o microfone aberto da visibilidade fácil, tanto querem.
Nada de enchente nas favelas. Nada de gente pobre fazendo passeatas. Nada de protestos contra a morte do dançarino DG, na sua condição de cidadão, morto misteriosamente numa área praticamente sitiada pelo crime, em plena Copacabana. Mas tudo do sensacionalismo funqueiro que se apropria do falecimento de DG e o transforma num revolucionário que ele nunca foi.
Tudo de Copa do Mundo. De "funk" seja o da ostentação, seja o do beijinho no ombro, convertido a "música bem brasileira" para atrair turistas cheios de dólares, embora se prevê que eles sejam bem poucos para transformar o país do futebol na maior potência do primeiro mundo, até porque a China já colocou seu trem-bala na frente, apesar de seus pesares.
O "funk" agora está em clima de Copa. País do futebol, gol de Neymar e sorrisos dos "cartolas" da FIFA e da CBF. Só não se deve espalhar esse terceiro aspecto porque a intelligentzia corre de medo e seus adeptos partem para a choradeira. O "popular", mesmo caricato, não pode ser desmascarado sob pena de estragar a festa dos "bacanas".
De resto, a intelectualidade da esquerda domesticada, dos seus porta-vozes pró-brega, vindos dos porões da Folha de São Paulo, do Estadão, da Rede Globo e do próprio PSDB, para anunciar o pseudo-socialismo em forma de "funk" e jogar a culpa toda em Milton Nascimento e Wilson Simonal.
Sim, a intelligentzia agora quer separar Milton Nascimento do círculo social de Chico Buarque. Isolar o compositor de "A Banda" e seus pares bossanovistas num calabouço fechado, pelo simples pecado de servir a MPB de boas melodias. O que interessa agora é "funk", ritmo que agora se acha dono do samba, do baião, da Bossa Nova, de tudo.
O "funk" é servido pela intelectualidade "bacana" como o projeto revolucionário que supostamente assusta a direita, mas deixa ela tranquilinha. Grande teatro de Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e afins, eles que simbolizam a "esquerda" que a direita tanto adora.
Pois essa "esquerda" quer nos fazer convencer que com "funk" o Brasil poderá desenvolver o progresso social num remexer de glúteos, desenvolvendo a "autoesculhambação" popular que intelectuais supostamente progressistas pregam com entusiasmo, para depois passarem seus microfones para a "consciência social" de Sheherazades e Constantinos.
Sim, porque intelectuais supostamente progressistas, que acreditam no progresso social do "beijinho no ombro" e da "dança da bundinha", deixam as forças progressistas no ridículo. Tentam empastelar as causas sociais achando que glúteos siliconados vão resolver a crise cultural do país, com toda a culpa agora jogada indevidamente para Chico Buarque e seus consortes.
A ORDEM É SER AMERICANIZADO MESMO. NADA MAIS "TRANSBRASILEIRO" QUE ISSO
Enquanto isso, o que tiver de MPB autêntica que esteja obediente aos mecanismos da indústria cultural, que aceite o "funk", que dance com Valesca Popozuda e MC Guimê seus sucessos, que inclua a "poesia" de Emicida que faz rap brasileiro ao gosto de seu financiador George Soros, e a cultura de verdade que seja jogada para museus e mansões.
No "funk", a ordem agora é ser americanizado. Camiseta com a estátua da liberdade. Consumo de grandes marcas, sobretudo estrangeiras. Mais consumo, menos cidadania. E o Brasil dos intelectuais "bacanas" só deve ser o "verdadeiro Brasil" que pode ser tudo, seja italiano, norte-americano, mexicano ou espanhol, só não pode ser brasileiro.
O "funk" agora é o "samba". O samba é que não pode ser samba. Sambas autênticos agora viraram "Zona Sul", nada mais do "Rio Zona Norte" que dizia que o povo pobre era o samba, natural do Rio de Janeiro, representado por Zé Kéti. Sambas do morro agora só são privilégio de gente do Leblon, a mesma acusada de trair o samba com arranjos jazzificados.
E toda essa avacalhação "cultural" serve para intelectuais etnocêntricos e "bacaninhas" seduzirem as esquerdas. Pedro Sanches comanda o coreto, acreditando numa gororobização cultural, numa mistura confusa, e tenta nos fazer crer que isso é "socialismo cultural".
Mas esse empastelamento ideológico tem um propósito. Deixa-se as esquerdas e as forças progressistas acreditarem num "Brasil mais brega" - que na verdade nada tem a ver com progresso sócio-cultural - para depois abrir caminho para uma réplica mais "conscientizada" nas vozes elitistas de Rachel Sheherazade e Rodrigo Constantino.
O objetivo dos farofafeiros é esse mesmo. Corrompe-se o discurso esquerdista, com toda a defesa da bregalização através, sobretudo, do "funk", acreditando numa "mistura" sem pé e nem cabeça, enquanto deixa a tese de progresso sócio-cultural como letra morta para os discursos inflamados da direita intelectual.
Mas tudo isso não cria oposições. Afinal MC Guimê está no Farofafá, mas está na mesma Veja de Lobão, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e Rodrigo Constantino. Valesca Popozuda está na Rede Globo dos "urubus da mídia" do professor Antônio Kubitschek. Emicida aparece até em Caras. Mr. Catra é amigo de Luciano Huck que é amigo de Aécio Neves. Que oposição é essa, afinal?
Daí que os liberais da bregalização sócio-cultural e os conservadores do pseudo-iluminismo obscurantista se revezam em discursos que seus respectivos partidários julgam "progressistas". No fundo uns e outros, farofafeiros e urubólogos falam a mesma língua do desvio do verdadeiro debate político, social, econômico e cultural, num país que precisa se reformular.
terça-feira, 29 de abril de 2014
ESQUERDAS, CORRUPÇÃO E AUTORITARISMO
Por Alexandre Figueiredo
Ser de esquerda e criticar as esquerdas não é atitude contraditória. Num determinado momento, essas críticas são necessárias, porque em diversos planos ideológicos, há sérios conflitos de interesses e divergências muito sérias, que não é o silêncio corporativista a solução para este problema.
Até mesmo dentro das Forças Armadas que comandaram a ditadura militar havia divergências sérias. Tanto que seu artífice pioneiro, o general Olímpio Mourão Filho, não ganhou destaque no grupo que tomou o poder depois da expulsão de João Goulart do poder, em 1964.
Além disso, do grupo civil-militar como um todo, houve expurgo de Carlos Lacerda, o maior defensor do golpe militar, e por outro lado a divergência contra o general extremista Sylvio Frota, que queria uma revitalização da linha dura. Moderados e radicais se debatiam e se divergiam dentro das altas patentes do Exército, Marinha e Aeronáutica.
Quanto ao Partido dos Trabalhadores, tenho uma postura realista que incomoda tanto esquerda quanto direita. Me incomoda tanto a esquerda petista definir Lula como o "maior líder brasileiro de todos os tempos" quanto a direita definir o ex-presidente como "gângster" ou "chefe dos maiores escândalos de corrupção da História do Brasil". Nem um, nem outro.
Evidentemente, o Partido dos Trabalhadores tinha tudo para ser o melhor e mais equilibrado partido político do Brasil. Poderia ter sido o símbolo de um partido progressista de verdade, não fossem seus vícios de fazer alianças sem critérios éticos e sacrificar seus princípios em prol de vantagens políticas e eleitorais.
Da mesma forma, José Dirceu e José Genoíno, remanescentes de uma geração que lutou contra a ditadura militar, poderiam até mesmo dar a volta por cima e se tornarem grandes líderes políticos. Mas o problema é que eles até agora não explicaram por que se envolveram com o esquema de Marcos Valério e nem tiveram autocrítica suficiente diante do episódio do "mensalão".
Eles morderam a isca de Marcos Valério ou mergulharam com gosto na corrupção? Quando convinha, o PT se aliava a corruptos para obter vantagens. Paciência. O PT é uma Torre de Babel que gerou dissidências diversas, em vários caminhos ideológicos. E se há "fisiológicos" no PT, há gente bastante honesta, também.
Daí o problema. Os principais membros do PT chegam a domesticar seu projeto de governo para tornar aceitável para aliados "importantes" mas não muito confiáveis. E isso é que mancha o partido, e faz com que hoje tenha uma campanha bastante articulada para evitar a reeleição de Dilma Rousseff.
