sábado, 12 de abril de 2014
"FUNK" E A "CHORADEIRA" SOBRE EDUCAÇÃO E CULTURA
Por Alexandre Figueiredo
Depois do choque causado ao ver MC Guimê, queridinho das "esquerdas médias", virar capa da reacionária revista Veja, e após o último consolo de ver o jornalista da publicação, Sérgio Martins, se tornar o único consolo diante das reações indignadas das esquerdas "radicais", a intelectualidade "bacana" ainda aposta na "choradeira" do "funk" a partir de factoides desesperados.
Parece que foi de propósito. O professor de uma escola pública de Brasília, Antônio Kubitschek, ao elaborar um questionário a respeito de "problemas sociais" vividos no Brasil, colocou uma questão relacionada a uma música da funqueira Valesca Popozuda. Até aí, virou rotina. O que chamou a atenção foi a classificação da funqueira como "grande pensadora contemporânea".
Aí isso provocou uma reação furiosa da sociedade, que clamou sobre a imbecilização do ensino público, da cultura popular, e os chamados "urubólogos" pegaram carona e declararam a "morte" da educação pública e outros aspectos.
E aí veio a reação "tranquila" de Antônio Kubitschek em relação ao ocorrido, depois de uma reação, meio politicamente correta, meio lisonjeada, da própria funqueira, que primeiro definiu a atitude como "uma bobagem", disse que "não estava pronta para ser pensadora" mas depois se "sentiu honrada" e prometeu ler Machado de Assis para, "quem, sabe, ser uma pensadora de elite".
Antônio - que não tem qualquer parentesco com o famoso ex-presidente que ordenou a construção de Brasília - disse que o propósito é "mostrar que tipo de carniça se alimentam os urubus da mídia". Então tá.
Por sua vez, Valesca tentou minimizar a gravidade da situação: "E se o professor colocou a questão dentro do contexto da matéria? E se o professor quis ser irônico com o sucesso das músicas de hoje em dia? E se o professor quis apenas distrair a turma e fez a questão apenas pra brincar?", como se a funqueira achasse permissível que se brincasse e fizesse ironias em provas acadêmicas.
De repente, Antônio e Valesca saíram "triunfantes". Acham que fizeram uma "revolução social", ele causando uma "provocação" aos preconceitos acadêmicos e midiáticos, ela virando pivô de uma "polêmica violenta" sobre um ritmo supostamente popular. E mais uma vez entra a glamourização da ignorância, agora jogada para um outro contexto.
Afinal, o brega-popularesco, no qual Valesca Popozuda se insere, agora passa por uma fase de suposto "aprimoramento". É Alexandre Pires se passando por "sofisticado" nos palcos do Faustão. É Odair José posando de "clássico" nos palcos das "viradas". Ou então um Leandro Lehart prometendo fazer em 25 anos de carreira o que o saudoso Monsueto já fazia logo no começo.
INTELECTUAIS PRÓ-FUNQUEIROS É QUE NÃO ENTENDEM CONTEXTOS
Agora a glamourização da breguice evoca esse "aperfeiçoamento". "Vejam como nossos ídolos populares (sic) são tão informados", dizem os intelectuais apologistas, confundindo vocação artística com amplo consumo de informações na mídia (do rádio à Internet). E vemos o quanto a intelectualidade quer nos fazer crer que o pop de matizes brega será a cultura brasileira do futuro.
Chega a ser ridículo. A nossa intelligentzia, agora feliz com mais um factoide em prol do "funk", que mostrou a "sensatez" da funqueira e a "ousadia" do professor, quer agora ser a paladina da moral e da cidadania e, "vitoriosos", agora julgam que a "voz da razão" está no "funk" e que só o "funk" - ou "não só ele", mas o "pagode romântico", o tecnobrega, o "brega de raiz" etc - salvarão o Brasil.
Antônio Kubitschek ainda acusou os críticos do "funk" de adotarem a "inteligência egocêntrica" descrita no estágio intuitivo das crianças estudadas pelo pedagogo Jean Piaget. Se for apenas de gente que sonha com um Brasil mais europeizado, como Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, tudo bem. Mas engana-se que os defensores do "funk" estejam livres de qualquer etnocentrismo.
Eles mesmos não pensam a "cultura popular" que defendem conforme outros contextos. Se é "popular", para eles, tudo bem, pouco importando se fazendeiros que matam agricultores e até freiras patrocinem conjuntos de "forró eletrônico". Eles mesmos desconhecem os problemas do "outro", para eles a pobreza é apenas um "paraíso" dotado de construções improvisadas e ruas sem asfalto.
O verdadeiro contexto que está por trás dessa "cultura popular" - que agora os intelectuais querem "consertar" de forma paternalista, ensinando "boa cultura" para os bregas e seus derivados trabalharem em momentos tardios de suas carreiras - envolve coisas que a intelectualidade dominante se recusa a entender ou simplesmente despreza.
Essa "cultura popular" envolve contextos de manipulação midiática, descaso educacional, opressão econômica, alienação política (que, se não é total, impede uma reflexão mais ampla e coerente dos fatos), exploração empresarial, que transformam o povo pobre numa classe problematizada em todos os aspectos, até culturalmente.
Mas aí o intelectual ignora isso. Prefere ele glamourizar a pobreza através dos chamados "produtos culturais", pouco importando o contraste discursivo que faz entre comunidades pobres que sofrem enchentes, deslizamentos de terras, ações de violência, e aquela "pobreza feliz" que dança o "funk", o tecnobrega e coisa e tal em casas noturnas suburbanas de donos já bastante ricos.
Agora a intelectualidade não consegue explicar o que realmente quer. Será que quer ver um povo pobre mais esclarecido? O povo pobre precisa ler livros ou já lhes basta ouvir o "funk"? Ou se os ritmos mais grotescos ficarão "melhores" com injeção de dinheiro do Ministério da Cultura ou um programa trainée que transforma o bregalhão de hoje num suposto "gênio da MPB" de depois de amanhã?
Portanto, tentaram reagir "serenamente" às rejeições da sociedade ao "funk". Tentam dizer que a questão do professor Antônio foi feita "de acordo com contextos problemáticos". Tudo para tentar passar a "boa imagem" do "funk", porque para eles, o "funk" é que é "inteligente", "sensato" e "ponderado". Quem o critica é que, além de "preconceituoso", possui "inteligência egocêntrica".
Até Valesca agora pensa em remover o silicone de seus glúteos, tenta se "endireitar". É o morde-e-sopra que o brega-popularesco tenta fazer para mostrar que é "cultura séria". Mas tudo isso é tendencioso, num país que agora sonha com Michael Sullivan como "gênio maior da MPB", com a intelectualidade "bacaninha" jogando mais cal no túmulo do mestre Tom Jobim.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
SÉRGIO MARTINS, DA VEJA, TOMA AS DORES DA INTELECTUALIDADE "BACANA"
Por Alexandre Figueiredo
Comentários entusiasmados a Odair José. Lembranças de Waldick Soriano. Elogios ao "funk carioca" e todo o cartaz ao "funk ostentação". Tratamento vip ao tecnobrega. Uma animada e carinhosa abordagem ao arrocha. Saudades de Wando e reverências aos "sertanejos" Zezé di Camargo & Luciano. E até mixagem de DJ tentando reabilitar o É O Tchan juntando-o a samples de Smiths.
