segunda-feira, 31 de março de 2014

DITADURA MILITAR "DESENHOU" O PADRÃO DE INTELECTUALIDADE NO PAÍS

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - Paradigma do intelectual favorecido pela ditadura militar.

Por Alexandre Figueiredo

Nos últimos anos, surgem denúncias de que os cursos de pós-graduação nas universidades, sejam elas particulares ou públicas, e nos círculos intelectuais em geral, produzem trabalhos científicos e monográficos medíocres.

Eu mesmo senti na pele isso, já que os meios acadêmicos há muito tempo dão preferência a trabalhos meramente descritivos do que aqueles que pudessem analisar as diversas problemáticas existentes nos diversos fenômenos da vida humana no Brasil.

A situação é tão séria que, se fossem jovens e brasileiros hoje, pensadores como Noam Chomsky e Umberto Eco seriam barrados já nos primeiros portões entre o bacharelado e as inscrições para o mestrado.

Vamos fazer uma comparação. Um médico sanitarista quer estudar uma doença que anda dizimando a população de determinado lugar. Se fosse num meio acadêmico saudável, ele lançaria questionamentos, identificaria o vírus, verme ou inseto transmissor, e combateria a doença a partir de uma vacina desenvolvida a partir de uma combinação de substâncias.

Mas, se for pelo contexto acadêmico que se vive no Brasil nos últimos 45 anos, o médico não pode estudar a doença. No máximo, identificará os agentes transmissores da doença, descreverá todo o processo de doença e mortes, e depois relativizará, provavelmente se limitará a dizer que as vítimas não estavam preparadas para enfrentar as doenças. As vítimas, portanto, levam a culpa pela doença.

A geração de intelectuais que temos, de analistas neoliberais parcialmente reformistas - mas sem coragem plena para superar a pobreza e as desigualdades sociais - a cientistas com projetos inócuos, passando pela intelectualidade "bacana" que pouco está ligando para os problemas da cultura popular brasileira, se formou graças a um padrão ideológico vigente desde a ditadura militar.

Isso se deu há cerca de 45 anos. Veio o AI-5 e os últimos expurgos dos meios políticos e acadêmicos que ainda faziam oposição à ditadura militar entre 1964 e 1968. O higienismo sócio-político e cultural, depois do auge das manifestações oposicionistas entre 1967 e 1968, criou um ambiente "asséptico" que refletiu nas classes acadêmicas que passaram a dominar o cenário do "milagre brasileiro".

E se o ideólogo neoliberal Roberto Campos tinha a imagem "queimada" - sobretudo pelo movimento estudantil que, numa alusão de que Campos era capitalista ferrenho, lhe deu o apelido pejorativo de Bob Fields - , verbas da Fundação Ford, a serviço da CIA, propiciaram a ascensão de um intelectual que modernizou as ideias de Campos num contexto supostamente progressista.

Sim, estamos falando de Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde exerceu dois mandatos como Presidente da República e tornou-se o principal paradigma de intelectual no país. Um dos fundadores do PSDB, a ele se cercam barões midiáticos, empresários entreguistas, tecnocratas e uma linhagem de pensamento que vigora até hoje nos círculos intelectuais contemporâneos.

Fernando Henrique Cardoso só discordava da política de "poder duro" determinada pela ditadura militar. Mas ele acabou modernizando as teorias neoliberais de Campos num contexto de "poder suave" (a nova estratégia neoliberal, que vale até hoje) que propõe um desenvolvimento subordinado do Brasil sem que se apelasse para a violência política então adotada pela ditadura.

Graças à influência de FHC na USP, exterminou-se a reflexão crítica dos meios acadêmicos. Criou-se um estigma equivocado, mas dominante, de que contestar o "estabelecido" é "menos científico", e que refletir de forma questionadora os problemas cotidianos é um manifesto de "opinião" e não de "abordagem científica".

Parece ridículo, mas é isso que acontece. O problema acontece, mas você não pode contestar. Se contestar, está emitindo uma "opinião", e não uma "abordagem científica". "Científico" ficou associado ao processo meramente descritivo dos problemas cotidianos, muitos deles nem vistos como problemas, mas como "fenomenologias" que só devem ser identificadas.

O trabalho monográfico passou a ser contaminado por um mito de "imparcialidade" comparável ao da imprensa conservadora, um mito que durante muito tempo era atraente e visto com aparente unanimidade. O acadêmico, tal como o jornalista, não poderia tomar uma posição, seu trabalho era neutro, como um observador de um problema que ele era proibido de resolver.

O que está por trás desse padrão de intelectualidade, que gerou uma geração recente de intelectuais "bacanas", que defendem a bregalização da cultura popular e jogam no lixo qualquer questionamento sobre desnacionalização, mediocrização e imbecilização cultural, é não só a herança da ditadura militar, mas também a do pensamento neoliberal e dos investimentos estrangeiros.

HERANÇA DA DITADURA, DE FHC E ATÉ DE GEORGE SOROS!!

Intelectuais que tentam parecer "progressistas", como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna - com a ressalva de que este último assume seu vínculo com os barões da mídia e sua herança acadêmica de FHC - são na verdade herdeiros de uma linha de pensamento tramada nos bastidores da ditadura civil-militar após o AI-5.

Não se podia torturar todos os brasileiros. Tinha-se que criar um padrão de cultura, de pensamento acadêmico, de assistencialismo sócio-econômico e educacional, para que, dentro das estruturas do poder dominante, resolver os problemas sociais para minimizar as inquietações da sociedade com a situação cotidiana lastimável.

Veio o Mobral para alfabetizar os brasileiros sem que represente um risco de, com um povo educado, ameaçar o poderio dominante. O coronelismo radiofônico veio impor a música brega para o gosto popular, e toda uma mídia da época passou a trabalhar uma imagem caricata do "popular" que nem as chanchadas teriam coragem de fazer.

Para completar o trabalho, criou-se uma intelectualidade cujo método de pensamento apostava numa "problemática" sem problemas, num "debate" que não debatia, num "pensamento reflexivo" que não refletia coisa alguma, numa "provocação" que nada provoca etc. Uma intelectualidade que desperdiçava o domínio do processo de pesquisa e questionamento para reafirmar o "estabelecido".

E isso contagia até pessoas consideradas experientes. O sociólogo Milton Moura, da Universidade Federal da Bahia, escreveu uma verdadeira BOBAGEM intitulada "Esses pagodes impertinentes...", no periódico Textos, da UFBA, em 1996, coisa que nem os delírios engraçadinhos de um André Forastieri seriam capazes de despejar na imprensa.

Mas Moura se beneficiou de sua visibilidade e seu status acadêmico, defendendo a imbecilização cultural puxada pelo É O Tchan, e antecipando toda uma blindagem intelectual que, anos mais tarde, transformaria inócuos e tolos funqueiros em pseudo-vanguarda e falsos ativistas sociais.

Na ciência, então, a ênfase está muito mais em coisas inofensivas, como analisar a influência da música no desempenho de atletas olímpicos. Temos grandes cientistas, mas os investimentos priorizam trabalhos inócuos, e os grandes feitos científicos acabam "morrendo" por causa da burocracia e de outros interesses político-econômicos.

E isso criou toda uma tradição castradora do pensamento humano. Enquanto lá fora há grandes intelectuais que não temem fazer questionamentos aprofundados mesmo com verbas estatais, aqui o que se vê são "pesquisadores" e "pensadores" escrevendo bobagens ou pesquisando paliativos.

E seu pessoal ainda se caba em estar contribuindo para o progresso de nosso país. Mas, felizmente, não é preciso um diploma de pós-graduação para percebermos que toda essa intelectualidade é herdeira da ditadura militar, do neoliberalismo de FHC e até mesmo das verbas enviadas pelo astuto especulador financeiro George Soros, o "domador de feras esquerdistas".

domingo, 30 de março de 2014

RACHEL SHEHERAZADE E SBT PODEM RESPONDER CRIMINALMENTE POR INCITAÇÃO À VIOLÊNCIA


Por Alexandre Figueiredo

A Procuradoria Geral da República aceitou na última quinta-feira (27) a representação feita pela deputada federal Jandira Feghali (PC do B - RJ) contra a jornalista e apresentadora do SBT Brasil, Rachel Sheherazade.

A representação pede para que Rachel seja investigada, alegando que a âncora do SBT fez comentários que indicam incitação à violência por fazer apologia à tortura e ao linchamento. O comentário, feito há um mês, causou repercussão negativa até em setores conservadores da sociedade, em que pese o apoio que Rachel tem recebido de seus adeptos.

O comentário foi feito no dia 04, em relação à prisão e tortura de um adolescente acusado de fazer pequenos roubos. O jovem foi preso e amarrado, nu, a um poste no Aterro do Flamengo, amarrado pelo pescoço, enquanto era espancado por um grupo de "justiceiros". Só foi liberado depois que chegaram os bombeiros que foram chamados por uma moradora.

Misturando ironia e raiva, Rachel parecia satisfeita com a punição ao jovem bandido. Depois, comparando o rapaz com as "travessuras" de Justin Bieber, Rachel fez comentários mais condescendentes com o astro pop.

Quanto ao comentário sobre o jovem pobre, Rachel disse nos seguintes termos alarmistas dignos de uma Sarah Palin, a líder do reacionário Tea Party, nos EUA:

"O marginalzinho amarrado ao poste era tão inocente que, ao invés de prestar queixa contra seus agressores, preferiu fugir antes que ele mesmo acabasse preso. É que a ficha do sujeito está mais suja do que pau de galinheiro.

No país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes, que arquiva mais de 80% de inquéritos de homicídio e sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível. O Estado é omisso, a polícia é desmoralizada, a Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, é claro.

O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite. E, aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lanço uma campanha: faça um favor ao Brasil, adote um bandido".

Ainda em fevereiro, outro deputado federal, Ivan Valente (PSOL - SP), entrou com uma representação no Ministério Público Federal uma representação contra Rachel e o SBT, com um objetivo semelhante ao da representação movida por Jandira. Para Ivan, o direito de liberdade de imprensa não pode ser usado como pretexto para mandar fazer "justiça com as próprias mãos".

Jandira também propôs à Secretaria de Comunicação da Presidência da República que determine a suspensão de repasse de verbas oficiais ao SBT durante a investigação da Procuradoria. Em outras palavras, isso significa o corte na veiculação de propaganda governamental na emissora. Jandira também propôs que seja avaliada a concessão do SBT, de propriedade do apresentador Sílvio Santos.

Caso Rachel seja condenada, ela terá que cumprir de três a seis meses de detenção ou pagar uma multa. Rachel, no entanto, declarou não ter se arrependido dos comentários feitos e disse que as representações são uma forma de "intimidar" seu "direito de opinião". Seus adeptos também alegam que os dois recursos no Judiciário são uma forma de censurar a apresentadora.

sábado, 29 de março de 2014

1964 E AS UTOPIAS INTELECTUAIS DE ANTES E DE HOJE

HÁ QUEM ACREDITE QUE AS FAVELAS SÃO POR SI SÓ "SOCIALISTAS"...

Por Alexandre Figueiredo

Intelectualidade "bacana". Intelectualidade "sem preconceitos". Intelectualidade "anti-elitista". Mas intelectualidade preconceituosa à sua maneira, elitista em seu jeito, nada bacana por adotar uma postura paternalista para a cultura popular, e intelectualidade medrosa incapaz de assumir posturas ideológicas firmes.

A intelectualidade que quer a bregalização do país adota posturas muito mais ingênuas do que a intelectualidade que se reunia nos salões do ISEB e dos CPCs da UNE e nos cineclubes que fomentavam as ideias para serem aplicadas nas produções do Cinema Novo. Evidentemente, a intelectualidade de 1964 teve sua ingenuidade, mas a de hoje chega a ir longe demais.