É claro que não vamos querer só o PT no poder. Mas também estranha essa histeria direitista, que atribui os males da humanidade ao esquerdismo. Chegam a dizer que o judeu Karl Marx inventou os regimes fascistas do século XX, num extremo de delírio reacionário.
Esse desequilíbrio ideológico é que incomoda. É certo que, historicamente, o Partido Comunista Brasileiro (desde os tempos em que o PCB se chamava Partido Comunista do Brasil, até "doar" esta nomenclatura ao PC do B) cometeu excessos, vivia de seu autoritarismo pragmático, cometida dirigismo ideológico e coisa e tal, mas daí a dizer que o comunismo inventou o fascismo é delírio puro.
Há a histeria militante dos esquerdistas. Larguei a Causa Operária, no qual tentei me envolver em 1992, porque teria que abandonar minha vida para ficar na militância. Fui acusado de "pequeno burguês". Tinha que ser um militante sem lar, vivendo de esmolas e só fazendo atividades ligadas ao grupo, que ainda não havia criado o PCO.
É muito complicado criticar as esquerdas sendo esquerdista e sem aderir a corporativismos ou tendências "festivas". A intelectualidade "bacana", que não é necessariamente esquerdista - gente como Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo surgiram dos porões acadêmicos do PSDB - , é que soa estranha criticando tanto as esquerdas mesmo se autoproclamando "esquerdista".
Lidar com coerência é difícil. É muito mais cômodo obedecer a impulsos e paixões do que ponderar as questões de forma objetiva. Sobretudo numa época em que o esquerdismo, depois de alguns breves anos de aparente modismo, passou a estar em baixa.
Daí que os antigos pseudo-esquerdistas passaram para a direita, descontando uns baba-ovos que dependem das verbas do Ministério da Cultura e outras instituições no momento controladas pelo PT, PSOL ou similares.
Esses pseudo-esquerdistas, que torciam por Fernando Collor em 1989 e por Fernando Henrique Cardoso em 1994, posaram de "esquerdistas eternos e convictos" em 2005 até discretamente demonstrarem simpatia "independente" por Yoani Sanchez, Rodrigo Constantino e Rachel Sheherazade.
Pessoas que, dependendo do contexto ou das conveniências, defendem tanto a classificação da funqueira como "pensadora" quanto aplaudem a entrada de Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras. Bajulam Che Guevara para forçar o falso esquerdismo, enquanto depois louvam Yoani Sanchez como "voz independente das massas".
As esquerdas erram, e muito, mas não significa que pseudo-esquerdistas se confundam com esquerdistas autênticos, mas falhos. Os pseudo-esquerdistas fazem muito mais em favor das direitas, já que no fundo integram suas fileiras. O pseudo-esquerdismo se aproveita dos pontos fracos das esquerdas e oferece munição para a direita dar sua réplica.
No momento a moda é a direita "moderna" de filósofos, roqueiros, apresentadoras de opinião forte, intelectuais privatistas que se dizem "a favor do povo" e "pit-bulls" jornalísticos. As esquerdas estagnaram-se no discurso, se achando vitoriosas.
As esquerdas foram abaladas por seus próprios erros, seja a corrupção estatal, seja a conivência com a degradação da cultura popular - a pretexto da dita "ruptura de preconceitos" - , seja a corrupção estatal, seja os antigos métodos, visões e perspectivas que transformaram o antigo comunismo numa doutrina velha e sem graça.
Depois de um breve período de ascensão, as esquerdas parecem se acomodarem. Corrupção, autoritarismo, condescendência com os erros e equívocos, tudo isso cria uma névoa para o futuro do esquerdismo no Brasil. A não ser que uma forte autocrítica possa iluminar mentes cansadas e viciadas.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
ATÉ PARECE DE PROPÓSITO
METIDA A PROGRESSISTA, INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA ESTARIA DANDO A DEIXA PARA PESSOAS COMO RODRIGO CONSTANTINO FAZEREM ABORDAGENS "SOCIAIS".
Por Alexandre Figueiredo
Até parece que fazem de propósito. Intelectuais que defendem a bregalização do país adotam uma postura falsamente progressista, vão para os cenários da mídia esquerdista para imporem seus pontos de vista, influenciando gente no meio, para depois abrirem caminho para a "consciência social" de direitistas como Rodrigo Constantino e Rachel Sheherazade.
Já vi situações constrangedoras de blogueiros esquerdistas que eu admirava, que adotaram posturas favoráveis a gente que nem é progressista assim, como Waldick Soriano (conservador), José Augusto (queridinho de Michael Sullivan e da Rede Globo) e até mesmo uma postura de achar que letra de axé-music composta por empresário do setor tem "tese marxista" (?!).
Não, não virei um novo Carlos Lacerda. Continuo posicionado ideologicamente à esquerda, embora o esquerdismo tenha perdido sua força nos últimos dois anos, agravado principalmente por denúncias de corrupção que seus envolvidos não conseguem desmentir de forma definitivamente convincente. Continuo um esquerdista sem partido e mais voltado ao ceticismo do que à militância.
O que preocupa é que essa campanha que a intelectualidade dita "bacana" de promover o brega e seus derivados - inclusive o "funk" - como se fosse o movimento bolivariano-guevarista-zapatista brasieiro, além de soar bastante ridículo, ela dá a deixa para a direita, que nunca se dedicou ao povo, posar de "defensora das causas populares".
Fica um quadro meio febeapiano, em alusão aos livros de Febeapá que Sérgio Porto, sob a alcunha de Stanislaw Ponte Preta, havia escrito nos anos 60. A intelectualidade progressista comprometida não com o progresso cultural, mas com o retrocesso que mantém o povo pobre preso nos seus próprios estereótipos, e a intelectualidade conservadora que agora fala em nome do povo.
Se bem que isso também soaria uma sinopse de um filme de Luís Buñuel. A situação é tão surreal que foram precisos muitos argumentos para desmascarar certos intelectuais surgidos nos porões pré-PSDB das elites tucanas da USP, porque eles estavam à beira de convencer as elites pensantes do país de que só se fará socialismo com "funk", o que é uma visão absurda e improcedente.
A campanha pela bregalização era tal que nem mesmo o dedo da Globo Filmes, das Organizações Globo, no filme Os Dois Filhos de Francisco, intimidou a intelligentzia a convencer as esquerdas a aceitar Zezé di Camargo & Luciano. Eles até ocultaram que votaram no ruralista Ronaldo Caiado para deputado federal, na esperança de estarem vinculados a um falso zapatismo brasileiro.
E se os "pensadores mais legais do país", que chamam até funqueira para juntar-se à sua classe, acreditavam que poderia se fazer zapatismo com breganejo, eles então tentaram convencer, com tantos apelos, que o "funk" tão grotesco e brutal era a peça-chave para o "novo socialismo brasileiro", numa campanha que está longe de terminar, de tão marqueteira e tendenciosa que é.
A essas alturas, a Globo Filmes preferiu esconder sua marca no documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, talvez como estratégia para vender o filme como se fosse "independente" e feito "sem recursos", numa tática sutil de evitar o vínculo do "funk" com os barões da grande mídia.
Tornou-se um fenômeno inédito, de efeitos devastadores para nossa cultura, que a intelectualidade pró-brega, tendenciosamente posicionada para a esquerda, defendesse tanto a cafonização cultural do Brasil, com argumentos que beiram à "urubologia" mais aberta, apesar de estrategicamente difundidas nos meios esquerdistas.
Criou-se até uma situação surreal, de intelectuais esquerdistas endeusarem o direitista Waldick Soriano e esculhambarem o esquerdista Chico Buarque. Ou endeusarem os funqueiros, que apunhalam as esquerdas pelas costas para se aliarem aos barões da mídia, e depreciarem violentamente Chico Buarque, que sempre foi fiel às causas esquerdistas.
A intelectualidade pró-brega dizia condenar o preconceito, o elitismo, o moralismo, se julgava detentora da mais fiel consciência social, mas era a primeira a defender uma visão estereotipada e até idiotizada do povo pobre, como se ela fosse a "verdadeira visão" das classes populares.
Preconceituosos, elitistas e moralistas, esses intelectuais "tão legais" e "tão gente boa" desejavam que o povo ficasse preso nas favelas, ficasse preso nos seus ideais de pobreza, limitando a sua emancipação social a serviços básicos, proteção da lei contra abusos extremos e mais dinheiro para aumento de consumo.
