segunda-feira, 7 de abril de 2014

ROBERTO CARLOS E SUA ASSOCIAÇÃO COM A DITADURA MILITAR


Por Alexandre Figueiredo

A revista Época, lançada no último fim de semana, lançou uma reportagem revelando o forte apoio que Roberto Carlos deu ao regime militar e o fato dele ter sido bem tratado pelos generais, a ponto de um ministro da Justiça ordenar a liberação de um filme, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, da Censura Federal, e também do fato do "Rei" ter chegado a receber uma concessão de rádio FM.

Que Roberto Carlos teria sido um figurão conservador, desde quando era jovem, isso não é surpresa alguma. Mas com o tempo foram revelados, aos poucos, alguns aspectos do conservadorismo do cantor capixaba. Numa entrevista ao jornal Última Hora em 1970, por exemplo, Roberto assumiu ideologicamente ser "de direita".

Agora a reportagem revela outros aspectos. Um que Roberto teria sido funcionário do Ministério da Educação e Cultura nos primeiros anos do "governo revolucionário" (como era conhecida a ditadura militar em seu tempo), já em 1964, ano de surgimento da Jovem Guarda.

Segundo depoimento da jornalista Noemi Flores, que foi chefe de Roberto, ele teria trabalhado como assistente de relações públicas da rádio MEC, no Rio de Janeiro, cargo que desempenhou até 1970, quando foi exonerado. Foi a época de sua ascensão meteórica e do auge de sua popularidade.

Em 1968, o lançamento oficial do filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, produção do ano anterior, chegou a ser barrado pela Censura Federal, apenas por questões burocráticas, já que o filme não apresentava qualquer conteúdo ameaçador ao regime. E sua liberação ocorreu por iniciativa pessoal do ministro da Justiça do governo Costa e Silva, Luiz Antônio da Gama e Silva.

Gama e Silva era um entusiasmado defensor do regime ditatorial, tanto que coube a ele, no final de 1968, fazer a redação do texto do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), que estabeleceu medidas mais duras de repressão e censura e extinguiu o habeas corpus para favorecer ainda mais as punições contra os opositores do regime.

Roberto Carlos recebeu medalhas e outras homenagens, se apresentava em eventos promovidos pela ditadura militar, até mesmo para o Exército, aspectos bem mais fortes do que sua recente iniciativa de se apresentar para gente muito rica em cruzeiros marítimos.

Além disso, Roberto Carlos foi um dos primeiros nomes influentes na bregalização do país, tendo inspirado as carreiras de cantores como Odair José, Paulo Sérgio e Amado Batista, além de influir ideologicamente em outros ex-Jovem Guarda como Fevers (inclusive Michael Sullivan) e Dom & Ravel.

Até mesmo o cantor Waldick Soriano teve sua popularidade favorecida pelo fato de seu romantismo ser similar ao do "Rei", embora musicalmente o cantor capixaba apostasse numa proposta mais arrojada, que era fazer uma sonoridade mais soul. Hoje tido como "libertário", Waldick, que era direitista, gravou discos-tributo ao repertório de Roberto Carlos.

Nos anos 80 e 90 Roberto, que segundo a Época foi sócio da rádio Terra FM (até hoje no ar), contribuiu para abrir as portas das deturpações bregas da música caipira e do samba, contribuindo, quase que diretamente, na ascensão de nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano e Alexandre Pires.

A proximidade de Roberto com Michael Sullivan também é notória, através da gravação de "Amor Perfeito", de Sullivan, Paulo Massadas, Lincoln Olivetti e Robson Jorge, e depois de "Meu Ciúme", que Sullivan e Massadas, que comandavam um esquema jabazeiro para a MPB, compuseram especialmente para o cantor.

Aspectos como esses podem explicar por que Roberto não quer que publiquem biografias não-autorizadas. Se bem que o episódio contra Paulo César Araújo não pode ser vista como maniqueísmo, porque o historiador da PUC-RJ, hoje cortejado "informalmente" pelas Organizações Globo, também adotou a mesma postura a respeito de Waldick Soriano, cujo direitismo não poderia ser evocado, para o bem de sua imagem "limpinha" para a posteridade.

Portanto, há muito mais coisas a serem reveladas nos bastidores do comercialismo musical brasileiro. E que certamente deixarão muita gente de cabelo em pé e a intelectualidade "bacaninha" bastante envergonhada. O cruzeiro marítimo da cultura transbrasileira e transatlântica está à deriva.

domingo, 6 de abril de 2014

PESQUISA DIZ QUE O BRASIL É UM DOS PIORES PAÍSES EM EDUCAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

"Sou inteligente. Nasci inteligente. Sou tudo de bom, sou nota dez, sou show de bola, sou da paz. Mas se alguém me dizer que não sou inteligente, então f...". Típica mensagem de um jovem brasileiro médio nas mídias sociais, ele tornou-se alvo de uma pesquisa não muito generosa para seu narcisismo.

Em outras palavras, é uma pesquisa que apontou o problema da Educação no Brasil e a incapacidade de jovens brasileiros de resolver os problemas através do raciocínio. A pesquisa foi realizada pelo PISA (Program for International Student Assessment - Programa Internacional de Avaliação de Alunos), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Segundo o estudo recente, que envolveu 44 países participantes da OCDE, entre países-membros e convidados (como o Brasil), o país sul-americano ficou em 38º lugar, bem abaixo de países como Cingapura (que ficou em primeiro), Coreia do Sul (em segundo), Estônia (em 12º) ou mesmo Eslovênia, Sérvia, Croácia e Israel (em 30º, 31º, 32º e 34º, respectivamente).

O Brasil, além disso, se encontra abaixo do Chipre, que ficou em 37º e distante de alcançar países desenvolvidos como Japão (terceiro colocado), Inglaterra (11º), França (13º), Estados Unidos (18º) e os escandinavos Finlândia (10º), Noruega (21º), Dinamarca (23º) e Suécia (25º).

A avaliação feita envolveu três áreas: Leitura, Matemática e Ciências. Os estudos foram feitos em 2012, com 85 mil alunos adolescentes. As questões correspondiam a problemas complexos que exigiam soluções menos óbvias, em computadores.

Algumas questões parecem simples para uma geração marcada pela Informática, como comprar bilhetes em uma máquina e operar um tocador de MP3. Uma outra questão, como analisar a menor distância entre dois pontos, já era uma típica questão de raciocínio lógico-quântico.

O Brasil atingiu apenas 428 pontos, bem abaixo da média do OCDE, que é de 500. Segundo a pesquisa, a região Norte ainda teve pior avaliação, com 383 pontos, e isso se observa levando em conta apenas as escolas situadas nas áreas urbanas. Se o PISA tivesse incluído as escolas rurais, a posição do Brasil estaria ainda pior.

Numa avaliação incluindo 65 países, o Brasil esteve entre os piores colocados, ficando em 58º em Matemática, 55º em Leitura e 59º em Ciências. As alunas do sexo feminino tiveram avaliação pior em 22 pontos em relação aos alunos do sexo masculino.

A pesquisa derrubou o mito, defendido por muitos ativistas, de que as novas tecnologias trariam o avanço na inteligência das pessoas. A Informática não melhorou a capacidade de raciocínio das pessoas, e o acúmulo de informações não significa que as pessoas tornaram-se mais inteligentes.

Quantidade não é qualidade. Problemas educacionais, manipulação da mídia, crise econômica e crise de valores sociais diversos influi nesse quadro. Será que os jovens "show de bola" das mídias sociais terão coragem de mandar o PISA "sifu"?

sábado, 5 de abril de 2014

LOS ANGELES TIMES FAZ CRÍTICAS AO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Depois do abraço dos barões da grande mídia, não bastasse a até agora não abordada estrutura empresarial do "funk", o ritmo ganhou as páginas do Los Angeles Times numa reportagem que destoa do tom elogioso que a revista Veja - a mesma que "criminaliza" os movimentos sociais - deu ao gênero.

Embora a reportagem adote uma postura aparentemente neutra sobre o "funk ostentação", que é seu foco, ela admite que o gênero é bastante rejeitado, desde as classes mais altas até os movimentos sociais de esquerda, que veem no gênero uma apologia a valores sociais distorcidos.

Mesmo a declaração de MC Guimê, seu principal astro, soa discutível. Entre um povo rico e feliz e um povo pobre e triste, ele diz preferir ser rico e feliz, sem dar muitos detalhes a respeito. Guimê, que é de Osasco, admite que nunca passou fome na vida, por ter tido vários empregos antes e disse que no entanto nunca teve na vida mais do que o mínimo necessário para viver.