Tempos atrás, as esquerdas médias - que reuniam esquerdistas de pensamento questionador frágil e pseudo-esquerdistas vindos dos porões uspianos do PSDB - é que tentavam investir nessas abordagens, o que não vingou, porque num dado momento o comercialismo explícito de seus ídolos batia de frente com os problemas vividos pela realidade concreta das classes populares.
Mas hoje, pelo jeito, o discurso de que os brega-popularescos que dominam rádios FM e TVs abertas eram "discriminados pela grande mídia" não convenceu. Foi deixado de lado e o brega-popularesco, sem poder se vender como "movimento libertário", agora tem que reassumir o então descartado vínculo com a grande mídia conservadora.
Aí entra a Veja e seu mais recente porta-voz dos bregas, o experiente Sérgio Martins, remanescente do jornalismo musical da Abril. Ele é um dos poucos que fizeram a revista Bizz nos anos 80 que permanecem na editora, depois que outros profissionais assumiram outras atividades, da antiga MTV à Rede Globo, passando pelo Multishow, Folha de São Paulo, TV Cultura etc.
Sérgio é o farofafeiro que faz sentido. Um pouco menos neurótico e mais profissional, sem manias de rascunhar "manifestos antropofágicos" a partir de delirantes defesas do brega. Sérgio sai em defesa entusiasmada do brega, só que "com categoria". E, com seu profissionalismo, o jornalista cultural de Veja toma as dores da intelectualidade "bacana" que quer a bregalização do país.
Sérgio faz na Veja o que Pedro Alexandre Sanches tentou fazer na Carta Capital, Fórum e Caros Amigos. Paciência. Como defender ídolos que fazem sucesso até na Rede Globo para publicações que justamente contestam o poderio das Organizações Globo?
"SORVETEIRO" DA VEJA
O brega-popularesco nunca ameaçou os barões da grande mídia. Nem mesmo alguns ativistas sociais simpáticos tentaram convencer o contrário, caindo em contradições e lamentos chorosos. Desde a ditadura militar, bregas e derivados sempre tiveram o apoio sobretudo de emissoras de rádio controladas por oligarquias coronelistas e políticos conservadores.
Mesmo o aparentemente polêmico "funk" sempre contou com a ajuda das Organizações Globo desde o começo, já a partir da rádio 98 FM (atual Beat 98), que sempre apoiou o gênero. E mesmo o discurso "ativista" que envolve os funqueiros hoje foi na verdade uma retórica armada dentro das Organizações Globo e da Folha de São Paulo, nada tendo a ver com ativismo progressista.
Sérgio Martins, que agora faz propaganda dos bregas, pode ser considerado o "sorveteiro" de Veja, na medida em que dá um refresco aos leitores numa revista marcada pelo reacionarismo de articulistas como Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Rodrigo Constantino e até mesmo o roqueiro Lobão.
Só que isso não significa que o mundo do brega seja antagônico ao "paraíso" do neoliberalismo proclamado pela "nata" da revista. Até porque isso tem uma exata analogia com o que acontece nos Estados Unidos da América, a pátria maior do neoliberalismo.
Se lá existe o "pesadelo" das guerras no Oriente Médio, da proteção ao país-cliente Israel, e das intervenções aqui e ali no mundo pela CIA, lá existe o "sonho" do cinemão de Hollywood, do hit-parade pop, da Disneylândia.
Nesse âmbito ideológico, tem-se ainda a McDonald's e a Coca-Cola, que só por adotar a cor vermelha na sua concepção estética, não viraram socialistas. Como também os sorrisos de Mickey, Pateta, Minnie e Pato Donald não representariam o contraponto "progressista" às operações militares dos EUA em alguma parte do mundo.
Não serão, portanto, os bregas do passado ou os funqueiros, axézeiros, breganejos, sambregas e arrocheiros de hoje o contraponto das histerias neoliberais dos articulistas de Veja. Isso porque a bregalização cultural se construiu sob uma perspectiva rigorosamente mercantilista, comercial e tendenciosa, não sendo um discurso pseudo-ativista que irá renegar tudo isso.
Portanto, a intelectualidade "bacana" deverá relaxar. Que eles esqueçam os puxa-saquismos a ícones esquerdistas, dancem o "Lepo Lepo" e o "Beijinho no Ombro" abraçados aos barões da grande mídia, e parem de fingir que se opõem ao direitismo midiático, até porque foi por causa deste que o brega cresceu de forma vertiginosa no país. É a lei do mercado, estúpido!!
quinta-feira, 10 de abril de 2014
CPI AMPLA FOI APROVADA POR COMISSÃO
Por Alexandre Figueiredo
A oposição queria uma CPI exclusiva para investigar o esquema de corrupção da Petrobras, mas tem que aguentar uma CPI ampla, decidida pelos governistas, para investigar não só a instituição, mas também a corrupção no sistema de Metrô de São Paulo e no Porto de Suape e na refinaria de Abreu e Lima, estes dois em Pernambuco.
A medida, aprovada por votação realizada ontem à noite, e criou um clima de rivalidade partidária entre governistas e os oposicionistas, sejam eles ligados à Aécio Neves, pré-candidato do PSDB à Presidência da República, e seu rival pelo PSB, o ex-governador pernambucano Eduardo Campos.
A Comissão de Constituição de Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a decisão, que depois foi encaminhada para o Senado Federal, para votação. Com a decisão, haverá uma comissão diversificada para investigar escândalos envolvendo diferentes partidos.
A votação dependeu da avaliação de um mandado de segurança da oposição, apreciado pela ministra do Supremo Tribunal Federal, Rosa Weber. O mandado questionava a inclusão de outros temas para a CPI, julgando que deveria apenas haver a comissão dedicada a investigar a corrupção na Petrobras.
A corrupção da Petrobras envolve irregularidades na execução de negócios, inclusive no exterior, como em uma refinaria em Pasadena, no Texas (EUA). A corrupção do Metrô paulistano se deve à formação de cartel e às alianças políticas com o PSDB. Já no caso das obras pernambucanas, a CPI pretende investigar irregularidades na licitação e nos trabalhos de construção.
Fora esses episódios, a política brasileira ainda sofre mais um escândalo de corrupção, como os negócios financeiros envolvendo o deputado federal André Vargas e o doleiro Alberto Youssef, que teriam desviado dinheiro público para favorecer a empresa deste.
O PT já começa a avaliar a possibilidade de expulsar André do partido. Ele renunciou ao cargo de vice-presidente da Câmara Federal.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
QUANDO SER "PROVOCATIVO" É IDIOTIZAR
Por Alexandre Figueiredo
Um incidente ocorrido hoje numa escola pública do Distrito Federal é reflexo de toda uma blindagem que a intelectualidade "bacana" faz em torno do brega-popularesco, que é uma visão etnocêntrica e estereotipada de "cultura popular".