Em 1964 se acreditava que a revolução socialista brasileira se daria com o apoio da burguesia nacional, numa aliança que se acreditava fácil com o Estado trabalhista e com o Partido Comunista Brasileiro, que mal havia tranferido o nome "Partido Comunista do Brasil" para o maoísta PC do B.

Os intelectuais de então sonhavam que bastasse transformar as canções folclóricas em panfletos comunistas para que as classes populares pudessem implantar a revolução socialista no Brasil. Havia também a glamourização da pobreza, mas não a das favelas, mas a do agreste nordestino. Mas, por incrível que pareça, as utopias de 1961-1964 eram muito menos confusas que as de hoje.

A glamourização da pobreza e do subdesenvolvimento, que transformava a condição de Terceiro Mundo (quando havia o Primeiro Mundo capitalista e o Segundo, comunista) em orgulho brasileiro, numa espécie de "complexo de vira-lata" transformado em causa militante.

Eram outros tempos, outros sonhos, que se tornaram impotentes. A burguesia nacional se aliou à burguesia entreguista nos salões do IPES-IBAD, defendendo depois a derrubada de João Goulart e a instalação da ditadura militar. Ela deixou os intelectuais da época na mão, preferindo se vincular aos interesses capitalistas dos EUA e seus representantes e clientes brasileiros.

E a utopia de hoje? Ela é muito mais confusa. A intelectualidade cultural dominante de hoje, que acredita num Brasil brega e vulgar, pensa a cultura popular com sotaque neolibelês bastante carregado, mas jura que está defendendo uma abordagem "socialista" e "revolucionária".

Tentam inverter as coisas, como no caso do machismo do "funk", que seus ideólogos - e sobretudo suas ideólogas - definem como "feminismo", e defendem ídolos, cantores e conjuntos que eram aliados da ditadura militar ou, se eram censurados, não era por qualquer letra revolucionária, mas tão somente por letras sobre sexo que não são tabu sequer nas reuniões da Opus Dei.

Fazem uma glamourização da pobreza ainda mais radical, se orgulhando de um neosubdesenvolvimento que acreditam se resolverem facilmente com as verbas do Ministério da Cultura e com a informatização plena e dotada de novas mídias digitais. Como se mais dinheiro e mais eletrônica melhorassem em si a vida das classes populares.

Não conseguem mais explicar se são contra ou a favor da mídia. Os intelectuais pró-brega preferem o fogo amigo de falar mal dos astros da mídia reacionária, enquanto evitam polemizar com intelectuais realmente progressistas. Esculhambam um Marcelo Madureira que poderia lhes socorrer num momento de agonia, mas elogiam um Emir Sader com o qual poderiam ter divergências violentas.

Se a intelectualidade cultural de 1961-1964 era um tanto ingênua e sonhadora, e de certo modo impotente e imprevidente, a intelectualidade cultural de hoje é esquizofrênica, confusa, medrosa, que não assume seu conservadorismo pró-brega, pró-mercantilista e pró-ditadura midiática.

Disfarçam seu neolibelês com a falsa postura de "progressistas" só porque se apoiam no rótulo "popular" numa abordagem, em tese, "positiva". Seu esquerdismo oco e falso chega a ser bem menos convicto do que o dos antigos pensadores de 1964.

Os intelectuais de 1964 mal conseguiam ler os livros de Karl Marx. Mal conseguiam debater projetos socialistas sem adaptar à realidade brasileira ideias relacionadas à Revolução Cubana e a Revolução Russa, pois mal conseguiam discutir questões como a mais-valia e a Reforma Agrária.

Os de hoje, pior ainda. Endeusam o "livre-mercado", querem que o socialismo do Brasil tenha uma aura de Brooklyn, bairro pobre de Nova York, nas casas pobres de Belém, de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo etc. Veem as favelas como "Disneylândias" paradisíacas cercadas de lixo, casas mal construídas, esgoto e outras degradações, a apostam nessa visão como base para seu idealismo tosco.

Eles seguem Francis Fukuyama pensando que estão segundo Emiliano Zapata e Ernesto Che Guevara. Acham que qualidade de vida é só derramar dinheiro nas periferias, sem que seja feita qualquer transformação real na vida das pessoas. Acham que socialismo é ter mais consumo e menos cidadania, algo que tem mais a ver com o neoliberalismo mais radicalmente direitista.

Por isso estamos à mercê de mais uma crise. No passado, os intelectuais esquerdistas mais ingênuos se desiludiram tanto que vários deles passaram para a direita ideológica, como Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar e José Serra.

No presente, o que vemos é a intelectualidade "bacana" transtornada, sem poder explicar por que os funqueiros, numa manobra similar à da burguesia nacional de 1964, preferiu se aliar à mídia direitista apunhalando as esquerdas médias pelas costas. E não conseguem explicar por que o projeto de um Brasil mais brega não assusta em um só segundo sequer os barões da grande mídia.

Por isso, mais uma vez, um sinal de alerta. Quem serão os neocons de amanhã? De que se servirão os intelectuais "bacanas" de hoje nos próximos anos? Eles preferirão morrer de fome lutando por um socialismo que no fundo não acreditam ou seguirão a rota de desilusões que Jabor, Gullar, Serra e os Marcelo Madureira, Sônia Francine e Lobão que vieram na frente?

O futuro não é uma fotocópia do presente. A confusão intelectual de hoje é perigosa, porque, no âmbito das transformações sociais, poderá revelar um conservadorismo latente como a lava de um vulcão adormecido prestes a explodir.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A VOLTA CONFUSA E DATADA DA RÁDIO CIDADE 102,9 MHZ, DO RJ

OUTDOOR DA RÁDIO CIDADE, DO RJ - Rebeldia estereotipada, caricata e infantilizada.

Por Alexandre Figueiredo

"O que é bom é para sempre", diz o lema publicitário da Rádio Cidade, antiga emissora FM do Rio de Janeiro que inovou sua linguagem nos anos 70, mas que adotou posturas esquizofrênicas de 1985 até hoje, incluindo mudanças de nome e de formatos que enfraqueceram completamente a emissora.

No atual contexto do rádio FM brasileiro, em que esquemas de jabaculê não-musical e envolvendo sobretudo programações esportivas são denunciados na Bahia, FMs em geral perdem audiência por causa da Internet e colunas e portais de rádio vivem do autismo, do corporativismo e do culto aos "números mortos" do Ibope, a Cidade teve uma volta confusa e bastante complicada.

A Rádio Cidade surgiu sinceramente e assumidamente pop. Foi em 01 de maio de 1977, quando a emissora ancorava seu repertório musical na disco music, no pop romântico, na MPB mais jovem e apenas em sucessos do rock mais brandos, acessíveis e com penetração no público não-roqueiro.

Mas, de repente, a partir dos anos 80, a Rádio Cidade passou a ter uma obsessão pelo rock que nunca foi sua competência. Foram ao todo quatro tentativas, sendo a última a adotada desde 10 de março último, quando a rádio recuperou o nome oito anos depois de usar os nomes OI FM e Jovem Pan 2.

Se a Rádio Cidade cometeu gafes e outras coisas lamentáveis na abordagem do rock, no fundo sentindo uma dor de cotovelo por não ter tido o carisma duradouro da antiga Rádio Fluminense FM - que ensaiou uma volta melhorada aos moldes da programação de 1991-1994 em frequência AM, esperando um novo prefixo para se alojar em FM - , a volta recente ainda ficou mais esquisita ainda.

A emissora, através do programa "Cidade do Rock", tenta fazer uma retrospectiva parcial de sua história chamando locutores diversos para participarem do programa, dando depoimentos e entrevistas. Até Fernando Mansur, um dos pioneiros e atualmente na MPB FM, foi chamado.

Ficou muito estranho. A Rádio Cidade, posando de roqueira, e revendo sua história naquilo que lhe interessa transmitir, tentando nos fazer esquecer que a emissora foi a primeira a divulgar o pop dançante no rádio do Rio de Janeiro, sendo uma das maiores divulgadoras da disco music do rádio brasileiro. Boa parte da popularidade de Earth Wind & Fire e Donna Summer se deve à Cidade FM.

"RÁDIOS ROCK" OU "RÁDIOS ROCK IN RIO"?

A Rádio Cidade aparece hoje num contexto diferente ao de 1995, quando tentou "definitivamente" se passar por "roqueira", depois da tímida experiência de 1985-1989 que serviu de "laboratório" para a 89 FM de São Paulo.

Afinal, a 89 e a Cidade encontram um contexto em que o poder midiático brasileiro não tem a força de outrora, as pessoas preferem a Internet do que o provincianismo da TV aberta, do rádio FM e da imprensa escrita brasileiros e a cultura rock há muito tempo deixou de depender das FMs brasileiras para se expressar no país.

A 89 FM regressou com muito alarde, elogios exagerados e surreais e uma "pequena ajuda" do baronato midiático e de uma TV Cultura "tucanizada". Mas encontrou um público roqueiro que há muito se afastou da emissora e que prefere se manter nas suas coleções de CDs e de arquivos MP3, já que não aceitariam ouvir só o hit-parade "roqueiro" tocado pela emissora.

A Rádio Cidade teve repercussão ainda mais fraca. Como a 89, virou uma "rádio rock" ouvida por não-roqueiros, e se reduziu a ser mera alimentadora de eventos de artistas internacionais promovidos pela indústria do entretenimento ancorada pela empresa Artplan, do empresário Roberto Medina.

Ou seja, a razão de ser da Rádio Cidade e da 89 FM nem é pela sua reputação na cultura rock, que se revela baixíssima, devido às duras críticas recebidas pelas emissoras nos últimos 15 anos e que as fizeram suspender a programação "roqueira" durante muito tempo, mas pelo fato de seus donos serem aliados e parceiros mais confiáveis para os interesses de Roberto Medina e seus asseclas.

Já existem comentários que revelam que o rótulo "rádio rock" adotado pela 89 e pela Cidade (esta de maneira menos explícita) não passa de uma elipse, recurso gramatical que oculta termos que são entendidos implicitamente pelo contexto. Neste sentido, as rádios na verdade deveriam ser definidas como "rádios Rock In Rio".

ROQUEIROS ESTEREOTIPADOS E ALTERNATIVOS TOCADOS PARA AS "PAREDES"

O que se observa nas campanhas publicitárias da Rádio Cidade é a exploração de uma imagem caricata, estereotipada e até infantilizada do roqueiro, sobretudo a partir de um anúncio que diz que um hipotético publicitário de 29 anos se transformou numa criancinha fantasiada de "roqueiro rebelde".

Houve também "roqueiros" cheios de tatuagem, botando língua para fora ou fazendo o sinal do demônio com a mão, dentro daquela "rebeldia" que agrada muito "titio" Medina. Toda essa rebeldia de fachada que transforma a imagem do roqueiro num completo idiota.

O repertório musical foi aliás o aspecto mais fraco notado pela Rádio Cidade, que preferiu se projetar como uma rádio "de locutores". Até o ex-casal Vanessa Riche e Alex Escobar - apresentador do Globo Esporte, da Rede Globo, que se lançou no Rock Bola da Cidade - apareceu para darem depoimentos. A ex-locutora da rádio, Monika Venerabile, teve destacada presença como convidada especial.

Supostamente ancorado no "rock em geral", a exemplo da 89 FM paulista, a Rádio Cidade não foi além do rock convencional e na divulgação parcial e superficial de bandas consagradas ou alternativas que, na prática, eram tocadas para "as paredes", já que não fazem parte da preferência de seu público, cujo gosto não vai muito além de nomes como Offspring, Charlie Brown Jr. e Guns N'Roses.

Numa observação mais cautelosa, mesmo a divulgação de bandas novas não é incondicional, mas feita mediante alguma conveniência. Nomes como Arcade Fire, Imagine Dragons, Black Keys e Panic At The Disco, para não dizer Strokes e Franz Ferdinand, só são tocados porque aparecerão em algum festival de música realizado no Brasil. Não fosse isso, nem fazendo simpatias ou rezando novenas.