Guimê admite que a sociedade é capitalista, que sua música deve falar mesmo de companhias que dominam o mercado de consumo e que admite que, mesmo sendo ligado à favela, possui bens de consumo, como carros.

As críticas no entanto vem justamente desse fascínio ao consumismo que o "funk ostentação" simboliza. Apesar da blindagem intelectual (não creditada na reportagem), há movimentos sociais que reprovam o "funk ostentação" pelo fato de que ele nada acrescenta à problemática da pobreza no Brasil.

O sociólogo Laurindo Leal Filho, citado na reportagem e um dos mais destacados críticos do poder midiático no Brasil, vê no "funk ostentação" uma combinação de aumento do poder de consumo e alienação cultural.

Ele descreve que o povo das periferias aumentou de tal forma o poder de consumo que é capaz de comprar de xampus até passagens de avião. Mas ele lamenta que esse crescimento não tenha sido acompanhado de uma política que permita aos pobres em ascensão sócio-econômica uma postura mais crítica em relação ao consumismo.

Embora a reportagem termine com uma frase de MC Guimê querendo provar o "valor" do "funk ostentação", o texto não investe na postura apologista que se vê na mídia brasileira, o que já é um diferencial em relação à blindagem intelectual que o "funk" se cerca aqui no Brasil.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

MULTINACIONAIS, LATIFÚNDIO E GRANDE MÍDIA TENTARAM ARRUINAR A MPB


Por Alexandre Figueiredo

A Música Popular Brasileira foi empastelada pela ditadura militar, numa aliança que incluiu a indústria fonográfica, o poderio midiático e o latifúndio que controla o interior do país e que exerce seu poder em rádios interioranas, supostamente "populares".

A blindagem intelectual tentou ocultar essa realidade, usando-se de uma retórica confusa mas atraente que, a pretexto de "perder o preconceito" - que na verdade era uma postura bastante preconceituosa, na medida em que se aceita tudo sem questionamento, em nome do "popular" - , forçou a aceitação confortável da sociedade em geral de tudo que era breguice cultural.

Mas, já que ressurgem análises diversas sobre o que realmente foi a ditadura militar, quem a apoiou e como surgiram os problemas que se refletem até hoje no país, seria melhor avaliar realmente sem preconceitos, ou seja, sem a aceitação passiva das coisas, sobre o que aconteceu com a MPB que hoje se encontra numa quase silenciosa crise.

Nos primórdios da ditadura militar, até pelo simulacro de "democracia" que os generais tentaram promover no país, a MPB conseguiu se projetar e lançar novos artistas. Isso surgiu dentro de um curioso contexto em que duas forças antagônicas entre 1958 e 1964, a sofisticação da Bossa Nova e a música de raiz reciclada pelo CPC da UNE, se fundiram no que hoje é a moderna MPB.

A moderna MPB, que era um dos últimos canais de diálogo entre a classe média e as classes populares, conseguiu lançar novos artistas - alguns já falecidos, como Elis Regina, Gonzaguinha, Taiguara e Sidney Miller, e outros em atividade até hoje, como Chico Buarque, Joyce, Milton Nascimento e Edu Lobo - que perduraram no sucesso numa fase que durou até 1976.

Embora essa fase seja representativa de ricas expressões musicais, que puxaram ainda a geração dos anos 70 - Ivan Lins, Diana Pequeno, Alceu Valença, Zé Ramalho e outros - , além da abertura dos portos à globalidade pop do Tropicalismo (1967-1969), ela criou um grande problema, na medida que a música brasileira de qualidade ter passado a ser associada a artistas de elite.

As classes populares, a partir da ditadura militar, romperam com suas próprias raízes, já que o poder latifundiário, que controlava as rádios e estabelecia parcerias com rádios, TVs e gravadoras sediadas em São Paulo, decidiu impor ao povo pobre um tipo de música "não muito brasileira" e "não muito sofisticada" que encaixou perfeitamente no processo de controle social sobre as massas.

Essa música, a música brega, já mostrava, em vez de modinhas, sambas, toadas e outros ritmos autênticos, cancionetas frouxas que, nos seus primeiros sucessos, não se definiam se eram country ou bolero. Era como se péssimos artistas quisessem fazer country e bolero ao mesmo tempo, sem ter a noção exata do que era um nem outro.

A partir dos ídolos cafonas, a cultura musical brasileira passou a ser nivelada por baixo e comandada por um esquema de jabaculê (corrupção envolvendo mídia, ídolos musicais e gravadoras) que se propagou e fez o brega se multiplicar em numerosas tendências pseudo-populares, que a blindagem intelectual recente tentou creditar como o "moderno folclore transbrasileiro".

CAMINHOS PARA A SUPREMACIA

Com o apoio de ídolos da Jovem Guarda que sucumbiram ao comercialismo - sobretudo membros dos Fevers - e outros produtores fonográficos e executivos de gravadoras e agências de famosos, a música brasileira "mais popular" sucumbiu a um processo de americanização pelo brega que deixou para trás o rico patrimônio cultural, que agora era apreciado apenas pelas elites de formação universitária.

O processo fez com que o povo pobre no Brasil passasse a tomar como "sua" uma pseudo-cultura plastificada, postiça, americanizada, de ritmos estrangeiros que não eram assimilados pela vontade própria, mas pela imposição das rádios "populares" patrocinadas pelos grandes proprietários de terras de suas regiões.

Com isso, os anos 70 mostrava as áreas rurais praticamente tomadas de música brega, enquanto os focos de resistência da verdadeira música brasileira se encontrava nos centros urbanos e algumas outras regiões. Mas a bregalização queria mais.

Nos anos 80, a ajuda politiqueira de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães multiplicou as rádios controladas por oligarquias e políticos coronelistas, e fez o brega, que já conquistava os subúrbios de capitais distantes desde o fim da década anterior, a entrar, na década seguinte, ingressava nos subúrbios dos grandes centros urbanos.

A bregalização teve o apoio explícito das grandes redes de TV, da mídia mais reacionária, das grandes gravadoras com sede de lucro, com agências de famosos financiadas pelo latifúndio, pelas multinacionais que patrocinavam os bregas aqui e ali, ainda que na forma indireta dos anúncios publicados em rádios, TVs e imprensa e nos patrocínios de eventos ao vivo.

Passados os anos 90, quando os bregas da época encerravam a década com sua "MPB de mentirinha" exposta em tributos caça-níqueis transmitidos pelas redes de TV, a música brega já começava a atingir a classe média e entrava nas universidades pelas portas dos fundos. Era época em que os empresários de brega "compravam" até sindicatos e entidades estudantis para forçar a expansão do brega.

E, começando o século XXI, ainda houve a blindagem intelectual que dava um tom ao mesmo tempo melodramático e pretensamente etnográfico aos sucessos jabazeiros da bregalização, forçando a adesão das classes mais cultas ao brega mais explícito. Chegava-se a 2010 criando até tendências "universitárias" de ritmos bregas, numa imbecilzação que só existia, antes, nos sonhos dos tecnocratas do MEC-USAID dos anos de chumbo.

Agora a supremacia do brega atinge até mesmo os salões da MPB, quando se faz até tributo "emepebista" a Michael Sullivan, um dos chefões do brega dos anos 70-80 e comandou o perverso esquema jabazeiro recentemente denunciado por Alceu Valença. Pior: até o "funk", comprovadamente patrocinado pela CIA (a partir da Fundação Ford), chegou aos grandes salões.

Por isso cabe questionarmos os problemas da MPB. Se hoje a bregalização atingiu até mesmo as elites, que antes monopolizavam a apreciação da verdadeira música brasileira, é sinal que algo está errado. E o verdadeiro preconceito está não na recusa da bregalização - que envolve processos de manipulação social cruéis - mas na aceitação confortável, entusiasmada e submissa aos "sucessos do povão" em detrimento do rico patrimônio musical condenado ao esquecimento.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

CHICO BUARQUE É O "JANGO" DA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Prestes a completar 70 anos de idade daqui a alguns meses, Chico Buarque é um dos nomes peculiares da Música Popular Brasileira, e recentemente injustiçado por uma campanha, que chega aos tons difamatórios, comandada por uma geração de intelectuais ditos "progressistas".

São esses intelectuais que vieram da Folha, se escondem na PUC ou outras universidades, realizam documentários no qual o mais claro apoio da Globo Filmes é simplesmente omitido dos créditos técnicos, gente que "não recebe recursos" e ainda parasita o aparelho financeiro do PT sob o consentimento de seus políticos.

