quinta-feira, 20 de março de 2014

O VERDADEIRO PRECONCEITO CONTRA MUSAS


Por Alexandre Figueiredo

Eis o lado sombrio que está fora da "Disneylândia das periferias", esse estranho paraíso cercado de lixo, ruas não asfaltadas, de muito analfabetismo e de uma pobreza e ignorância glamourizadas pelo discurso intelectual.

O tendenciosismo da parcela dessa intelectualidade que detém esse discurso por demais fantasioso, quando quer fazer críticas sociais, força demais a barra e, entre críticas que são até pertinentes mas parcialmente direcionadas, acabam também fazendo outras críticas que provocam tamanhas injustiças.

Um exemplo já descrito neste blogue é o fato de que certos ativistas das esquerdas médias fizeram duras críticas à exploração imbecilizada da mulher através dos comerciais de TV, inclusive alguns feitos pela supermodelo Gisele Bündchen.

No entanto, essas mesmas pessoas se omitem quando "mulheres-frutas" e outras funqueiras fazem o mesmo, até de forma ainda mais grave e extrema, e os mesmos ativistas consentem e até defendem com certo entusiasmo, com a desculpa de que elas estão "tirando sarro com o machismo" e adotando um "discurso direto" de "auto-afirmação feminista" (sic).

Ou seja, o que Gisele Bündchen faz é deplorável, caricato, pejorativo, estereotipado etc. Se Valesca Popozuda faz a mesmíssima coisa, ela é "corajosa", "combativa", "provocativa", "audaciosa", "brilhante" e outras qualidades "tudo de bom". Vá entender.


Agora é a vez da charmosíssima Nayara Justino, uma estonteante negra de 25 anos, ser duramente criticada pelas redes sociais. Tanto que chegaram a compará-la pejorativamente com um personagem masculino do filme Cidade de Deus e ser classificada de "feia". Com tantas campanhas negativas, ela hoje se isolou deprimida em sua casa.

Nayara teve o fardo de ter sido musa das vinhetas de Carnaval da Rede Globo, e ela sofreu a injustiça de pagar por este preço, quando oportunistas pseudo-esquerdistas querem esculhambar as Organizações Globo mais por modismo ou para agradar os amigos do que realmente por se opor aos abusos da corporação dos irmãos Marinho.

Esses oportunistas são os primeiros a reproduzir, em seus perfis nas mídias sociais, as charges de Carlos Latuff contra a Globo, como uma delas com o aviso "Sorria, você está sendo manipulado". São aqueles que vão lá mandando seu comentário contra o reaça da moda, seja Marcelo Madureira ou Ali Kamel, apenas porque muita gente está fazendo.

No entanto, eles se escondem vendo Caldeirão do Huck, Domingão do Faustão e Esquenta! e pautam sua compreensão sobre cultura popular pelo ponto de vista dos executivos da TV Globo. E ainda se irritam quando são chamados de neoliberais ou neocons.

É esse pessoal que, no auge das baixarias do É O Tchan - que vendia pornografia barata para o público infantil, sob o incentivo de pais e mães desavisados - , o ônus fosse repassado para uma Tiazinha cuja identidade secreta era uma dançarina clássica, então aspirante a atriz e muito mais inteligente que seu personagem sugeria, a hoje atriz Suzana Alves.

Se Suzana Alves pagou pela vulgaridade das dançarinas do Tchan, ou mesmo de uma Rosiane Pinheiro que, mesmo negra, ela, sim, se serviu à imagem de "mulher-objeto" como dançarina do grupo Gang do Samba - genérico do É O Tchan que o lobby de Hermano Vianna empurrou tendenciosamente para um documentário sobre Riachão - , Nayara agora paga pelos pecados das funqueiras e outras "boazudas".

Nayara Justino faz o perfil da negra sofisticada e bastante charmosa, que no exterior é simbolizada pela atriz Lupita Nyong'o, que de tão admirável já possui vários pretendentes, cada um anunciado pela mídia com suposto namorado. De rosto, Nayara soa como uma adaptação da raça negra ao tipo de beleza clássica da ex-concorrente do Miss Brasil 2003, a hoje atriz Mayana Neiva.

Ela apareceu até mesmo numa livraria, participando de um evento, e nem de longe expressa uma imagem de vulgaridade. Mas, juntando o posto de divulgadora de transmissões de Carnaval da Globo com a reputação que esta possui entre os detratores, Nayara Justino foi duramente criticada acusada injustamente de "vulgar" e "feia".

São as mesmas pessoas que mantém silêncio quando uma Valesca Popozuda pseudo-progressista se torna hoje a queridinha da Globo. Ela, que, supostamente ativista, tratou o episódio das denúncias do ex-funcionário da CIA, Edward Snowden, como se fosse o Big Brother Brasil. Como se Barack Obama estivesse fazendo na ocasião a função de Pedro Bial.

Daí o verdadeiro preconceito. Nem as "mulheres-frutas" sofreram tanto quando Nayara Justino. Até a Mulher-Melão, temperamental e arrogante, dá um jeito para evitar o ostracismo, mesmo quando está perto de tal situação. O rótulo "popular" dá uma imunidade para sub-celebridades reaparecerem na mídia quando já estão perto de desaparecerem para sempre.

Nayara foi vítima não só de um racismo oculto daqueles que defendem até as piores grosserias do "funk" a falam que o branquelo MC Guimê (outro neo-queridinho dos barões da mídia), mas de uma reação distorcida, caricata e tendenciosa de oportunistas que, passando por "opositores da Globo", atacam quem não deve e elogiam quem deve menos ainda.

Talvez Nayara, a exemplo de outros que de alguma forma prestam serviço à Globo, tenha até menos compromisso ideológico com a corporação, já que nem todo mundo lá compartilha com os interesses comerciais e político-ideológicos dos irmãos Marinho.

Mas são justamente essas pessoas que pagam pelos pecados cometidos pelos "urubólogos" e pelos ídolos "populares" que vão alegres ao Domingão do Faustão e Caldeirão do Huck, de veteranos do "pagode romântico" a funqueiros em ascensão, todos expressando um Brasil neoliberal de mentirinha mas que recebem a vista grossa das esquerdas médias.

Em contrapartida, Nayara Justino sofre duramente os efeitos dessa postura tendenciosa. Ela foi vista, equivocadamente, como um dos símbolos do que há de pior na Globo. E não é. Simpática, charmosa, belíssima, esforçada. Talvez ela possa ser, no futuro, uma excelente atriz ou coisas até melhores. Ela merece ter uma chance. Pena que os oportunistas do "ativismo de botequim" não deixam.

quarta-feira, 19 de março de 2014

TRUCULÊNCIA POLICIAL E TRUCULÊNCIA SÓCIO-POLÍTICA


Por Alexandre Figueiredo

Numa situação inconcebível, dias atrás uma mulher trabalhadora do subúrbio do Rio de Janeiro, ao ser baleada por bala perdida sob um intenso tiroteio entre policiais e bandidos, foi precariamente socorrida e jogada no porta-malas da viatura policial.

Só esse aspecto era bastante ridículo. Ela poderia ter sido socorrida por uma ambulância ou uma viatura dos Bombeiros também dotada de maca e outros materiais de socorro. Em vez disso, ela foi jogada em um porta-malas, que, para piorar, abriu e fez o corpo dela ser arrastado pelo chão enquanto o carro saía do subúrbio de Madureira, onde a vítima foi baleada.

O nome dela era Cláudia Ferreira da Silva. Era casada, tinha 38 anos e trabalhava como auxiliar de serviços gerais. Tinha quatro filhos, mas também tinha jogo de cintura para cuidar também de quatro sobrinhos. Com sua morte estúpida, o marido reclamou que ela foi tratada feito um animal e que a tragédia interrompeu os sonhos dela.

