quarta-feira, 14 de maio de 2014

SOLTEIRICE, MACHISMO E "HIGIENIZAÇÃO" SOCIAL


Por Alexandre Figueiredo

O grande contraste que tem entre a elite de musas da televisão, em sua maioria em relações conjugais estáveis, e as consideradas "populares", que se projetam num aparente celibato, nos faz a pensar no que é a visão de vida conjugal desejada pela "indústria cultural" de nosso país.

A serviço de grandes empresas, sobretudo multinacionais, e de elites brasileiras que vão dos barões da grande mídia, nacionais e regionais, aos latifundiários, a "indústria cultural" cria modelos de "cultura popular" que não podem ferir os interesses dominantes, mesmo que apelem para ativismos tidos como "revolucionários", porém no fundo bastante inofensivos.

E isso influi até mesmo no padrão que a "cultura de massa" trabalha da "mulher solteira". O estereótipo da solteira brasileira não pode estar associado a uma mulher que aproveita a vida para ampliar conhecimentos e viver sem estrelismos ou apelações, e de preferência deva ser representado por mulheres que já expressam valores machistas por conta própria.

Sim, porque o status quo determina que as mulheres não escapem muito dos valores machistas. Se a mulher é bem instruída, tem opiniões consistentes e não depende de ser objeto sexual para vencer na vida, ela precisa ter sua "independência" regulada por um marido influente, geralmente um empresário, executivo ou profissional liberal (médico, advogado, engenheiro, economista etc).

Se a mulher, no entanto, se projeta na sua imagem de objeto sexual, pouco importando os arremedos de ativismo social que desempenha - como defender a causa LGBT ou protestar contra atos de apologia ao estupro - , ela já presta serviço aos valores machistas, o suficiente para deixar de viver à sombra de um homem.

Em outras palavras, a mulher brasileira é aconselhada pelo status quo a viver sob a sombra do machismo. Se ela não se submete sequer ao machismo mais cordial, buscando o máximo de independência pessoal possível, ela precisa ser "regulada" pela figura de um marido importante, que em tese "patrocinaria" a emancipação sócio-econômica de sua mulher.

Isso cria momentos constrangedores. Como, por exemplo, as gafes cometidas pela jornalista Ticiana Villas-Boas, da TV Bandeirantes. Alguém imaginaria que ela teria dito o que disse se não tivesse se casado com o empresário Joesley Batista, da Friboi? Se optasse pela solteirice, talvez ela tivesse uma trajetória bem mais realista e mais "pé no chão".

Por outro lado, as chamadas "musas populares" já seguem, simbolicamente, o receituário machista, elas não precisam se projetar sob a sombra de um homem porque elas já fazem, sozinhas, o que os machistas querem. Pouco importa se esse machismo de glúteos siliconados é travestido do "feminismo mais corajoso", o receituário machista é cumprido de forma exemplar, de alguma forma.

VIDAS AMOROSAS

Atrizes e jornalistas de tevê, em sua grande maioria, são geralmente comprometidas e só a elas cabe a mídia trabalhar a imagem da felicidade conjugal. É só comparar as famosas mais prestigiadas entre as elites com as famosas que se destacam no âmbito do "popular" que se nota a diferença.

Enquanto as "musas populares" se queixam das cobranças da vida amorosa, seu discurso porém revela o inverso, oculto nas palavras nervosas de uma solteirice forçosamente desesperada. Na verdade, o problema não é elas serem cobradas para ter algum namorado ou marido, mas simplesmente serem impedidas de tê-los.

A própria imagem ideológica cria um contraste. Só dois exemplos, o da atriz Bianca Rinaldi, estrela da novela Em Família, da Rede Globo, e da sub-celebridade convertida a dublê de apresentadora, modelo e atriz Geisy Arruda, que há cinco anos montou um factoide numa universidade particular paulista.

Casada com um homem bem mais velho e com fortes divergências de personalidade (é um empresário sisudo), a ex-paquita Bianca, de aparência jovial para seus 40 anos, define seu marido, de 61 anos, como "um grande companheiro", numa alusão ao cuidado dele com as filhas e como uma demonstração às relações estáveis que seu contexto estimula efetivar.

Já Geisy Arruda, grávida do ex-jogador e empresário Ricardo de Souza, afirma que está solteira e sem namorado, já que rompeu com o pai de sua criança porque "brigava muito" com ele. O contexto "popular" revela uma facilidade fora do comum de mulheres situadas neste contexto dissolverem relações de namoro ou casamento diante da menor divergência.

No âmbito popularesco, a figura do homem é trabalhada de forma bastante negativa, tanto que as "musas" chegam a se irritarem quando alguém lhes aconselha se casarem com alguém. Tentam se autoafirmarem com uma solteirice masoquista, num contraditório sentimento de carência amorosa e conformação com a solidão.