Mas eles são capazes de "urubologias" como de querer desmoralizar Chico Buarque só por conta de algumas posturas. No caso do Procure Saber, por exemplo. Chico manifestou-se contrário às biografias não-oficiais, disse, talvez por desatenção, que não foi entrevistado pelo queridinho da intelligentzia, Paulo César Araújo e ainda revelou que não autoriza montagens atuais da peça Roda Viva.

Talvez algumas posturas fossem fruto da opinião pessoal, como o fato de Chico achar que Roda Viva ficou datada, ou se foi zeloso demais diante de um mercado de biografias marcado pelo oportunismo sensacionalista. Mas Chico foi mesmo assim esculhambado pela intelectualidade "bacana", que o ridicularizou ao ter se esquecido que foi entrevistado pelo "papa Paulo".

Houve mesmo acusações incoerentes de Chico ser o "dono da Fazenda Modelo da MPB", vindas de um Pedro Alexandre Sanches que diz defender a "reforma agrária da MPB". Logo Sanches, discípulo de Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso e que fica endeusando ídolos tecnobregas que são abertamente patrocinados pelos latifundiários que se cercam junto ao grupo O Liberal, lá do Pará.

Chico sofreu as mesmas dores que João Goulart. Como este, nasceu de uma família aristocrática que no entanto tinha inclinações mais progressistas. Jango foi um fazendeiro, um proprietário de terras da região de São Borja, no Rio Grande do Sul, filho e herdeiro de Vicente Goulart, mas tinha uma natural e generosa inclinação de promover medidas de benefício às classes populares.

Durante sua breve carreira política, que mal conseguiu ter destaque entre os anos 50 e 60, Jango era acusado de "manipulador de sindicatos" por uma direita que gostaria de ver os sindicatos de trabalhadores extintos ou manipulados pelo capital norte-americano, não muito diferente da acusação que Chico teve recentemente como "coronel da Fazenda Modelo".

Chico, que nos tempos de Jango compunha suas primeiras músicas e sonhava ser cantor e compositor, se baseando nas lições ´poético-musicais de Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto, era filho de Sérgio Buarque de Hollanda, o historiador de Raízes do Brasil, conhecido intelectual em evidência na mesma época.

Chico poderia ser um aristocrático com jeito de galã e alguma postura de príncipe, mas sempre esteve solidário com a cultura popular e queria dialogar com a cultura do povo pobre, sem a pretensão de substitui-la.

Ele fazia sambas, fez até um samba-enredo, "Vai Passar", de 1984, mas nunca teve a pretensão de estar no lugar de um sambista no morro. Seu samba era apenas a visão sua de samba, não o modelo de samba que deveria prevalecer na cultura brasileira.

E o que fizeram os detratores de Chico Buarque? Coisa pior!! Substituíram os sambas, modinhas e outros ritmos autênticos por engodos musicais americanizados e palidamente brasileiros, que constituiu as diversas matizes do brega, dos pseudo-boleros chorosos de Waldick Soriano até os pastiches de ritmos caribenhos que geraram de Carlos Santos a Banda Calypso.

Se Chico é de origem aristocrática, pior ocorre com os empresários que promovem o suposto "popular" transbrasileiro - jargão digno da teoria de FHC - , gente de origem pobre mas que se enriqueceu como capatazes dos grandes latifundiários, a exterminar, se não os trabalhadores e sem-terra a bala, mas a cultura brasileira transmitida pelo convívio social e não pelo rádio coronelista.

E, quanto ao esquerdismo, Chico Buarque, tão humilhado por intelectuais "bacanas" que tentaram sujar as páginas da mídia progressista com seus textos pró-brega, foi muito mais fiel às forças de esquerda do que os breguinhas de ontem e de hoje tão cortejados pelos "bacaninhas" pseudo-progressistas.

Pois todo o brega, na hora mais decisiva, apunhala as esquerdas pelas costas, aderindo de corpo e alma à grande mídia, aparecendo abraçados aos barões da mídia e seus porta-vozes numa conquista de espaço que nada tem de inimiga ou conspiratória, mas de muito animada e incrivelmente amistosa.

Do brega de ontem, a memória curta é traída e dissolvida por fatos indiscutíveis. Waldick Soriano era um direitista convicto, e Odair José nada teve de revolucionário, sendo também bastante conservador. E até o "funk ostentação", que queria ser o símbolo do ativismo social de 2013, meteu o facão nas costas das esquerdas quando MC Guimê foi com muito gosto virar capa na reacionária Veja.

Enquanto isso, o "coronel da Fazenda Modelo" era solidário até mesmo em manifestações controversas em favor do PT, mas também em outras iniciativas de cunho social, outros abaixo-assinados contra arbitrariedades legais e outras posturas de cunho realmente progressista.

Esta é a história. E, quando se relembra os fatos da ditadura militar e todos os fatores de muitos problemas que atualmente existem, a memória curta, a princípio festejada, se dissolve em pó mesmo quando cria dogmas que parecem unânimes e insuperáveis.

Pois vão-se os breguinhas cortejados pelas esquerdas médias comemorarem o sucesso abraçados aos barões da grande mídia. E fica o Chico Buarque, tão "fazendeiro" quanto Jango, mas também tão realmente solidário com as causas populares. Não é preciso ser pobre para defender o povo.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

BREGA FOI APOIADO, SIM, PELA DITADURA MILITAR

APESAR DE TER TIDO MÚSICAS CENSURADAS, ODAIR JOSÉ NEM DE LONGE ERA UM REVOLUCIONÁRIO.

Por Alexandre Figueiredo

Definitivamente, não valeu o tendencioso revisionismo histórico de Paulo César Araújo, que no calor da Era FHC produziu o livro Eu Não Sou Cachorro, Não para tentar provar que o brega era "música de protesto" que apavorava os generais da ditadura.

A tese, lacrimosamente difundida na grande mídia, pelo próprio Araújo fazendo ele mesmo pose de "coitadinho" - "Ninguém investiu nas minhas pesquisas", lamentou ele, se esquecendo das verbas da Fundação Ford que recebeu por intermédio da UniRio - , até chegou a convencer muita gente boa e ter virado até unanimidade durante muito tempo.

Mas só depois que blogues como este mostraram o outro lado da coisa é que as teses de Araújo sobre o brega sumiram. Ele ainda se autopromoveu às custas da censura de um decadente Roberto Carlos, mas, depois de tentar seduzir as esquerdas médias para apoiarem os ídolos bregas, Araújo, como um menino que quebra a vidraça da casa vizinha, agora se esconde sob o respaldo midiático da Globo.

Pois agora o "consultor free lancer" de música brega das Organizações Globo começa a ser questionado pela sua visão delirante de que os ídolos cafonas, mesmo "despolitizados", eram "cantores de protesto", e mesmo a hipótese de que alguns sucessos bregas foram censurados não dão respaldo seguro à sua tese.

Pelo contrário. Deixando de lado a memória curta que manipula o passado ao bel prazer dos preconceitos e conveniências do presente, vemos que o brega significou, mesmo, o tipo de música desejado e apoiado abertamente pela ditadura militar. Isso é fato, não é preconceito.

Se Odair José e Waldick Soriano tiveram músicas censuradas - uma música de Waldick, de 1962, "Torturas de Amor", chegou a ser atribuída erroneamente como "protesto contra a ditadura", mesmo sendo uma canção gravada ainda com Jango como presidente de um sistema parlamentarista - , não foi por questões realmente consideradas ameaçadoras ao poder dos generais que controlavam o Executivo.

CONSERVADOR, WALDICK SORIANO TEVE UMA MÚSICA DE 1962 ATRIBUÍDA ERRONEAMENTE PELOS INTELECTUAIS DE HOJE A UM SUPOSTO PROTESTO CONTRA A DITADURA MILITAR.

DIREITA JÁ VIVIA REALIDADE CANTADA POR WALDICK E ODAIR

A censura se deu apenas por letras consideradas tabus por alguns censores. Eram letras sobre sentimentalismo amoroso exagerado ou práticas sexuais, que em si não eram tabus sociais até porque os mais reacionários indivíduos da época viviam tais situações.

Naqueles idos de 1969-1978, época de vigência do AI-5, a direita já praticava sexo antes do casamento, tomava pílulas anti-concepcionais, apreciava pornografia, sofria dor de corno, falava palavrão, usava maconha e cocaína, entre outras coisas escandalosas.