Há também que observar certos contextos. Por que será, por exemplo, que a Cidade, pouco afeita ao blues, passou a dar espaço para a carreira musical do ator inglês Hugh Laurie? Ora, não é preciso muito: ele tornou-se popular pelo público juvenil através do famoso personagem mal-humorado que protagonizava o extinto seriado House. Não fosse isso, nem com prantos.

Para agravar, se entre 1995 e 2006 - quando a Rádio Cidade se passou por "roqueira" por duas etapas, uma sozinha, até 2000, e outra, a partir de então, como afiliada da 89 FM - a emissora praticamente estava sozinha na sua reserva de mercado, a ponto de esnobar as tentativas de concorrência da Rocknet (apenas rádio digital, restrita à Internet) e da Fluminense AM, hoje enfrenta concorrência.

A Kiss FM, rádio paulistana cujo dono pretende ressuscitar a TV Excelsior, mesmo com todos os senões de tocar o chamado "metal farofa" (Bon Jovi, Guns N'Roses, Mötley Crüe, Poison e similares) e por vezes botar vinhetas e locução em cima das músicas, oferece um diferencial de tocar também bandas e artistas solo seminais da história do rock, em se limitar aos hits básicos.

Há também a concorrência da Fluminense AM, dentro do projeto Maldita 3.0 de Alessandro ALR, que busca ampliar e aperfeiçoar o desempenho que a Fluminense FM teve entre 1991 e 1994, sem os defeitos que depois caraterizariam a Rádio Cidade, acrescido de uma criatividade adotada pela Fluminense AM em 2001-2002 e da rádio digital do Grupo Fluminense, a Maldita FM.

Com isso, a Rádio Cidade sai enfraquecida. Ela está datada, ineficiente e antiquada para o âmbito da cultura rock hoje em dia. Ela fica soando mais a Mix FM de São Paulo - quando ela não tinha afiliada no Rio de Janeiro - , que começou com repertório "roqueiro" mas com linguagem pop mais escancarada.

Sem usar a palavra "rock" no logotipo, a Cidade parece estar preparada quando um dia tiver que assumir o pop de vez. Das três que, em tese, exploram o rock no rádio, a Cidade é a que não tem personalidade ideal para rádio de rock e é a com mais baixa reputação entre o público roqueiro autêntico.

Sem falar que ela perde não só para a Kiss e a Flu AM, mas para MP3 e coleções pessoais de CD dos verdadeiros roqueiros, que não se contentam em ouvir uns poucos hits de suas bandas tocados por FMs oportunistas.

quinta-feira, 27 de março de 2014

TRIBUTOS À MPB: RÉQUIEM OU LIÇÃO PARA NOVAS GERAÇÕES?


Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, uma conhecida marca de cosméticos promoveu o evento gratuito "Viva o Samba", com a participação dos cantores Roberta Sá, Diogo Nogueira, Alcione e Martinho da Vila, cantando um variado repertório de sambas de diversas épocas, além de vários sucessos do repertório gravado pelos respectivos cantores.

A ideia é bem intencionada, mas a tendência da MPB autêntica praticamente se resumir, hoje em dia, a eventos de homenagens, sobretudo com a participação de Caetano Veloso e Gilberto Gil, causam uma preocupação enorme, porque algo estranho parece pairar no ar.

Homenagens são feitas para celebrar o passado, são rituais que evocam, por alguns instantes, geralmente algumas horas, aquilo que já se foi e não existe mais. E isso é que faz dar calafrios quando existem eventos de homenagens à MPB: a MPB já era?

Para piorar, a mania de homenagens contagiou até mesmo a chamada "MPB de mentirinha" dos ídolos neo-bregas dos anos 90 e seus derivados. Eles também gravam DVDs de auto-homenagens, com cantores duetando em DVDs de outros, com Neymar fazendo embaixadinha, Sabrina Sato desafinando na sua voz de taquara rachada, Xuxa saudando os "baixinhos" etc etc.

Se a pseudo-MPB de bregas arrumadinhos já não produz material inédito e vive de auto-tributos e seus seguidores, depois de uns pálidos sucessos "autorais" e inéditos (apesar de medíocres), passam a viver de DVDs ao vivo, uns iguais aos outros, imagine então a MPB autêntica que a contragosto se distanciou do diálogo direto com as classes populares?

SAMBA "BOSSIFICOU-SE"

O que se preocupa é que os nordestinos perderam a sua cultura própria. Salvo raras exceções, o nordestino comum não pode mais fazer seus baiões, xaxados, maracatus, que viraram "patrimônio" de "especialistas" universitários do Sul do país (diga-se Sul do país, abaixo de São Paulo, pois o catarineta que escreve este texto sabe da diferença existente entre Sul e Sudeste).

Sim, o que Luiz Gonzaga fazia com sua própria intuição de humilde nordestino, vivido na sua própria realidade, hoje corresponde tão somente a inclinações "populares" de universitários de classe média alta de Curitiba, Porto Alegre e similares.

Enquanto isso, ser "nordestino" hoje é juntar um amontoado de referências externas, estética de piratas de Hollywood, de cabaré do Texas, e um engodo musical que mistura country music, disco music, ritmos caribenhos e que nem o som da sanfona é nordestino, mas "importado" do Rio Grande do Sul, quase na fronteira com a Argentina.

A música caipira é sufocada por "modernas" manifestações de jovens imitando caubóis estadunidenses e com o povo moldando "sua cultura" através de rádios e TVs controladas pelo latifúndio local. Musicalmente, surgem expressões confusas que misturam country com boleros e mariachis que apenas tardiamente tentam emular tendenciosamente das velhas serestas ao Clube da Esquina.

E o samba? Considerado patrimônio cultural pelo IPHAN, ele também corre o risco de perecer e cair no esquecimento. Os velhos sambas criados nos morros, nas favelas, hoje praticamente se tornaram um patrimônio "Zona Sul", como se hoje o samba de raiz fosse tão elitista quanto a Bossa Nova acusada de deturpar o samba brasileiro.

Mesmo sambistas surgidos nos subúrbios cariocas, como Martinho da Vila e Paulinho da Viola, remanescentes e testemunhas de um tempo em que se fazia samba até com caixas de fósforos em mesas de bar, hoje mais parecem ídolos de um público elitista, de socialites, profissionais liberais e universitários de "boas famílias", sendo "estrangeiros" para a gente de suas terras.

O samba hoje só "empolga" as populações dos subúrbios - não só cariocas, niteroienses ou da Baixada, mas paulistanos, belzontinos, florianopolitanos, soteropolitanos etc - nas formas diluídas e caricatas de grupos de "pagode romântico" que, num contexto brega, diluem a soul music norte-americana com instrumentos de samba ou fazem imitações frouxas dos grandes sambistas da moda.

A situação é tão grave que, se antigamente os antigos seresteiros visitavam os morros para "comprar" sambas de compositores locais e trai-los omitindo sua autoria, hoje os "pagodeiros românticos" gravam covers de sambas antigos e arrumam arranjadores para embelezar suas músicas, com os cantores recebendo crédito de co-autoria nos arranjos que eles em nada fizeram.

A música brasileira de qualidade está distante das classes populares. Pior: se trata da música que as próprias classes populares faziam, e que só está acessível a elas quando seus ídolos deturpadores ficam ricos e "aprendem" das elites como fazer uma "musica brasileira de verdade".

É por isso que se vê os tributos à MPB autêntica mais com apreensão do que com admiração. O próprio mercado e a mídia dominante que temos prefere mais a "simplificação" do brega e de suas "linhas de montagem" que permitem fazer uma pseudo-MPB mais asséptica, inodora, insípida mas "digestível".

A não ser que as novas gerações decidam romper com a breguice e extraiam novas lições dos tributos da MPB autêntica para produzirem a cultura musical do futuro, esses tributos soam mais como um réquiem que o lobby de intelectuais, empresários e barões da mídia lançam para, como querem eles, jogar uma pá de cal sobre a MPB de verdade que desejam ver longe do "povão".

quarta-feira, 26 de março de 2014

TRANSAMÉRICA FM E SEU HUMOR ANTIQUADO E OFENSIVO


Por Alexandre Figueiredo

A decadente Rede Transamérica FM, de propriedade de um banqueiro, que no entanto passou boa parte da participação acionária para o "bispo" Edir Macedo, não conseguiu resistir aos tempos e hoje é apenas um fóssil radiofônico sem valor.

Para piorar, a emissora paulista, cabeça de sua rede de rádios, e seu humor antiquado e grotesco - espécie de Pânico da Pan com bolor - veio com uma peça bastante ofensiva, uma paródia do comercial institucional do Metrô de São Paulo, que diz que metrô lotado é "bom para xavecar".

"Nos horários de pico, é normal trem e Metrô ficar lotado. É assim também nas grandes metrópoles espalhadas pelo mundo. Pra falar a verdade, até gosto do trem lotado, é bom pra xavecar a mulherada, né, mano? Foi assim que eu conheci a Giscreuza. Muito já foi feito e o governo sabe que ainda tem muito pra fazer. Governo do Estado de São Paulo", diz um locutor, imitando a voz de um homem pobre estereotipado, chamado "Gavião".

O comercial foi veiculado numa época em que houve o aumento do número de denúncias de abusos sexuais cometidos dentro dos metrôs paulistanos, e causou péssima repercussão. Advertida, a Transamérica retirou o comercial e disse que "não aprovava o conteúdo da campanha". Apesar de local, o comercial repercutiu em todo o país, com a ajuda da Internet.

No entanto, a empresa Metrô de São Paulo, junto com a agência responsável por suas campanhas institucionais, diz que pretende processar a Rádio Transamérica pelo fato de que não foram informados previamente sobre a veiculação da campanha nem que qualquer autorização fosse feita para pôr no ar esse comercial.

A Transamérica FM perdeu muitos ouvintes em todo o país. A maior parte de suas afiliadas, sobretudo em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, já amargaram sérias crises de audiência, com longos períodos de baixos pontos do Ibope.

Seu formato de rádio jovem pereceu e a emissora teve a pior ideia de adotar o "Aemão de FM" - com ênfase nas transmissões esportivas e no radiojornalismo de cunho conservador - , o que derrubou ainda mais a audiência.

Ultimamente a Transamérica pauta sua programação nas transações (olha o trocadilho) com DJs de casas noturnas e dirigentes esportivos. Há denúncias de que a Transamérica estaria "comprando" audiência em estabelecimentos comerciais - de papelarias e livrarias até lojas de material de construção - e sindicatos para "anabolizar o Ibope" e mascarar a decadência.

O episódio de um comercial machista e que sutilmente incita ao abuso sexual só agravou ainda mais as coisas. A Transamérica, velha e mofada, entre uma FM jovem demodê e um "Aemão" cansativo e entediante, não consegue sequer acompanhar as transformações do país - sobretudo as conquistas das mulheres na luta por dignidade -, às quais não cabe investir em humorismo tão grotesco.

Os ouvintes não curtem mais essa "transa", não. E não adianta maquiar o Ibope com a sintonia alugada de estabelecimentos comerciais e algumas entidades profissionais.

terça-feira, 25 de março de 2014

"CENTRÃO" NEOCON?


Por Alexandre Figueiredo

De repente, virou moda dizer que as questões envolvendo esquerda e direita no Brasil estão ultrapassadas. Não que isso não tenha seu sentido de verdade, mas nota-se um certo gosto de oportunismo por trás dessa onda toda.

Há certos modismos no dito establishment da "opinião pública" oficial. Durante a Era Collor, a intelectualidade mais influente apostava no neoliberal Fernando Henrique Cardoso, antigo discípulo "moderado" do filósofo Max Weber, como a salvação do Brasil.

Pouco depois, a mesma intelectualidade, com a eleição de Lula para a Presidência da República, passou a se autoproclamar "socialista", em parte, pois a outra passou a se dedicar mais ao Instituto Millenium, na busca do tucanato fracassado.