De resto, os intelectuais até se revoltam diante da hipótese de desfavelização ou do fim da prostituição com a inserção de suas "profissionais" em outros ramos de emprego, como serem professoras, costureiras, cozinheiras ou até advogadas.
Acham que tais visões de emancipação social "radical" - hoje desejar melhorias é "ser radical" - são sinônimos de elitismo, higienização social e outras alegações. E há um medo da intelectualidade de ver aquela música popular do passado, como sambas, baiões, modinhas e outros, serem devolvidos ao povo pobre que ficou privado deles depois que a ditadura rachou a aliança entre o povo e os intelectuais do CPC da UNE.
Já li intelectuais "progressistas" achando que o povo pobre não pode mais fazer baiões ou sambas. Já vi dirigente funqueiro cortejado pelas esquerdas - mas também colunista de um periódico das Organizações Globo - dizendo que os jovens das periferias não têm o compromisso de assumir a cultura de seus antepassados, numa visão claramente anti-cultural, porque cultura é herança, sim.
Enquanto isso acontece, surgem na direita militantes conservadores que questionam a estereotipação social das classes populares. Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade. Isso é de deixar qualquer um com a mente confusa.
Afinal, a direita sempre defendeu o grande capital e o interesse privado. Cultura popular é só um detalhe. A ditadura militar favoreceu ídolos bregas. Mas hoje a bregalização está associada à esquerda. A direita que apoiou a ditadura agora fala contra a imagem estereotipada do povo pobre. Reinaldo Azevedo falando mal da idiotização do povo pobre? É realmente isso que está acontecendo?
Daí a desconfiança. Um mesmo pano de fundo produziu Pedro Alexandre Sanches e Reinaldo Azevedo, Denise Garcia e Rachel Sheherazade, Ronaldo Lemos e Rodrigo Constantino, Paulo César Araújo e Merval Pereira.
São os mesmos valores neoliberais rachados como um sorvete napolitano servido em caixa, em que a parte da baunilha com morango fosse servida para uns e a da baunilha com chocolate fosse servida para outros. E essa "distribuição" de pontos de vista parece soar algo combinado.
Tudo parece de propósito. Afinal a bregalização do país é claramente apoiada pelos barões da mídia que os intelectuais que defendem a bregalização dizem condenar. Só que eles também não se posicionam claramente sobre assuntos como regulação da mídia, ficam cheios de dedos, achando que a "Lei dos Meios" criasse uma "areia movediça" a tragar tanto "urubólogos" quanto funqueiros.
Aí uns ficam brincando de criticar os outros. De repente, um representante da direita intelectual, o "filósofo" Luiz Felipe Pondé - integrante de um meio que se destaca com a rebeldia neocon do roqueiro Lobão, o "Carlos Lacerda" de um neo-udenismo "roqueiro" simbolizado pelas rádios 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ) - acusou os "esquerdistas festivos" de serem "pegadores de mulheres".
Por outro lado, vemos um professor como Antônio Kubitschek, que, ao classificar uma funqueira como "grande pensadora contemporânea", disse ter oferecido a "carniça" para ser mordida pelos "urubus da mídia". Tudo esse teatrinho em que intelectuais festivos e intelectuais zangados trocam supostos ataques, enquanto as periferias pegam fogo em todo o país.
Os intelectuais pró-brega atacam a direita intelectual por causa de frescuras moralistas, já os intelectuais neocon atacam a "esquerda festiva" por causa de desvios boêmios. Trocas de acusações, de ataques, feitos para desviar a opinião pública, enquanto o quadro sócio-cultural das classes populares se degrada no contexto da crise de hoje.
Fica tudo muito estranho. Parece uma combinação entre pró-bregas e "urubólogos" para que, num suposto "equilíbrio" ideológico, os mais "progressistas" defendessem o retrocesso cultural e os mais retrógrados defendessem uma "melhor consciência social".
Os porta-vozes do povo defendendo um povo caricato e os porta-vozes das elites falando em qualidade de vida para as classes populares. Não é estranho? Será uma manobra para desmoralizar as esquerdas e fortalecer a direita, através de uma suposta visão cidadã lançada no vácuo deixado pelos delírios caricaturais relativos ao povo pobre dos intelectuais pró-brega?
Isso acaba sendo mais uma dicotomia de liberais e conservadores que, nos EUA, resulta na falsa polaridade entre o Partido Democrata e o Partido Republicano. E que mostra que Coletivo Fora do Eixo e Instituto Millenium são apenas duas faces de uma só moeda.
O Brasil precisa de uma outra intelectualidade, que seja igualmente progressista e popular.
Por Alexandre Figueiredo
Até parece que fazem de propósito. Intelectuais que defendem a bregalização do país adotam uma postura falsamente progressista, vão para os cenários da mídia esquerdista para imporem seus pontos de vista, influenciando gente no meio, para depois abrirem caminho para a "consciência social" de direitistas como Rodrigo Constantino e Rachel Sheherazade.
Já vi situações constrangedoras de blogueiros esquerdistas que eu admirava, que adotaram posturas favoráveis a gente que nem é progressista assim, como Waldick Soriano (conservador), José Augusto (queridinho de Michael Sullivan e da Rede Globo) e até mesmo uma postura de achar que letra de axé-music composta por empresário do setor tem "tese marxista" (?!).
Não, não virei um novo Carlos Lacerda. Continuo posicionado ideologicamente à esquerda, embora o esquerdismo tenha perdido sua força nos últimos dois anos, agravado principalmente por denúncias de corrupção que seus envolvidos não conseguem desmentir de forma definitivamente convincente. Continuo um esquerdista sem partido e mais voltado ao ceticismo do que à militância.
O que preocupa é que essa campanha que a intelectualidade dita "bacana" de promover o brega e seus derivados - inclusive o "funk" - como se fosse o movimento bolivariano-guevarista-zapatista brasieiro, além de soar bastante ridículo, ela dá a deixa para a direita, que nunca se dedicou ao povo, posar de "defensora das causas populares".
Fica um quadro meio febeapiano, em alusão aos livros de Febeapá que Sérgio Porto, sob a alcunha de Stanislaw Ponte Preta, havia escrito nos anos 60. A intelectualidade progressista comprometida não com o progresso cultural, mas com o retrocesso que mantém o povo pobre preso nos seus próprios estereótipos, e a intelectualidade conservadora que agora fala em nome do povo.
Se bem que isso também soaria uma sinopse de um filme de Luís Buñuel. A situação é tão surreal que foram precisos muitos argumentos para desmascarar certos intelectuais surgidos nos porões pré-PSDB das elites tucanas da USP, porque eles estavam à beira de convencer as elites pensantes do país de que só se fará socialismo com "funk", o que é uma visão absurda e improcedente.
A campanha pela bregalização era tal que nem mesmo o dedo da Globo Filmes, das Organizações Globo, no filme Os Dois Filhos de Francisco, intimidou a intelligentzia a convencer as esquerdas a aceitar Zezé di Camargo & Luciano. Eles até ocultaram que votaram no ruralista Ronaldo Caiado para deputado federal, na esperança de estarem vinculados a um falso zapatismo brasileiro.
E se os "pensadores mais legais do país", que chamam até funqueira para juntar-se à sua classe, acreditavam que poderia se fazer zapatismo com breganejo, eles então tentaram convencer, com tantos apelos, que o "funk" tão grotesco e brutal era a peça-chave para o "novo socialismo brasileiro", numa campanha que está longe de terminar, de tão marqueteira e tendenciosa que é.
A essas alturas, a Globo Filmes preferiu esconder sua marca no documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, talvez como estratégia para vender o filme como se fosse "independente" e feito "sem recursos", numa tática sutil de evitar o vínculo do "funk" com os barões da grande mídia.
Tornou-se um fenômeno inédito, de efeitos devastadores para nossa cultura, que a intelectualidade pró-brega, tendenciosamente posicionada para a esquerda, defendesse tanto a cafonização cultural do Brasil, com argumentos que beiram à "urubologia" mais aberta, apesar de estrategicamente difundidas nos meios esquerdistas.
Criou-se até uma situação surreal, de intelectuais esquerdistas endeusarem o direitista Waldick Soriano e esculhambarem o esquerdista Chico Buarque. Ou endeusarem os funqueiros, que apunhalam as esquerdas pelas costas para se aliarem aos barões da mídia, e depreciarem violentamente Chico Buarque, que sempre foi fiel às causas esquerdistas.