Mas Odair e Waldick, no fundo duas figuras bastante conservadoras - se hoje até Lobão é conservador, não seria Odair José um revolucionário, não é mesmo? - e, só por umas musiquinhas vetadas pela Censura Federal foram equivocadamente classificados pela intelectualidade etnocêntrica de hoje como se fossem Marighellas e Lamarcas musicais.

A direita vivia as músicas cantadas pelos ídolos cafonas. O problema é que vários censores tinham um moralismo ainda mais rígido, inflexível e exagerado. Nem todo mundo que era censurado era "subversivo" e a ditadura militar expurgou até mesmo Carlos Lacerda, um udenista radical que mais defendeu o golpe militar mas foi vítima dele.

Já na época os direitistas mais velhos, com mais de 50 anos de idade, achavam qualquer desvio de comportamento "subversivo". Boa parte da burguesia que foi às "marchas da família" em 1964, já em 1968 vivia o mesmo cotidiano "ousado" cantado por Odair José e se vestia de hippie ou psicodélico. Os membros do Comando de Caça aos Comunistas se vestiam de beatniks. Isso é "subversão"?


DOM & RAVEL SIMBOLIZARAM OS SUCESSOS MUSICAIS DO "MILAGRE BRASILEIRO".

RÁDIOS CORONELISTAS

Paulo César Araújo não conseguiu explicar de forma convincente, numa demonstração de ato falho, por que as músicas bregas tornaram-se populares no período em que vigorou o AI-5, o quinto ato institucional que tornou rígida a repressão e a censura no país.

Ele tentou argumentar que a música brega era uma "reação" aos arbítrios do regime, como se fosse fácil usar emissoras de rádio para propagar a rebelião popular. É uma tese bastante equivocada e que não tem o menor sentido de veracidade.

Se a MPB que aparecia na televisão entre 1964 e 1968 representou uma resistência ao regime militar, foi porque a própria ditadura quis adotar um verniz de "democracia" e permitiu às emissoras de TV certa liberdade de expressão. A pressão dos anunciantes, sobretudo as multinacionais, também influiu muito, e tudo isso acabou quando veio o quinto ato institucional.

Já durante a vigência do AI-5, a música brega foi tocada por emissoras de rádio e TV que já estavam identificados e solidários ao poderio militar, sobretudo rádios regionais que eram ligadas, no âmbito local, ao poder do latifúndio, o mesmo que mandava exterminar agricultores e até padres que representavam risco aos privilégios dos grandes proprietários de terras.

Hoje houve quem falasse que o brega era a "reforma agrária da MPB", uma tese ridícula e sem lógica. O brega sempre foi apoiado por rádios que estavam ligadas ao poderio dos "coronéis" regionais e das oligarquias midiáticas das grandes capitais. O pretexto do "popular" não significava que os ídolos cafonas apavoravam a ditadura militar, muito pelo contrário.

Se os ídolos bregas eram censurados, era por algo que tinha mais a ver com "pequenas travessuras". Um Odair não ameaçava o poderio militar. Muito menos um Waldick. Já Benito di Paula, Dom & Ravel, Paulo Sérgio e outros chegaram mesmo a agradar a sociedade que apoiava a ditadura.

Eles representavam uma visão estereotipada, politicamente inofensiva e comercialmente viável do "popular" defendido pela ditadura militar e pelos civis que a apoiavam. Não tinham uma identidade nacional definida, porque musicalmente eram muito confusos, e seus temas eram inofensivos, inócuos, mesmo quando tentavam falar de política.

Por isso não faz o menor sentido classificá-los hoje de "combativos" contra a ditadura. Eles eram apoiados pela ditadura, eram o modelo de "música brasileira" que a ditadura militar queria para o povo brasileiro.

Essa é a visão que apavora a intelectualidade de "bacaninhas" de hoje, mas, tirando o verdadeiro preconceito da memória curta, percebemos que os ídolos cafonas realmente atendiam aos interesses das forças dominantes que dominaram a ditadura militar, já que a música brega durante anos anestesiou corações e mentes das classes populares do nosso país. O brega foi a água com açúcar da repressão militar.

terça-feira, 1 de abril de 2014

JOÃO GOULART E AS PRESSÕES DO 1964


Por Alexandre Figueiredo

João Goulart pode ter cometido erros políticos, sim, como a tal anistia aos sargentos revoltosos comandados pelo suspeito Cabo Anselmo - depois revelado um direitista astucioso - , mas não era um político fraco nem hesitante, mas um líder popular que sabia que estava agindo sob violentas pressões de todos os lados.

Das esquerdas, Jango era acusado de não cumprir o que prometia das chamadas reformas de base. Neste caso, as pressões sociais e a atuação bem menos cúmplice do que parecia em relação ao PCB - que já em 1962 deixava o antigo nome "Partido Comunista do Brasil" para o nascedouro PC do B e passava a ser Partido Comunista Brasileiro - desmentiram o mito de que Jango era "comunista" e "manipulador de sindicatos".

Da direita, Jango era acusado de ser "comunista", mesmo quando as relações não eram assim tão ligadas e que o próprio PCB era duramente criticado pelos esquerdistas de 1961-1964, por conta de sua visão antiquada e extremamente pragmática. Depois do golpe, o PCB foi acusado de não ter firmeza, na época, para reagir contra a ação dos generais.

João Goulart era um líder nacionalista. Até o linguista e cientista político norte-americano Noam Chomsky não considerava Jango um "comunista". O que Jango representou foi um político reformista, que procurava ousar mais nas suas ideias políticas e nos seus projetos de governo, que infelizmente não teve condições de colocar em prática.

Jango não era hesitante. Ele tentava manter um equilíbrio político, já que governava um país grande e diferenciado que era o Brasil. A responsabilidade dele era grande, mas o preconceito que se havia na sociedade com projetos reformistas era bem pior.

Se trinta anos antes do Golpe de 1964 ainda se via as reivindicações dos trabalhadores como um "crime", em 1964 havia gente que se revoltava quando um governante prometia reformas sociais amplas, reforma agrária e redução das remessas de lucros para o exterior.

Jango melhorava as políticas salariais, e irritou a direita quando, no tempo em que era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, dobrou o valor do salário mínimo. Isso em 1954. A direita pressionou e os então coronéis que depois derrubaram o mesmo político, chegaram a divulgar um manifesto contra a medida.

A reforma agrária só era aceita pela direita quando os grandes proprietários de terra recebessem uma pesada indenização. Foram-se os tempos de antigos fazendeiros que transformavam antigas propriedades em bairros populares, a ganância dos fazendeiros nas últimas décadas motivou até mesmo a prepotência e a violência nas áreas rurais e nos subúrbios.

A redução da remessa de lucros para o exterior era uma forma de impedir que empresas e empresários estrangeiros levassem mais dinheiro para fora do país. Era um meio do Brasil segurar mais dinheiro no seu território, para ser aplicado em projetos de cunho social, sobretudo em favor da Saúde, da Educação e dos salários dos trabalhadores.

Jango irritava a direita por causa disso. Aliás, o Brasil queria andar para a frente. Mesmo culturalmente. Discutia-se até mesmo as marchinhas de carnaval, algo que parece insólito num país que, hoje, não quer que questionemos o "funk". Tínhamos projetos educacionais ousados, projetos de cultura musical polêmicos mas audaciosos, tínhamos programações de TV de qualidade.

Sim, porque naquela época mesmo apresentadores de auditório que depois mergulharam fundo na bregalização cultural - como Sílvio Santos e Raul Gil, que já eram bem conhecidos na época do governo Jango - não estavam comprometidos com a imbecilização das classes populares. E se hoje qualquer nulidade do Big Brother Brasil vira "celebridade", naqueles tempos um filósofo como Jean-Paul Sartre é que atraía mais audiência para a televisão já no começo de popularização.

Bibi Ferreira chamava personalidades brasileiras que tinham o que dizer e artistas de música brasileira de verdade para comporem as atrações do Brasil "Ano Tal" que havia feito então, na TV Excelsior, uma emissora de TV de perfil moderno na época. Com seu Brasil 60, Brasil 61, Brasil 62 e Brasil 63, Bibi fazia um programa de auditório sofisticado que nem as emissoras de TV paga hoje têm coragem nem interesse em fazer.

Era um Brasil que parecia antecipar até mesmo à Contracultura da Europa e dos EUA. A dos EUA de 1961-1964 parecia tímida, a da Grã-Bretanha incipiente, a da França criava fôlego, com outros países assistindo a tudo isso de camarote. O Brasil já tinha uma UNE discutindo cultura e querendo transformar as mentes populares de nosso país.