Evidentemente existem abusos cometidos por policiais. Os três que socorreram a jovem foram presos, e já estão sob investigação da polícia. Eles haviam agido precipitadamente ao trocarem tiros com traficantes, sem observar as pessoas inocentes à volta, e mesmo com os tiros que acertaram Cláudia - que poderia ter sobrevivido, pela forma que foi baleada - eles ainda demoraram a socorrê-la.

Mas é muito complexo criar um maniqueísmo que divide polícia e favela em, respectivamente, o mal e o bem, nesse discurso tão confortavelmente descrito por delirantes intelectuais "bacanas", que ignoram que as periferias estão longe da ideia paradisíaca com que eles imaginam serem as favelas.

Isso porque tanto truculência policial quanto as construções das favelas são igualmente produtos de um mesmo problema, a truculência sócio-política de décadas. O descaso político, o preconceito elitista, as desigualdades sociais, os problemas de Educação, Saúde, Saneamento, Segurança, temas com maiúsculas que as autoridades descrevem em formas as mais minúsculas possíveis.

A truculência policial é fruto tanto do tratamento severo dos quartéis policiais a seus soldados quanto da visão elitista e generalizada da criminalidade nas comunidades pobres. Neste sentido, há um potencial sentimento de racismo, julgando que qualquer rapaz que fosse humilde e negro fosse necessariamente um bandido em potencial.

Já as favelas foram formadas porque as classes populares foram privadas, ao longo de décadas, de morarem em edifícios e outras casas, devido ao aluguel caríssimo e a própria rejeição das elites. A exclusão imobiliária é tão cruel que os operários da construção civil nunca têm a chance de morar nos apartamentos que constroem, o trabalho que fazem é alienado em sua própria natureza.

Portanto, é muito fantasiosa, também, a idealização da favela "alegre" de DJs sorridentes, grafiteiros animadinhos, produtores de fala articulada, enquanto estes, na verdade, são apenas a "classe média" surgida nos seios das favelas, uma elite abastada que pouco diz a respeito da real situação das populações pobres do país.

Por isso não faz sentido abordar, de uma forma maniqueísta, o conflito entre a polícia truculenta e a favela em busca de auto-afirmação, comumente contada como se fosse o conflito entre a bruxa malvada e a Branca de Neve acolhida pelos sete anões.

O problema é muito mais complexo. Deveria-se pensar na desfavelização e transferir seus moradores para residências mais dignas, dando-lhes todo o apoio logístico e financeiro necessário. A favela só é "linda" para o intelectual paternalista que, "sem preconceitos", revela-se na verdade muito mais preconceituoso do que pode imaginar.

Criar programas sociais para melhorar a qualidade de vida, considerando propostas como cotas universitárias e Bolsa Família apenas como paliativos de validade provisória, enquanto se investe em Educação e Emprego de forma mais digna e ampliada, seriam ótimas maneiras de valorizar a população das periferias muito mais do que o "beijinho no ombro" de intelectuais oportunistas.

Se houvesse mais justiça social e outras melhorias, não teríamos a truculência policial que matou Cláudia da Silva. E ela poderia viver anonimamente no seu sossego, ao lado do marido, filhos, sobrinhos e todos os seus amigos do meio, com mais qualidade de vida e sossego. E com casas e estruturas urbanas muitíssimo melhores.

NO BREGA-POPULARESCO, NÃO HÁ GRANDES ARTISTAS, MAS GRANDES EMPRESÁRIOS


Por Alexandre Figueiredo

Na música brega-popularesca, o que se observa não é a existência de grandes artistas, mas a atuação permanente e sustentável de empresários habilidosos, capazes de moldar e remoldar os ídolos que são apenas mercadorias e produtos de um entretenimento musical.

Faltam, na música brasileira de hoje, grandes artistas de impacto. A última grande força da MPB autêntica se deu nos anos 70, quando artistas de formação universitária popularizaram ritmos populares na apreciação das várias classes sociais.

A estagnação desse processo, porém, fez com que a MPB autêntica se perdesse quando ritmos populares deixaram de serem apreciadas nos lugares de origem e uma confusão de valores fez com que o povo pobre deixasse de ter sua própria cultura, queiram ou não queiram os intelectuais pró-brega com suas manias de "relativização".

O que se conhece como "cultura popular" é um sistema de valores estereotipados e padronizados dentro de um modelo caricato de população pobre, digno dos piores programas de humorismo televisivo da TV aberta. Algo que nem as chanchadas da Atlântida teriam coragem de fazer.

Para o intelectual que vive no seu apartamento confortável, vai com seu carrinho entre seu lar e o escritório refrigerado de sua instituição, isso é o "povo autêntico", é o "verdadeiro cheiro de povo". E, por isso, minimizam-se os questionamentos sobre a falta de grandes artistas na "música do povo" feita no Brasil.

"ÍDOLOS DO POVÃO"

Páginas e páginas de monografias, laudas de reportagens sucessivas e horas de documentários são inúteis para tentar classificar os "sucessos do povão" - meras mercadorias musicais lançadas pelas rádios oligárquicas das capitais e do interior - como "cultura de verdade".

Pela "expressão" de seus "artistas", o que há são fetiches musicais, produtos midiáticos. Não há grandes artistas. Claro, o intelectual "bacana" irá se revoltar, porque o "ídolo do povão" é um exímio lotador de plateias, mas está perdido na sua (suposta) missão de renovação da Música Popular Brasileira, bem mais do que cego paraplégico num cenário de grandes conflitos bélicos.

O que existe são supostos cantores e grupos que, primeiro, despejam tudo de ruim que "são capazes" de fazer na música, e que se tornam a razão de seu sucesso. Carregam na pieguice, ou então carregam no grotesco, com sucessos que, embora "certeiros", são bastante constrangedores.

Só depois de uns cinco anos de sucesso, o "artista" é remodulado, ganha um banho de loja, um banho de técnica e tecnologia, e, "repaginado", até parece um "artista popular" convertido em "novo gênio da MPB".

Mas o resultado, como já havíamos escrito várias vezes, é desastroso. O "artista" fica ainda mais perdido quando o mercado lhe dá o papel tendencioso de brincar de "fazer MPB". Grava covers sugeridos em última hora por produtores. Recorre a outros arranjadores para fazer um arremedo de "boa música" e o mercado e a grande mídia agradecem.

Só que tudo isso se deve não pela razão do "admirável" e de início "mal-aproveitado talento" do ídolo popularesco. Não dá para acreditar na desculpa que esse cantor, dupla ou grupo foram "mal-aproveitados" no começo da carreira, até porque quem realmente tem talento sempre mostra sua força no começo, não espera o sucesso vir para pensar em fazer "algo decente".

BONS EMPRESÁRIOS

O principal motivo de haver uma sucessão de "artistas" brega-popularescos comercialmente bem sucedidos e que, aparentemente, estão prontos a driblar qualquer risco de desgaste com algum factoide ou qualquer coisa que aumente sua autopromoção na mídia, não é outro senão a presença de bons empresários.

Em muitos casos, há um rodízio de empresários dependendo do estágio que o "artista" se encontre em sua carreira. Quando o ídolo brega-popularesco é emergente, ele é empresariado por agências de famosos sediadas nas suas regiões de origem, que estabelecem parcerias com outras que possuem escritórios em São Paulo.