A intelectualidade pró-brega dizia condenar o preconceito, o elitismo, o moralismo, se julgava detentora da mais fiel consciência social, mas era a primeira a defender uma visão estereotipada e até idiotizada do povo pobre, como se ela fosse a "verdadeira visão" das classes populares.
Preconceituosos, elitistas e moralistas, esses intelectuais "tão legais" e "tão gente boa" desejavam que o povo ficasse preso nas favelas, ficasse preso nos seus ideais de pobreza, limitando a sua emancipação social a serviços básicos, proteção da lei contra abusos extremos e mais dinheiro para aumento de consumo.
De resto, os intelectuais até se revoltam diante da hipótese de desfavelização ou do fim da prostituição com a inserção de suas "profissionais" em outros ramos de emprego, como serem professoras, costureiras, cozinheiras ou até advogadas.
Acham que tais visões de emancipação social "radical" - hoje desejar melhorias é "ser radical" - são sinônimos de elitismo, higienização social e outras alegações. E há um medo da intelectualidade de ver aquela música popular do passado, como sambas, baiões, modinhas e outros, serem devolvidos ao povo pobre que ficou privado deles depois que a ditadura rachou a aliança entre o povo e os intelectuais do CPC da UNE.
Já li intelectuais "progressistas" achando que o povo pobre não pode mais fazer baiões ou sambas. Já vi dirigente funqueiro cortejado pelas esquerdas - mas também colunista de um periódico das Organizações Globo - dizendo que os jovens das periferias não têm o compromisso de assumir a cultura de seus antepassados, numa visão claramente anti-cultural, porque cultura é herança, sim.
Enquanto isso acontece, surgem na direita militantes conservadores que questionam a estereotipação social das classes populares. Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade. Isso é de deixar qualquer um com a mente confusa.
Afinal, a direita sempre defendeu o grande capital e o interesse privado. Cultura popular é só um detalhe. A ditadura militar favoreceu ídolos bregas. Mas hoje a bregalização está associada à esquerda. A direita que apoiou a ditadura agora fala contra a imagem estereotipada do povo pobre. Reinaldo Azevedo falando mal da idiotização do povo pobre? É realmente isso que está acontecendo?
Daí a desconfiança. Um mesmo pano de fundo produziu Pedro Alexandre Sanches e Reinaldo Azevedo, Denise Garcia e Rachel Sheherazade, Ronaldo Lemos e Rodrigo Constantino, Paulo César Araújo e Merval Pereira.
São os mesmos valores neoliberais rachados como um sorvete napolitano servido em caixa, em que a parte da baunilha com morango fosse servida para uns e a da baunilha com chocolate fosse servida para outros. E essa "distribuição" de pontos de vista parece soar algo combinado.
Tudo parece de propósito. Afinal a bregalização do país é claramente apoiada pelos barões da mídia que os intelectuais que defendem a bregalização dizem condenar. Só que eles também não se posicionam claramente sobre assuntos como regulação da mídia, ficam cheios de dedos, achando que a "Lei dos Meios" criasse uma "areia movediça" a tragar tanto "urubólogos" quanto funqueiros.
Aí uns ficam brincando de criticar os outros. De repente, um representante da direita intelectual, o "filósofo" Luiz Felipe Pondé - integrante de um meio que se destaca com a rebeldia neocon do roqueiro Lobão, o "Carlos Lacerda" de um neo-udenismo "roqueiro" simbolizado pelas rádios 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ) - acusou os "esquerdistas festivos" de serem "pegadores de mulheres".
Por outro lado, vemos um professor como Antônio Kubitschek, que, ao classificar uma funqueira como "grande pensadora contemporânea", disse ter oferecido a "carniça" para ser mordida pelos "urubus da mídia". Tudo esse teatrinho em que intelectuais festivos e intelectuais zangados trocam supostos ataques, enquanto as periferias pegam fogo em todo o país.
Os intelectuais pró-brega atacam a direita intelectual por causa de frescuras moralistas, já os intelectuais neocon atacam a "esquerda festiva" por causa de desvios boêmios. Trocas de acusações, de ataques, feitos para desviar a opinião pública, enquanto o quadro sócio-cultural das classes populares se degrada no contexto da crise de hoje.
Fica tudo muito estranho. Parece uma combinação entre pró-bregas e "urubólogos" para que, num suposto "equilíbrio" ideológico, os mais "progressistas" defendessem o retrocesso cultural e os mais retrógrados defendessem uma "melhor consciência social".
Os porta-vozes do povo defendendo um povo caricato e os porta-vozes das elites falando em qualidade de vida para as classes populares. Não é estranho? Será uma manobra para desmoralizar as esquerdas e fortalecer a direita, através de uma suposta visão cidadã lançada no vácuo deixado pelos delírios caricaturais relativos ao povo pobre dos intelectuais pró-brega?
Isso acaba sendo mais uma dicotomia de liberais e conservadores que, nos EUA, resulta na falsa polaridade entre o Partido Democrata e o Partido Republicano. E que mostra que Coletivo Fora do Eixo e Instituto Millenium são apenas duas faces de uma só moeda.
O Brasil precisa de uma outra intelectualidade, que seja igualmente progressista e popular.
domingo, 27 de abril de 2014
INTELECTUALIDADE "BACANA" E O ESPÍRITO DO TEMPO
Por Alexandre Figueiredo
De que serve a linhagem intelectual brasileira que domina hoje? De fantasias pop-socialistas? Não. Ela se serve de uma mistura de comportamento pop com mentalidade de livre mercado, que acontece mesmo em atitudes mais "provocativas", feitas supostamente para assustar os barões da mídia e seus porta-vozes, mas, na verdade, os tranquilizam mais e mais.
Atualmente, os "mestres" Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e Hermano Vianna já não estão tanto em cena, pois agora o discurso deles se multiplicou para uma série de colaboradores e discípulos que aparecem em dado momento com um texto ou um ato "provocativos".
É um cineasta que vai "sociologizar" demais sobre o "funk ostentação". É o professor de escola pública que chama uma funqueira de "grande pensadora". É o curador de exposição que chama um grupo de "funk" para abrir uma exposição sobre uma cantora de jazz. É o ativista social que faz palestra sobre a bregalização. Etc, etc, etc.
Eles ficam felizes por "fabricar polêmicas", acham que a bregalização do país irá salvar as classes populares, bastando apenas um pouco de "provocação" aqui e ali e esperar que a chuva de dinheiros e algumas consultas nas mídias sociais transformem os ídolos bregas em pós-tropicalistas transgênicos, promovidos a supostas enciclopédias pop.
Já descrevemos que eles seguem uma linhagem de pensamento que remete à ditadura militar. Por mais que eles reajam chorando diante dessa constatação, já que eles se acham "os mais progressistas e mais democráticos" da chamada classe pensante, a linha ideológica deles é realmente um misto do que eles absorveram dos mais velhos (como Sanches, Araújo e Vianna), crianças durante o regime militar.
Observa-se que esses intelectuais têm um repertório ideológico. Culturalmente, eles pregam a supremacia do "mau gosto popular", o que vem como herança das leituras confusas dos que viveram a infância entre 1969 e 1978, assimilando Tropicalismo, Jovem Guarda e os "populares" ídolos cafonas que apareceram nos programas de auditório da televisão da época.
Influenciados em parte por Woodstock, eles sonham com um país mais promíscuo, com livre "baseado", mais sarcástico, mais espetacularizado. Livre mercado dissolvido e adocicado em ideais "provocativos" da cultura pop, que leva a provocação como um fim em si mesmo, como se pudéssemos "chocar" a sociedade sem motivos relevantes.
Eles usam até a causa LGBT como um pretexto para promover a promiscuidade, dando como sobremesa a defesa da prostituição como uma profissão permanente, "prendendo" as mulheres pobres no meretrício em vez de dá-las condições para inserir no mercado de trabalho. E não medem escrúpulos para aceitar a espetacularização através dos estereótipos de feministas despeitadas e homossexuais alucinados vestidos de forma exótica.
E as favelas? A intelectualidade "bacana" de hoje sofre a influência do Jornal Nacional, o noticiário que a geração de Sanches, Araújo e Vianna viram e do qual se "alfabetizaram" na visão de mundo. Daí que eles mesmos promovem o contraste entre um exterior explosivo e um Brasil paradisíaco com base no que viram no famoso telejornal da Rede Globo durante a ditadura militar.