Mas aí veio a ditadura, e Jango mostrou-se, por incrível que pareça, equilibrado. Ele sabia que nada podia fazer, com um Congresso Nacional em maioria contra ele, com ameaças de golpe já divulgadas em rádio e TV, e tinha um Exército pouco preparado para reagir contra as ações golpistas.

O frágil dispositivo militar do ministro da Casa Militar, Argemiro Assis Brasil, e o fato do ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, estar doente, propiciaram a reação golpista, que ainda contou com a adesão dos poucos militares de Assis Brasil que rumaram em direção às tropas de Olímpio Mourão Filho.

Jango preferiu não investir na reação, e sua decisão foi controversa (ela irritou, sobretudo, o cunhado Leonel Brizola, que havia transferido seu domicílio político do Rio Grande do Sul para a Guanabara). Ele não queria criar um ambiente de guerra, primeiro por saber do que a rígida oposição seria capaz de fazer, segundo, porque não queria que se criem grandes tragédias para o povo brasileiro.

Mais tarde, revelou-se que os EUA já tinham pronto um plano de guerra contra o Brasil, a operação Brother Sam, não bastasse a grande soma de dinheiro que a CIA investiu aqui e ali no Brasil, de entidades "representativas" de estudantes e operários até "marchas da família", para não dizer o IPES-IBAD, na campanha para derrubar Jango.

Com a ditadura militar, o país regrediu a um conservadorismo reciclado que reflete até mesmo nos dias de hoje. Tanto que, quarenta anos depois, Lula tentava aplicar uma forma branda de "governo Jango" num contexto sócio-cultural parecido com o da Era Geisel.

Em vários aspectos da vida social, cultural, política e econômica, o país passou a sofrer de um vazio ideológico e identitário muito grande. Para piorar, muitos dos intelectuais de hoje só querem analisar o passado retrocedendo, no máximo, até 1967. Eles têm medo de 1964, e de antes desse ano, porque iria expor contradições e equívocos que explicariam muitos erros ocultos de hoje.

Por isso ainda temos que analisar muito o que significou o Brasil até 01 de abril de 1964. A memória curta sofrerá muitas dores, e muitos "heróis" e "dogmas" serão postos em xeque, diante da redescoberta de um Brasil que os brasileiros de hoje pouco conhecem.

segunda-feira, 31 de março de 2014

DITADURA MILITAR "DESENHOU" O PADRÃO DE INTELECTUALIDADE NO PAÍS

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - Paradigma do intelectual favorecido pela ditadura militar.

Por Alexandre Figueiredo

Nos últimos anos, surgem denúncias de que os cursos de pós-graduação nas universidades, sejam elas particulares ou públicas, e nos círculos intelectuais em geral, produzem trabalhos científicos e monográficos medíocres.

Eu mesmo senti na pele isso, já que os meios acadêmicos há muito tempo dão preferência a trabalhos meramente descritivos do que aqueles que pudessem analisar as diversas problemáticas existentes nos diversos fenômenos da vida humana no Brasil.

A situação é tão séria que, se fossem jovens e brasileiros hoje, pensadores como Noam Chomsky e Umberto Eco seriam barrados já nos primeiros portões entre o bacharelado e as inscrições para o mestrado.

Vamos fazer uma comparação. Um médico sanitarista quer estudar uma doença que anda dizimando a população de determinado lugar. Se fosse num meio acadêmico saudável, ele lançaria questionamentos, identificaria o vírus, verme ou inseto transmissor, e combateria a doença a partir de uma vacina desenvolvida a partir de uma combinação de substâncias.

Mas, se for pelo contexto acadêmico que se vive no Brasil nos últimos 45 anos, o médico não pode estudar a doença. No máximo, identificará os agentes transmissores da doença, descreverá todo o processo de doença e mortes, e depois relativizará, provavelmente se limitará a dizer que as vítimas não estavam preparadas para enfrentar as doenças. As vítimas, portanto, levam a culpa pela doença.

A geração de intelectuais que temos, de analistas neoliberais parcialmente reformistas - mas sem coragem plena para superar a pobreza e as desigualdades sociais - a cientistas com projetos inócuos, passando pela intelectualidade "bacana" que pouco está ligando para os problemas da cultura popular brasileira, se formou graças a um padrão ideológico vigente desde a ditadura militar.

Isso se deu há cerca de 45 anos. Veio o AI-5 e os últimos expurgos dos meios políticos e acadêmicos que ainda faziam oposição à ditadura militar entre 1964 e 1968. O higienismo sócio-político e cultural, depois do auge das manifestações oposicionistas entre 1967 e 1968, criou um ambiente "asséptico" que refletiu nas classes acadêmicas que passaram a dominar o cenário do "milagre brasileiro".

E se o ideólogo neoliberal Roberto Campos tinha a imagem "queimada" - sobretudo pelo movimento estudantil que, numa alusão de que Campos era capitalista ferrenho, lhe deu o apelido pejorativo de Bob Fields - , verbas da Fundação Ford, a serviço da CIA, propiciaram a ascensão de um intelectual que modernizou as ideias de Campos num contexto supostamente progressista.

Sim, estamos falando de Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde exerceu dois mandatos como Presidente da República e tornou-se o principal paradigma de intelectual no país. Um dos fundadores do PSDB, a ele se cercam barões midiáticos, empresários entreguistas, tecnocratas e uma linhagem de pensamento que vigora até hoje nos círculos intelectuais contemporâneos.

Fernando Henrique Cardoso só discordava da política de "poder duro" determinada pela ditadura militar. Mas ele acabou modernizando as teorias neoliberais de Campos num contexto de "poder suave" (a nova estratégia neoliberal, que vale até hoje) que propõe um desenvolvimento subordinado do Brasil sem que se apelasse para a violência política então adotada pela ditadura.

Graças à influência de FHC na USP, exterminou-se a reflexão crítica dos meios acadêmicos. Criou-se um estigma equivocado, mas dominante, de que contestar o "estabelecido" é "menos científico", e que refletir de forma questionadora os problemas cotidianos é um manifesto de "opinião" e não de "abordagem científica".

Parece ridículo, mas é isso que acontece. O problema acontece, mas você não pode contestar. Se contestar, está emitindo uma "opinião", e não uma "abordagem científica". "Científico" ficou associado ao processo meramente descritivo dos problemas cotidianos, muitos deles nem vistos como problemas, mas como "fenomenologias" que só devem ser identificadas.

O trabalho monográfico passou a ser contaminado por um mito de "imparcialidade" comparável ao da imprensa conservadora, um mito que durante muito tempo era atraente e visto com aparente unanimidade. O acadêmico, tal como o jornalista, não poderia tomar uma posição, seu trabalho era neutro, como um observador de um problema que ele era proibido de resolver.

O que está por trás desse padrão de intelectualidade, que gerou uma geração recente de intelectuais "bacanas", que defendem a bregalização da cultura popular e jogam no lixo qualquer questionamento sobre desnacionalização, mediocrização e imbecilização cultural, é não só a herança da ditadura militar, mas também a do pensamento neoliberal e dos investimentos estrangeiros.

HERANÇA DA DITADURA, DE FHC E ATÉ DE GEORGE SOROS!!

Intelectuais que tentam parecer "progressistas", como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna - com a ressalva de que este último assume seu vínculo com os barões da mídia e sua herança acadêmica de FHC - são na verdade herdeiros de uma linha de pensamento tramada nos bastidores da ditadura civil-militar após o AI-5.

Não se podia torturar todos os brasileiros. Tinha-se que criar um padrão de cultura, de pensamento acadêmico, de assistencialismo sócio-econômico e educacional, para que, dentro das estruturas do poder dominante, resolver os problemas sociais para minimizar as inquietações da sociedade com a situação cotidiana lastimável.

Veio o Mobral para alfabetizar os brasileiros sem que represente um risco de, com um povo educado, ameaçar o poderio dominante. O coronelismo radiofônico veio impor a música brega para o gosto popular, e toda uma mídia da época passou a trabalhar uma imagem caricata do "popular" que nem as chanchadas teriam coragem de fazer.

Para completar o trabalho, criou-se uma intelectualidade cujo método de pensamento apostava numa "problemática" sem problemas, num "debate" que não debatia, num "pensamento reflexivo" que não refletia coisa alguma, numa "provocação" que nada provoca etc. Uma intelectualidade que desperdiçava o domínio do processo de pesquisa e questionamento para reafirmar o "estabelecido".