Era a onda dos pseudo-esquerdistas, em que analfabetos políticos que, no âmbito cultural, querem a bregalização do país, se achavam "marxistas" apenas porque sentiam simpatia pelo presidente Lula. E tornaram-se parasitas de todo o aparelho estatal por causa de motivos que variam do corporativismo sindical às verbas do Ministério da Cultura.

Agora, no final do primeiro governo Dilma Rousseff - se levarmos em conta que ela planeja a reeleição - , surge a tendência dos "descompromissados", que agora acham "ridículas" as discussões em torno de esquerda e direita, o que pode significar também um contexto diverso do de dez anos atrás.

Afinal, agora é o mesmo discurso que se vê em "urubólogos" da mídia mais reacionária e em intelectuais "bacanas" supostamente progressistas. A queixa de que "estão superadas as questões envolvendo esquerda e direita" voltou a unir tanto a turma do Instituto Millenium quanto farofafeiros e similares.

Será um novo "Centrão" neocon, em alusão ao colégio eleitoral que lançou a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República, há 30 anos atrás? De repente, virou "novidade" esse negócio de "superar" as questões de esquerda versus direita.

Que muitas dessas questões estão ultrapassadas, é verdade. Mas isso nunca foi novidade, desde que a Revolução Russa ocorreu em 1917. Os excessos dos dois lados mostram o quanto a militância exagerada nas esquerdas e o economicismo que usa o dinheiro para medir todas as coisas, na direita, põem essa dicotomia ideológica na berlinda.

RETÓRICA "IMPARCIAL"

O problema não é isso. O problema é que a ideia de que "esquerda e direita estão superadas" virou uma desculpa para neocons e pseudo-esquerdistas manterem suas posturas e procedimentos, na falta de alguma justificativa relevante para tal.

De um lado, vemos intelectuais pró-brega reclamando das críticas que recebem dos esquerdistas por causa da postura tendenciosa de tratar o "funk carioca", por exemplo, como um suposto sinônimo de "ativismo social libertário".

De outro, vemos pessoas reclamando da "demonização" da revista Veja e de colunistas como Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, julgando que estes possuem a "mais objetiva visão da realidade". E são pessoas que acham que o lunático Olavo de Carvalho entende mais de Brasil, mesmo vivendo longe dele, do que qualquer um de nós.

Daí o problema. O problema não é considerar ultrapassadas certas posturas de esquerda ou direita, mas a maneira oportunista com que tal postura é adotada. Isso tem muito mais a ver do que uma tentativa de evitar a ampliação do debate público do que realmente reconhecer o caráter ultrapassado deste ou daquele procedimento.

Num primeiro momento, essa postura se torna apenas um "escudo" para que determinadas pessoas mantenham suas contradições na ideologia e na atitude adotadas. No segundo momento, é uma tentativa de salvar a reputação de totens abalados pela contestação pública.

Assim, o brega-popularesco que passava a falsa imagem de "progressista" - sobretudo da parte de funqueiros ou do "brega de raiz" - usa essa postura para permitir que ingresse na grande mídia sem "causar vergonha", justificando que "tais questões estão superadas".

De outra forma, é o reacionarismo de Veja que usa essa postura para neutralizar as críticas que a revista recebe, atribuindo a elas um "radicalismo intolerante das patrulhas petralhas" ("petralha" é como os reaças de Veja chamam os petistas).

Com essa manobra, é "antiquado" querer contestar a "cultura popular" imposta pelos barões da grande mídia e pelos chefões do entretenimento, como é "antiquado" querer ir contra os interesses dos investidores estrangeiros. Neste sentido, é "imparcial" acreditar na desnacionalização da economia, da americanização da cultura brasileira e na supremacia da imprensa reacionária no Brasil.

Enquanto isso, questões como a defesa da reforma agrária e da regulação da mídia são vistas como "demodês" pelo discurso "imparcial" dessas novas forças neocon,  que irão atribuí-las a um suposto corporativismo sindical e estatal que tiraria a liberdade de propriedade dos "admiráveis" empresários da Comunicação e dos "batalhadores" senhores do latifúndio.

O maior problema desse "Centrão" é que ele irá reforçar a mesmice e a letargia ideológica em que o país vive. A banalização tendenciosa dos questionamentos aos vícios de esquerda e direita só fará com que as estruturas e forças viciadas na sociedade continuem prevalecendo. E as elites dominantes que oprimem a população se apoiarão dessa suposta "imparcialidade" para se manter no poder.

segunda-feira, 24 de março de 2014

INTELLIGENTZIA ACONSELHA: "SEJA TODO MUNDO, SÓ NÃO SEJA VOCÊ"



Por Alexandre Figueiredo

"Carnaval é samba, é marchinha, é frevo, é axé, é candomblé, é umbanda, é forró, é ciganidade. Carnaval é funk brasileiro", prega o neoliberal Pedro Alexandre Sanches, principal porta-voz dos "bacaninhas" que comandam a intelectualidade pró-brega brasileira.

Não interpretemos essa mensagem no estreito limite das aparências e do agrupamento de palavras existente. O que Sanches quis dizer, com tudo isso é uma coisa só: "Carnaval é livre-mercado". Com todo o sentido oculto que um discípulo não-assumido de Francis Fukuyama despeja em palavras meio envergonhadas.

A intelectualidade "bacaninha" quer a tal cultura "transbrasileira". Tramada pela ditadura militar com os primeiros ídolos cafonas tocados, com gosto, pelas rádios que apoiavam o regime do generalato. E que foi reforçado pelo respaldo de Roberto Carlos - procurem saber, "bacaninhas"! - e pelo esquema jabazeiro de Michael Sullivan.

Cultura "transbrasileira" é economia "transnacional". O "transnacional" de Fernando Henrique Cardoso que Sanches e companhia jogam debaixo do tapete. O "transnacional" que nem de longe apavora ou desagrada os barões da mídia, embora a intelectualidade finja e minta que apavora e desagrada eles.

É a "cultura" que glamouriza a pobreza, a ignorância, a imoralidade, o grotesco. E é defendida por uma intelectualidade que até quer um brasil (em minúsculas, para não assustar os investidores estrangeiros) mais "gay", mais "libertino" e até "mais drogado" e "bebum", mas não quer um Brasil cidadão. Acham que cidadania pode ser obtida num "quadradinho de 8", num "lepo lepo" e similares.

A intelectualidade "bacaninha" faz de tudo que prevaleça esse tipo de visão. "Quanto mais mistura, melhor", pregam. Querem a "cultura" dos alhos com bugalhos, com o joio misturado com o trigo, e ainda gracejam diante de outros questionamentos acerca da hegemonia do mau gosto e da alienação cultural.

Daí seu discurso "muito bacana" e "bem legal". É como água com açúcar numa reunião de diabéticos. Tudo parece delicioso, refrescante. A intelectualidade cultural dominante prega o discurso da bregalização como processo "ideal" e "até inevitável" de fortalecimento (sic) da cultura popular brasileira, e quer que esse discurso seja ao mesmo tempo o "mais objetivo", "imparcial" e "bacana".

Mas é esse discurso que glamouriza elementos das classes populares que campanhas educacionais sérias querem combater. A intelectualidade cultural dominante, festiva, badalada e "muito querida", que ainda chora que nem criança assustada quando é questionada, não quer saber de cidadania.

A intelligentzia - trocamos o "s" pelo "z" da intelligentsia original porque ela aposta no "Brazil transbrasileiro" (ou seria "transbrazileiro"?) - só quer libertinagem, quer uma "cultura" asséptica, sem sabor, sem higiene, sem nutrientes, sem coisa alguma, porque acham que "tudo é tudo que é tudo e que é tudo". Só que, pensando assim, revelam que "tudo acaba sendo nada".

Eles querem que o brasileiro seja todo mundo. Só não seja ele mesmo, porque fica "mais chato" e "mais complicado". O que Pedro Alexandre Sanches faz pelos barões da grande mídia não tem preço. O que ele defende de "artistas transbrasileiros" vai logo direto para a tela da Rede Globo ou até na capa de Veja. Tem certeza que hospedou o blogue certo, Mino Carta?

Essa "cultura" tão "bacanamente" defendida pela intelectualidade "sem preconceitos" mas bastante preconceituosa não é cultura porque não evolui a sociedade. Só gera dinheiro, geralmente para os empresários do entretenimento, tão "pobrezinhos", no dizer da "intelectualidade mais legal do país".

Essa "cultura transbrasileira" não faz evoluírem os valores sócio-culturais das classes populares. Só glamourizam a ignorância, a imoralidade, a miséria, através de uma gororoba cultural que mistura alhos com bugalhos e é capaz de culpar até mesmo Gregório de Matos pelas baixarias que ocorrem hoje nos "bailes funk". Nem o Febeapá chegaria a noticiar tamanha barbaridade intelectual.

Fica muito fácil jogar os valores morais e sócio-culturais no lixo, bancar o norte-americano, hispânico, germânico e outros forasteiros a um só tempo e misturar pornografias, paródias e ironias num discurso que se pretende "muito sério". Seja até promíscuo e drogado. Vale tudo. E tudo com cientistas sociais, cineastas e jornalistas culturais aplaudindo de pé.

Fica muito fácil ser o outro, porque é "menos preconceituoso". Ser si mesmo não é recomendável pela intelectualidade "bacana", porque ela pensa que isso é ficar estagnado, parado no tempo e no espaço. Não é. Mas quem sou eu diante da visibilidade astronômica da intelectualidade "bacana" para colocar as ideias dentro dos eixos?

Infelizmente, é essa a regra dominante da intelectualidade "bacaninha". Você pode ser todo mundo, pode ser até o pior de tudo. Você só não pode ser você mesmo. Esqueça seus dramas, reduza-se a uma piada que, mesmo sendo piada, não pode ser gracejada, sob o risco de quem for rir dessa anedota ser acusado de integrar patrulhas moralistas de 1910...

domingo, 23 de março de 2014

O BREGA É DESCARTÁVEL PORQUE ENVELHECE RÁPIDO


Por Alexandre Figueiredo

A música brega perce facilmente, como um pedaço de queijo exposto ao sol durante horas. Embora a intelectualidade cultural dominante "sociologize" demais os "sucessos do povão" e, num ato ao mesmo tempo cínico e tendencioso, transforma modismos em pretensos ativismos, nada impede que os ditos "sucessos populares" pereçam com muita facilidade, soando "velhos" já num prazo de seis meses.

Isso demonstra a clara mediocridade musical envolvida nesses sucessos, explicitamente feitos de acordo com interesses comerciais. São músicas muitas vezes decididas e boladas dentro de escritórios de gravadoras ou de agências de famosos, mas que a intelectualidade "bacana" quer porque quer que sejam vistos como "legítima expressão das periferias".

O modo e a persistência com que a intelectualidade "bacana" tenta impor os "sucessos do povão" como se fosse um processo de "rebelião popular contra as elites" é totalmente constrangedor, por vezes risível, por outras revoltante.

Sociologiza-se demais meros sucessos tocados em rádios e TVs, e todo um delirante discurso intelectual cria uma retórica pseudo-ativista para "eternizar" tais sucessos. Junta-se uma manchete policial numa festa "popular" e, pronto, para acusar as patrulhas moralistas de 1910 de perturbar as "festas do povão" é um pulo.

BLINDAGEM INTELECTUAL

Um exemplo ilustrativo ocorreu há quase dez anos. No alvorecer da blindagem intelectual ao brega, que começou por volta de 2002 nos veículos da grande mídia conservadora - sobretudo Rede Globo, Folha de São Paulo e revista Contigo - e do coronelismo radiofônico-televisivo regional, mas em 2005 já fazia proselitismo nos círculos esquerdistas, o "funk" é um caso típico disso.

Na época, havia o horrendo sucesso de Tati Quebra-Barraco, "Sou Feia Mas Tô Na Moda", na qual a funqueira se projetava fazendo o papel estereotipado da "pobretona zangada", um tanto caricato, grosseiro e que, em análise mais profunda, soa ofensivo a muitas moças pobres, roliças e negras que, em vez de serem funqueiras "zangadas", são domésticas, professoras, cozinheiras, donas-de-casa etc.