Desta vez foi uma questão de prova, que citou a funqueira Valesca Popozuda (grafada com "W" no lugar do "V") como "grande pensadora contemporânea", algo que repercutiu muito mal nas mídias sociais. Tanto que a própria Valesca, para não pegar mal, recusou o rótulo, escreveu que era "uma bobagem" e que vai ler "um Machado de Assis para, quem, sabe, ser uma pensadora de elite".
O docente que cometeu a gafe se chama Antônio Kubitschek. Ele afirma que não tem parentesco com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, cujo governo simbolizou o espírito do tempo em que a música brasileira mais destacada era a Bossa Nova.
A escola é o Centro de Ensino Médio 03 de Taguatinga, uma das cidades-satélites (espécie de bairros) de Brasília. Antônio considerou sua atitude correta e disse várias "pérolas" politicamente corretas para justificar sua tese. Vamos lá:
"Acho que a Valesca foi muito feliz ao levantar as críticas contra o preconceito em relação ao funk e à ela, assim como quanto aos problemas dos professores".
"As discussões foram válidas. O objetivo não era se a Valesca era ou não uma grande pensadora. De acordo com alguns pensadores franceses, todo aquele que consegue produzir um conceito é um pensador. Dentro disso, sim, ela é".
"Antigamente era mais rígido [o processo de elaboração das provas], mas agora tem uma abertura para o que é a cultura popular. Não acho errado. O professor colocou algo que tinha a ver com o contexto da prova e a socieda está vivendo".
Cria-se polêmica à toa no Brasil de hoje. A banalização da polêmica e a mania de intelectuais oportunistas quererem ser "provocativos" pouco fazem com que a mediocrização cultural, que já está avançando nos índices da idiotização mais aberta, seja realmente discutida pela sociedade.
Na verdade o rótulo "provocativo" é apenas uma desculpa para os apologistas do brega empurrarem seus ídolos e fenômenos para contextos mais "sérios". Isso não traz discussão verdadeira, até porque a polêmica é diluída para ser uma estratégia de marketing. E isso só glamouriza a breguice, mais ainda, em completo prejuízo para a cultura brasileira.
terça-feira, 8 de abril de 2014
EMPRESÁRIOS E ATÉ FIFA DEPOSITAM DINHEIRO NOS SAMBREGAS
Por Alexandre Figueiredo
Com a mediocrização musical atingindo níveis extremos no Brasil, o "pagode romântico", ou sambrega, agora recebe pesadas verbas empresariais de diversas fontes para tentar uma "reabilitação". A reboque dele, a sua resposta "sensual", o "pagodão baiano", tenta se alimentar do sucesso nacional do Psirico e, pasmem, usa até Smiths para tentar reabilitar o É O Tchan.
Um dos destaques desse supra sumo da mediocrização cultural é a escolha do ídolo Alexandre Pires, um dos nomes do cenário neo-brega dos anos 90, para cantar na cerimônia da Copa do Mundo de 2014. Regresso ao seu grupo de origem, Só Pra Contrariar, Alexandre Pires chegou a ser apadrinhado pelo casal cubano anti-castrista, a cantora Gloria Estefan e o produtor Emilio Estefan Jr..
Alexandre Pires, que há um bom tempo é patrocinado pela grande mídia mais conservadora - a partir das Organizações Globo, mas também sob o apoio de Caras - , agora é apadrinhado pela Fifa na segunda tentativa de mostrar o cantor para o público estrangeiro.
Junta-se a isso os métodos surreais de reabilitação de grupos como Molejo e Raça Negra, também colegas de Pires no cenário neo-brega. Tentando empurrar grupos como esses para o público alternativo, o Raça Negra chegou a ter um tributo "alternativo" com direito a capa imitando a estética do Sonic Youth. Já o grupo Molejo adotou uma camiseta imitando a estética dos Ramones.
Mas no "pagodão baiano", que depois do "Rebolation" do Parangolé, tentou o sucesso nacional com a música "Lepo Lepo", do Psirico, agora investe na tentativa de reabilitação do já decadente É O Tchan. Em que pese o Compadre Washington aparecer entre os "chatos" de uma campanha publicitária, o grupo também usa os alternativos para forçar a barra da reabilitação.
Desta vez a vítima é o cantor Morrissey, a partir da gravação de uma música dos Smiths. Os fãs do grupo seriam as últimas pessoas que aceitariam ouvir algo do É O Tchan, e se identificam tanto com o grupo quanto Reinaldo Azevedo se identifica com o Movimento dos Sem-Terra, mas a "gracinha" foi feita por um DJ "provocativo" pago para "ressuscitar" o grupo baiano com tal exotismo.
Há também o grupo Os Morenos, que agora tenta "renascer" a partir da excursão comemorativa de sua carreira, há vários anos sem o vocalista original, Waguinho, que virou pastor, político e cantor gospel. É outro grupo da safra sambrega que alimentou o cenário neo-brega da Era Collor.
Fora isso, há a ênfase dos politicamente corretos, aqueles sambregas que querem fazer "samba sério". Há o Thiaguinho, arroz-de-festa patrocinado pelas Organizações Globo, os verossímeis Péricles e Xande de Pilares (agora saindo do Revelação) e o emergente Mumuzinho, apadrinhado por uma atriz da Rede Globo de Televisão.
Só que nada disso enobrece o verdadeiro samba, que corre o risco, depois de um tributo bem-intencionado mas com algum ranço mais elitista, com quatro cantores conhecidos, a se tornar peça de museu (apesar da proteção institucional do IPHAN).
O sambrega e o "pagodão" apenas diluem e deturpam o samba, com mais ou menos sutileza, mas longe de representar tanto algum acréscimo de criatividade quanto a fidelidade às suas raízes. Pelo contrário, as eventuais covers de MPB ou de samba de raiz soam por demais oportunistas e tendenciosas.
Perde o público que espera uma renovação verdadeira do samba brasileiro. O samba de raiz reduzido a homenagens que só atraem um público de elite. Ou então sambistas originais que tocam em seus redutos de origem sob o tratamento típico de artistas estrangeiros, como Paulinho da Viola em Madureira, tratado pelo mercado como Paul McCartney tocando no Engenhão, no Méier.
Afinal, o mercado não quer saber do samba verdadeiro. O povo pobre não pode mais ouvir o samba de verdade como se fosse a sua música. O mercado e o poder midiático querem que os "doentes do pé" monopolizem o samba popular, e eles é que toquem o que o mercado, a mídia e até os "cartolas" (não os do samba, mas os do futebol) decidem do que deve fazer sucesso sob o rótulo de "samba".
segunda-feira, 7 de abril de 2014
ROBERTO CARLOS E SUA ASSOCIAÇÃO COM A DITADURA MILITAR
Por Alexandre Figueiredo
A revista Época, lançada no último fim de semana, lançou uma reportagem revelando o forte apoio que Roberto Carlos deu ao regime militar e o fato dele ter sido bem tratado pelos generais, a ponto de um ministro da Justiça ordenar a liberação de um filme, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, da Censura Federal, e também do fato do "Rei" ter chegado a receber uma concessão de rádio FM.
Que Roberto Carlos teria sido um figurão conservador, desde quando era jovem, isso não é surpresa alguma. Mas com o tempo foram revelados, aos poucos, alguns aspectos do conservadorismo do cantor capixaba. Numa entrevista ao jornal Última Hora em 1970, por exemplo, Roberto assumiu ideologicamente ser "de direita".