Por isso eles pensam o Oriente Médio, a Ucrânia e o caso do território da Crimeia, a América Central e outros países problemáticos afora como nações explosivas, de muitas manifestações, protestos e combates, enquanto o Brasil tem o "ativismo" do entretenimento brega, com o povo indo feito gado bovino para os galpões onde se apresentam seus ídolos.
Daí a Palestina explosiva, a Belém infernal dos conflitos entre árabes e judeus. Mas também há o Pará-iso tecnobrega da Belém de sonhos e fantasia, jogando os conflitos de terras e a tirania midiática para debaixo do tapete para o discurso intelectualoide só poder falar da "paz e amor" dos cafonas paraenses.
Isso é, de forma "cuspida e escarrada" - como diz a gíria nordestina - o Jornal Nacional saltando nas mentes da intelectualidade pró-brega, que vê os prostíbulos, os botecos sujos, o lixo no chão, as casas precárias e decadentes, das favelas promovidas a "arquitetura pós-moderna", de uma periferia miserável e problemática, como se fossem "paraísos de perfeição popular".
A intelectualidade que quer a bregalização na cultura, a liberação da maconha, a permanência da prostituição na vida das mulheres pobres, que exalta o "funk" como se fosse a última palavra em cultura pós-moderna, segue todos esses ingredientes da "cultura transbrasileira".
Eles pegam o ato de provocar do Tropicalismo, o internacionalismo provinciano e tímido da Jovem Guarda, a permissividade de Woodstock e o ilusionismo do Jornal Nacional e constroem seu repertório ideológico que espalham hoje em espaços "progressistas", como se não pudéssemos identificar nele várias heranças conservadoras.
No meio do caminho, eles também aprenderam outras coisas, como o neoliberalismo "subdesenvolvido" de Fernando Henrique Cardoso, o "fim da História" de Francis Fukuyama - sim, ele ajuda a intelligentzia a jogar pá de cal na Bossa Nova e nos antigos ritmos populares - e uma visão neoliberal das novas tecnologias digitais, que é a coisificação do homem pela Informática.
Daí a utopia de que as mídias digitais, em si, causariam a transformação da humanidade. Não mais as ações humanas, mas a da tecnologia. Para a intelectualidade "bacana", não é a tecnologia que serve de instrumento para a mobilização humana, mas a mobilização humana que serve de instrumento para o poder supostamente transformador das novas tecnologias digitais.
Com tudo isso, se sintetiza o que é a intelectualidade que quer brega, quer "baseado", quer promiscuidade e quer a supremacia das novas tecnologias. Por mais que ela se julgue "progressista" e tente falar mal dos conservadores midiáticos, a herança dela vem deles mesmos, porque a "cultura transbrasileira" se serve disso mesmo: do Jornal Nacional a Francis Fukuyama.
sábado, 26 de abril de 2014
MEDIOCRIDADE CULTURAL TENTA "MELHORAR" SUA QUALIDADE
Por Alexandre Figueiredo
É tudo muito tendencioso. Ultimamente, os ícones do brega-popularesco, não somente músicos, mas também (sub)celebridades, tentam agora mostrar "alguma substância". Num contexto em que o bregalhão Michael Sullivan e suas rimas toscas é promovido a "gênio sofisticado da MPB", todo mundo agora quer ser "inteligente" e "mais criativo".
Valesca Popozuda deu a largada. Ela agora quer retirar o silicone, sua antiga marca registrada, para parecer "mais fina" para as elites. Até prometeu ler Machado de Assis para, quem sabe, ser a "filósofa" que a intelectualidade "bacana" sonha tanto dela. E isso com o "funk" descobrindo, só agora, o pandeiro e a gaita, através do "funk ostentação" e uma versão paródica de música de Alceu Valença.
Aliás, Valença denunciou o esquema jabazeiro de Michael Sullivan no último carnaval, e infelizmente a repercussão foi baixa. O lobby em torno do cantor e compositor dos Fevers é muito grande, pouco importando se ele tem ligações com um Roberto Carlos cada vez mais conservador. Sullivan é um dos pioneiros da supremacia brega que hoje é defendida por um poderoso lobby que envolve até acadêmicos.
E aí, com as muitas críticas ao brega-popularesco, seus ídolos agora tentam se "informar de tudo". Nomes do "sertanejo universitário", como Victor & Léo, são supostas "enciclopédias pop". Todos agora "conhecem" Byrds, Ramones, Neil Young, Clube da Esquina, Legião Urbana etc etc etc. E lá vem os bregas pioneiros Chitãozinho & Xororó puxarem o saco do saudoso Raul Seixas.
O sambrega agora entende de samba, sambalanço, Tropicalismo. Mumuzinho, o mais novo cantor do gênero, tenta trabalhar uma imagem de um neo-sambalanço nos moldes dos anos 70, na aparência. Enquanto isso, sambregas em geral se dividem entre aqueles que fazem um samba politicamente correto, sem alma mas verossímil, e outros que imitam o soul norte-americano com ritmo sambista.
E há o Leandro Lehart que só soube 20 anos depois que poderia ser "genial", de tão medíocre que é, reduzido hoje a um arremedo de sambalanço que promete fazer (e não faz) num momento tardio de sua carreira o que o saudoso Monsueto já fazia (e melhor) desde o começo.
Evidentemente, temos a Ivete Sangalo pondo o nariz dela onde não é chamada, ela que soa como uma versão piorada da antiga mania de Caetano Veloso de se apropriar em tudo que é tendência musical aqui, ali e acolá. Pelo menos Caetano mostra conhecimento de causa.
Já Ivete mostra pedantismo e uma ânsia maior de impor sua imagem a qualquer tendência. Ela apareceu até para duetar com um "holograma" de Renato Russo em tributo produzido pelo filho deste. Se deixarmos, Ivete participa até de tributo aos Ratos do Porão, com João Gordo recebendo ela de braços abertos e tudo.
Mas é uma época em que até a medíocre Rádio Cidade, no Rio de Janeiro, posa de "rádio de rock alternativo" tocando Pixies para as paredes. Ela mesma não está fora de um contexto em que os medíocres querem agora se "melhorar", todo mundo querendo ser "vanguarda" sem ter a menor ideia do que está fazendo ou quer fazer.
O súbito falecimento do ator José Wilker, dias atrás, demonstra o quanto a mediocridade parece trazer uma energia pesada para os grandes mestres. E ele se somando a uma lista de pessoas e projetos prematuramente ceifados, como Glauber Rocha, Sylvia Telles, Leila Diniz, Don Rossé Cavaca, Raul Seixas, Renato Russo, Oduvaldo Vianna Filho, João Goulart, Chico Science e Sérgio Porto, e TV Excelsior, Fluminense FM, Pan Air, Gurgel e Gradiente.
O Brasil não pode ser Brasil. Que seja apenas a eterna colcha de retalhos do resto do mundo. Que seja tudo, exceto si mesmo. Um Brasil com personalidade ofende o Departamento de Estado dos EUA. Torna o Brasil ousado demais, "complicado" para o mercado.
Daí a mediocridade de um país que só deve imitar os outros ou diluir ideias ousadas em fórmulas caricaturais. Sempre com a desculpa de que, "com tanta coisa ruim por aí, até que estamos fazendo o melhor possível".
E as "boazudas"? Agora elas ensaiam peças de teatro infantis, vão para eventos de beleza, exposições de automóveis, depois de tantos anos se autoafirmando apenas por seus corpos. Sinal de que a chamada "liberdade de corpo" - cujo sentido, no contexto sexual, equivale à "liberdade de imprensa" dos "urubólogos" - só agora é reconhecida como insuficiente para a "emancipação" dessas "musas".
Temos que suportar os medíocres que sempre arrumam um jeito para permanecerem em evidência, até mesmo fazendo hoje o que se recusariam a fazer cinco anos atrás. E que, quando estão à beira do ostracismo, encontram sempre um empresário sacando dinheiro no bolso para "ressuscitá-los" e um acadêmico para escrever teses mirabolantes sobre eles.
E aí haja cantor de sambrega que, no começo, não se importava se Wilson Simonal estava vivo ou morto, mas que hoje se autoproclama seu "herdeiro musical". E haja funqueira removendo silicone anos depois de achar isso impossível. E "boazuda" fazendo peça infantil depois de tanto tempo se "mostrando" demais.