Tati Quebra-Barraco era muito menos rebelde do que se imaginava, demonstrando apenas que o "funk" tem essa manobra de criar fetiches que agradam bem a seus empresários-DJs. Mas ela se cercou de uma poderosa blindagem intelectual que armou, a favor dela, um discurso que lançou mão até mesmo de teses surreais e absurdas, tudo para "combater o preconceito".

Era a intelectualidade que mal tinha saído das sessões de cinema de Os Dois Filhos de Francisco, o blockbusters da direita acanhada que se esconde nas esquerdas médias intelectuais, apesar de Zezé di Camargo & Luciano serem eleitores do ruralista Ronaldo Caiado e o filme ser uma produção da Globo Filmes.

Daí foram cortejar o "funk" não como um ritmo dançante que não deveria ser perturbado pela truculência policial - que era o propósito original do discurso de defesa - , mas como uma suposta "cultura de vanguarda" que de vanguarda nada tem, não passando de uma enganosa estratégia de marketing.

Tomando Tati Quebra-Barraco como carro-chefe dessa campanha "socializante", o discurso intelectualoide promovia o "funk" como um pretenso "ativismo social", com um quê de "cultura pop" e outro de "militância política", juntando de universo fashion a lideranças comunitárias, dentro de uma retórica tendenciosa e extremamente contraditória.

Falou-se de Tati Quebra-Barraco qualquer besteira, mesmo aquelas descritas "com categoria" por monografias, documentários e reportagens. Seu mito foi construído pela Folha de São Paulo e por O Globo, mas as esquerdas médias tentaram "vender o peixe" para a intelectualidade progressista, feito um vendedor chato que implora para que o morador de uma casa compra seu produto chinfrim.

Ela foi tratada como se fosse uma "nova Elza Soares", só por causa de sua origem humilde. Mas nem de longe teve o talento da veterana cantora, que quando surgiu surpreendia pelas ótimas informações musicais trabalhadas.

Também tornou-se inútil usar o "funk", e a funqueira em particular, para evocar, no discurso apologético, de Antônio Conselheiro a Andy Wahrol, nesse caldeirão ideológico que transformava o fraquíssimo e inexpressivo "funk" na "última palavra em cultura de vanguarda brasileira".

Só que tudo isso é marketing da pior qualidade. Propaganda enganosa feita sob o mais engenhoso suporte intelectual, que dava sua choradeira acusando quem rejeita o "funk" não apenas de "preconceituoso", mas "elitista" e "moralista", entre outros adjetivos incômodos.

SUCESSOS QUE SOAM VELHOS

O grande problema é que, passou o tempo, Tati Quebra-Barraco desapareceu. Ficou rica, torrou a grana com cirurgias plásticas e foi curtir o luxo da fama repentina. A intelectualidade desconversou - "o povo quer é consumo, bens de luxo, que mal tem isso?" - , mas a funqueira depois virou evangélica e seu sucesso não foi mais que mero "fogo de palha" para uma retórica por demais sofisticada.

Além disso, jogar "Sou Feia Mas Tô Na Moda" para o âmbito da vanguarda artística não deu certo. Nem cooptando atores performáticos ou músicos excêntricos para cortejar o "funk" entre festinhas fashion e palestras "comunitárias". A música pereceu e hoje soa, além de ruim, extremamente velha e cansativa.

Esse não é um único exemplo. Na axé-music, por exemplo, em que pese toda a pregação de que a música comercial-carnavalesca baiana é "herdeira oficial do Tropicalismo", suas músicas e seus ídolos soam velhos e mofados, muitos deles sendo condenados a desaparecer com o tempo.

Luiz Caldas hoje soa como um brega querendo voltar à carreira, se passando por "gênio injustiçado". Chiclete Com Banana desgastou sua imagem com a prepotência do já velho Bell Marques, que teve que sair do grupo. Netinho sobreviveu ao câncer, mas soa artisticamente morto. O É O Tchan poucos têm coragem de reabilitar, apesar do esforço oportunista de uma historiadora.

Imagine então os sucessos menores, de grupos que aparecem e somem sem deixar rastros? Na axé-music, foi constrangedora a tentativa de relançar As Meninas com uma tese conspiratória dizendo que "Xibom Bombom", de autoria de um rico empresário baiano, era uma letra "marxista".

Fora da axé-music, então, um sem número de "sucessos populares" soa hoje velho e cansado, de "Adocica", de Beto Barbosa a "Passinho do Volante", de MC Federado e Os Lelekes. Até "Ai Se Eu Te Pego", sucesso de Michel Teló, tentou relançar a blindagem intelectualoide de "Sou Feia Mas Tô Na Moda", mas hoje também soa muito velha.

Até os neo-bregas dos anos 90, como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Leonardo, Daniel e tantos outros se perderam no revival de si mesmos, incapazes de ter um repertório consistente e parasitando covers de MPB que só agradam os mais condescendentes. E hoje também soam velhos, cansados e ultrapassados.

Em contrapartida, as verdadeiras canções sempre permanecem com um admirável frescor de novo, se renovam a cada audição. Citar João Gilberto e Beatles são apenas os casos mais óbvios. A blindagem intelectual tentou fazer ficar perenes os sucessos brega-popularescos, com o claro apoio da velha grande mídia, esta também velha e cansada para além da conta.

Pior. Os nossos próprios intelectuais também soam velhos e cansados. Eles acreditam num Brasil brega, e brega, pelo que se saiba, é subemprego, pobreza, ignorância e mofo glamourizados pela mídia coronelista. Daí ter sido inútil transformar essa blindagem em discurso progressista, perene ou tudo de bom que vier por aí. Porque até esse discurso também se torna velho e cansado.

sábado, 22 de março de 2014

SÃO PAULO TEM MARCHAS PRÓ-MILITARES E MARCHAS ANTIFASCISTAS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Em pelo menos 15 capitais do país, foram realizadas marchas pró-ditadura, como as novas edições da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, e antifascistas, como diz o nome da Marcha Antifascista, que protesta contra os efeitos maléficos que a ditadura causou ao país até hoje.

Apesar de todo o esforço, a Marcha da Família teve poucas adesões, sendo que em São Paulo reuniu pouco mais de 2 mil pessoas, sendo mais um movimento para recordar o que aconteceu em 1964 do que realmente um movimento para derrubar o governo reformista de Dilma Rousseff e instaurar uma ditadura militar no lugar.

São Paulo tem marchas pró-militares e antifascistas

Por Bruno Bocchini - Agência Brasil

Marcadas para começarem no mesmo horário, às 15 horas, a cidade de São Paulo teve hoje (22) duas manifestações antagônicas: A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que pedia a volta dos militares ao poder, e a Marcha Antifascista, que reivindicava “ditadura nunca mais”.

Na praça da República, no centro da capital, a Marcha da Família comemorava também os 50 anos da primeira edição da marcha, que ocorreu no dia 19 de março de 1964, quando organizações da classe média paulistana protestaram contra o Comunismo e abriram caminho para o golpe militar e início da ditadura no país, que seria instalada dias depois.

“Eu sou federalista, sou a favor da democracia. Só que a gente não tem certeza se a nossa democracia está sendo exercida. Então, sou a favor que os militares intervenham, não o regime, apenas para convocar novas eleições com voto impresso, para o povo ter garantia de que o voto que ele está dando está indo para quem ele colocou lá. Não é regime militar”, disse Walace Silvestre.

Os manifestantes, que tinham a expectativa de refazer o percurso da primeira edição do evento – da praça da República até a praça da Sé – gritaram, por vezes, “fora Dilma”, e entoaram melodias pedindo a prisão da presidenta e a volta dos militares: “Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos os militares protegendo o Brasil”, e “um, dois, três, Dilma no xadrez”.

“Quem é pessoa de bem, as pessoas que já estão cheias desse país, estão reivindicando um pouco mais de honestidade. O que a gente está vendo hoje não dá mais para ficar: é roubo, é político que não trabalha, é pouco caso. Temos que parar definitivamente com isso. O que nós precisamos é mudar. Se for pela intervenção militar, muito bem; se for [por meio de] pessoas sérias, políticos sérios, que seja”, disse Marques Brasil, um dos organizadores da marcha.

Em meio a manifestação, alguns ativistas discutiram e foi necessária a ação da Polícia Militar, que retirou à força do local um dos manifestantes e o levou para dentro da Secretaria de Estado da Educação, na Praça da República.

A poucas quadras dali, na Praça da Sé, a marcha Antifascista reuniu manifestantes que repudiavam a ditadura e lembravam das torturas e mortes cometidas pelo regime militar. “Nós entendemos que não há nada a comemorar hoje. A ditadura representou um profundo retrocesso, com tortura, mortes e a entrega do país para as grandes potências internacionais. É necessário sair às ruas contra essa política de destituir o governo, fechar o Congresso Nacional e os partidos, que está sendo pregada pela outra manifestação”, disse o coordenador do ato, Antonio Carlos Silva, ligado ao Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

A marcha Antifascista previa deixar a praça da Sé e se dirigir até o prédio onde funcionou o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna do 2º Exército (DOI-Codi), na Luz.

“Os partidos de direita no Brasil estão afastados do poder pelas eleições já há algum tempo. A falta de alternativas eleitorais legais os forçam a tentarem outras vias. Um golpe não é uma possibilidade afastada e a gente tem de prestar atenção no que está acontecendo”, ressaltou Rafael Dantas, militante do PCO, um dos partidos que participou do ato.

O JABACULÊ ENVOLVENDO MÍDIA E FUTEBOL NA BAHIA


Por Alexandre Figueiredo

Quando eu escrevia o Preserve o Rádio AM, há uns dez anos atrás, eu já alertava sobre o jabaculê envolvendo rádio e futebol na Bahia. Naquela época, fazer tal constatação era um tabu, e o antigo sítio já foi considerado "policialesco" por lançar questões sobre essa.

Naqueles tempos, entre 2000 e 2004, o jabaculê radiofônico mudou muito. A ideia de jabaculê de ser apenas a prática de subornar programadores de rádio para tocar determinada música não era a única existente, mas mesmo assim era a única admitida até mesmo por muitos blogueiros considerados influentes na época e eu denominava de "líderes de opinião".

Falar que, por exemplo, o chamado "Aemão de FM" (ou seja, FMs que adotam, total ou parcialmente, programação tipo rádio AM) praticava jabaculê era visto como "inconcebível" por muitos. Futebol e noticiários ainda tinham a aura "sagrada" de unir "informação, entretenimento e prestação de serviço" e eram santificados em portais sobre rádio na Internet e em outros espaços virtuais.

Mas hoje já começa a admitir que o jabaculê nem sempre dança conforme a música. Até porque o jabaculê não dançaria sem música. Em tempos que a grande imprensa não é tão glamourizada ainda, nos últimos anos ocorrem denúncias sérias sobre o esquema de corrupção que envolve a mídia esportiva e os chamados "cartolas" locais, os chefões do futebol carioca.

Denúncias assim já ocorrem há muito tempo. A mais recente envolveu o esquema de corrupção entre o Esporte Clube Bahia, um dos dois principais times que monopolizam o futebol baiano (o outro é o Esporte Clube Vitória), foi denunciado pelo atual presidente do clube, Fernando Schmidt, que organiza uma devassa da administração anterior, de Marcelo Guimarães Filho.

Segundo Schmidt, o "Baêa", como é popularmente chamado o tricolor baiano, era responsável por pagar até as transmissões esportivas, além de oferecer hospedagem em hotéis conceituados, jantares em bons restaurantes e passagens aéreas para jornalistas esportivos. Os acordos não envolviam apenas a TV Bahia, afiliada local da Rede Globo, mas também emissoras de rádio, sobretudo FM. A Itapoan FM, de Pedro Irujo, foi citada na denúncia.