Agora a reportagem revela outros aspectos. Um que Roberto teria sido funcionário do Ministério da Educação e Cultura nos primeiros anos do "governo revolucionário" (como era conhecida a ditadura militar em seu tempo), já em 1964, ano de surgimento da Jovem Guarda.
Segundo depoimento da jornalista Noemi Flores, que foi chefe de Roberto, ele teria trabalhado como assistente de relações públicas da rádio MEC, no Rio de Janeiro, cargo que desempenhou até 1970, quando foi exonerado. Foi a época de sua ascensão meteórica e do auge de sua popularidade.
Em 1968, o lançamento oficial do filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, produção do ano anterior, chegou a ser barrado pela Censura Federal, apenas por questões burocráticas, já que o filme não apresentava qualquer conteúdo ameaçador ao regime. E sua liberação ocorreu por iniciativa pessoal do ministro da Justiça do governo Costa e Silva, Luiz Antônio da Gama e Silva.
Gama e Silva era um entusiasmado defensor do regime ditatorial, tanto que coube a ele, no final de 1968, fazer a redação do texto do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), que estabeleceu medidas mais duras de repressão e censura e extinguiu o habeas corpus para favorecer ainda mais as punições contra os opositores do regime.
Roberto Carlos recebeu medalhas e outras homenagens, se apresentava em eventos promovidos pela ditadura militar, até mesmo para o Exército, aspectos bem mais fortes do que sua recente iniciativa de se apresentar para gente muito rica em cruzeiros marítimos.
Além disso, Roberto Carlos foi um dos primeiros nomes influentes na bregalização do país, tendo inspirado as carreiras de cantores como Odair José, Paulo Sérgio e Amado Batista, além de influir ideologicamente em outros ex-Jovem Guarda como Fevers (inclusive Michael Sullivan) e Dom & Ravel.
Até mesmo o cantor Waldick Soriano teve sua popularidade favorecida pelo fato de seu romantismo ser similar ao do "Rei", embora musicalmente o cantor capixaba apostasse numa proposta mais arrojada, que era fazer uma sonoridade mais soul. Hoje tido como "libertário", Waldick, que era direitista, gravou discos-tributo ao repertório de Roberto Carlos.
Nos anos 80 e 90 Roberto, que segundo a Época foi sócio da rádio Terra FM (até hoje no ar), contribuiu para abrir as portas das deturpações bregas da música caipira e do samba, contribuindo, quase que diretamente, na ascensão de nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano e Alexandre Pires.
A proximidade de Roberto com Michael Sullivan também é notória, através da gravação de "Amor Perfeito", de Sullivan, Paulo Massadas, Lincoln Olivetti e Robson Jorge, e depois de "Meu Ciúme", que Sullivan e Massadas, que comandavam um esquema jabazeiro para a MPB, compuseram especialmente para o cantor.
Aspectos como esses podem explicar por que Roberto não quer que publiquem biografias não-autorizadas. Se bem que o episódio contra Paulo César Araújo não pode ser vista como maniqueísmo, porque o historiador da PUC-RJ, hoje cortejado "informalmente" pelas Organizações Globo, também adotou a mesma postura a respeito de Waldick Soriano, cujo direitismo não poderia ser evocado, para o bem de sua imagem "limpinha" para a posteridade.
Portanto, há muito mais coisas a serem reveladas nos bastidores do comercialismo musical brasileiro. E que certamente deixarão muita gente de cabelo em pé e a intelectualidade "bacaninha" bastante envergonhada. O cruzeiro marítimo da cultura transbrasileira e transatlântica está à deriva.
domingo, 6 de abril de 2014
PESQUISA DIZ QUE O BRASIL É UM DOS PIORES PAÍSES EM EDUCAÇÃO
Por Alexandre Figueiredo
"Sou inteligente. Nasci inteligente. Sou tudo de bom, sou nota dez, sou show de bola, sou da paz. Mas se alguém me dizer que não sou inteligente, então f...". Típica mensagem de um jovem brasileiro médio nas mídias sociais, ele tornou-se alvo de uma pesquisa não muito generosa para seu narcisismo.
Em outras palavras, é uma pesquisa que apontou o problema da Educação no Brasil e a incapacidade de jovens brasileiros de resolver os problemas através do raciocínio. A pesquisa foi realizada pelo PISA (Program for International Student Assessment - Programa Internacional de Avaliação de Alunos), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Segundo o estudo recente, que envolveu 44 países participantes da OCDE, entre países-membros e convidados (como o Brasil), o país sul-americano ficou em 38º lugar, bem abaixo de países como Cingapura (que ficou em primeiro), Coreia do Sul (em segundo), Estônia (em 12º) ou mesmo Eslovênia, Sérvia, Croácia e Israel (em 30º, 31º, 32º e 34º, respectivamente).
O Brasil, além disso, se encontra abaixo do Chipre, que ficou em 37º e distante de alcançar países desenvolvidos como Japão (terceiro colocado), Inglaterra (11º), França (13º), Estados Unidos (18º) e os escandinavos Finlândia (10º), Noruega (21º), Dinamarca (23º) e Suécia (25º).
A avaliação feita envolveu três áreas: Leitura, Matemática e Ciências. Os estudos foram feitos em 2012, com 85 mil alunos adolescentes. As questões correspondiam a problemas complexos que exigiam soluções menos óbvias, em computadores.
Algumas questões parecem simples para uma geração marcada pela Informática, como comprar bilhetes em uma máquina e operar um tocador de MP3. Uma outra questão, como analisar a menor distância entre dois pontos, já era uma típica questão de raciocínio lógico-quântico.
O Brasil atingiu apenas 428 pontos, bem abaixo da média do OCDE, que é de 500. Segundo a pesquisa, a região Norte ainda teve pior avaliação, com 383 pontos, e isso se observa levando em conta apenas as escolas situadas nas áreas urbanas. Se o PISA tivesse incluído as escolas rurais, a posição do Brasil estaria ainda pior.
Numa avaliação incluindo 65 países, o Brasil esteve entre os piores colocados, ficando em 58º em Matemática, 55º em Leitura e 59º em Ciências. As alunas do sexo feminino tiveram avaliação pior em 22 pontos em relação aos alunos do sexo masculino.
A pesquisa derrubou o mito, defendido por muitos ativistas, de que as novas tecnologias trariam o avanço na inteligência das pessoas. A Informática não melhorou a capacidade de raciocínio das pessoas, e o acúmulo de informações não significa que as pessoas tornaram-se mais inteligentes.
Quantidade não é qualidade. Problemas educacionais, manipulação da mídia, crise econômica e crise de valores sociais diversos influi nesse quadro. Será que os jovens "show de bola" das mídias sociais terão coragem de mandar o PISA "sifu"?
sábado, 5 de abril de 2014
LOS ANGELES TIMES FAZ CRÍTICAS AO "FUNK"
Por Alexandre Figueiredo
Depois do abraço dos barões da grande mídia, não bastasse a até agora não abordada estrutura empresarial do "funk", o ritmo ganhou as páginas do Los Angeles Times numa reportagem que destoa do tom elogioso que a revista Veja - a mesma que "criminaliza" os movimentos sociais - deu ao gênero.