E todo mundo ganhando programas trainée, com assessores de imprensa lhe treinando para entrevistas, consultando Wikipedia e You Tube para "saber um pouco mais", recebendo macetes, sendo adestrados conforme o ISO 9000, tudo para parecerem "mais inteligentes", "mais informados" e até "mais decentes". O brega tenta ser chique e sofisticado, sem sê-los de fato.
Não podemos ser um país de mestres, de grandes ideias. O Brasil não pode ser um país altivo e com personalidade. E a pior herança da ditadura militar é agora, com a supremacia da mediocridade cultural e essa tapeação de sub-artistas e subcelebridades de agora quererem "melhorar" tardiamente, de maneira tendenciosa e oportunista.
Daí que não recuperamos o principal que os militares derrubaram: o desenvolvimento de um Brasil com personalidade, com grandes projetos, sem medo de competência, de talentos verdadeiros, sem medo de reconhecer que nem todo mundo tem todas as habilidades.
Era um Brasil que sabia de potenciais, de limites, de desejos, um Brasil que precisa ser recuperado, não na forma das falsas melhorias para manter os medíocres de hoje, mas da superação e da ruptura desses símbolos da mediocridade para buscarmos algo bem melhor. Para que, no meio do caminho, não vejamos mais mestres "indo embora" como o inesquecível e dinâmico José Wilker.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
E SE FOSSE NA CULINÁRIA?
Por Alexandre Figueiredo
A intelectualidade dominante, mas "bacaninha", aquela que se julga ser a "última palavra" em consciência popular e defesa do folclore brasileiro, mas que aposta na bregalização e no "funk" como formas de suposta emancipação sócio-cultural, acredita no triunfo de suas teses sobre a "diversidade cultural" expressa nessa "cultura de massa" brasileira.
Ao longo dos tempos, identificamos diversas questões ideológicas dessa intelectualidade "admirável", relacionadas à supremacia do mau gosto e de todos os aspectos da "baixa cultura" que eles defendem e glamourizam em forma de teses que variam de documentários a reportagens, de monografias a programas de TV.
Existe até a habitual "choradeira" que pede que aceitemos essa "cultura popular" como se fosse a salvação para o país. E, de uns meses para cá, há até a promessa de que chuvas de dinheiro e alguma injeção de referenciais culturais de vanguarda resolveria o problema da bregalização.
O discurso intelectual, no entanto, continua passando por cima de questões morais, educacionais, ou mesmo questões como a manipulação midiática e os interesses mercadológicos, entre aspectos que beiram a incoerência. "Popular" é um vale-tudo que só cabe ser elogiado pela intelectualidade mais influente.
E se fosse na culinária? Será que faria sentido fazer tamanhas defesas de coliformes fecais, como se fossem formas "legítimas" de nossa diversidade culinária? E as moscas mortas nas sopas, seria uma forma de tempero, de mistura à "elitista" e "discriminatória" alta culinária?
A falta de higiene de nossos cozinheiros seria vista como uma forma de arte? E as intoxicações alimentares, por vezes graves e até mortais, seriam culpa de quem ingeriu tais alimentos e que estaria "despreparado" para pratos tão "admiráveis" e preparados de forma "tão transparente"?
Há até, no caso da "cultura" musical e comportamental do brega-popularesco, do uso pejorativo da expressão "higienista", como se a rejeição às expressões da cafonice cultural fosse um sinônimo de "limpeza social", como se desejar um cenário cultural melhor fosse sinônimo de fascismo. Mas não é.
Certo. A "admirável mistura de tudo", como uma colcha de retalhos que se constitui a tal "cultura transbrasileira", defendida com entusiasmo imenso por uma geração de intelectuais deslumbrados com o império do jabaculê brega-popularesco, mistura baixarias, debilidades, equívocos, numa falta de identidade que é "identidade" porque envolve "muitas identidades".
Parece simples esse discurso pós-tropicalista, cheio de modernices teóricas e muita sociologização de botequim. Mas, aplicada à culinária, significa o mesmo que dizer: que mal tem o cozinheiro mexer em comida depois que pega num pano de chão sujo?
Certo. Então o nosso mal-estar alimentar também é uma forma de "elitismo" (?) ou "higienismo" (?!). Somos preconceituosos porque vomitamos um alimento apodrecido ou sem higiene. Somos saudosistas quando falamos de pensões limpinhas do passado, e somos intolerantes quando chamamos a Vigilância Sanitária para interditar um restaurante que não cumpre normas de higiene.
E as moscas mortas que pousam nas sopas? Oh, estaríamos sendo absolutamente discriminatórios pela livre expressão de nossos insetos sobre nossos alimentos, recusando-nos a apreciar o convívio harmonioso com eles.
E as larvas rebolando sobre as carnes? Somos os soldados revoltosos do Encouraçado Potemkin, a recusar o prato feito de carnes podres. E o bolor nos bolos? Recusamos-nos à beleza oculta de um espetáculo em que um ser parecendo fios de algodão quase dispersos enfeite os bolos de longa data, e somos culpados por tal rejeição?
As fezes viraram caviar? Os sacos de lixo molhados de líquidos sujos - junção de caldos de laranjas apodrecidas, restos de bebidas, sangue de carne e líquidos descartados de enlatados - e vários objetos colocados junto às cozinhas sem limpeza, viraram apenas "oficinas" da "mais deliciosa bagunça culinária", da "admirável e provocativa desordem e sujeira"?
Daí a bronca que se tem. Cultura, culinária... Embora haja uma diferença, no sentido que culinária é material e cultura é imaterial, o sentido da comparação acima deveria ser considerado. Afinal, a "disenteria" social já ocorre com uma mistura confusa de valores que não representam progresso social algum.
Num dado momento sentimos mal-estar com certos fenômenos "populares" e isso não é elitismo ou higienismo, mas uma forma de reclamarmos sobre o ponto a que se chegou a dita "cultura popular", que há muito tempo rompeu com o vínculo comunitário e passou a ser manipulada por empresários, latifundiários e barões da mídia.
Por mais que nossos intelectuais "filosofem demais" sobre os fenômenos "populares" da bregalização dos últimos 45 anos, eles nada dizem a respeito da verdadeira cultura popular. Façam a choradeira que fizerem, o que essas elites "pensantes", trancadas em seus gabinetes, dizem não é o que realmente pensa a vontade popular ainda não atingida pela hipnose midiática.
O brega-popularesco não é o verdadeiro popular. Isso é definitivo. Ele é apenas popularizado, tornado "popular" pelo marketing e pelo jabaculê. Ele se popularizou por causa da persuasão das grandes corporações midiáticas.
Daí ser estranho que intelectuais pró-brega falem tanto mal de uma mídia que, na verdade, é responsável direta pelo sucesso dos ídolos tão defendidos por esses mesmos intelectuais. Vai ver que eles almoçaram comida estragada e por isso não andam associando bem as ideias.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
MÍDIA E INTELECTUAIS FORÇARAM REVOLTA DAS PERIFERIAS?
ÔNIBUS QUEIMADOS DURANTE REVOLTA EM CARAMUJO, EM NITERÓI (RJ). AO LADO, CONCESSIONÁRIA QUE SERVIU DE REFÚGIO DE MORADORES E TRANSEUNTES DURANTE O INCIDENTE.
Por Alexandre Figueiredo
Dias atrás, houve tiroteio de policiais e traficantes na frente de uma casa noturna onde ocorria um "baile funk", em Caramujo, Niterói, que causou a morte de dois jovens inocentes vítimas de balas perdidas, causando uma revolta popular que resultou em ônibus e veículos queimados e uma confusão que fez muita gente correr para se abrigar numa concessionária.
Em Salvador, um grupo de assaltantes, revoltado por não achar dinheiro num estabelecimento comercial no Largo dos Mares - no caminho entre a Calçada e a Península de Itapagipe (onde fica a Ribeira e o Bonfim, com sua famosa igreja) - , provocou um incêndio no local. Antes, durante uma greve de policiais, a capital baiana viveu um surto de assaltos, vandalismo e assassinatos.
No Rio de Janeiro, o fechamento de um trecho da Av. Brasil para a conclusão de obras de um viaduto para BRTs propiciou uma série de brigas e conflitos entre favelados. A região envolvida inclui os complexos do Alemão e da Maré, cujo surto de criminalidade e violência é comparável ao terrorismo que acontece nos países do Oriente Médio, como o Iraque, por exemplo.