Quando o ídolo brega-popularesco se estabiliza, geralmente seu passe é compartilhado com a grande mídia. As emissoras de TV tornam-se em parte "sócias" do ídolo, que aparece fácil em programas de TV aberta, em muitos casos alternando entre uma emissora e outra, para não deixar vazar que se tornou queridinho de uma única emissora (sobretudo se for a Rede Globo).

Mas independente de que empresário for e se ele continua o mesmo ou não, o ídolo brega-popularesco sempre procura promover e manter sua imagem da melhor maneira. Como "boas mercadorias" que precisam manter toda a "qualidade" para a satisfação de seus consumidores.

O zelo da mídia e do mercado para esses "artistas" da música é que dá a falsa impressão de que eles são "grandes artistas". Mas mesmo seus maiores sucessos não sobrevivem mais que um verão ou, quando muito, uns poucos sucessos são "institucionalizados" pela mídia, mediante interesses comerciais estratégicos, como "É o Amor", da dupla breganeja Zezé di Camargo & Luciano.

Num país com pouco hábito para ouvir música fora do contexto de fundo musical de qualquer atividade ou sob a "ajuda" de bebidas e outras "coisas", as pessoas pouco percebem a situação. Mas, numa atenção mais cuidadosa, veremos que atualmente faltam grandes artistas de MPB que juntem visibilidade, talento e popularidade.

O que existe, na verdade, são ídolos empresariados que apenas fazem um arremedo de música brasileira, com forte apelo brega-popularesco, e que apenas são moldados de forma tendenciosa para se manterem na mídia e no sucesso. Tudo comercialismo.

terça-feira, 18 de março de 2014

GRANDE MÍDIA TENTA DAR A FALSA IMPRESSÃO DE QUE SER BREGA É SER CRIATIVO


Por Alexandre Figueiredo

No último Carnaval, os barões da mídia tentam, através de seus porta-vozes, tentam dar a falsa impressão de que a bregalização cultural garante maior liberdade e maior criatividade para seu público.

Misturam-se ironias, caricaturas, expressões do grotesco e do piegas, e essa "saudável mistura" e sua "admirável confusão" se configura numa "cultura transbrasileira", dita "hiperconectada", "moderna" e "sintonizada com o futuro e com a extensão de nosso mundo".

Só que esse discurso, trabalhado com muita insistência pela intelectualidade "bacaninha", tem muito mais a ver com os princípios de "livre mercado" do que de diversidade cultural. O "livre mercado" dos brasileiros serem tudo o que querem ser, desde que não sejam eles próprios.

Pouco adianta o verniz progressista. Afinal, que diferença faz Pedro Alexandre Sanches sonhar com as ruas de Belém do Pará transformadas em arremedos de Nova York, e Rodrigo Constantino sonhar com as periferias de São Paulo parecendo roças bucólicas da Áustria? É tudo "transbrasileiro", uai!

Que criatividade tem um jovem juntar um amontoado de coisas que lhe vêm à mente, produzindo apenas uma colcha de retalhos que nada acrescenta à nossa cultura? São as mesmas irreverências, as mesmas misturas, tudo é um mesmo ecletismo que chega a não ser mais eclético nem diversificado, mas uma mesmice eclética que, mesmo assim, é mesmice do mesmo jeito.

Qual a diferença entre Felipe Cordeiro e seu Kitsch Pop Cult com Vivendo do Ócio, Banda Uó e Gang do Eletro? Todos com quartos desarrumados, misturando discos de vinil, rodas de bicicleta, revistas de quadrinhos, revistas de sacanagem, pôsteres de desenhos animados, e um vestuário confuso que mistura bermudas de surfista com velhos paletós comprados em brechós, ou saias muito mal combinadas com tênis All Star de canos longos.

Tudo é apenas uma questão de overdose de informação, um problema que não é discutido no Brasil. Milton Santos até tentou contestá-lo, mas ele morreu sem ser devidamente ouvido, sequer pela intelectualidade. Já Noam Chomsky e Umberto Eco continuam questionando lá fora, mas isso não reflete por aqui.

Por isso overdose de informação aqui é visto como algo maravilhoso, nessa "cultura transbrasileira" que mais parece um misto de Disneylândia com McLanche Feliz. Tudo "transbrasileiro". Todos podem ser tudo, só estão proibidos de serem eles mesmos, porque aí fica "menos provocativo". Essa é a regra do Brasilzinho bregalizado.

segunda-feira, 17 de março de 2014

LOBÃO E SEU UNIVERSO PARALELO

LOBÃO E OLAVO DE CARVALHO - Para um roqueiro que achava Patrick Moraz antiquado, aderir a um escritor medieval soa muito estranho.

Por Alexandre Figueiredo

1977-1982: O jovem João Luiz Woerdenbag Filho, que recebeu o apelido de Lobão por causa do macacão jeans de uma só alça, tal qual o personagem de história em quadrinhos, era o membro caçula do conjunto Vímana, lendária banda de rock carioca dos anos 70.

Ele tocava bateria, estudava violão clássico e tinha como parceiros o cantor Ritchie e o guitarrista Lulu Santos, figuras muitíssimo conhecidas, além do relativamente pouco conhecido Fernando Gama, um dos membros do Boca Livre, e Luiz Paulo Simas, desconhecido mas autor da popular vinheta da Rede Globo de Televisão, o "plim-plim" (embora sonoramente estivesse mais para "pló-pló").

A banda estava indecisa entre fazer um som de rock básico da linha dos Rolling Stones e o som progressivo da linha do Yes. Com um LP gravado e nunca lançado e poucas apresentações, o grupo se extinguiu precocemente para se tornar banda de apoio de Patrick Moraz.

Só que essa experiência nunca chegou a se realizar, pois foi abortada por causa dos ensaios tensos, intermináveis e conflituosos. Moraz, por exemplo, não gostava de Lulu Santos e queria substitui-lo por outro músico. E Lobão, já conhecendo as novidades pós-punk de 1978, ainda se envolveu amorosamente com a esposa do músico suíço, chegando a ter um breve casamento com ela.

Passados os anos, Lobão, a exemplo de Lulu e Ritchie, passaram por um curso intensivo de música pop e passaram, cada um à sua maneira, a fazer canções básicas e assobiáveis de três minutos. Lobão era o mais visceral e "cru", pois queria fazer um som mais roqueiro. Os outros dois passaram a ser conhecidos por músicas acessíveis como "Como Uma Onda" e "Menina Veneno", até hoje populares.

Lobão começou sua trajetória sob as bênçãos da Rádio Fluminense FM, que lançou em primeira mão o disco Cena de Cinema, de 1982. Já nessa época o roqueiro carioca mostrava ser uma figura difícil, e não tardou ele virar desafeto de outra banda lançada pela emissora niteroiense, Os Paralamas do Sucesso, que Lobão acusava "pegar carona" na sua obra.

Afinal, coincidência ou não, os Paralamas vieram com Cinena Mudo depois que Lobão lançou Cena de Cinema. Em seguida, gravaram a música "Me Liga" depois que Lobão lançou "Me Chama". O próprio estilo alegre e praiano dos Paralamas também não era do agrado do ex-baterista do Vímana.

Lobão já teve seus momentos progressistas, e foi um batalhador contra os abusos da indústria fonográfica. Encorajou a venda de discos nas bancas de jornais, e, mesmo com alguns senões - como o apoio a Mr. Catra e Amado Batista, dois ídolos brega-popularescos - , ainda lutava contra a mediocridade cultural brasileira.

Mas, nos últimos anos, Lobão surtou. Tornou-se um direitista ferrenho, o que, para seu jeito de roqueiro rebelde, se encaixa no atual contexto do "cidadão revoltado", estereótipo que a direita trabalha nos últimos anos para voltar ao poderio político.