Embora a reportagem adote uma postura aparentemente neutra sobre o "funk ostentação", que é seu foco, ela admite que o gênero é bastante rejeitado, desde as classes mais altas até os movimentos sociais de esquerda, que veem no gênero uma apologia a valores sociais distorcidos.
Mesmo a declaração de MC Guimê, seu principal astro, soa discutível. Entre um povo rico e feliz e um povo pobre e triste, ele diz preferir ser rico e feliz, sem dar muitos detalhes a respeito. Guimê, que é de Osasco, admite que nunca passou fome na vida, por ter tido vários empregos antes e disse que no entanto nunca teve na vida mais do que o mínimo necessário para viver.
Guimê admite que a sociedade é capitalista, que sua música deve falar mesmo de companhias que dominam o mercado de consumo e que admite que, mesmo sendo ligado à favela, possui bens de consumo, como carros.
As críticas no entanto vem justamente desse fascínio ao consumismo que o "funk ostentação" simboliza. Apesar da blindagem intelectual (não creditada na reportagem), há movimentos sociais que reprovam o "funk ostentação" pelo fato de que ele nada acrescenta à problemática da pobreza no Brasil.
O sociólogo Laurindo Leal Filho, citado na reportagem e um dos mais destacados críticos do poder midiático no Brasil, vê no "funk ostentação" uma combinação de aumento do poder de consumo e alienação cultural.
Ele descreve que o povo das periferias aumentou de tal forma o poder de consumo que é capaz de comprar de xampus até passagens de avião. Mas ele lamenta que esse crescimento não tenha sido acompanhado de uma política que permita aos pobres em ascensão sócio-econômica uma postura mais crítica em relação ao consumismo.
Embora a reportagem termine com uma frase de MC Guimê querendo provar o "valor" do "funk ostentação", o texto não investe na postura apologista que se vê na mídia brasileira, o que já é um diferencial em relação à blindagem intelectual que o "funk" se cerca aqui no Brasil.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
MULTINACIONAIS, LATIFÚNDIO E GRANDE MÍDIA TENTARAM ARRUINAR A MPB
Por Alexandre Figueiredo
A Música Popular Brasileira foi empastelada pela ditadura militar, numa aliança que incluiu a indústria fonográfica, o poderio midiático e o latifúndio que controla o interior do país e que exerce seu poder em rádios interioranas, supostamente "populares".
A blindagem intelectual tentou ocultar essa realidade, usando-se de uma retórica confusa mas atraente que, a pretexto de "perder o preconceito" - que na verdade era uma postura bastante preconceituosa, na medida em que se aceita tudo sem questionamento, em nome do "popular" - , forçou a aceitação confortável da sociedade em geral de tudo que era breguice cultural.
Mas, já que ressurgem análises diversas sobre o que realmente foi a ditadura militar, quem a apoiou e como surgiram os problemas que se refletem até hoje no país, seria melhor avaliar realmente sem preconceitos, ou seja, sem a aceitação passiva das coisas, sobre o que aconteceu com a MPB que hoje se encontra numa quase silenciosa crise.
Nos primórdios da ditadura militar, até pelo simulacro de "democracia" que os generais tentaram promover no país, a MPB conseguiu se projetar e lançar novos artistas. Isso surgiu dentro de um curioso contexto em que duas forças antagônicas entre 1958 e 1964, a sofisticação da Bossa Nova e a música de raiz reciclada pelo CPC da UNE, se fundiram no que hoje é a moderna MPB.
A moderna MPB, que era um dos últimos canais de diálogo entre a classe média e as classes populares, conseguiu lançar novos artistas - alguns já falecidos, como Elis Regina, Gonzaguinha, Taiguara e Sidney Miller, e outros em atividade até hoje, como Chico Buarque, Joyce, Milton Nascimento e Edu Lobo - que perduraram no sucesso numa fase que durou até 1976.
Embora essa fase seja representativa de ricas expressões musicais, que puxaram ainda a geração dos anos 70 - Ivan Lins, Diana Pequeno, Alceu Valença, Zé Ramalho e outros - , além da abertura dos portos à globalidade pop do Tropicalismo (1967-1969), ela criou um grande problema, na medida que a música brasileira de qualidade ter passado a ser associada a artistas de elite.
As classes populares, a partir da ditadura militar, romperam com suas próprias raízes, já que o poder latifundiário, que controlava as rádios e estabelecia parcerias com rádios, TVs e gravadoras sediadas em São Paulo, decidiu impor ao povo pobre um tipo de música "não muito brasileira" e "não muito sofisticada" que encaixou perfeitamente no processo de controle social sobre as massas.
Essa música, a música brega, já mostrava, em vez de modinhas, sambas, toadas e outros ritmos autênticos, cancionetas frouxas que, nos seus primeiros sucessos, não se definiam se eram country ou bolero. Era como se péssimos artistas quisessem fazer country e bolero ao mesmo tempo, sem ter a noção exata do que era um nem outro.
A partir dos ídolos cafonas, a cultura musical brasileira passou a ser nivelada por baixo e comandada por um esquema de jabaculê (corrupção envolvendo mídia, ídolos musicais e gravadoras) que se propagou e fez o brega se multiplicar em numerosas tendências pseudo-populares, que a blindagem intelectual recente tentou creditar como o "moderno folclore transbrasileiro".
CAMINHOS PARA A SUPREMACIA
Com o apoio de ídolos da Jovem Guarda que sucumbiram ao comercialismo - sobretudo membros dos Fevers - e outros produtores fonográficos e executivos de gravadoras e agências de famosos, a música brasileira "mais popular" sucumbiu a um processo de americanização pelo brega que deixou para trás o rico patrimônio cultural, que agora era apreciado apenas pelas elites de formação universitária.
O processo fez com que o povo pobre no Brasil passasse a tomar como "sua" uma pseudo-cultura plastificada, postiça, americanizada, de ritmos estrangeiros que não eram assimilados pela vontade própria, mas pela imposição das rádios "populares" patrocinadas pelos grandes proprietários de terras de suas regiões.
Com isso, os anos 70 mostrava as áreas rurais praticamente tomadas de música brega, enquanto os focos de resistência da verdadeira música brasileira se encontrava nos centros urbanos e algumas outras regiões. Mas a bregalização queria mais.
Nos anos 80, a ajuda politiqueira de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães multiplicou as rádios controladas por oligarquias e políticos coronelistas, e fez o brega, que já conquistava os subúrbios de capitais distantes desde o fim da década anterior, a entrar, na década seguinte, ingressava nos subúrbios dos grandes centros urbanos.
A bregalização teve o apoio explícito das grandes redes de TV, da mídia mais reacionária, das grandes gravadoras com sede de lucro, com agências de famosos financiadas pelo latifúndio, pelas multinacionais que patrocinavam os bregas aqui e ali, ainda que na forma indireta dos anúncios publicados em rádios, TVs e imprensa e nos patrocínios de eventos ao vivo.