E isso contagia até pessoas consideradas experientes. O sociólogo Milton Moura, da Universidade Federal da Bahia, escreveu uma verdadeira BOBAGEM intitulada "Esses pagodes impertinentes...", no periódico Textos, da UFBA, em 1996, coisa que nem os delírios engraçadinhos de um André Forastieri seriam capazes de despejar na imprensa.

Mas Moura se beneficiou de sua visibilidade e seu status acadêmico, defendendo a imbecilização cultural puxada pelo É O Tchan, e antecipando toda uma blindagem intelectual que, anos mais tarde, transformaria inócuos e tolos funqueiros em pseudo-vanguarda e falsos ativistas sociais.

Na ciência, então, a ênfase está muito mais em coisas inofensivas, como analisar a influência da música no desempenho de atletas olímpicos. Temos grandes cientistas, mas os investimentos priorizam trabalhos inócuos, e os grandes feitos científicos acabam "morrendo" por causa da burocracia e de outros interesses político-econômicos.

E isso criou toda uma tradição castradora do pensamento humano. Enquanto lá fora há grandes intelectuais que não temem fazer questionamentos aprofundados mesmo com verbas estatais, aqui o que se vê são "pesquisadores" e "pensadores" escrevendo bobagens ou pesquisando paliativos.

E seu pessoal ainda se caba em estar contribuindo para o progresso de nosso país. Mas, felizmente, não é preciso um diploma de pós-graduação para percebermos que toda essa intelectualidade é herdeira da ditadura militar, do neoliberalismo de FHC e até mesmo das verbas enviadas pelo astuto especulador financeiro George Soros, o "domador de feras esquerdistas".

domingo, 30 de março de 2014

RACHEL SHEHERAZADE E SBT PODEM RESPONDER CRIMINALMENTE POR INCITAÇÃO À VIOLÊNCIA


Por Alexandre Figueiredo

A Procuradoria Geral da República aceitou na última quinta-feira (27) a representação feita pela deputada federal Jandira Feghali (PC do B - RJ) contra a jornalista e apresentadora do SBT Brasil, Rachel Sheherazade.

A representação pede para que Rachel seja investigada, alegando que a âncora do SBT fez comentários que indicam incitação à violência por fazer apologia à tortura e ao linchamento. O comentário, feito há um mês, causou repercussão negativa até em setores conservadores da sociedade, em que pese o apoio que Rachel tem recebido de seus adeptos.

O comentário foi feito no dia 04, em relação à prisão e tortura de um adolescente acusado de fazer pequenos roubos. O jovem foi preso e amarrado, nu, a um poste no Aterro do Flamengo, amarrado pelo pescoço, enquanto era espancado por um grupo de "justiceiros". Só foi liberado depois que chegaram os bombeiros que foram chamados por uma moradora.

Misturando ironia e raiva, Rachel parecia satisfeita com a punição ao jovem bandido. Depois, comparando o rapaz com as "travessuras" de Justin Bieber, Rachel fez comentários mais condescendentes com o astro pop.

Quanto ao comentário sobre o jovem pobre, Rachel disse nos seguintes termos alarmistas dignos de uma Sarah Palin, a líder do reacionário Tea Party, nos EUA:

"O marginalzinho amarrado ao poste era tão inocente que, ao invés de prestar queixa contra seus agressores, preferiu fugir antes que ele mesmo acabasse preso. É que a ficha do sujeito está mais suja do que pau de galinheiro.

No país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes, que arquiva mais de 80% de inquéritos de homicídio e sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível. O Estado é omisso, a polícia é desmoralizada, a Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, é claro.

O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite. E, aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lanço uma campanha: faça um favor ao Brasil, adote um bandido".

Ainda em fevereiro, outro deputado federal, Ivan Valente (PSOL - SP), entrou com uma representação no Ministério Público Federal uma representação contra Rachel e o SBT, com um objetivo semelhante ao da representação movida por Jandira. Para Ivan, o direito de liberdade de imprensa não pode ser usado como pretexto para mandar fazer "justiça com as próprias mãos".

Jandira também propôs à Secretaria de Comunicação da Presidência da República que determine a suspensão de repasse de verbas oficiais ao SBT durante a investigação da Procuradoria. Em outras palavras, isso significa o corte na veiculação de propaganda governamental na emissora. Jandira também propôs que seja avaliada a concessão do SBT, de propriedade do apresentador Sílvio Santos.

Caso Rachel seja condenada, ela terá que cumprir de três a seis meses de detenção ou pagar uma multa. Rachel, no entanto, declarou não ter se arrependido dos comentários feitos e disse que as representações são uma forma de "intimidar" seu "direito de opinião". Seus adeptos também alegam que os dois recursos no Judiciário são uma forma de censurar a apresentadora.

sábado, 29 de março de 2014

1964 E AS UTOPIAS INTELECTUAIS DE ANTES E DE HOJE

HÁ QUEM ACREDITE QUE AS FAVELAS SÃO POR SI SÓ "SOCIALISTAS"...

Por Alexandre Figueiredo

Intelectualidade "bacana". Intelectualidade "sem preconceitos". Intelectualidade "anti-elitista". Mas intelectualidade preconceituosa à sua maneira, elitista em seu jeito, nada bacana por adotar uma postura paternalista para a cultura popular, e intelectualidade medrosa incapaz de assumir posturas ideológicas firmes.

A intelectualidade que quer a bregalização do país adota posturas muito mais ingênuas do que a intelectualidade que se reunia nos salões do ISEB e dos CPCs da UNE e nos cineclubes que fomentavam as ideias para serem aplicadas nas produções do Cinema Novo. Evidentemente, a intelectualidade de 1964 teve sua ingenuidade, mas a de hoje chega a ir longe demais.

Em 1964 se acreditava que a revolução socialista brasileira se daria com o apoio da burguesia nacional, numa aliança que se acreditava fácil com o Estado trabalhista e com o Partido Comunista Brasileiro, que mal havia tranferido o nome "Partido Comunista do Brasil" para o maoísta PC do B.

Os intelectuais de então sonhavam que bastasse transformar as canções folclóricas em panfletos comunistas para que as classes populares pudessem implantar a revolução socialista no Brasil. Havia também a glamourização da pobreza, mas não a das favelas, mas a do agreste nordestino. Mas, por incrível que pareça, as utopias de 1961-1964 eram muito menos confusas que as de hoje.

A glamourização da pobreza e do subdesenvolvimento, que transformava a condição de Terceiro Mundo (quando havia o Primeiro Mundo capitalista e o Segundo, comunista) em orgulho brasileiro, numa espécie de "complexo de vira-lata" transformado em causa militante.

Eram outros tempos, outros sonhos, que se tornaram impotentes. A burguesia nacional se aliou à burguesia entreguista nos salões do IPES-IBAD, defendendo depois a derrubada de João Goulart e a instalação da ditadura militar. Ela deixou os intelectuais da época na mão, preferindo se vincular aos interesses capitalistas dos EUA e seus representantes e clientes brasileiros.

E a utopia de hoje? Ela é muito mais confusa. A intelectualidade cultural dominante de hoje, que acredita num Brasil brega e vulgar, pensa a cultura popular com sotaque neolibelês bastante carregado, mas jura que está defendendo uma abordagem "socialista" e "revolucionária".

Tentam inverter as coisas, como no caso do machismo do "funk", que seus ideólogos - e sobretudo suas ideólogas - definem como "feminismo", e defendem ídolos, cantores e conjuntos que eram aliados da ditadura militar ou, se eram censurados, não era por qualquer letra revolucionária, mas tão somente por letras sobre sexo que não são tabu sequer nas reuniões da Opus Dei.

Fazem uma glamourização da pobreza ainda mais radical, se orgulhando de um neosubdesenvolvimento que acreditam se resolverem facilmente com as verbas do Ministério da Cultura e com a informatização plena e dotada de novas mídias digitais. Como se mais dinheiro e mais eletrônica melhorassem em si a vida das classes populares.

Não conseguem mais explicar se são contra ou a favor da mídia. Os intelectuais pró-brega preferem o fogo amigo de falar mal dos astros da mídia reacionária, enquanto evitam polemizar com intelectuais realmente progressistas. Esculhambam um Marcelo Madureira que poderia lhes socorrer num momento de agonia, mas elogiam um Emir Sader com o qual poderiam ter divergências violentas.

Se a intelectualidade cultural de 1961-1964 era um tanto ingênua e sonhadora, e de certo modo impotente e imprevidente, a intelectualidade cultural de hoje é esquizofrênica, confusa, medrosa, que não assume seu conservadorismo pró-brega, pró-mercantilista e pró-ditadura midiática.