De repente, Lobão passou a cortejar até mesmo Olavo de Carvalho, numa atitude mais surpreendente ainda do que o casseta Marcelo Madureira cortejar Diogo Mainardi. O que um roqueiro que achava Patrick Moraz demodê faz sendo amigo e entrevistador apaixonado de um escritor de ideias medievais é algo que não dá para entender.

É verdade que, volta e meia, aparece gente neocon aqui e lá fora. Nos EUA, o roqueiro Ted Nugent é uma espécie de Tea Party com roupagem hard rock. Armamentista como o falecido Charlton Heston - que, como Moisés, só faltou soltar a espingarda para atirar nos pagãos - , Nugent também é um entusiasta defensor do Partido Republicano e seus ideais reacionários.

Lobão é um caso a refletir no nosso país. Ele é adorado por uma geração de neo-conservadores, os que vão, daqui a alguns dias, ir para a "Marcha da Família" em São Paulo pedir um novo golpe militar para o país, pela imagem de rebeldia que ele empresta à direita reacionária.

Isso é algo que não era pensável há 50 anos. Naqueles tempos, os neocons eram escritores da geração de 1945, jornalistas moderados ou astros da televisão. Mas eles não tinham algum aspecto ultramoderno ou avançado na personalidade, mesmo os arroubos modernistas - que haviam tomado um Plínio Salgado em 1922, ele que já era direitista em 1964 - eram lembranças de passado juvenil.

Mas Lobão, com seus 57 anos, mas afiado na sua retórica de roqueiro rebelde - com um quê de autêntica, tamanha a visceralidade de seu comportamento - , preocupa diante de um cenário que envolve direitistas raivosos e esquerdistas frouxos, estes tomado pela influência de uma centro-direita acanhada que tenta um vínculo "definitivo" e "permanente" com as forças esquerdistas.

Lobão vive um universo paralelo para o qual só o seu reacionarismo é a verdadeira rebeldia. Talvez ele disputasse com os ouvintes da 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ) no quesito reacionarismo "roqueiro", sobretudo pelo aspecto surreal dele agora querer processar o igualmente neocon CQC, por causa de uma brincadeira que acusou o músico de ter se rendido a Mano Brown, dos Racionais MC's.

Para Lobão, a liberdade de expressão só serve para ele e seus colegas, enquanto, por outro lado, ele quer censurar o que não lhe agrada. Lobão não gostou da brincadeira, que nem tinha de muito grave assim, e processou o humorístico da Band, proibindo-o de veicular qualquer coisa relacionada ao roqueiro carioca, hoje radicado em São Paulo.

Por isso é que uma figura dessas preocupa, porque simboliza o pensamento golpista num verniz claramente rebelde, uma "paudurecência" direitista que se contrapõe à "paumolecência" esquerdista que podem pôr a luta pelos progressos e conquistas sociais a perder.

As novas pressões da direita brasileira são uma ameaça à democracia brasileira. Não a "democracia" que os direitistas defendem, mais uma desculpa para pregar seus ideais privatistas, mas aquela que se contrói com justiça social, liberdade e cidadania autênticas. Se houver mais uma ditadura militar, o Brasil, que já sofreu um colapso com a ditadura de 1964-1985, poderá ir à falência.

domingo, 16 de março de 2014

COMO RECONHECER UMA PSEUDO-SOLTEIRA


Por Alexandre Figueiredo

O último Carnaval foi a consagração da mulher pseudo-solteira, aquela mulher que se diverte aparentemente sozinha e parece muito feliz na condição de suposta solitária, que não dá para confiar na sua condição de solteira.

É muita vaidade e ostentação. A aparente solteirice de folionas ou mesmo de sub-celebridades e sub-artistas ocorre de tal maneira - desde que as namoradeiras dançarinas do É O Tchan faziam pose de pretensas "encalhadas" - que daria uma série de questionamentos dessa situação.

Uma delas é o próprio comportamento das pseudo-solteiras, que parecem forçar a barra demais na aparente (e, em vários casos, fingida) solteirice. Isso numa época em que vemos muitas mulheres se casarem, se comprometerem, não ficarem sozinhas na vida amorosa.

Há a questão do eufemismo, já que muitas vezes "solteira" não é aquela que não tem namorado ou é incapaz de arrumar um, mas aquela que vai para a noitada sem a companhia de um homem. "Solteiríssima" é aquela que brigou com o namorado e passará as noitadas do fim de semana desacompanhada. E "solteira e feliz" é a "solteiríssima" que se diverte com mais alegria.

No Brasil em que os dados fantasiosos do Censo do IBGE, que falam num Brasil com "mais mulher", enquanto cada vez mais mulheres morrem no país vítimas de vários motivos, a figura da pseudo-solteira mais parece anedótica do que sociológica.

Em primeiro lugar, porque a ausência de homens nas noitadas, nas folias e outras diversões noturnas se deve ao fato de que os homens precisam acordar cedo no dia seguinte. Muitos acordam para trabalhar até nas manhãs de domingos e feriados e há quem queira aproveitar a manhã de lazer para despertar mais cedo e pegar a estrada com mais calma.

Em segundo, porque temos também muitos homens pobres e negros não sendo registrados pelos recenseadores, porque vivem em áreas de difícil acesso - muitas delas localizadas nas favelas das grandes cidades - , ou vivem nas ruas, ou no errante caminho do êxodo rural. Isso para não dizer aqueles que se envolvem na criminalidade e não estão presos.

Por isso, não faz sentido a fantasia toda de uma "multidão de solteiras", algumas arrogantes demais para quem se autoproclama "encalhada". Daí que, numa observação mais cautelosa, identificamos o comportamento da falsa solteira que força a barra sem decidir direito se sofre por ser "encalhada" ou se é uma "solteira feliz".

1) Ela fica alegre demais quando diz que "está encalhada".

2) Se diverte demais às custas de seu aparente "sofrimento amoroso".

3) Descreve comentários grosseiros como "estou transando com vibrador" e "só levo cantada de meu afilhado".

4) É assediada por vários homens nas festas noturnas, mas dá o fora em todos eles, para depois dizer que "os homens fogem de medo dela".

5) É bastante esnobe e exibida no comportamento, se achando "convencida" e muitas vezes fica até embriagada.

6) Quer bancar a "gostosa" e fica espalhando que "está solteira na área".

Em suma. Arrogância, exibicionismo, comportamento impulsivo e excesso de vaidade. Muitas dessas "solteiras" nem são muito atraentes, apesar do porte físico de supostas "mulheronas". Estas muitas vezes são falsas solteiras, em "férias conjugais", ou em outras condições que forçam a aparente situação de "solteira".

Portanto, não há festa, nem carnaval, como cantava Marcelo Nova, no Camisa de Vênus. Há muito menos solteiras que se imagina. E as mais arrogantes e exibidas não são aquelas que estão dispostas ao amor. Estas ou querem se envolver ou já são envolvidas com homens durões, ou então querem namorar rapazes pacatos pela simples intenção de usá-los como "brinquedos sexuais".

sábado, 15 de março de 2014

QUANDO SER "ALTERNATIVO" VIROU BAGUNÇA

SE FOSSE PIADA, NÃO HAVERIA PROBLEMA - Mas o Grupo Molejo quer ser levado a sério com camiseta que imita a estética dos Ramones.

Por Alexandre Figueiredo

Depois do disco "alternativo" de tributo a Raça Negra, espera-se qualquer coisa. No Brasil do Febeapá, o festival de besteiras que sobreviveu ao seu autor, Sérgio Porto (1923-1968), joga-se a breguice mais escancarada para públicos que, em tese, assumem seu compromisso com a vanguarda cultural e a postura alternativa, sem escrúpulos de sucumbir ao ridículo.