A situação é tão grave que hoje eu entendo por que, quando tentaram me oferecer um emprego numa agência de jornalismo esportivo, não me aceitaram por ser novato. Meus entrevistadores me informaram que era preciso "ter intimidade" com os bastidores do esporte. Queriam alguém "com experiência".

Foi divulgado, na entrevista, o valor de R$ 865 mil que financiavam crônicas esportivas e o trabalho de radialistas. A situação é tão grave que Schmidt admite que "a sujeira neste campo é pesada". Pior do que lama de campo de futebol de várzea, a lama envolvendo mídia e futebol na Bahia é podre. E o Diário do Centro do Mundo admitiu que se trata, sim, de um esquema de jabaculê.

Não é a primeira denúncia. Em dezembro de 2008, uma reportagem do Correio (antigo Correio da Bahia) denunciou outro escândalo envolvendo mídia e dirigentes esportivos, que repercutiu de tal forma que o dono da Metrópole FM, Mário Kertèsz, um dos denunciados, chegou a sofrer um infarto, ao saber que ele não gozaria da impunidade de antes.

BARÕES DA MÍDIA LOCAIS FRAUDAVAM ATÉ AUDIÊNCIA

Só o rádio baiano já conta com um bloco doméstico de "coronelismo eletrônico", com um cartel de donos de rádio que haviam sido apadrinhados, nos anos 80, pelo então ministro das Comunicações e "chefão regional" da Bahia, Antônio Carlos Magalhães.

Aparentemente "rompidos" com o falecido político, empresários como Marcos Medrado, Mário Kertèsz, Pedro Irujo e Cristóvão Ferreira Filho (o Cristovinho), além da afiliada da Rede Transamérica em Salvador, sempre se beneficiaram de transações feitas com dirigentes esportivos.

A obsessão deles de impor transmissões esportivas em FM, prejudicando a concorrência com as AMs que interviessem no setor - a única que escapava ilesa era a Rádio Sociedade - , era um mecanismo que envolvia um engenhoso esquema de jabaculê que incluía desde o silêncio da imprensa local até a formas de fraudar ou manipular índices de audiência.

O esquema de jabaculê acontecia de tal forma que havia as chamadas "audiências de aluguel". As rádios subornavam de entidades de trabalhadores até lojas de departamentos para sintonizar as FMs durante transmissão de futebol, pouco importando o contexto e a revolta dos fregueses.

Certa vez, a Metrópole FM, de Mário Kertèsz, subornou as Lojas Americanas do Shopping Iguatemi, que sintonizou a emissora durante uma transmissão esportiva no rádio posto na seção de CDs (!). A Civilização Brasileira, também no Iguatemi, fez o mesmo, irritando fregueses e leitores de livros. E, no Salvador Shopping, uma papelaria sintonizou a Transamérica FM durante uma transmissão.

Há casos de produtores dessas FMs que vão para determinados botequins e "recomendam" a sintonia das emissoras durante transmissões esportivas em troca do pagamento, por parte da rádio, de despezas como contas de luz e de distribuição de bebidas.

E, embora pareça uma prática "honesta" de permuta publicitária, o fato de lojas de departamentos sintonizarem essas rádios, sobretudo quando não são lojas de aparelhos de som, constitui numa prática de jabaculê, para forçar a audiência da rádio em ambientes de sintonia aparentemente coletiva, dentro daquela manobra de atribuir aos fregueses de loja a audiência que só serve para seu gerente.

A situação cria momentos constrangedores. Eu mesmo já circulei, no ponto de táxi nos Barris, em Salvador, durante a hora do almoço, e vi um veículo desses estacionado, com as janelas todas fechadas e sem viva alma dentro, sintonizado numa dessas FMs que passavam "resenhas esportivas". E vi também porteiros com o rádio ligado sem terem ideia do que estavam ouvindo.

O esquema jabazeiro dessas rádios faz aquele tradicional jabaculê musical parecer brincadeira de bebê. A "doutrina da emoção", que muitos definem o radialismo esportivo, não é imune a prática jabazeira, mesmo aparentemente mexendo com "informação" e "prestação de serviço".

Pelo contrário, hoje em dia o futebol rende, no rádio FM, práticas de jabaculê muitíssimo piores do que a música, que hoje procura meios auxiliares de prática jabazeira, como no caso do brega-popularesco, que hoje suborna de sindicatos de trabalhadores a acadêmicos universitários.

Segundo muitos de seus denunciadores, ainda tem muita sujeira a investigar na promíscua relação entre mídia e dirigentes esportivos em Salvador. E novas surpresas virão, para tirar o sono dos barões midiáticos baianos. Segura o coração, Mário Kertèsz!!

sexta-feira, 21 de março de 2014

MARCHA DA FAMÍLIA: VINGA OU NÃO VINGA?


Por Alexandre Figueiredo

Há 50 anos atrás, ocorreu a Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, na verdade a manifestação mais importante, em 19 de março, depois de tantas outras marchas que ocorreram antes e depois do que se chamou "Revolução de 1964", o hoje reconhecido golpe militar. Em 02 de abril daquele "meia quatro", houve outra marcha no Rio de Janeiro para comemorar o golpe realizado.

Depois de tanto tempo enterrada no passado - nos 20, 30 e 40 anos de celebração do golpe de 1964 ninguém se encorajou em reconstituir as "marchas" - , eis que recentemente se articula uma manifestação, prevista para amanhã, em São Paulo, para comemorar o cinquentenário do evento que pediu a derrubada de João Goulart do poder.

Jango havia feito, dias atrás, um comício na Central do Brasil. Era uma sexta-feira 13. O presidente prometia levar em prática as prometidas reformas sociais, consideradas reformas de base, inclusive a reforma agrária e a reforma política.

Até a reforma midiática João Goulart se empenhou a fazer, ele que ironicamente, na condição de presidente em exercício durante o governo Juscelino Kubitschek, assinou o contrato de concessão do canal 4 da televisão do Rio de Janeiro para a Rádio Globo, de Roberto Marinho, em 1957.

Jango procurou criar uma Lei de Radiodifusão mais democrática e que divergisse dos interesses das oligarquias da Comunicação, em 1962. Nessa época a TV Globo do Rio de Janeiro, sede da atual Rede Globo, não existia, mas já provocava escândalo pelas denúncias de participação ilegal do capital estrangeiro na criação da emissora, por conta do grupo empresarial Time-Life.

João Goulart feriu os interesses dos EUA quando anunciou que iria reduzir as remessas de lucros das empresas e restringir a evasão de divisas financeiras ao exterior. Vendo nessas decisões uma maneira de fortalecer economicamente o Brasil, contrariando a supremacia da nação estadunidense, o governo do presidente John Kennedy e a CIA já pensavam num modo de tirar Jango do poder.

E aí, com um país que se discutia muitos problemas - desde os problemas educacionais até mesmo ao já antiquado pragmatismo comunista - , João Goulart pretendia avançar com suas metas de governo. Mas a pressão da direita naquela época foi intensa e até mesmo uma pegadinha de um pseudo-esquerdista, o sargento da Marinha Cabo Anselmo, favoreceu a reação golpista contra Jango.

E aí houve a passeata da direita, sob o pretexto da "reunião de famílias" supostamente comprometida com o Cristianismo e com os valores "edificantes" da sociedade. Com um moralismo retrógrado, líderes religiosos, por inspiração de um católico norte-americano de sobrenome engraçado, Patrick Peyton e seus rosários "contra o comunismo", lançaram então as tais Marchas da Família.

Também conhecidas como Marchas Deus e Liberdade, elas tiveram a adesão até mesmo de Hebe Camargo, quatro décadas antes da falecida apresentadora se juntar a Ivete Sangalo, Regina Duarte e Zezé di Camargo ao movimento Cansei, este em si uma evocação grotesca e "laica" das Marchas da Família.

Outros astros da época eram simpáticos à marcha, como o radialista César de Alencar e o pregador católico Gustavo Corção (que, pelo apetite de suas pregações, era o Olavo de Carvalho da época), para não dizer os golpistas da grande imprensa. E tinha o "instituto" IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e entidades "civis" que iam de grupos estudantis e operários aos militares.

Hoje, porém, apesar da ameaça de sucesso da mobilização, aparentemente está condenada ao fracasso. Em entrevista ao portal Terra, a antiga líder da União Civil Feminina (uma das várias entidades "civis" a pregar a queda de Jango), Maria Paula Caetano da Silva, de 82 anos, diz que não existe hoje um contexto para o sucesso de uma nova Marcha, tal como a de 1964, em que ela participou.

Outra ex-militante da União Civil Feminina, Maria Aparecida, também afirmou que os propósitos da época eram diversos aos de hoje. Ela não vê sentido hoje pedir um golpe militar para o Brasil, com tantas transformações vividas na nossa sociedade.

Já o coronel da Polícia Militar e ex-deputado federal Jairo Paes de Lima, mesmo se considerando conservador e repudiando governos de cunho nacional-reformista, como os da Venezuela, ele também não vê sentido num novo golpe militar. Ele, que tinha 11 anos na época do golpe, prefere que as mudanças políticas sejam feitas pelas eleições, através do voto popular.

O que surpreende é que o movimento que anuncia a Marcha da Família é comandado por antigos oficiais militares, os chamados "golpistas de pijamas", enquanto até o Instituto Millenium mantém silêncio sobre a manifestação de amanhã. A Folha e a Veja anunciam o evento, mas no Facebook há um modesto número de seguidores.

A dúvida será se a Marcha da Família fará sucesso ou não. Ou se haverá alguma surpresa e o evento repercutir acima do esperado - sobretudo com a "discreta" adesão dos que pareciam omissos com a situação - ou o evento será um grande fiasco, como o Cansei.

Aparentemente, temos um Brasil mais estável socialmente do que o dos tempos de Jango. Mas, como qualquer coisa pode acontecer, fica aqui a pergunta: a Marcha da Família vinga ou não vinga?

quinta-feira, 20 de março de 2014

O VERDADEIRO PRECONCEITO CONTRA MUSAS


Por Alexandre Figueiredo

Eis o lado sombrio que está fora da "Disneylândia das periferias", esse estranho paraíso cercado de lixo, ruas não asfaltadas, de muito analfabetismo e de uma pobreza e ignorância glamourizadas pelo discurso intelectual.

O tendenciosismo da parcela dessa intelectualidade que detém esse discurso por demais fantasioso, quando quer fazer críticas sociais, força demais a barra e, entre críticas que são até pertinentes mas parcialmente direcionadas, acabam também fazendo outras críticas que provocam tamanhas injustiças.

Um exemplo já descrito neste blogue é o fato de que certos ativistas das esquerdas médias fizeram duras críticas à exploração imbecilizada da mulher através dos comerciais de TV, inclusive alguns feitos pela supermodelo Gisele Bündchen.

No entanto, essas mesmas pessoas se omitem quando "mulheres-frutas" e outras funqueiras fazem o mesmo, até de forma ainda mais grave e extrema, e os mesmos ativistas consentem e até defendem com certo entusiasmo, com a desculpa de que elas estão "tirando sarro com o machismo" e adotando um "discurso direto" de "auto-afirmação feminista" (sic).

Ou seja, o que Gisele Bündchen faz é deplorável, caricato, pejorativo, estereotipado etc. Se Valesca Popozuda faz a mesmíssima coisa, ela é "corajosa", "combativa", "provocativa", "audaciosa", "brilhante" e outras qualidades "tudo de bom". Vá entender.


Agora é a vez da charmosíssima Nayara Justino, uma estonteante negra de 25 anos, ser duramente criticada pelas redes sociais. Tanto que chegaram a compará-la pejorativamente com um personagem masculino do filme Cidade de Deus e ser classificada de "feia". Com tantas campanhas negativas, ela hoje se isolou deprimida em sua casa.