"HIGIENIZAÇÃO"

Por que é que ocorre isso? Por que, por mais que figuras da elite de musas, com relativo apelo popular  como Juliana Paes e Giovanna Antonelli estejam casadas, as chamadas "musas populares" insistem em ficarem sozinhas, mesmo quando a fama e o prestígio poderia lher render mais proveito na companhia de homens?

O que acontece é que, como as "musas populares" estão a serviço de um modelo conservador de "cultura popular", feito para evitar qualquer ameaça aos interesses das classes dirigentes, elas também se servem a um modelo de vida que visa sobretudo evitar o desenvolvimento de famílias conjugais estáveis nas classes pobres e, evitar assim, a solidariedade e a união nas mobilização popular.

Por isso é que, quando a famosa simboliza os interesses das classes mais abastadas, seu marido, podendo ser mais velho e mais sisudo, é "companheiro", mas se a famosa simboliza o universo das classes populares, pode ser até o namorado considerado "alma gêmea", que a relação se dissolve e o homem acaba com a reputação arranhada.

É como se o dinheiro fosse um fator para unir os casais. Pouco importa se o amor se exerce melhor nas classes populares do que nas classes ricas. A grande mídia não gosta de casais afins. Na Bahia, cuja mídia é herdeira do coronelismo de Antônio Carlos Magalhães, as moças pobres são "aconselhadas" a rejeitar pretendentes que apenas gostam de se divertir jogando bola na praia.

Na alta sociedade, casais sem afinidade ficam mais tempo casados do que os casais afins nas classes populares. E esse processo, além de regular o machismo em todas as classes sociais, representa um potencial e sutil processo de "limpeza social" nas classes populares.

ÓRFÃO DE PAI VIVO

Daí a ênfase das "solteiras" entre as ditas "musas populares". Mulheres que, contraditoriamente, reclamam da falta de um grande amor mas se julgam "felizes" na solidão. Elas representam o "ideal de vida", o "modelo" a ser seguido pelas jovens pobres, daí a atitude estratégica da mídia, pouco importando se a solteirice das "musas" é verdadeira ou falsa, mas sempre tem que ser aparente.

Isso desestimula, nas classes populares, a busca de casais afins. Famosas se autopromovem como mães solteiras ou separadas, a ponto de jovens pobres sacrificarem até mesmo as limitações econômicas para formar famílias de vários filhos sem a proteção do marido, e com uma sobrecarga de trabalho que as impede de desenvolver afeto e carinho com os próprios filhos.

A figura do "pai" acaba sendo precariamente exercida seja pela mãe da jovem, avó dos filhos desta, ou então do mais velho dos filhos masculinos da garota, muitas vezes mãe na adolescência. E os filhos crescem ou até mesmo nascem sendo órfãos de pai vivo, sem o convívio e a proteção da figura do pai.

Com isso, a desestruturação familiar, agravada pela pobreza, cria jovens revoltados, homens grotescos que depois vão fazer a má reputação na grande mídia, em relações forçadamente rompidas com suas namoradas, as "musas" do momento. As próprias mães, sem maridos e com mais trabalho e menos dinheiro, acabam, estressadas, também agredindo seus próprios filhos.

A intelectualidade dominante - aquela mais "bacaninha" e cheia de "coisas legais" para contar - , "sem preconceitos" mas muito preconceituosa, reforça essa visão "higienista", para a qual casais afins só podem existir nas classes abastadas.

Na pobreza, o "ideal" é forçar a solteirice, as famílias matriarcais sem recursos financeiros, em que crianças órfãs do pai vivo são jogadas, sem receber a afeição constante de uma mãe sobrecarregada nos trabalhos, ao emprego precoce e precário, numa infância difícil, dramática e estressante que cobrará o preço na vida adulta, com homens violentos ou ingênuos e mulheres batalhando acima de suas próprias condições e limitações.

Além disso, sem a solidariedade familiar ensinadas pela união de pais e mães a seus filhos, as classes pobres não têm o referencial exato de solidariedade social necessário para a união de seus indivíduos para reivindicarem mudanças sociais a eles benéficas, mas que ameaçam os interesses das classes dominantes.

A desestruturação dos lares cria um misto de revolta e conformismo, no vazio de valores sócio-culturais, que impede que a mobilização social popular ocorra de forma mais ampliada. Tudo isso começando com o desestímulo do poder midiático ao companheirismo de maridos e esposas, estabelecendo uma "rivalidade" simbólica entre homens e mulheres no povo pobre.

Daí o lado grave do "sonho maravilhoso" das "solteiras populares". Daí o lado cruel e sombrio. A grande mídia, com essa "liberdade", promove a desestruturação familiar que gerará um desequilíbrio social que irá repetir os mesmos dramas e violências vividos pelas classes pobres, e que também resultam nas numerosas tragédias que dizimam a população pobre em proporções bélicas.

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