A supremacia do brega-popularesco já é um problema sério em nossa sociedade e que vicia o gosto de muitos jovens. Os ídolos fazem sucesso através de músicas medíocres ou posturas sócio-culturais constrangedoras, dominam o mercado, mas se passam por "vítimas de preconceito" para serem levados a sério pela opinião pública, através do discurso intelectual dominante.

Um grupo de universitários da Universidade Federal Fluminense já havia escolhido Valesca Popozuda como "paraninfa" de formatura. A mesma funqueira teve um sucesso recente, "Beijinho no Ombro", cantado por um coral da Universidade de São Paulo. Nada mal para uma funqueira que anda mandando beijinho nos ombros dos barões da grande mídia.

Desde que os empresários de brega-popularesco, para complementar o jabaculê nas rádios - fica difícil passar a vida inteira subornando somente os programadores de rádio - , passaram a subornar sindicatos e entidades estudantis para promover eventos com ídolos brega-popularescos, a coisa escancarou de vez agora visando o aparato cult das "viradas culturais".

Com isso, também surgem os "artistas performáticos" da EmoPB (Felipe Cordeiro, Gang do Eletro, Banda Uó, Vivendo do Ócio etc), que banalizam o discurso irônico-provocativo dos antigos (e verdadeiros) performáticos, mas não passam de filhotes da overdose de informação que absorvem referências diversas e contraditórias, sem qualquer critério criativo.

Hoje tudo se banalizou e os jovens de hoje, um tanto infantilizados, acham que estão na vanguarda cultural só porque são capazes de "ouvir" tanto um New York Dolls quanto um Raça Negra. Mas eles não estão na vanguarda cultural, até porque o brega não é vanguarda, é retaguarda, é o mainstream do mainstream do mainstream do mainstream.

Se o brega "some" da mídia, é porque ele cansa. Não tem a força artística das verdadeiras expressões artístico-culturais, sobretudo musicais, e sua mediocridade é tão grande que um dia nem quem gosta aguenta mais ouvir.

Daí que é uma hipocrisia relançar o brega como "relíquia cult". No fundo, isso fica em vão. Até agora, Odair José, só para citar o "mais festejado" dessa onda toda, não lançou um grande sucesso dessa atual fase, o pessoal só fica "cultuando" os bregas às custas de velhos sucessos.

O Grupo Molejo, vendo o caso do Raça Negra, também carregou no seu pretensiosismo. Tentando transformar ironia em discurso "sério", o Grupo Molejo - espécie de "Mamonas Assassinas" do sambrega - divulga imagens pretensiosas como uma que aponta "10 Motivos de que o Molejo é melhor que os Beatles", com os integrantes sob o fundo da rua Abbey Road, em Londres.

Mas o que se nota é que o "Molejão", como o grupo é conhecido, também está comercializando uma camiseta que imita a estética da famosa camiseta dos Ramones, incluindo um círculo em que os nomes dos integrantes estão inscritos.

Esse culto todo é uma mistura de "cultura trash" com politicamente correto que nada contribui para a renovação ou a revalorização da cultura popular. A única coisa que essa glamourização da breguice cultural fez foi fazer com que nossas elites pareçam "simpáticas" ao povo pobre, pouco se lixando se "sua cultura" é verdadeira ou não.

Do "brega de raiz" ao "funk", o brega-popularesco tenta assim atrair públicos mais seletos, que, embora tenham maior poder aquisitivo ou mesmo formação universitária, não são culturalmente mais exigentes.

Pelo contrário, a condescendência dos "bacaninhas" com a bregalização só mostra um terrível desprezo à verdadeira cultura popular, que é "velha, chata e complicada", mesmo que sejam apenas sambas de Zé Kéti ou baiões de Luiz Gonzaga.

Assim, a bagunça do brega transformado em pseudo-alternativo só complica as coisas. Os jovens confundem piada com discurso sério, e vemos uma grande crise do discurso. Mas se nossos intelectuais querem fazer marketing com monografias e documentários, é de se esperar que a juventude "descolada" queira levar a sério com ironias e piadas. Vá entender nosso país...

sexta-feira, 14 de março de 2014

CASO MICHAEL SULLIVAN DEVERIA SER O PIOR ESCÂNDALO DA MÚSICA BRASILEIRA

O "BOM MOÇO" MICHAEL SULLIVAN.

Por Alexandre Figueiredo

Veio à tona um fato que poderia render um dos piores escândalos da música brasileira, a derrubar todo um mercado marcado pelo jabaculê, pelo investimento pesado a cantores e músicos medíocres em detrimento dos verdadeiros artistas da MPB, postos à margem do grande público.

O esquema de jabaculê comandado por Michael Sullivan nos anos 80, denunciado por um revoltado Alceu Valença, é um episódio pior do que os escândalos recentes envolvendo o ECAD e a ex-ministra da Cultura, Ana de Hollanda, e o escândalo do Procure Saber e sua campanha contra as biografias não-oficiais.

O episódio envolvendo Michael Sullivan é muito sério e não merece o silêncio e a condescendência vistos na maioria dos apreciadores de MPB. Infelizmente, Michael Sullivan hoje trabalha a imagem de "bom moço", às custas de um disco-tributo que ele mesmo armou para relançá-lo no mercado, num aparato "emepebista" que engana muita gente.

Afinal, Michael Sullivan quis destruir a MPB, nos anos 80, aliciando artistas para integrarem o esquema de jabaculê, sacrificando seus estilos em prol do sucesso fácil e condenando artistas mais sofisticados e criativos para o ostracismo. É exatamente este o esquema denunciado por Alceu Valença, embora ele não tenha citado nomes.

É só voltar ao tempo e ver quem comandava a RCA em 1987. Miguel Plopschi era o diretor-artístico, Michael Sullivan seu principal produtor e compositor. Ambos eram colegas de banda do tempo dos Fevers, grupo de Jovem Guarda, quando Sullivan era conhecido como Ivanilton.

O esquema denunciado por Alceu Valença consistia em enfraquecer os grandes artistas de MPB, submetendo a fórmulas comerciais, até colocá-los no ostracismo e, em contrapartida, fortalecer e proteger os ídolos bregas emergentes.

E, se antes Michael Sullivan queria destruir a MPB, sob a proteção das Organizações Globo, hoje ele tenta comprar o apoio de parte da MPB contemporânea, através de um tendencioso disco-tributo, intitulado Mais Forte Que o Tempo, para armar sua volta ao mercado, agora com a pose de "coitadinho" e a intenção de parecer o "bom moço da MPB", ou então o "Tom Jobim dos bregas".

Vale denunciar o esquema jabazeiro, que, ao lado da farra de concessões de rádio e TV de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, formatou toda uma suposta "cultura popular" que, independente de boa ou má-fé, é glorificada por intelectuais e seus simpatizantes, uns de maneira cínica e outros da forma mais ingênua possível.

Portanto, é um quadro que não requer relativismos. Perder o preconceito não é passar a aceitar tudo, sobretudo o que há de pior, mas avaliar e questionar as coisas. E mesmo episódios como o ECAD e o Procure Saber, que revelam posturas supostamente "elitistas" da MPB autêntica, só foi possível porque Michael Sullivan, sob as bênçãos de Roberto Marinho, quis jogar a MPB para escanteio.