Nayara teve o fardo de ter sido musa das vinhetas de Carnaval da Rede Globo, e ela sofreu a injustiça de pagar por este preço, quando oportunistas pseudo-esquerdistas querem esculhambar as Organizações Globo mais por modismo ou para agradar os amigos do que realmente por se opor aos abusos da corporação dos irmãos Marinho.

Esses oportunistas são os primeiros a reproduzir, em seus perfis nas mídias sociais, as charges de Carlos Latuff contra a Globo, como uma delas com o aviso "Sorria, você está sendo manipulado". São aqueles que vão lá mandando seu comentário contra o reaça da moda, seja Marcelo Madureira ou Ali Kamel, apenas porque muita gente está fazendo.

No entanto, eles se escondem vendo Caldeirão do Huck, Domingão do Faustão e Esquenta! e pautam sua compreensão sobre cultura popular pelo ponto de vista dos executivos da TV Globo. E ainda se irritam quando são chamados de neoliberais ou neocons.

É esse pessoal que, no auge das baixarias do É O Tchan - que vendia pornografia barata para o público infantil, sob o incentivo de pais e mães desavisados - , o ônus fosse repassado para uma Tiazinha cuja identidade secreta era uma dançarina clássica, então aspirante a atriz e muito mais inteligente que seu personagem sugeria, a hoje atriz Suzana Alves.

Se Suzana Alves pagou pela vulgaridade das dançarinas do Tchan, ou mesmo de uma Rosiane Pinheiro que, mesmo negra, ela, sim, se serviu à imagem de "mulher-objeto" como dançarina do grupo Gang do Samba - genérico do É O Tchan que o lobby de Hermano Vianna empurrou tendenciosamente para um documentário sobre Riachão - , Nayara agora paga pelos pecados das funqueiras e outras "boazudas".

Nayara Justino faz o perfil da negra sofisticada e bastante charmosa, que no exterior é simbolizada pela atriz Lupita Nyong'o, que de tão admirável já possui vários pretendentes, cada um anunciado pela mídia com suposto namorado. De rosto, Nayara soa como uma adaptação da raça negra ao tipo de beleza clássica da ex-concorrente do Miss Brasil 2003, a hoje atriz Mayana Neiva.

Ela apareceu até mesmo numa livraria, participando de um evento, e nem de longe expressa uma imagem de vulgaridade. Mas, juntando o posto de divulgadora de transmissões de Carnaval da Globo com a reputação que esta possui entre os detratores, Nayara Justino foi duramente criticada acusada injustamente de "vulgar" e "feia".

São as mesmas pessoas que mantém silêncio quando uma Valesca Popozuda pseudo-progressista se torna hoje a queridinha da Globo. Ela, que, supostamente ativista, tratou o episódio das denúncias do ex-funcionário da CIA, Edward Snowden, como se fosse o Big Brother Brasil. Como se Barack Obama estivesse fazendo na ocasião a função de Pedro Bial.

Daí o verdadeiro preconceito. Nem as "mulheres-frutas" sofreram tanto quando Nayara Justino. Até a Mulher-Melão, temperamental e arrogante, dá um jeito para evitar o ostracismo, mesmo quando está perto de tal situação. O rótulo "popular" dá uma imunidade para sub-celebridades reaparecerem na mídia quando já estão perto de desaparecerem para sempre.

Nayara foi vítima não só de um racismo oculto daqueles que defendem até as piores grosserias do "funk" a falam que o branquelo MC Guimê (outro neo-queridinho dos barões da mídia), mas de uma reação distorcida, caricata e tendenciosa de oportunistas que, passando por "opositores da Globo", atacam quem não deve e elogiam quem deve menos ainda.

Talvez Nayara, a exemplo de outros que de alguma forma prestam serviço à Globo, tenha até menos compromisso ideológico com a corporação, já que nem todo mundo lá compartilha com os interesses comerciais e político-ideológicos dos irmãos Marinho.

Mas são justamente essas pessoas que pagam pelos pecados cometidos pelos "urubólogos" e pelos ídolos "populares" que vão alegres ao Domingão do Faustão e Caldeirão do Huck, de veteranos do "pagode romântico" a funqueiros em ascensão, todos expressando um Brasil neoliberal de mentirinha mas que recebem a vista grossa das esquerdas médias.

Em contrapartida, Nayara Justino sofre duramente os efeitos dessa postura tendenciosa. Ela foi vista, equivocadamente, como um dos símbolos do que há de pior na Globo. E não é. Simpática, charmosa, belíssima, esforçada. Talvez ela possa ser, no futuro, uma excelente atriz ou coisas até melhores. Ela merece ter uma chance. Pena que os oportunistas do "ativismo de botequim" não deixam.

quarta-feira, 19 de março de 2014

TRUCULÊNCIA POLICIAL E TRUCULÊNCIA SÓCIO-POLÍTICA


Por Alexandre Figueiredo

Numa situação inconcebível, dias atrás uma mulher trabalhadora do subúrbio do Rio de Janeiro, ao ser baleada por bala perdida sob um intenso tiroteio entre policiais e bandidos, foi precariamente socorrida e jogada no porta-malas da viatura policial.

Só esse aspecto era bastante ridículo. Ela poderia ter sido socorrida por uma ambulância ou uma viatura dos Bombeiros também dotada de maca e outros materiais de socorro. Em vez disso, ela foi jogada em um porta-malas, que, para piorar, abriu e fez o corpo dela ser arrastado pelo chão enquanto o carro saía do subúrbio de Madureira, onde a vítima foi baleada.

O nome dela era Cláudia Ferreira da Silva. Era casada, tinha 38 anos e trabalhava como auxiliar de serviços gerais. Tinha quatro filhos, mas também tinha jogo de cintura para cuidar também de quatro sobrinhos. Com sua morte estúpida, o marido reclamou que ela foi tratada feito um animal e que a tragédia interrompeu os sonhos dela.

Evidentemente existem abusos cometidos por policiais. Os três que socorreram a jovem foram presos, e já estão sob investigação da polícia. Eles haviam agido precipitadamente ao trocarem tiros com traficantes, sem observar as pessoas inocentes à volta, e mesmo com os tiros que acertaram Cláudia - que poderia ter sobrevivido, pela forma que foi baleada - eles ainda demoraram a socorrê-la.

Mas é muito complexo criar um maniqueísmo que divide polícia e favela em, respectivamente, o mal e o bem, nesse discurso tão confortavelmente descrito por delirantes intelectuais "bacanas", que ignoram que as periferias estão longe da ideia paradisíaca com que eles imaginam serem as favelas.

Isso porque tanto truculência policial quanto as construções das favelas são igualmente produtos de um mesmo problema, a truculência sócio-política de décadas. O descaso político, o preconceito elitista, as desigualdades sociais, os problemas de Educação, Saúde, Saneamento, Segurança, temas com maiúsculas que as autoridades descrevem em formas as mais minúsculas possíveis.

A truculência policial é fruto tanto do tratamento severo dos quartéis policiais a seus soldados quanto da visão elitista e generalizada da criminalidade nas comunidades pobres. Neste sentido, há um potencial sentimento de racismo, julgando que qualquer rapaz que fosse humilde e negro fosse necessariamente um bandido em potencial.

Já as favelas foram formadas porque as classes populares foram privadas, ao longo de décadas, de morarem em edifícios e outras casas, devido ao aluguel caríssimo e a própria rejeição das elites. A exclusão imobiliária é tão cruel que os operários da construção civil nunca têm a chance de morar nos apartamentos que constroem, o trabalho que fazem é alienado em sua própria natureza.

Portanto, é muito fantasiosa, também, a idealização da favela "alegre" de DJs sorridentes, grafiteiros animadinhos, produtores de fala articulada, enquanto estes, na verdade, são apenas a "classe média" surgida nos seios das favelas, uma elite abastada que pouco diz a respeito da real situação das populações pobres do país.

Por isso não faz sentido abordar, de uma forma maniqueísta, o conflito entre a polícia truculenta e a favela em busca de auto-afirmação, comumente contada como se fosse o conflito entre a bruxa malvada e a Branca de Neve acolhida pelos sete anões.

O problema é muito mais complexo. Deveria-se pensar na desfavelização e transferir seus moradores para residências mais dignas, dando-lhes todo o apoio logístico e financeiro necessário. A favela só é "linda" para o intelectual paternalista que, "sem preconceitos", revela-se na verdade muito mais preconceituoso do que pode imaginar.

Criar programas sociais para melhorar a qualidade de vida, considerando propostas como cotas universitárias e Bolsa Família apenas como paliativos de validade provisória, enquanto se investe em Educação e Emprego de forma mais digna e ampliada, seriam ótimas maneiras de valorizar a população das periferias muito mais do que o "beijinho no ombro" de intelectuais oportunistas.

Se houvesse mais justiça social e outras melhorias, não teríamos a truculência policial que matou Cláudia da Silva. E ela poderia viver anonimamente no seu sossego, ao lado do marido, filhos, sobrinhos e todos os seus amigos do meio, com mais qualidade de vida e sossego. E com casas e estruturas urbanas muitíssimo melhores.

NO BREGA-POPULARESCO, NÃO HÁ GRANDES ARTISTAS, MAS GRANDES EMPRESÁRIOS


Por Alexandre Figueiredo

Na música brega-popularesca, o que se observa não é a existência de grandes artistas, mas a atuação permanente e sustentável de empresários habilidosos, capazes de moldar e remoldar os ídolos que são apenas mercadorias e produtos de um entretenimento musical.

Faltam, na música brasileira de hoje, grandes artistas de impacto. A última grande força da MPB autêntica se deu nos anos 70, quando artistas de formação universitária popularizaram ritmos populares na apreciação das várias classes sociais.

A estagnação desse processo, porém, fez com que a MPB autêntica se perdesse quando ritmos populares deixaram de serem apreciadas nos lugares de origem e uma confusão de valores fez com que o povo pobre deixasse de ter sua própria cultura, queiram ou não queiram os intelectuais pró-brega com suas manias de "relativização".

O que se conhece como "cultura popular" é um sistema de valores estereotipados e padronizados dentro de um modelo caricato de população pobre, digno dos piores programas de humorismo televisivo da TV aberta. Algo que nem as chanchadas da Atlântida teriam coragem de fazer.

Para o intelectual que vive no seu apartamento confortável, vai com seu carrinho entre seu lar e o escritório refrigerado de sua instituição, isso é o "povo autêntico", é o "verdadeiro cheiro de povo". E, por isso, minimizam-se os questionamentos sobre a falta de grandes artistas na "música do povo" feita no Brasil.

"ÍDOLOS DO POVÃO"

Páginas e páginas de monografias, laudas de reportagens sucessivas e horas de documentários são inúteis para tentar classificar os "sucessos do povão" - meras mercadorias musicais lançadas pelas rádios oligárquicas das capitais e do interior - como "cultura de verdade".

Pela "expressão" de seus "artistas", o que há são fetiches musicais, produtos midiáticos. Não há grandes artistas. Claro, o intelectual "bacana" irá se revoltar, porque o "ídolo do povão" é um exímio lotador de plateias, mas está perdido na sua (suposta) missão de renovação da Música Popular Brasileira, bem mais do que cego paraplégico num cenário de grandes conflitos bélicos.

O que existe são supostos cantores e grupos que, primeiro, despejam tudo de ruim que "são capazes" de fazer na música, e que se tornam a razão de seu sucesso. Carregam na pieguice, ou então carregam no grotesco, com sucessos que, embora "certeiros", são bastante constrangedores.

Só depois de uns cinco anos de sucesso, o "artista" é remodulado, ganha um banho de loja, um banho de técnica e tecnologia, e, "repaginado", até parece um "artista popular" convertido em "novo gênio da MPB".

Mas o resultado, como já havíamos escrito várias vezes, é desastroso. O "artista" fica ainda mais perdido quando o mercado lhe dá o papel tendencioso de brincar de "fazer MPB". Grava covers sugeridos em última hora por produtores. Recorre a outros arranjadores para fazer um arremedo de "boa música" e o mercado e a grande mídia agradecem.