Disfarçam seu neolibelês com a falsa postura de "progressistas" só porque se apoiam no rótulo "popular" numa abordagem, em tese, "positiva". Seu esquerdismo oco e falso chega a ser bem menos convicto do que o dos antigos pensadores de 1964.

Os intelectuais de 1964 mal conseguiam ler os livros de Karl Marx. Mal conseguiam debater projetos socialistas sem adaptar à realidade brasileira ideias relacionadas à Revolução Cubana e a Revolução Russa, pois mal conseguiam discutir questões como a mais-valia e a Reforma Agrária.

Os de hoje, pior ainda. Endeusam o "livre-mercado", querem que o socialismo do Brasil tenha uma aura de Brooklyn, bairro pobre de Nova York, nas casas pobres de Belém, de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo etc. Veem as favelas como "Disneylândias" paradisíacas cercadas de lixo, casas mal construídas, esgoto e outras degradações, a apostam nessa visão como base para seu idealismo tosco.

Eles seguem Francis Fukuyama pensando que estão segundo Emiliano Zapata e Ernesto Che Guevara. Acham que qualidade de vida é só derramar dinheiro nas periferias, sem que seja feita qualquer transformação real na vida das pessoas. Acham que socialismo é ter mais consumo e menos cidadania, algo que tem mais a ver com o neoliberalismo mais radicalmente direitista.

Por isso estamos à mercê de mais uma crise. No passado, os intelectuais esquerdistas mais ingênuos se desiludiram tanto que vários deles passaram para a direita ideológica, como Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar e José Serra.

No presente, o que vemos é a intelectualidade "bacana" transtornada, sem poder explicar por que os funqueiros, numa manobra similar à da burguesia nacional de 1964, preferiu se aliar à mídia direitista apunhalando as esquerdas médias pelas costas. E não conseguem explicar por que o projeto de um Brasil mais brega não assusta em um só segundo sequer os barões da grande mídia.

Por isso, mais uma vez, um sinal de alerta. Quem serão os neocons de amanhã? De que se servirão os intelectuais "bacanas" de hoje nos próximos anos? Eles preferirão morrer de fome lutando por um socialismo que no fundo não acreditam ou seguirão a rota de desilusões que Jabor, Gullar, Serra e os Marcelo Madureira, Sônia Francine e Lobão que vieram na frente?

O futuro não é uma fotocópia do presente. A confusão intelectual de hoje é perigosa, porque, no âmbito das transformações sociais, poderá revelar um conservadorismo latente como a lava de um vulcão adormecido prestes a explodir.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A VOLTA CONFUSA E DATADA DA RÁDIO CIDADE 102,9 MHZ, DO RJ

OUTDOOR DA RÁDIO CIDADE, DO RJ - Rebeldia estereotipada, caricata e infantilizada.

Por Alexandre Figueiredo

"O que é bom é para sempre", diz o lema publicitário da Rádio Cidade, antiga emissora FM do Rio de Janeiro que inovou sua linguagem nos anos 70, mas que adotou posturas esquizofrênicas de 1985 até hoje, incluindo mudanças de nome e de formatos que enfraqueceram completamente a emissora.

No atual contexto do rádio FM brasileiro, em que esquemas de jabaculê não-musical e envolvendo sobretudo programações esportivas são denunciados na Bahia, FMs em geral perdem audiência por causa da Internet e colunas e portais de rádio vivem do autismo, do corporativismo e do culto aos "números mortos" do Ibope, a Cidade teve uma volta confusa e bastante complicada.

A Rádio Cidade surgiu sinceramente e assumidamente pop. Foi em 01 de maio de 1977, quando a emissora ancorava seu repertório musical na disco music, no pop romântico, na MPB mais jovem e apenas em sucessos do rock mais brandos, acessíveis e com penetração no público não-roqueiro.

Mas, de repente, a partir dos anos 80, a Rádio Cidade passou a ter uma obsessão pelo rock que nunca foi sua competência. Foram ao todo quatro tentativas, sendo a última a adotada desde 10 de março último, quando a rádio recuperou o nome oito anos depois de usar os nomes OI FM e Jovem Pan 2.

Se a Rádio Cidade cometeu gafes e outras coisas lamentáveis na abordagem do rock, no fundo sentindo uma dor de cotovelo por não ter tido o carisma duradouro da antiga Rádio Fluminense FM - que ensaiou uma volta melhorada aos moldes da programação de 1991-1994 em frequência AM, esperando um novo prefixo para se alojar em FM - , a volta recente ainda ficou mais esquisita ainda.

A emissora, através do programa "Cidade do Rock", tenta fazer uma retrospectiva parcial de sua história chamando locutores diversos para participarem do programa, dando depoimentos e entrevistas. Até Fernando Mansur, um dos pioneiros e atualmente na MPB FM, foi chamado.

Ficou muito estranho. A Rádio Cidade, posando de roqueira, e revendo sua história naquilo que lhe interessa transmitir, tentando nos fazer esquecer que a emissora foi a primeira a divulgar o pop dançante no rádio do Rio de Janeiro, sendo uma das maiores divulgadoras da disco music do rádio brasileiro. Boa parte da popularidade de Earth Wind & Fire e Donna Summer se deve à Cidade FM.

"RÁDIOS ROCK" OU "RÁDIOS ROCK IN RIO"?

A Rádio Cidade aparece hoje num contexto diferente ao de 1995, quando tentou "definitivamente" se passar por "roqueira", depois da tímida experiência de 1985-1989 que serviu de "laboratório" para a 89 FM de São Paulo.

Afinal, a 89 e a Cidade encontram um contexto em que o poder midiático brasileiro não tem a força de outrora, as pessoas preferem a Internet do que o provincianismo da TV aberta, do rádio FM e da imprensa escrita brasileiros e a cultura rock há muito tempo deixou de depender das FMs brasileiras para se expressar no país.

A 89 FM regressou com muito alarde, elogios exagerados e surreais e uma "pequena ajuda" do baronato midiático e de uma TV Cultura "tucanizada". Mas encontrou um público roqueiro que há muito se afastou da emissora e que prefere se manter nas suas coleções de CDs e de arquivos MP3, já que não aceitariam ouvir só o hit-parade "roqueiro" tocado pela emissora.

A Rádio Cidade teve repercussão ainda mais fraca. Como a 89, virou uma "rádio rock" ouvida por não-roqueiros, e se reduziu a ser mera alimentadora de eventos de artistas internacionais promovidos pela indústria do entretenimento ancorada pela empresa Artplan, do empresário Roberto Medina.

Ou seja, a razão de ser da Rádio Cidade e da 89 FM nem é pela sua reputação na cultura rock, que se revela baixíssima, devido às duras críticas recebidas pelas emissoras nos últimos 15 anos e que as fizeram suspender a programação "roqueira" durante muito tempo, mas pelo fato de seus donos serem aliados e parceiros mais confiáveis para os interesses de Roberto Medina e seus asseclas.

Já existem comentários que revelam que o rótulo "rádio rock" adotado pela 89 e pela Cidade (esta de maneira menos explícita) não passa de uma elipse, recurso gramatical que oculta termos que são entendidos implicitamente pelo contexto. Neste sentido, as rádios na verdade deveriam ser definidas como "rádios Rock In Rio".

ROQUEIROS ESTEREOTIPADOS E ALTERNATIVOS TOCADOS PARA AS "PAREDES"

O que se observa nas campanhas publicitárias da Rádio Cidade é a exploração de uma imagem caricata, estereotipada e até infantilizada do roqueiro, sobretudo a partir de um anúncio que diz que um hipotético publicitário de 29 anos se transformou numa criancinha fantasiada de "roqueiro rebelde".

Houve também "roqueiros" cheios de tatuagem, botando língua para fora ou fazendo o sinal do demônio com a mão, dentro daquela "rebeldia" que agrada muito "titio" Medina. Toda essa rebeldia de fachada que transforma a imagem do roqueiro num completo idiota.

O repertório musical foi aliás o aspecto mais fraco notado pela Rádio Cidade, que preferiu se projetar como uma rádio "de locutores". Até o ex-casal Vanessa Riche e Alex Escobar - apresentador do Globo Esporte, da Rede Globo, que se lançou no Rock Bola da Cidade - apareceu para darem depoimentos. A ex-locutora da rádio, Monika Venerabile, teve destacada presença como convidada especial.

Supostamente ancorado no "rock em geral", a exemplo da 89 FM paulista, a Rádio Cidade não foi além do rock convencional e na divulgação parcial e superficial de bandas consagradas ou alternativas que, na prática, eram tocadas para "as paredes", já que não fazem parte da preferência de seu público, cujo gosto não vai muito além de nomes como Offspring, Charlie Brown Jr. e Guns N'Roses.