Graças a ele, temos uma cultura pseudo-popular patrocinada por barões da mídia e latifundiários. Pouco importam os documentários, reportagens e monografias que "sociologizam" demais os "sucessos do povão", eles só seriam possível por causa do poder midiático, e não por uma suposta "vontade popular" que, desde a ditadura, sempre se adequou a interesses oligárquicos e coronelistas.

quinta-feira, 13 de março de 2014

É O EFEITO DA "CULTURA TRANSBRASILEIRA", UAI!!


Por Alexandre Figueiredo

Espanta que um texto publicado no blogue Farofafá, "A vitória de Dick Vigarista", apresente visões que contrariam frontalmente a proposta do mesmo espaço, questionando elementos que justamente fazem parte da chamada "cultura transbrasileira" defendida pela "prata da casa".

Escrito pelo historiador Sérgio J. Dias, autor do blogue Pele Negra, ele reclama que os valores culturais brasileiros tenham sido deixados de lado pelo Carnaval carioca, em prol de uma cultura estadunidense que supostamente estaria causando uma "revolução estética" na cultura brasileira em geral, e no Carnaval carioca em particular.

"Estavam lá os elementos da Corrida Maluca, The Flash e tantos outros a tomar o lugar do Palácio Monroe e do “verdadeiro” Maracanã, não por acaso demolidos. Qualquer turista estrangeiro se espanta com os signos agora adorados. Afinal, onde está o Brasil?", lamenta o historiador.

Ele descreve o processo de idiotização cultural apoiada por um falso discurso que promove a vitória de Dick Vigarista e Penélope Charmosa, que substitui Candeia por Michael Jackson e o Curupira pelo Homem Invisível.

Além disso, Sérgio também lamenta a tendência errônea de uma parte de historiadores em acusar a defesa de valores nacionais na cultura brasileira como uma imposição da ditadura varguista, como se o Brasil não passasse de um país fictício, uma "república de bananas" concebida pelos burocratas do Estado Novo.

Só que essa visão de idiotização cultural e a queixa contra as acusações de que a cultura nacional era um subproduto da ditadura de vargas - só faltava dizer que a Revolução de 1930 inventou Mário de Andrade, apesar dele batalhar pela cultura brasileira até mesmo antes da Semana de 1922 - são um recado direto justamente aos intelectuais "bacaninhas" que querem bregalizar o país.

A tese da cultura brasileira como subproduto do Estado Novo eu identifiquei até mesmo dos textos raivosos do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, um cara que escreve como Reinaldo Azevedo mas se passa por "intelectual progressista" para agradar seus colegas e sua esposa que deve ser admiradora de Lula e Dilma Rousseff.

Já a queixa da americanização da cultura brasileira vai frontalmente contra os interesses do próprio Pedro Alexandre Sanches, que só aceitou a publicação do texto para "polemizar", ou talvez por causa da reputação do historiador. Talvez para disfarçar qualquer aura neocon de Sanches, já abalado por ver o "funk ostentação" recebendo "beijinho no ombro" até da reacionária revista Veja.

Se não fosse dito por alguém com alguma visibilidade e prestígio, as queixas de Sérgio J. Dias seriam vistas como um "lastimável lamento elitista", como uma "patrulha cultural" contra a "saudável mundialização" de nossa cultura. Que problema tem, para a intelectualidade "bacana", que Candeia seja trocado pelo fantasma de Michael Jackson tocando cuica e dançando uns passinhos?

Se funqueiros, axézeiros e "pagodeiros" viajam demais para Miami, Nova York e Las Vegas, importando de lá "novidades admiráveis", a intelectualidade "bacana" sorri e aplaude. "Vejam só, estamos hiperconectados com o mundo"!

Dá até para imaginar Pedro Alexandre Sanches dizendo: "Somos Nova York, somos os guetos de Miami, somos Roma, Havana, Paris, Moscou, Berlim, Hollywood, tudo num só lugar e sem sair do território brasileiro", em tom comemorativo de nossa suposta integração ao mundo, com os subúrbios de Belém querendo imitar os guetos novaiorquinos.

Nota-se que Sérgio evitou falar de "funk", a reprodução do miami bass dos EUA e responsável por transformar o tributo a Ayrton Senna num desfile de ícones estrangeiros como The Flash, Corrida Maluca (The Wacky Races) e tantos outros em detrimento de um Palácio Monroe e um velho Maracanã de 1950 destruídos. Seria quebrar o protocolo incluir o próprio "funk" nisso tudo.

Sobre a tendência da indústria carnavalesca de adotar ícones da cultura estadunidense, Sérgio ainda acrescenta que ela é "tratada como inovadora pela mídia conservadora". Sim, mídia conservadora. Mas isso inclui também "progressistas" como Paulo César Araújo, cortejado pela Globo, Ronaldo Lemos, cortejado pela Folha, Estadão e Globo, e Pedro Alexandre Sanches, que veio da Folha.

Só mesmo uma pessoa com bom trânsito entre os ativistas sociais, como o professor Sérgio J. Dias - embora ele seja pouco conhecido do público comum - para dar uma queixa que, dada por pessoas de menos visibilidade, seriam tidas como "preconceituosas" e fruto de "patrulhas elitistas ressurgidas dos porões mofados de 1910".

quarta-feira, 12 de março de 2014

MICHAEL SULLIVAN E A CORRUPÇÃO NA MÚSICA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade "bacana" está em silêncio. A mesma intelectualidade que fez muito barulho com o caso do "Procure Saber", que, mesmo se autoproclamando "progressista", combate Chico Buarque e endeusa Waldick Soriano, não se pronunciou à recente denúncia do conceituado músico Alceu Valença, em entrevista divulgada uns dias atrás.

Alceu Valença denunciou o esquema de jabaculê da gravadora RCA em 1987, quando artistas contratados eram obrigados a abrir mão de seu estilo para gravarem canções comerciais nos moldes do pop mercantilista dos EUA.

Em troca de vantagens como hospedagem em hotéis cinco estrelas e concessão de apartamentos de luxo, os artistas eram obrigados a se "vender" para não serem jogados no ostracismo, porque o esquema já preparava ídolos bregas que tirariam os artistas de MPB do acesso ao grande público.

Esse é um claro e gravíssimo caso de corrupção. E, juntando as peças, nota-se que, em 1987, a RCA tinha como diretor artístico Miguel Plopschi e seu principal produtor e compositor, Michael Sullivan. Ambos eram do grupo de Jovem Guarda Os Fevers, que nos anos 70 embarcou na causa brega de fazer imitações baratas do pop comercial estadunidense.

Alceu não citou nomes, mas o esquema de jabaculê que ele denuncia corresponde exatamente ao comandado por Michael Sullivan, que hoje posa de "gênio injustiçado" e articulou uma campanha de "reabilitação" de si mesmo, cooptando artistas respeitáveis da MPB para gravar um tendencioso CD-tributo do compositor, lançado há alguns meses.

Segundo a denúncia de Alceu, os artistas eram obrigados a gravar canções cada vez mais comerciais para continuarem fazendo sucesso. Caso contrário, eram postos "na gaveta", jogados para o ostracismo. Alceu sentiu na pele as pressões que o esquema fez sobre o cantor, sendo obrigado a ceder a fórmulas comerciais em troca de vantagens e de divulgação fácil em rádios e TVs.

As fórmulas musicais incluíam mixagens que deixavam os arranjos ao mesmo tempo piegas e "grandiloquentes", com ênfase nos sintetizadores, e músicas de rimas pobres dessas que tentam rimar "sentido" com "perigo". A ênfase estava sobretudo na diluição do soul norte-americano ou na composição de falsos baiões e falsos sambas canções sem qualquer expressividade real.