Mas, também no Rio de Janeiro, o admirado bairro de Copacabana teve um trágico incidente numa favela vizinha ao bairro, também situada junto à Lagoa Rodrigo de Freitas. Em circunstâncias ainda não esclarecidas, o dançarino Douglas, do programa Esquenta!, da Rede Globo, foi encontrado morto causando uma violenta revolta que se seguiu a um tiroteio que matou outro inocente.
Em São Paulo, um grupo de revoltosos invadiu uma garagem de ônibus e provocou o incêndio que atingiu nada menos que 35 veículos, numa cidade em que favelas são incendiadas supostamente em nome da especulação imobiliária e a atuação do PCC, grupo criminoso local, já chamou a atenção do país por sua periculosidade.
O que está havendo com as periferias? Aquela Disneylândia suburbana de sonho e fantasia, embora cercada de construções precárias, ruas mal asfaltadas (quando assim são), lixo no chão e pessoas maltrapilhas e até desdentadas, que só existe na imaginação de intelectuais e barões da mídia que, a pretexto de defenderem o povo, difundem essa visão ilusória que nada ajuda.
Pelo contrário, o que se vê é que, de tanto se falar em periferias, o que acontece é que as periferias dos sonhos da intelligentzia - embora tais fantasias tenham recebido a roupagem "científica" e "etnográfica" de monografias e documentários - deram lugar ao pesadelo das elites, inclusive a própria intelectualidade "bacana", que é a revolta sem controle das comunidades pobres.
Não se trata da periferia de pobretões sorridentes e quase debiloides que o discurso intelectual, mesmo travestido da mais pura objetividade, cortejava em seus produtos informativos ou acadêmicos, mas de um povo que, abandonado pelas autoridades, sem uma cultura que não aquela imposta pela mídia e que tornou-se sua única opção de entretenimento, faz sua revolta à sua maneira.
São atos até extremos, como queimar ônibus, saquear lojas, depredar agências bancárias e cometer assassinatos que mostram que o grito dos pobres nada tem a ver com a "agressividade" domesticada e estereotipada do "funk". E mostram o quanto existe uma classe abandonada por políticos e intelectuais que há muito fazem promessas que em nenhum momento são realmente cumpridas.
Na volta de um dia de praia em Piratininga, eu mesmo pude ver, na altura do Viradouro, em Niterói, duas faveladas se puxando pelos cabelos, numa briga grotesca em plena rua, num bairro onde morei nos anos 80 e que, desde os anos 90, tornou-se uma área bastante perigosa. Bairros como Viradouro e Santa Isabel, este em São Gonçalo, viraram terra de ninguém.
A intelectualidade "bacana" e "boazinha", que acha que está promovendo ativismo social passando a mão nas cabeças do povo pobre, sem saber de fato seus verdadeiros problemas, só fez expor as classes populares para a opinião pública. Discutir se este é um aspecto positivo ou negativo é controverso, mas a situação de abandono das comunidades pobres de certo modo se evidenciou.
O povo pobre já não tem a sua cultura, aquela com vínculos comunitários, porque ela foi usurpada pelas classes médias altas de formação acadêmica, depois que se rompeu o diálogo e o debate do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.
Hoje "cultura do povo pobre" passou a ser aquela ditada por rádios e TVs controladas por grupos oligárquicos, que manipulam desejos e necessidades corrompendo as classes populares às custas de produtos culturais confusos, de qualidade duvidosa, que nada trazem de valores, conhecimentos ou qualquer coisa que promova o progresso social das classes populares.
Tudo virou um pálido consumo. O povo pobre virou escravo dessa "indústria cultural" que não lhes traz cidadania, não melhora suas vidas, e que só promove o envaidecimento paternalista de intelectuais supostamente progressistas que não passam de colaboradores free lancer dos barões da mídia, por mais que insistam em vender seus pontos de vista em veículos como Carta Capital, Caros Amigo, Fórum e Brasil de Fato.
O povo pobre quer melhorias de vida e a intelectualidade perdendo tempo fazendo glamourização da ignorância, da miséria e da pobreza, prendendo o povo nas favelas e impedindo as prostitutas de optarem por empregos melhores.
É um discurso intelectual que junta o modismo trash e o politicamente correto, ambos importados dos EUA da Era Ronald Reagan, e que no Brasil ganhou roupagem falsamente progressista, que limitava as melhorias de vida das classes populares ao consumismo brega, à expressão do mau gosto e à permanência da ignorância.
O povo pobre virava um espetáculo para o deleite de intelectuais burgueses. A intelectualidade dominante dizia que "a pobreza é linda", "a ignorância é sagrada", falava de uma "pureza" da miséria popular que tranquilizava a todos. Insistiam no papo de "romper os preconceitos", mas se limitavam apenas a aceitar a pobreza, com todos seus símbolos e personagens, em vez de resolvê-la.
Só que aí as classes populares mostram seus gritos. Nada daquela glamourização da pobreza do brega, daquela "pobreza linda de se ver" com suas favelas idealizadas como "paisagens de consumo e admiração". E tudo dos atos extremos e desesperados, da revolta sem controle que mostra o caos das cidades, o pesadelo que desfaz a "periferia dos sonhos" como se desfazem castelos de areia.
São ônibus queimados, assaltos, saques, depredações, tiroteios. O crime organizado torna-se opção para jovens pobres que não conseguem emprego e não tem sequer escola para aprender valores éticos nem habilidades profissionais ou conhecimentos diversos. Os serviços de saúde, precários, matam muitos pacientes pelo descaso, pela desorganização e até por falta de higiene.
Essa explosão de revolta envolve desde a Baixada Fluminense até cidades como Florianópolis, uma cidade de estigma "europeizado" mas que possui uma periferia não muito diferente da que representam Nova Iguaçu, o Complexo da Maré ou o subúrbio ferroviário de Salvador. E que também tem suas explosões de revolta intensa, com seus atos violentos e desesperados.
Portanto, isso é uma situação para se pensar. A doce periferia da "pobreza linda de se ver", difundida pela grande mídia e por intelectuais "independentes" mas a serviço "informal" dos chefões midiáticos, se desfaz nos noticiários que, de tão fortes, estão longe de serem noticiosos, até porque não são os "urubólogos" que os divulgam, mas a prole de repórteres de visão mais objetiva e que eles mesmos não refletem necessariamente as opiniões dos seus patrões.
São notícias graves, duras e preocupantes, que não cabem nas monografias montadas em quartos refrigerados dos "etnógrafos de boutique" que lotam plateias com suas palestras de sonho e fantasia. São duras demais para a fantasia dos programas de auditório da TV aberta e realistas demais para o apetite sensacionalista dos telejornais policialescos.
O grito de revolta das periferias não tem a ver com a revolta domesticada do "funk". Tem a ver com o descontentamento com tudo, com o descaso das autoridades, com a demagogia do poder midiático, com os abusos policiais, com o paternalismo intelectual, que até agora não transformaram as periferias em áreas dignas para o desenvolvimento da cidadania e da qualidade de vida.
E isso é apenas o começo. E já chama a atenção dos noticiários estrangeiros. A situação pode complicar ainda mais, e não será uma intelectualidade organizada e articulada, com seus delírios pseudo-modernistas e pseudo-ativistas, que irá divulgar uma visão dócil e meiga das periferias do recreio brega, da "pobreza linda de se ver" e da "miséria alegre e animada".
Na vida real, as periferias explodem com a raiva popular contra um histórico de desprezo e exploração que o povo pobre sofre há décadas. É o desespero que toma conta das ruas e que desafia a tudo e a todos, o que irá sugerir a ruptura dos verdadeiros preconceitos, que são a demagogia e o paternalismo que ainda veem a pobreza ora como "algo sem importância", ora como "coisa linda de se ver".
Por Alexandre Figueiredo
Dias atrás, houve tiroteio de policiais e traficantes na frente de uma casa noturna onde ocorria um "baile funk", em Caramujo, Niterói, que causou a morte de dois jovens inocentes vítimas de balas perdidas, causando uma revolta popular que resultou em ônibus e veículos queimados e uma confusão que fez muita gente correr para se abrigar numa concessionária.