Numa observação mais cautelosa, mesmo a divulgação de bandas novas não é incondicional, mas feita mediante alguma conveniência. Nomes como Arcade Fire, Imagine Dragons, Black Keys e Panic At The Disco, para não dizer Strokes e Franz Ferdinand, só são tocados porque aparecerão em algum festival de música realizado no Brasil. Não fosse isso, nem fazendo simpatias ou rezando novenas.

Há também que observar certos contextos. Por que será, por exemplo, que a Cidade, pouco afeita ao blues, passou a dar espaço para a carreira musical do ator inglês Hugh Laurie? Ora, não é preciso muito: ele tornou-se popular pelo público juvenil através do famoso personagem mal-humorado que protagonizava o extinto seriado House. Não fosse isso, nem com prantos.

Para agravar, se entre 1995 e 2006 - quando a Rádio Cidade se passou por "roqueira" por duas etapas, uma sozinha, até 2000, e outra, a partir de então, como afiliada da 89 FM - a emissora praticamente estava sozinha na sua reserva de mercado, a ponto de esnobar as tentativas de concorrência da Rocknet (apenas rádio digital, restrita à Internet) e da Fluminense AM, hoje enfrenta concorrência.

A Kiss FM, rádio paulistana cujo dono pretende ressuscitar a TV Excelsior, mesmo com todos os senões de tocar o chamado "metal farofa" (Bon Jovi, Guns N'Roses, Mötley Crüe, Poison e similares) e por vezes botar vinhetas e locução em cima das músicas, oferece um diferencial de tocar também bandas e artistas solo seminais da história do rock, em se limitar aos hits básicos.

Há também a concorrência da Fluminense AM, dentro do projeto Maldita 3.0 de Alessandro ALR, que busca ampliar e aperfeiçoar o desempenho que a Fluminense FM teve entre 1991 e 1994, sem os defeitos que depois caraterizariam a Rádio Cidade, acrescido de uma criatividade adotada pela Fluminense AM em 2001-2002 e da rádio digital do Grupo Fluminense, a Maldita FM.

Com isso, a Rádio Cidade sai enfraquecida. Ela está datada, ineficiente e antiquada para o âmbito da cultura rock hoje em dia. Ela fica soando mais a Mix FM de São Paulo - quando ela não tinha afiliada no Rio de Janeiro - , que começou com repertório "roqueiro" mas com linguagem pop mais escancarada.

Sem usar a palavra "rock" no logotipo, a Cidade parece estar preparada quando um dia tiver que assumir o pop de vez. Das três que, em tese, exploram o rock no rádio, a Cidade é a que não tem personalidade ideal para rádio de rock e é a com mais baixa reputação entre o público roqueiro autêntico.

Sem falar que ela perde não só para a Kiss e a Flu AM, mas para MP3 e coleções pessoais de CD dos verdadeiros roqueiros, que não se contentam em ouvir uns poucos hits de suas bandas tocados por FMs oportunistas.

quinta-feira, 27 de março de 2014

TRIBUTOS À MPB: RÉQUIEM OU LIÇÃO PARA NOVAS GERAÇÕES?


Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, uma conhecida marca de cosméticos promoveu o evento gratuito "Viva o Samba", com a participação dos cantores Roberta Sá, Diogo Nogueira, Alcione e Martinho da Vila, cantando um variado repertório de sambas de diversas épocas, além de vários sucessos do repertório gravado pelos respectivos cantores.

A ideia é bem intencionada, mas a tendência da MPB autêntica praticamente se resumir, hoje em dia, a eventos de homenagens, sobretudo com a participação de Caetano Veloso e Gilberto Gil, causam uma preocupação enorme, porque algo estranho parece pairar no ar.

Homenagens são feitas para celebrar o passado, são rituais que evocam, por alguns instantes, geralmente algumas horas, aquilo que já se foi e não existe mais. E isso é que faz dar calafrios quando existem eventos de homenagens à MPB: a MPB já era?

Para piorar, a mania de homenagens contagiou até mesmo a chamada "MPB de mentirinha" dos ídolos neo-bregas dos anos 90 e seus derivados. Eles também gravam DVDs de auto-homenagens, com cantores duetando em DVDs de outros, com Neymar fazendo embaixadinha, Sabrina Sato desafinando na sua voz de taquara rachada, Xuxa saudando os "baixinhos" etc etc.

Se a pseudo-MPB de bregas arrumadinhos já não produz material inédito e vive de auto-tributos e seus seguidores, depois de uns pálidos sucessos "autorais" e inéditos (apesar de medíocres), passam a viver de DVDs ao vivo, uns iguais aos outros, imagine então a MPB autêntica que a contragosto se distanciou do diálogo direto com as classes populares?

SAMBA "BOSSIFICOU-SE"

O que se preocupa é que os nordestinos perderam a sua cultura própria. Salvo raras exceções, o nordestino comum não pode mais fazer seus baiões, xaxados, maracatus, que viraram "patrimônio" de "especialistas" universitários do Sul do país (diga-se Sul do país, abaixo de São Paulo, pois o catarineta que escreve este texto sabe da diferença existente entre Sul e Sudeste).

Sim, o que Luiz Gonzaga fazia com sua própria intuição de humilde nordestino, vivido na sua própria realidade, hoje corresponde tão somente a inclinações "populares" de universitários de classe média alta de Curitiba, Porto Alegre e similares.

Enquanto isso, ser "nordestino" hoje é juntar um amontoado de referências externas, estética de piratas de Hollywood, de cabaré do Texas, e um engodo musical que mistura country music, disco music, ritmos caribenhos e que nem o som da sanfona é nordestino, mas "importado" do Rio Grande do Sul, quase na fronteira com a Argentina.

A música caipira é sufocada por "modernas" manifestações de jovens imitando caubóis estadunidenses e com o povo moldando "sua cultura" através de rádios e TVs controladas pelo latifúndio local. Musicalmente, surgem expressões confusas que misturam country com boleros e mariachis que apenas tardiamente tentam emular tendenciosamente das velhas serestas ao Clube da Esquina.

E o samba? Considerado patrimônio cultural pelo IPHAN, ele também corre o risco de perecer e cair no esquecimento. Os velhos sambas criados nos morros, nas favelas, hoje praticamente se tornaram um patrimônio "Zona Sul", como se hoje o samba de raiz fosse tão elitista quanto a Bossa Nova acusada de deturpar o samba brasileiro.

Mesmo sambistas surgidos nos subúrbios cariocas, como Martinho da Vila e Paulinho da Viola, remanescentes e testemunhas de um tempo em que se fazia samba até com caixas de fósforos em mesas de bar, hoje mais parecem ídolos de um público elitista, de socialites, profissionais liberais e universitários de "boas famílias", sendo "estrangeiros" para a gente de suas terras.

O samba hoje só "empolga" as populações dos subúrbios - não só cariocas, niteroienses ou da Baixada, mas paulistanos, belzontinos, florianopolitanos, soteropolitanos etc - nas formas diluídas e caricatas de grupos de "pagode romântico" que, num contexto brega, diluem a soul music norte-americana com instrumentos de samba ou fazem imitações frouxas dos grandes sambistas da moda.

A situação é tão grave que, se antigamente os antigos seresteiros visitavam os morros para "comprar" sambas de compositores locais e trai-los omitindo sua autoria, hoje os "pagodeiros românticos" gravam covers de sambas antigos e arrumam arranjadores para embelezar suas músicas, com os cantores recebendo crédito de co-autoria nos arranjos que eles em nada fizeram.

A música brasileira de qualidade está distante das classes populares. Pior: se trata da música que as próprias classes populares faziam, e que só está acessível a elas quando seus ídolos deturpadores ficam ricos e "aprendem" das elites como fazer uma "musica brasileira de verdade".

É por isso que se vê os tributos à MPB autêntica mais com apreensão do que com admiração. O próprio mercado e a mídia dominante que temos prefere mais a "simplificação" do brega e de suas "linhas de montagem" que permitem fazer uma pseudo-MPB mais asséptica, inodora, insípida mas "digestível".

A não ser que as novas gerações decidam romper com a breguice e extraiam novas lições dos tributos da MPB autêntica para produzirem a cultura musical do futuro, esses tributos soam mais como um réquiem que o lobby de intelectuais, empresários e barões da mídia lançam para, como querem eles, jogar uma pá de cal sobre a MPB de verdade que desejam ver longe do "povão".
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