Passados os anos 90, quando os bregas da época encerravam a década com sua "MPB de mentirinha" exposta em tributos caça-níqueis transmitidos pelas redes de TV, a música brega já começava a atingir a classe média e entrava nas universidades pelas portas dos fundos. Era época em que os empresários de brega "compravam" até sindicatos e entidades estudantis para forçar a expansão do brega.
E, começando o século XXI, ainda houve a blindagem intelectual que dava um tom ao mesmo tempo melodramático e pretensamente etnográfico aos sucessos jabazeiros da bregalização, forçando a adesão das classes mais cultas ao brega mais explícito. Chegava-se a 2010 criando até tendências "universitárias" de ritmos bregas, numa imbecilzação que só existia, antes, nos sonhos dos tecnocratas do MEC-USAID dos anos de chumbo.
Agora a supremacia do brega atinge até mesmo os salões da MPB, quando se faz até tributo "emepebista" a Michael Sullivan, um dos chefões do brega dos anos 70-80 e comandou o perverso esquema jabazeiro recentemente denunciado por Alceu Valença. Pior: até o "funk", comprovadamente patrocinado pela CIA (a partir da Fundação Ford), chegou aos grandes salões.
Por isso cabe questionarmos os problemas da MPB. Se hoje a bregalização atingiu até mesmo as elites, que antes monopolizavam a apreciação da verdadeira música brasileira, é sinal que algo está errado. E o verdadeiro preconceito está não na recusa da bregalização - que envolve processos de manipulação social cruéis - mas na aceitação confortável, entusiasmada e submissa aos "sucessos do povão" em detrimento do rico patrimônio musical condenado ao esquecimento.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
CHICO BUARQUE É O "JANGO" DA MPB
Por Alexandre Figueiredo
Prestes a completar 70 anos de idade daqui a alguns meses, Chico Buarque é um dos nomes peculiares da Música Popular Brasileira, e recentemente injustiçado por uma campanha, que chega aos tons difamatórios, comandada por uma geração de intelectuais ditos "progressistas".
São esses intelectuais que vieram da Folha, se escondem na PUC ou outras universidades, realizam documentários no qual o mais claro apoio da Globo Filmes é simplesmente omitido dos créditos técnicos, gente que "não recebe recursos" e ainda parasita o aparelho financeiro do PT sob o consentimento de seus políticos.
Mas eles são capazes de "urubologias" como de querer desmoralizar Chico Buarque só por conta de algumas posturas. No caso do Procure Saber, por exemplo. Chico manifestou-se contrário às biografias não-oficiais, disse, talvez por desatenção, que não foi entrevistado pelo queridinho da intelligentzia, Paulo César Araújo e ainda revelou que não autoriza montagens atuais da peça Roda Viva.
Talvez algumas posturas fossem fruto da opinião pessoal, como o fato de Chico achar que Roda Viva ficou datada, ou se foi zeloso demais diante de um mercado de biografias marcado pelo oportunismo sensacionalista. Mas Chico foi mesmo assim esculhambado pela intelectualidade "bacana", que o ridicularizou ao ter se esquecido que foi entrevistado pelo "papa Paulo".
Houve mesmo acusações incoerentes de Chico ser o "dono da Fazenda Modelo da MPB", vindas de um Pedro Alexandre Sanches que diz defender a "reforma agrária da MPB". Logo Sanches, discípulo de Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso e que fica endeusando ídolos tecnobregas que são abertamente patrocinados pelos latifundiários que se cercam junto ao grupo O Liberal, lá do Pará.
Chico sofreu as mesmas dores que João Goulart. Como este, nasceu de uma família aristocrática que no entanto tinha inclinações mais progressistas. Jango foi um fazendeiro, um proprietário de terras da região de São Borja, no Rio Grande do Sul, filho e herdeiro de Vicente Goulart, mas tinha uma natural e generosa inclinação de promover medidas de benefício às classes populares.
Durante sua breve carreira política, que mal conseguiu ter destaque entre os anos 50 e 60, Jango era acusado de "manipulador de sindicatos" por uma direita que gostaria de ver os sindicatos de trabalhadores extintos ou manipulados pelo capital norte-americano, não muito diferente da acusação que Chico teve recentemente como "coronel da Fazenda Modelo".
Chico, que nos tempos de Jango compunha suas primeiras músicas e sonhava ser cantor e compositor, se baseando nas lições ´poético-musicais de Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto, era filho de Sérgio Buarque de Hollanda, o historiador de Raízes do Brasil, conhecido intelectual em evidência na mesma época.
Chico poderia ser um aristocrático com jeito de galã e alguma postura de príncipe, mas sempre esteve solidário com a cultura popular e queria dialogar com a cultura do povo pobre, sem a pretensão de substitui-la.
Ele fazia sambas, fez até um samba-enredo, "Vai Passar", de 1984, mas nunca teve a pretensão de estar no lugar de um sambista no morro. Seu samba era apenas a visão sua de samba, não o modelo de samba que deveria prevalecer na cultura brasileira.
E o que fizeram os detratores de Chico Buarque? Coisa pior!! Substituíram os sambas, modinhas e outros ritmos autênticos por engodos musicais americanizados e palidamente brasileiros, que constituiu as diversas matizes do brega, dos pseudo-boleros chorosos de Waldick Soriano até os pastiches de ritmos caribenhos que geraram de Carlos Santos a Banda Calypso.
Se Chico é de origem aristocrática, pior ocorre com os empresários que promovem o suposto "popular" transbrasileiro - jargão digno da teoria de FHC - , gente de origem pobre mas que se enriqueceu como capatazes dos grandes latifundiários, a exterminar, se não os trabalhadores e sem-terra a bala, mas a cultura brasileira transmitida pelo convívio social e não pelo rádio coronelista.
E, quanto ao esquerdismo, Chico Buarque, tão humilhado por intelectuais "bacanas" que tentaram sujar as páginas da mídia progressista com seus textos pró-brega, foi muito mais fiel às forças de esquerda do que os breguinhas de ontem e de hoje tão cortejados pelos "bacaninhas" pseudo-progressistas.
Pois todo o brega, na hora mais decisiva, apunhala as esquerdas pelas costas, aderindo de corpo e alma à grande mídia, aparecendo abraçados aos barões da mídia e seus porta-vozes numa conquista de espaço que nada tem de inimiga ou conspiratória, mas de muito animada e incrivelmente amistosa.
Do brega de ontem, a memória curta é traída e dissolvida por fatos indiscutíveis. Waldick Soriano era um direitista convicto, e Odair José nada teve de revolucionário, sendo também bastante conservador. E até o "funk ostentação", que queria ser o símbolo do ativismo social de 2013, meteu o facão nas costas das esquerdas quando MC Guimê foi com muito gosto virar capa na reacionária Veja.
Enquanto isso, o "coronel da Fazenda Modelo" era solidário até mesmo em manifestações controversas em favor do PT, mas também em outras iniciativas de cunho social, outros abaixo-assinados contra arbitrariedades legais e outras posturas de cunho realmente progressista.
Esta é a história. E, quando se relembra os fatos da ditadura militar e todos os fatores de muitos problemas que atualmente existem, a memória curta, a princípio festejada, se dissolve em pó mesmo quando cria dogmas que parecem unânimes e insuperáveis.