Em Salvador, um grupo de assaltantes, revoltado por não achar dinheiro num estabelecimento comercial no Largo dos Mares - no caminho entre a Calçada e a Península de Itapagipe (onde fica a Ribeira e o Bonfim, com sua famosa igreja) - , provocou um incêndio no local. Antes, durante uma greve de policiais, a capital baiana viveu um surto de assaltos, vandalismo e assassinatos.
No Rio de Janeiro, o fechamento de um trecho da Av. Brasil para a conclusão de obras de um viaduto para BRTs propiciou uma série de brigas e conflitos entre favelados. A região envolvida inclui os complexos do Alemão e da Maré, cujo surto de criminalidade e violência é comparável ao terrorismo que acontece nos países do Oriente Médio, como o Iraque, por exemplo.
Mas, também no Rio de Janeiro, o admirado bairro de Copacabana teve um trágico incidente numa favela vizinha ao bairro, também situada junto à Lagoa Rodrigo de Freitas. Em circunstâncias ainda não esclarecidas, o dançarino Douglas, do programa Esquenta!, da Rede Globo, foi encontrado morto causando uma violenta revolta que se seguiu a um tiroteio que matou outro inocente.
Em São Paulo, um grupo de revoltosos invadiu uma garagem de ônibus e provocou o incêndio que atingiu nada menos que 35 veículos, numa cidade em que favelas são incendiadas supostamente em nome da especulação imobiliária e a atuação do PCC, grupo criminoso local, já chamou a atenção do país por sua periculosidade.
O que está havendo com as periferias? Aquela Disneylândia suburbana de sonho e fantasia, embora cercada de construções precárias, ruas mal asfaltadas (quando assim são), lixo no chão e pessoas maltrapilhas e até desdentadas, que só existe na imaginação de intelectuais e barões da mídia que, a pretexto de defenderem o povo, difundem essa visão ilusória que nada ajuda.
Pelo contrário, o que se vê é que, de tanto se falar em periferias, o que acontece é que as periferias dos sonhos da intelligentzia - embora tais fantasias tenham recebido a roupagem "científica" e "etnográfica" de monografias e documentários - deram lugar ao pesadelo das elites, inclusive a própria intelectualidade "bacana", que é a revolta sem controle das comunidades pobres.
Não se trata da periferia de pobretões sorridentes e quase debiloides que o discurso intelectual, mesmo travestido da mais pura objetividade, cortejava em seus produtos informativos ou acadêmicos, mas de um povo que, abandonado pelas autoridades, sem uma cultura que não aquela imposta pela mídia e que tornou-se sua única opção de entretenimento, faz sua revolta à sua maneira.
São atos até extremos, como queimar ônibus, saquear lojas, depredar agências bancárias e cometer assassinatos que mostram que o grito dos pobres nada tem a ver com a "agressividade" domesticada e estereotipada do "funk". E mostram o quanto existe uma classe abandonada por políticos e intelectuais que há muito fazem promessas que em nenhum momento são realmente cumpridas.
Na volta de um dia de praia em Piratininga, eu mesmo pude ver, na altura do Viradouro, em Niterói, duas faveladas se puxando pelos cabelos, numa briga grotesca em plena rua, num bairro onde morei nos anos 80 e que, desde os anos 90, tornou-se uma área bastante perigosa. Bairros como Viradouro e Santa Isabel, este em São Gonçalo, viraram terra de ninguém.
A intelectualidade "bacana" e "boazinha", que acha que está promovendo ativismo social passando a mão nas cabeças do povo pobre, sem saber de fato seus verdadeiros problemas, só fez expor as classes populares para a opinião pública. Discutir se este é um aspecto positivo ou negativo é controverso, mas a situação de abandono das comunidades pobres de certo modo se evidenciou.
O povo pobre já não tem a sua cultura, aquela com vínculos comunitários, porque ela foi usurpada pelas classes médias altas de formação acadêmica, depois que se rompeu o diálogo e o debate do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.
Hoje "cultura do povo pobre" passou a ser aquela ditada por rádios e TVs controladas por grupos oligárquicos, que manipulam desejos e necessidades corrompendo as classes populares às custas de produtos culturais confusos, de qualidade duvidosa, que nada trazem de valores, conhecimentos ou qualquer coisa que promova o progresso social das classes populares.
Tudo virou um pálido consumo. O povo pobre virou escravo dessa "indústria cultural" que não lhes traz cidadania, não melhora suas vidas, e que só promove o envaidecimento paternalista de intelectuais supostamente progressistas que não passam de colaboradores free lancer dos barões da mídia, por mais que insistam em vender seus pontos de vista em veículos como Carta Capital, Caros Amigo, Fórum e Brasil de Fato.
O povo pobre quer melhorias de vida e a intelectualidade perdendo tempo fazendo glamourização da ignorância, da miséria e da pobreza, prendendo o povo nas favelas e impedindo as prostitutas de optarem por empregos melhores.
É um discurso intelectual que junta o modismo trash e o politicamente correto, ambos importados dos EUA da Era Ronald Reagan, e que no Brasil ganhou roupagem falsamente progressista, que limitava as melhorias de vida das classes populares ao consumismo brega, à expressão do mau gosto e à permanência da ignorância.
O povo pobre virava um espetáculo para o deleite de intelectuais burgueses. A intelectualidade dominante dizia que "a pobreza é linda", "a ignorância é sagrada", falava de uma "pureza" da miséria popular que tranquilizava a todos. Insistiam no papo de "romper os preconceitos", mas se limitavam apenas a aceitar a pobreza, com todos seus símbolos e personagens, em vez de resolvê-la.
Só que aí as classes populares mostram seus gritos. Nada daquela glamourização da pobreza do brega, daquela "pobreza linda de se ver" com suas favelas idealizadas como "paisagens de consumo e admiração". E tudo dos atos extremos e desesperados, da revolta sem controle que mostra o caos das cidades, o pesadelo que desfaz a "periferia dos sonhos" como se desfazem castelos de areia.
São ônibus queimados, assaltos, saques, depredações, tiroteios. O crime organizado torna-se opção para jovens pobres que não conseguem emprego e não tem sequer escola para aprender valores éticos nem habilidades profissionais ou conhecimentos diversos. Os serviços de saúde, precários, matam muitos pacientes pelo descaso, pela desorganização e até por falta de higiene.
Essa explosão de revolta envolve desde a Baixada Fluminense até cidades como Florianópolis, uma cidade de estigma "europeizado" mas que possui uma periferia não muito diferente da que representam Nova Iguaçu, o Complexo da Maré ou o subúrbio ferroviário de Salvador. E que também tem suas explosões de revolta intensa, com seus atos violentos e desesperados.
Portanto, isso é uma situação para se pensar. A doce periferia da "pobreza linda de se ver", difundida pela grande mídia e por intelectuais "independentes" mas a serviço "informal" dos chefões midiáticos, se desfaz nos noticiários que, de tão fortes, estão longe de serem noticiosos, até porque não são os "urubólogos" que os divulgam, mas a prole de repórteres de visão mais objetiva e que eles mesmos não refletem necessariamente as opiniões dos seus patrões.
São notícias graves, duras e preocupantes, que não cabem nas monografias montadas em quartos refrigerados dos "etnógrafos de boutique" que lotam plateias com suas palestras de sonho e fantasia. São duras demais para a fantasia dos programas de auditório da TV aberta e realistas demais para o apetite sensacionalista dos telejornais policialescos.
O grito de revolta das periferias não tem a ver com a revolta domesticada do "funk". Tem a ver com o descontentamento com tudo, com o descaso das autoridades, com a demagogia do poder midiático, com os abusos policiais, com o paternalismo intelectual, que até agora não transformaram as periferias em áreas dignas para o desenvolvimento da cidadania e da qualidade de vida.
E isso é apenas o começo. E já chama a atenção dos noticiários estrangeiros. A situação pode complicar ainda mais, e não será uma intelectualidade organizada e articulada, com seus delírios pseudo-modernistas e pseudo-ativistas, que irá divulgar uma visão dócil e meiga das periferias do recreio brega, da "pobreza linda de se ver" e da "miséria alegre e animada".
Na vida real, as periferias explodem com a raiva popular contra um histórico de desprezo e exploração que o povo pobre sofre há décadas. É o desespero que toma conta das ruas e que desafia a tudo e a todos, o que irá sugerir a ruptura dos verdadeiros preconceitos, que são a demagogia e o paternalismo que ainda veem a pobreza ora como "algo sem importância", ora como "coisa linda de se ver".
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