Alguns artistas cooptados se submeteram ao esquema, outros tentaram sem sucesso ou recusaram de primeira. Alcione, Roupa Nova, Sandra de Sá e Raimundo Fagner foram os que aderiram ao esquema, fazendo coro aos ídolos mercadológicos apadrinhados por Sullivan, como Xuxa Meneghel e o cantor brega José Augusto, da geração do final dos anos 70.

Já outros artistas, como Fafá de Belém, Gal Costa, Tim Maia e Ney Matogrosso tentaram aderir, mas não obtiveram o sucesso esperado, tendo depois que largar o esquema. Já Alceu Valença e Chico Buarque se recusaram a se submeterem ao esquema, sabendo das armadilhas que estão por trás.

Embora a RCA e a Som Livre - Michael Sullivan teve o suporte das Organizações Globo, era um prazeroso serviçal dos barões da mídia - comandem o esquema, ele tentou se expandir para outras gravadoras, como a CBS e a PolyGram (hoje respectivamente Sony Music, que também abriga a antiga RCA, e Universal Music).

Simone, por exemplo, que já era submetida às regras comerciais da CBS, foi gravar uma música de Sullivan e Massadas e outra do "cliente" de Michael Sullivan, o citado José Augusto. Já a cantora Rosana Fiengo, uma esquecida artista de soul bastante talentosa dos anos 70, passou a estar vinculada ao universo brega apadrinhada por Michael Sullivan.

Rosana também era contratada pela CBS e recebeu dos produtores a versão em português de um obscuro sucesso comercial da cantora Jennifer Rush, "The Power of Love", que se transformou em "Como uma Deusa", considerada um dos maiores hits trash da década de 80.

Na PolyGram, a influência de Michael Sullivan se estendia, mesmo de forma indireta, na contratação de ídolos bregas como Wando e Chitãozinho & Xororó. Além disso, gravadoras então existentes como Copacabana e Continental reciclavam a breguice musical usando as "novidades" lançadas por Michael Sullivan.

PROCURE SABER

Para a intelectualidade "bacana" que acha Michael Sullivan o máximo, o "novo Tom Jobim" e o ícone da "moderna MPB", entre outros delírios ideológicos, é bom deixar claro sobre sua ligação com Roberto Carlos, não fosse o fato de estarem unidos na breve aventura da Jovem Guarda.

O mesmo Roberto Carlos que defende a censura em biografias não-oficiais e que, vegetariano, foi se passar por "carnívoro" do comercial do Friboi - da empresa JBS, cujo um dos donos é marido da jornalista da Band, Ticiana Villas-Boas - , sem dar uma única mordida na carne, também foi beneficiado pelo esquemão de Michael Sullivan.

Isso se deu sobretudo quando Michael Sullivan e Paulo Massadas se juntaram com Lincoln Olivetti e Robson Jorge (outros que empastelaram a MPB) para compor a música "Amor Perfeito" - a mesma que recentemente é tocada por ídolos como Bell Marques e Cláudia Leitte - e chamaram Roberto Carlos para gravar a música.

Além dessa música, Roberto Carlos gravou "Meu Ciúme", apenas de Sullivan e Massadas, que teve razoável execução nas rádios. E, assim como Michael Sullivan, tinha o suporte das Organizações Globo e se comprometia a promover o comercialismo na música brasileira. E Roberto Carlos tinha a visibilidade necessária para ampliar processos de bregalização musical por ele apoiados.

Juntando tudo isso à política de concessões de rádio e TV a políticos e oligarquias empresariais - inclusive várias ligadas ao latifúndio - , o esquema de Michael Sullivan e a visibilidade de Roberto Carlos sob a guarita da Rede Globo abriram caminho para a mais ampla bregalização da música brasileira, entregue ao mais escancarado comercialismo que sufoca nossa cultura.

Isso se tornou claro nos anos 90, quando, apoiando cenários políticos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso ou, em âmbito regional, apoiando "coronéis" como Antônio Carlos Magalhães, tendências como a axé-music (ancorada pela lambada), "sertanejo", "funk" e "pagode romântico" cresceram e se tornaram hegemônicos num quase monopólio sobre o gosto popular brasileiro.

O problema é que muitos desses ídolos beneficiados, como Raça Negra, Zezé di Camargo & Luciano, Grupo Molejo, Luiz Caldas, Banda Calypso e tantos outros, chegaram a fazer parte do dirigismo ideológico-cultural da intelectualidade "bacana", que diz que "ninguém é obrigado" a gostar desses ídolos, mas é obrigado a "aceitar e acabar gostando".

Esse é o esquema comandado por Michael Sullivan denunciado por Alceu Valença. E que representou a glamourização do mau gosto e a apologia à ignorância que transformaram a música brasileira numa sucessão crescente de ídolos medíocres. A intelectualidade "bacaninha" gosta, até porque está entrosada nesse esquema jabazeiro. Lamentavelmente.

terça-feira, 11 de março de 2014

O LIXO MATERIAL, CULTURAL E INTELECTUAL-MIDIÁTICO


Por Alexandre Figueiredo

No último fim de semana, os garis decidiram encerrar a greve de oito dias, depois que conquistaram, num acordo com a Prefeitura do Rio de Janeiro - que administra a Comlurb - um reajuste no salário-base de 37%, de  R$ 802,57 para R$ 1.100, acrescido de 40% de aumento no adicional de insalubridade.

A greve dos trabalhadores de coleta de lixo no Rio de Janeiro deixou a cidade bastante suja, em mais uma das pressões da sociedade contra os arbítrios do governo Eduardo Paes. Só neste ano a coisa foi muito pesada: pressões de sem-teto, de estudantes, de passageiros de ônibus e trem, e agora de garis. Nunca Eduardo Paes havia sentido tanta pressão popular contra ele e seus secretários.

Até mesmo o gari dançarino Renato Sorriso, que deixou a alegria de lado diante da situação dramática de seus colegas - que se expõem a sujeira e risco de doenças graves com precária remuneração - , se destacou numa manifestação cujo sentido real foi subestimado pela grande mídia.

Esta noticiou as cidades sujas como se fosse uma bronca da "zangada sociedade organizada". Como uma espécie de Rodrigo Constantino tomando as dores de Bóris Casoy - o jornalista da TV Bandeirantes que havia disparado comentários ofensivos aos garis - , o lixo limitou-se a ser visto como um subproduto da "corrupção política", que é o que eles definem a política que não é de seu partido.

Vagamente descrita como "fruto do descaso e da corrupção", motivos bastante vagos mas que atraem a "ira popular", a pregação direitista dos porta-vozes do baronato midiático não descreve os verdadeiros problemas que estão por trás dessas greves.

Eles apenas se limitam a defender a "sociedade" e o "povo" quando lhes é de sua conveniência, para derrubar políticos que não lhes agradam, sejam eles quem forem. Mas quando seus ídolos estão no poder, eles deixam o povo para lá, pouco importando o sofrimento que as classes populares são obrigadas a enfrentar.

LIXO CULTURAL

Enquanto isso, a folia carnavalesca também se encheu de lixo. O lixo cultural das músicas feitas só para durar um verão, da breguice escancarada que tentou se passar por "vanguarda" para fazer parte de uma suposta diversidade cultural que se mantém sob a pesada blindagem de uma intelectualidade que presta serviço freelancer para os barões da mídia.

E aí teve gente usando aquela camiseta do Grupo Molejo que satiriza a estética dos Ramones. Ou achando que dá para misturar New York Dolls com "beijinho no ombro". Tem até a ascensão do compositor-de-aluguel - espécie muito comum no mercado musical baiano - Felipe Escandurras, cujo sobrenome artístico bajula claramente o guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra, parceiro do arrocheiro Pablo e do grupo de "pagodão" Psirico.