Pois vão-se os breguinhas cortejados pelas esquerdas médias comemorarem o sucesso abraçados aos barões da grande mídia. E fica o Chico Buarque, tão "fazendeiro" quanto Jango, mas também tão realmente solidário com as causas populares. Não é preciso ser pobre para defender o povo.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
BREGA FOI APOIADO, SIM, PELA DITADURA MILITAR
APESAR DE TER TIDO MÚSICAS CENSURADAS, ODAIR JOSÉ NEM DE LONGE ERA UM REVOLUCIONÁRIO.
Por Alexandre Figueiredo
Definitivamente, não valeu o tendencioso revisionismo histórico de Paulo César Araújo, que no calor da Era FHC produziu o livro Eu Não Sou Cachorro, Não para tentar provar que o brega era "música de protesto" que apavorava os generais da ditadura.
A tese, lacrimosamente difundida na grande mídia, pelo próprio Araújo fazendo ele mesmo pose de "coitadinho" - "Ninguém investiu nas minhas pesquisas", lamentou ele, se esquecendo das verbas da Fundação Ford que recebeu por intermédio da UniRio - , até chegou a convencer muita gente boa e ter virado até unanimidade durante muito tempo.
Mas só depois que blogues como este mostraram o outro lado da coisa é que as teses de Araújo sobre o brega sumiram. Ele ainda se autopromoveu às custas da censura de um decadente Roberto Carlos, mas, depois de tentar seduzir as esquerdas médias para apoiarem os ídolos bregas, Araújo, como um menino que quebra a vidraça da casa vizinha, agora se esconde sob o respaldo midiático da Globo.
Pois agora o "consultor free lancer" de música brega das Organizações Globo começa a ser questionado pela sua visão delirante de que os ídolos cafonas, mesmo "despolitizados", eram "cantores de protesto", e mesmo a hipótese de que alguns sucessos bregas foram censurados não dão respaldo seguro à sua tese.
Pelo contrário. Deixando de lado a memória curta que manipula o passado ao bel prazer dos preconceitos e conveniências do presente, vemos que o brega significou, mesmo, o tipo de música desejado e apoiado abertamente pela ditadura militar. Isso é fato, não é preconceito.
Se Odair José e Waldick Soriano tiveram músicas censuradas - uma música de Waldick, de 1962, "Torturas de Amor", chegou a ser atribuída erroneamente como "protesto contra a ditadura", mesmo sendo uma canção gravada ainda com Jango como presidente de um sistema parlamentarista - , não foi por questões realmente consideradas ameaçadoras ao poder dos generais que controlavam o Executivo.
CONSERVADOR, WALDICK SORIANO TEVE UMA MÚSICA DE 1962 ATRIBUÍDA ERRONEAMENTE PELOS INTELECTUAIS DE HOJE A UM SUPOSTO PROTESTO CONTRA A DITADURA MILITAR.
DIREITA JÁ VIVIA REALIDADE CANTADA POR WALDICK E ODAIR
A censura se deu apenas por letras consideradas tabus por alguns censores. Eram letras sobre sentimentalismo amoroso exagerado ou práticas sexuais, que em si não eram tabus sociais até porque os mais reacionários indivíduos da época viviam tais situações.
Naqueles idos de 1969-1978, época de vigência do AI-5, a direita já praticava sexo antes do casamento, tomava pílulas anti-concepcionais, apreciava pornografia, sofria dor de corno, falava palavrão, usava maconha e cocaína, entre outras coisas escandalosas.
Mas Odair e Waldick, no fundo duas figuras bastante conservadoras - se hoje até Lobão é conservador, não seria Odair José um revolucionário, não é mesmo? - e, só por umas musiquinhas vetadas pela Censura Federal foram equivocadamente classificados pela intelectualidade etnocêntrica de hoje como se fossem Marighellas e Lamarcas musicais.
A direita vivia as músicas cantadas pelos ídolos cafonas. O problema é que vários censores tinham um moralismo ainda mais rígido, inflexível e exagerado. Nem todo mundo que era censurado era "subversivo" e a ditadura militar expurgou até mesmo Carlos Lacerda, um udenista radical que mais defendeu o golpe militar mas foi vítima dele.
Já na época os direitistas mais velhos, com mais de 50 anos de idade, achavam qualquer desvio de comportamento "subversivo". Boa parte da burguesia que foi às "marchas da família" em 1964, já em 1968 vivia o mesmo cotidiano "ousado" cantado por Odair José e se vestia de hippie ou psicodélico. Os membros do Comando de Caça aos Comunistas se vestiam de beatniks. Isso é "subversão"?

DOM & RAVEL SIMBOLIZARAM OS SUCESSOS MUSICAIS DO "MILAGRE BRASILEIRO".
RÁDIOS CORONELISTAS
Paulo César Araújo não conseguiu explicar de forma convincente, numa demonstração de ato falho, por que as músicas bregas tornaram-se populares no período em que vigorou o AI-5, o quinto ato institucional que tornou rígida a repressão e a censura no país.
Ele tentou argumentar que a música brega era uma "reação" aos arbítrios do regime, como se fosse fácil usar emissoras de rádio para propagar a rebelião popular. É uma tese bastante equivocada e que não tem o menor sentido de veracidade.
Se a MPB que aparecia na televisão entre 1964 e 1968 representou uma resistência ao regime militar, foi porque a própria ditadura quis adotar um verniz de "democracia" e permitiu às emissoras de TV certa liberdade de expressão. A pressão dos anunciantes, sobretudo as multinacionais, também influiu muito, e tudo isso acabou quando veio o quinto ato institucional.
Já durante a vigência do AI-5, a música brega foi tocada por emissoras de rádio e TV que já estavam identificados e solidários ao poderio militar, sobretudo rádios regionais que eram ligadas, no âmbito local, ao poder do latifúndio, o mesmo que mandava exterminar agricultores e até padres que representavam risco aos privilégios dos grandes proprietários de terras.
Hoje houve quem falasse que o brega era a "reforma agrária da MPB", uma tese ridícula e sem lógica. O brega sempre foi apoiado por rádios que estavam ligadas ao poderio dos "coronéis" regionais e das oligarquias midiáticas das grandes capitais. O pretexto do "popular" não significava que os ídolos cafonas apavoravam a ditadura militar, muito pelo contrário.
Se os ídolos bregas eram censurados, era por algo que tinha mais a ver com "pequenas travessuras". Um Odair não ameaçava o poderio militar. Muito menos um Waldick. Já Benito di Paula, Dom & Ravel, Paulo Sérgio e outros chegaram mesmo a agradar a sociedade que apoiava a ditadura.
Eles representavam uma visão estereotipada, politicamente inofensiva e comercialmente viável do "popular" defendido pela ditadura militar e pelos civis que a apoiavam. Não tinham uma identidade nacional definida, porque musicalmente eram muito confusos, e seus temas eram inofensivos, inócuos, mesmo quando tentavam falar de política.
Por isso não faz o menor sentido classificá-los hoje de "combativos" contra a ditadura. Eles eram apoiados pela ditadura, eram o modelo de "música brasileira" que a ditadura militar queria para o povo brasileiro.