Só que tudo isso se deve não pela razão do "admirável" e de início "mal-aproveitado talento" do ídolo popularesco. Não dá para acreditar na desculpa que esse cantor, dupla ou grupo foram "mal-aproveitados" no começo da carreira, até porque quem realmente tem talento sempre mostra sua força no começo, não espera o sucesso vir para pensar em fazer "algo decente".

BONS EMPRESÁRIOS

O principal motivo de haver uma sucessão de "artistas" brega-popularescos comercialmente bem sucedidos e que, aparentemente, estão prontos a driblar qualquer risco de desgaste com algum factoide ou qualquer coisa que aumente sua autopromoção na mídia, não é outro senão a presença de bons empresários.

Em muitos casos, há um rodízio de empresários dependendo do estágio que o "artista" se encontre em sua carreira. Quando o ídolo brega-popularesco é emergente, ele é empresariado por agências de famosos sediadas nas suas regiões de origem, que estabelecem parcerias com outras que possuem escritórios em São Paulo.

Quando o ídolo brega-popularesco se estabiliza, geralmente seu passe é compartilhado com a grande mídia. As emissoras de TV tornam-se em parte "sócias" do ídolo, que aparece fácil em programas de TV aberta, em muitos casos alternando entre uma emissora e outra, para não deixar vazar que se tornou queridinho de uma única emissora (sobretudo se for a Rede Globo).

Mas independente de que empresário for e se ele continua o mesmo ou não, o ídolo brega-popularesco sempre procura promover e manter sua imagem da melhor maneira. Como "boas mercadorias" que precisam manter toda a "qualidade" para a satisfação de seus consumidores.

O zelo da mídia e do mercado para esses "artistas" da música é que dá a falsa impressão de que eles são "grandes artistas". Mas mesmo seus maiores sucessos não sobrevivem mais que um verão ou, quando muito, uns poucos sucessos são "institucionalizados" pela mídia, mediante interesses comerciais estratégicos, como "É o Amor", da dupla breganeja Zezé di Camargo & Luciano.

Num país com pouco hábito para ouvir música fora do contexto de fundo musical de qualquer atividade ou sob a "ajuda" de bebidas e outras "coisas", as pessoas pouco percebem a situação. Mas, numa atenção mais cuidadosa, veremos que atualmente faltam grandes artistas de MPB que juntem visibilidade, talento e popularidade.

O que existe, na verdade, são ídolos empresariados que apenas fazem um arremedo de música brasileira, com forte apelo brega-popularesco, e que apenas são moldados de forma tendenciosa para se manterem na mídia e no sucesso. Tudo comercialismo.

terça-feira, 18 de março de 2014

GRANDE MÍDIA TENTA DAR A FALSA IMPRESSÃO DE QUE SER BREGA É SER CRIATIVO


Por Alexandre Figueiredo

No último Carnaval, os barões da mídia tentam, através de seus porta-vozes, tentam dar a falsa impressão de que a bregalização cultural garante maior liberdade e maior criatividade para seu público.

Misturam-se ironias, caricaturas, expressões do grotesco e do piegas, e essa "saudável mistura" e sua "admirável confusão" se configura numa "cultura transbrasileira", dita "hiperconectada", "moderna" e "sintonizada com o futuro e com a extensão de nosso mundo".

Só que esse discurso, trabalhado com muita insistência pela intelectualidade "bacaninha", tem muito mais a ver com os princípios de "livre mercado" do que de diversidade cultural. O "livre mercado" dos brasileiros serem tudo o que querem ser, desde que não sejam eles próprios.

Pouco adianta o verniz progressista. Afinal, que diferença faz Pedro Alexandre Sanches sonhar com as ruas de Belém do Pará transformadas em arremedos de Nova York, e Rodrigo Constantino sonhar com as periferias de São Paulo parecendo roças bucólicas da Áustria? É tudo "transbrasileiro", uai!

Que criatividade tem um jovem juntar um amontoado de coisas que lhe vêm à mente, produzindo apenas uma colcha de retalhos que nada acrescenta à nossa cultura? São as mesmas irreverências, as mesmas misturas, tudo é um mesmo ecletismo que chega a não ser mais eclético nem diversificado, mas uma mesmice eclética que, mesmo assim, é mesmice do mesmo jeito.

Qual a diferença entre Felipe Cordeiro e seu Kitsch Pop Cult com Vivendo do Ócio, Banda Uó e Gang do Eletro? Todos com quartos desarrumados, misturando discos de vinil, rodas de bicicleta, revistas de quadrinhos, revistas de sacanagem, pôsteres de desenhos animados, e um vestuário confuso que mistura bermudas de surfista com velhos paletós comprados em brechós, ou saias muito mal combinadas com tênis All Star de canos longos.

Tudo é apenas uma questão de overdose de informação, um problema que não é discutido no Brasil. Milton Santos até tentou contestá-lo, mas ele morreu sem ser devidamente ouvido, sequer pela intelectualidade. Já Noam Chomsky e Umberto Eco continuam questionando lá fora, mas isso não reflete por aqui.

Por isso overdose de informação aqui é visto como algo maravilhoso, nessa "cultura transbrasileira" que mais parece um misto de Disneylândia com McLanche Feliz. Tudo "transbrasileiro". Todos podem ser tudo, só estão proibidos de serem eles mesmos, porque aí fica "menos provocativo". Essa é a regra do Brasilzinho bregalizado.

segunda-feira, 17 de março de 2014

LOBÃO E SEU UNIVERSO PARALELO

LOBÃO E OLAVO DE CARVALHO - Para um roqueiro que achava Patrick Moraz antiquado, aderir a um escritor medieval soa muito estranho.

Por Alexandre Figueiredo

1977-1982: O jovem João Luiz Woerdenbag Filho, que recebeu o apelido de Lobão por causa do macacão jeans de uma só alça, tal qual o personagem de história em quadrinhos, era o membro caçula do conjunto Vímana, lendária banda de rock carioca dos anos 70.

Ele tocava bateria, estudava violão clássico e tinha como parceiros o cantor Ritchie e o guitarrista Lulu Santos, figuras muitíssimo conhecidas, além do relativamente pouco conhecido Fernando Gama, um dos membros do Boca Livre, e Luiz Paulo Simas, desconhecido mas autor da popular vinheta da Rede Globo de Televisão, o "plim-plim" (embora sonoramente estivesse mais para "pló-pló").

A banda estava indecisa entre fazer um som de rock básico da linha dos Rolling Stones e o som progressivo da linha do Yes. Com um LP gravado e nunca lançado e poucas apresentações, o grupo se extinguiu precocemente para se tornar banda de apoio de Patrick Moraz.

Só que essa experiência nunca chegou a se realizar, pois foi abortada por causa dos ensaios tensos, intermináveis e conflituosos. Moraz, por exemplo, não gostava de Lulu Santos e queria substitui-lo por outro músico. E Lobão, já conhecendo as novidades pós-punk de 1978, ainda se envolveu amorosamente com a esposa do músico suíço, chegando a ter um breve casamento com ela.

Passados os anos, Lobão, a exemplo de Lulu e Ritchie, passaram por um curso intensivo de música pop e passaram, cada um à sua maneira, a fazer canções básicas e assobiáveis de três minutos. Lobão era o mais visceral e "cru", pois queria fazer um som mais roqueiro. Os outros dois passaram a ser conhecidos por músicas acessíveis como "Como Uma Onda" e "Menina Veneno", até hoje populares.

Lobão começou sua trajetória sob as bênçãos da Rádio Fluminense FM, que lançou em primeira mão o disco Cena de Cinema, de 1982. Já nessa época o roqueiro carioca mostrava ser uma figura difícil, e não tardou ele virar desafeto de outra banda lançada pela emissora niteroiense, Os Paralamas do Sucesso, que Lobão acusava "pegar carona" na sua obra.

Afinal, coincidência ou não, os Paralamas vieram com Cinena Mudo depois que Lobão lançou Cena de Cinema. Em seguida, gravaram a música "Me Liga" depois que Lobão lançou "Me Chama". O próprio estilo alegre e praiano dos Paralamas também não era do agrado do ex-baterista do Vímana.

Lobão já teve seus momentos progressistas, e foi um batalhador contra os abusos da indústria fonográfica. Encorajou a venda de discos nas bancas de jornais, e, mesmo com alguns senões - como o apoio a Mr. Catra e Amado Batista, dois ídolos brega-popularescos - , ainda lutava contra a mediocridade cultural brasileira.

Mas, nos últimos anos, Lobão surtou. Tornou-se um direitista ferrenho, o que, para seu jeito de roqueiro rebelde, se encaixa no atual contexto do "cidadão revoltado", estereótipo que a direita trabalha nos últimos anos para voltar ao poderio político.

De repente, Lobão passou a cortejar até mesmo Olavo de Carvalho, numa atitude mais surpreendente ainda do que o casseta Marcelo Madureira cortejar Diogo Mainardi. O que um roqueiro que achava Patrick Moraz demodê faz sendo amigo e entrevistador apaixonado de um escritor de ideias medievais é algo que não dá para entender.

É verdade que, volta e meia, aparece gente neocon aqui e lá fora. Nos EUA, o roqueiro Ted Nugent é uma espécie de Tea Party com roupagem hard rock. Armamentista como o falecido Charlton Heston - que, como Moisés, só faltou soltar a espingarda para atirar nos pagãos - , Nugent também é um entusiasta defensor do Partido Republicano e seus ideais reacionários.

Lobão é um caso a refletir no nosso país. Ele é adorado por uma geração de neo-conservadores, os que vão, daqui a alguns dias, ir para a "Marcha da Família" em São Paulo pedir um novo golpe militar para o país, pela imagem de rebeldia que ele empresta à direita reacionária.

Isso é algo que não era pensável há 50 anos. Naqueles tempos, os neocons eram escritores da geração de 1945, jornalistas moderados ou astros da televisão. Mas eles não tinham algum aspecto ultramoderno ou avançado na personalidade, mesmo os arroubos modernistas - que haviam tomado um Plínio Salgado em 1922, ele que já era direitista em 1964 - eram lembranças de passado juvenil.

Mas Lobão, com seus 57 anos, mas afiado na sua retórica de roqueiro rebelde - com um quê de autêntica, tamanha a visceralidade de seu comportamento - , preocupa diante de um cenário que envolve direitistas raivosos e esquerdistas frouxos, estes tomado pela influência de uma centro-direita acanhada que tenta um vínculo "definitivo" e "permanente" com as forças esquerdistas.

Lobão vive um universo paralelo para o qual só o seu reacionarismo é a verdadeira rebeldia. Talvez ele disputasse com os ouvintes da 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ) no quesito reacionarismo "roqueiro", sobretudo pelo aspecto surreal dele agora querer processar o igualmente neocon CQC, por causa de uma brincadeira que acusou o músico de ter se rendido a Mano Brown, dos Racionais MC's.

Para Lobão, a liberdade de expressão só serve para ele e seus colegas, enquanto, por outro lado, ele quer censurar o que não lhe agrada. Lobão não gostou da brincadeira, que nem tinha de muito grave assim, e processou o humorístico da Band, proibindo-o de veicular qualquer coisa relacionada ao roqueiro carioca, hoje radicado em São Paulo.

Por isso é que uma figura dessas preocupa, porque simboliza o pensamento golpista num verniz claramente rebelde, uma "paudurecência" direitista que se contrapõe à "paumolecência" esquerdista que podem pôr a luta pelos progressos e conquistas sociais a perder.

As novas pressões da direita brasileira são uma ameaça à democracia brasileira. Não a "democracia" que os direitistas defendem, mais uma desculpa para pregar seus ideais privatistas, mas aquela que se contrói com justiça social, liberdade e cidadania autênticas. Se houver mais uma ditadura militar, o Brasil, que já sofreu um colapso com a ditadura de 1964-1985, poderá ir à falência.
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