O que um compositor de brega baiano tem a ver com o Ira!, grupo paulistano que em outros tempos tinha dificuldade de se popularizar até no Rio de Janeiro, é algo que não dá para entender. Mas o brega hoje está muito mais pretensioso e pedante. E há ainda muitos foliões "engraçadinhos" querendo ser levados a sério demais, contando piadas ou fazendo ironias das quais é proibido rir.

Enquanto isso, nos trios elétricos de Salvador, num canto de cisne da axé-music que precisa se realimentar com as reservas de mercado que possui em outras partes do país, como Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul para compensarem a decadência do cenário dentro da Bahia, em que só faltou o grito de "já vai tarde" para Bell Marques na sua saída da banda Chiclete Com Banana.

O próprio "funk" deixou de lado o eixo Rio-São Paulo - que diminuiu o espaço para as "musas" siliconadas - e passou a tomar emprestado a vitrine da axé-music baiana. Valesca Popozuda, MC Guimê e MC Gui, para comemorar o "beijinho no ombro" dos barões da mídia, foram se apresentar junto a nomes como Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Bell Marques e Psirico.

E isso quando o próprio "funk" encontra o "pagodão" como seu concorrente direto. Mas o "pagodão" no circuitão do Carnaval de Salvador só é representado por grupos "comportados" como Harmonia do Samba, Psirico e Parangolé, enquanto outros como Guig Guetto, Saiddy Bamba e similares, para não dizer grupos "proibidões" como Abrakadabra, vão fazer as festas nos bairros populares.

É o mesmo apelo pornográfico, e, por vezes criminoso, que unem funqueiros e "pagodeiros baianos". E que já rendeu reportagens escandalosas envolvendo New Hit, Black Style e Abrakadabra, vítimas de uma campanha antibaixaria comandada por uma deputada do PT, partido que, no âmbito paulista, mostra políticos condescendentes com as mesmas baixarias feitas pelos funqueiros.

A mediocrização tomou conta do Carnaval, a ponto de uma música entediante, "Lepo Lepo", do Psirico, que não traz o menor teor de empolgação, como também não traz o constrangedor "Beijinho no Ombro", de Valesca Popozuda. E a juventude arrogante querendo que a bregalização seja absoluta, porque é "mais divertido" e "libertário" (sic), às custas destes e outros ídolos da categoria.

Isso é o lixo cultural que glamouriza a pobreza, a ignorância, a imoralidade, mas enche de orgulho intelectuais "bacanas" de visão puramente etnocêntrica, apesar de aparentemente cordial. E a expressão "lixo cultural" ainda é vista com gracejos por "bacanas" como Eduardo Nunomura, para os quais o "mau gosto" é sinônimo de causa nobre.

Claro, não é Nunomura e seus coleguinhas que têm o barraco da favela atingido por um deslizamento de terra que destrói casas e mata quem estiver dentro. Não é ele e seus amiguinhos "tão legais" que dormem sob o sério risco de serem picados por mosquitos contaminados durante suas noites de sono nem são eles que andam pelas ruas sentindo o fedor do lixo acumulado nas ruas.

Para eles, até "mulher-fruta" dando peido nas caras dos críticos culturais é maravilhoso. Quanto mais a cultura brasileira estar entregue à imbecilização, melhor para eles. E, elitistas que "condenam" o elitismo, esses intelectuais "sem qualquer tipo de preconceito", mas muitíssimo preconceituosos, ainda riem dos problemas culturais do país. Pimenta na cultura do povo pobre é refresco.

O PARÁ NADA "PARÁ-DISÍACO" QUE A INTELLIGENTZIA IGNORA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade "bacaninha" é progressista? É claro que não. Intelectuais que, no jargão sindical, são "pequenos burgueses", que adotam um discurso neoliberal mas forçam seu vínculo obsessivo com as esquerdas, bajulando líderes progressistas e fazendo falsos ataques a "urubólogos" da grande mídia.

Só porque eles usam e abusam do termo "popular", promovendo uma "cultura transbrasileira", isso não significa que eles sejam realmente progressistas. Eles são tão conservadores quanto um Rodrigo Constantino, mas têm jogo de cintura suficiente para poderem tomar chope com os membros do Centro Barão de Itararé sem que isso signifique sérias brigas ou risco de pancadaria.

Para eles, a periferia é um "paraíso". Um misto de Disneylândia com o País das Maravilhas - Wonderland, para dizer em inglês - apenas composta de residências toscas, ruas mal asfaltadas, lixo e gente maltrapilha e muitas vezes desdentada que se comporta de um jeito patético e ignorante.

E tudo isso descrito pelo "ativismo de gabinete" de antropólogos, sociólogos, jornalistas culturais, cineastas e outros "bacanas" que acham o brega o máximo e que só a bregalização irá salvar a cultura popular de nosso país.

O Pará é o símbolo disso tudo. O Farofafá, muitas vezes, descreve o Pará como um "paraíso", ou melhor, um Pará-iso. O Pará dos sonhos de Pedro Alexandre Sanches é o pará feliz, alegre, animado e hiperconectado com o mundo. Um Pará supostamente criativo, inocente, agradável, urbano, cosmopolita e divertido, que faz intelectuais da Zona Sul de São Paulo ficarem maravilhados.

Mas esse é o Pará de fantasia. O Pará real não cabe nas linhas do Farofafá e de outras expressões da intelectualidade etnocêntrica metida a bacana. É o Pará do latifúndio, do coronelismo midiático, da pistolagem, das trovoadas, das enchentes, dos deslizamentos de terra, da miséria e do analfabetismo.

Neste ano houve várias tempestades no Norte do país. O Pará está dentro. Milhares de desabrigados, muito prejuízo no já precário comércio popular e também um sério prejuízo na agricultura, o que deixará famintas muitas das famílias que se alimentam do que colhem de suas plantações. Como se não bastassem a opressão do poder latifundiário, da mídia patronal e da ameaça da pistolagem.

O que a intelectualidade " bacaninha", cheia de coisas "legais" para nos contar, autoproclamada detentora de uma visão "mais objetiva" e "imparcial" das periferias, dirá dessa situação dramática causada pelas tempestades que atingem o Norte do país?

Será que teriam coragem de dizer que as enchentes que atingem o Norte do Brasil são fruto da admirável criatividade dos paraenses, que, hiperconectados com o mundo, são capazes de trazer a cultura de Veneza, cidade italiana famosa por ser tomada pelas águas?

Ou será que a intelectualidade vai recomendar para as vítimas das enchentes que cantassem alegremente a música "Firme e Forte", do Psirico - o arroz-de-festa da atualidade - , cuja letra aborda a glamourização da pobreza através dos temporais, porque isso é uma "forma mais bonita" da população pobre reagir, de forma "criativa", aos desastres sofridos pelas chuvas?

E isso quando as autoridades inauguram a Arena Amazônia, um dos principais estádios para a Copa do Mundo Fifa 2014, localizado em Manaus. As autoridades têm dinheiro para construir estádios, mas não se esforçam em projetos de cunho urbano, social e ecológico para prevenir os sofrimentos de tanta gente que perde tantas coisas e até entes queridos por causa das chuvas.

É esse Norte do país cruel e triste. Um Norte trágico. Um Pará nada "pará-disíaco", nada "pará-dionisíaco", de pessoas que perdem até os rádios e TVs que lhes veiculam a "admirável cultura transbrazileira" elogiada pelos intelectuais burgueses pseudo-progressistas de São Paulo.

Eles não entendem a tragédia do povo. E acham que estão sendo progressistas falando de um povo pobre idealizado e supostamente feliz com sua miséria.
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