Essa é a visão que apavora a intelectualidade de "bacaninhas" de hoje, mas, tirando o verdadeiro preconceito da memória curta, percebemos que os ídolos cafonas realmente atendiam aos interesses das forças dominantes que dominaram a ditadura militar, já que a música brega durante anos anestesiou corações e mentes das classes populares do nosso país. O brega foi a água com açúcar da repressão militar.
terça-feira, 1 de abril de 2014
JOÃO GOULART E AS PRESSÕES DO 1964
Por Alexandre Figueiredo
João Goulart pode ter cometido erros políticos, sim, como a tal anistia aos sargentos revoltosos comandados pelo suspeito Cabo Anselmo - depois revelado um direitista astucioso - , mas não era um político fraco nem hesitante, mas um líder popular que sabia que estava agindo sob violentas pressões de todos os lados.
Das esquerdas, Jango era acusado de não cumprir o que prometia das chamadas reformas de base. Neste caso, as pressões sociais e a atuação bem menos cúmplice do que parecia em relação ao PCB - que já em 1962 deixava o antigo nome "Partido Comunista do Brasil" para o nascedouro PC do B e passava a ser Partido Comunista Brasileiro - desmentiram o mito de que Jango era "comunista" e "manipulador de sindicatos".
Da direita, Jango era acusado de ser "comunista", mesmo quando as relações não eram assim tão ligadas e que o próprio PCB era duramente criticado pelos esquerdistas de 1961-1964, por conta de sua visão antiquada e extremamente pragmática. Depois do golpe, o PCB foi acusado de não ter firmeza, na época, para reagir contra a ação dos generais.
João Goulart era um líder nacionalista. Até o linguista e cientista político norte-americano Noam Chomsky não considerava Jango um "comunista". O que Jango representou foi um político reformista, que procurava ousar mais nas suas ideias políticas e nos seus projetos de governo, que infelizmente não teve condições de colocar em prática.
Jango não era hesitante. Ele tentava manter um equilíbrio político, já que governava um país grande e diferenciado que era o Brasil. A responsabilidade dele era grande, mas o preconceito que se havia na sociedade com projetos reformistas era bem pior.
Se trinta anos antes do Golpe de 1964 ainda se via as reivindicações dos trabalhadores como um "crime", em 1964 havia gente que se revoltava quando um governante prometia reformas sociais amplas, reforma agrária e redução das remessas de lucros para o exterior.
Jango melhorava as políticas salariais, e irritou a direita quando, no tempo em que era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, dobrou o valor do salário mínimo. Isso em 1954. A direita pressionou e os então coronéis que depois derrubaram o mesmo político, chegaram a divulgar um manifesto contra a medida.
A reforma agrária só era aceita pela direita quando os grandes proprietários de terra recebessem uma pesada indenização. Foram-se os tempos de antigos fazendeiros que transformavam antigas propriedades em bairros populares, a ganância dos fazendeiros nas últimas décadas motivou até mesmo a prepotência e a violência nas áreas rurais e nos subúrbios.
A redução da remessa de lucros para o exterior era uma forma de impedir que empresas e empresários estrangeiros levassem mais dinheiro para fora do país. Era um meio do Brasil segurar mais dinheiro no seu território, para ser aplicado em projetos de cunho social, sobretudo em favor da Saúde, da Educação e dos salários dos trabalhadores.
Jango irritava a direita por causa disso. Aliás, o Brasil queria andar para a frente. Mesmo culturalmente. Discutia-se até mesmo as marchinhas de carnaval, algo que parece insólito num país que, hoje, não quer que questionemos o "funk". Tínhamos projetos educacionais ousados, projetos de cultura musical polêmicos mas audaciosos, tínhamos programações de TV de qualidade.
Sim, porque naquela época mesmo apresentadores de auditório que depois mergulharam fundo na bregalização cultural - como Sílvio Santos e Raul Gil, que já eram bem conhecidos na época do governo Jango - não estavam comprometidos com a imbecilização das classes populares. E se hoje qualquer nulidade do Big Brother Brasil vira "celebridade", naqueles tempos um filósofo como Jean-Paul Sartre é que atraía mais audiência para a televisão já no começo de popularização.
Bibi Ferreira chamava personalidades brasileiras que tinham o que dizer e artistas de música brasileira de verdade para comporem as atrações do Brasil "Ano Tal" que havia feito então, na TV Excelsior, uma emissora de TV de perfil moderno na época. Com seu Brasil 60, Brasil 61, Brasil 62 e Brasil 63, Bibi fazia um programa de auditório sofisticado que nem as emissoras de TV paga hoje têm coragem nem interesse em fazer.
Era um Brasil que parecia antecipar até mesmo à Contracultura da Europa e dos EUA. A dos EUA de 1961-1964 parecia tímida, a da Grã-Bretanha incipiente, a da França criava fôlego, com outros países assistindo a tudo isso de camarote. O Brasil já tinha uma UNE discutindo cultura e querendo transformar as mentes populares de nosso país.
Mas aí veio a ditadura, e Jango mostrou-se, por incrível que pareça, equilibrado. Ele sabia que nada podia fazer, com um Congresso Nacional em maioria contra ele, com ameaças de golpe já divulgadas em rádio e TV, e tinha um Exército pouco preparado para reagir contra as ações golpistas.
O frágil dispositivo militar do ministro da Casa Militar, Argemiro Assis Brasil, e o fato do ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, estar doente, propiciaram a reação golpista, que ainda contou com a adesão dos poucos militares de Assis Brasil que rumaram em direção às tropas de Olímpio Mourão Filho.
Jango preferiu não investir na reação, e sua decisão foi controversa (ela irritou, sobretudo, o cunhado Leonel Brizola, que havia transferido seu domicílio político do Rio Grande do Sul para a Guanabara). Ele não queria criar um ambiente de guerra, primeiro por saber do que a rígida oposição seria capaz de fazer, segundo, porque não queria que se criem grandes tragédias para o povo brasileiro.
Mais tarde, revelou-se que os EUA já tinham pronto um plano de guerra contra o Brasil, a operação Brother Sam, não bastasse a grande soma de dinheiro que a CIA investiu aqui e ali no Brasil, de entidades "representativas" de estudantes e operários até "marchas da família", para não dizer o IPES-IBAD, na campanha para derrubar Jango.
Com a ditadura militar, o país regrediu a um conservadorismo reciclado que reflete até mesmo nos dias de hoje. Tanto que, quarenta anos depois, Lula tentava aplicar uma forma branda de "governo Jango" num contexto sócio-cultural parecido com o da Era Geisel.
Em vários aspectos da vida social, cultural, política e econômica, o país passou a sofrer de um vazio ideológico e identitário muito grande. Para piorar, muitos dos intelectuais de hoje só querem analisar o passado retrocedendo, no máximo, até 1967. Eles têm medo de 1964, e de antes desse ano, porque iria expor contradições e equívocos que explicariam muitos erros ocultos de hoje.
Por isso ainda temos que analisar muito o que significou o Brasil até 01 de abril de 1964. A memória curta sofrerá muitas dores, e muitos "heróis" e "dogmas" serão postos em xeque, diante da redescoberta de um Brasil que os brasileiros de hoje pouco conhecem.
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