quinta-feira, 22 de maio de 2014

"O RÉU E O REI" NO PAÍS DO "BEIJINHO NO OMBRO"


Por Alexandre Figueiredo

O projeto de lei que permite a publicação de biografias não-autorizadas já teve sua aprovação feita na Câmara Federal, mas ainda depende da aprovação do Senado para receber a sanção presidencial. Mas, antes disso acontecer, um livro foi lançado para relatar o caso de um processo que inspirou os debates sobre o assunto.

É o livro O Réu e o Rei, escrito pelo historiador Paulo César de Araújo que descreve o que o autor sofreu durante todo o processo de pesquisa e entrevistas para seu livro Roberto Carlos em Detalhes e o processo que o cantor capixaba moveu para banir a comercialização da obra. O empresário do cantor, Dody Sirena, já estuda meios de impedir também a venda de O Réu e o Rei.

Roberto, através de seus advogados, alegou que Paulo César escreveu uma biografia do cantor e compositor sem autorização do mesmo, daí a ação na Justiça para recolher os exemplares e proibir a comercialização.

O caso gerou uma polêmica que favoreceu Araújo, criando uma animosidade entre a geração intelectual em que ele se inclui - ao lado de Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Eduardo Nunomura, Denise Garcia, entre outros - e a geração dos anos 60 de Roberto Carlos ao lado de tropicalistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil e pós-bossanovistas como Chico Buarque.

Paulo César Araújo é meio vítima, meio marqueteiro. Um tanto injustiçado, é verdade, porque afirmou ter procurado o "Rei" para dar uma entrevista e o cantor nunca esteve à sua disposição. Com base em entrevistas de outros artistas, ele construiu a memória biográfia do cantor capixaba, mas este não gostou da menção de "certos fatos" e decidiu proibir a comercialização do livro.

Por outro lado, porém, Paulo César se autopromove com isso. Sem receber o merecido crédito do seu livro anterior, Eu Não Sou Cachorro Não, por causa de uma tese surreal de que o brega "causava horror" à ditadura militar, só repercutindo bem na intelectualidade "bacana" mas sem conseguir reabilitar os ídolos cafonas, o autor foi capitalizar em cima do processo de Roberto contra ele.

Mas o próprio Paulo César Araújo também pode ter tido seus momentos de Roberto Carlos. Há uma suspeita de que Araújo criou um lobby, junto à atriz Patrícia Pillar, estrela da Globo e diretora e escritora de biografias (cinema e livro) de Waldick Soriano, para vetar a permanência de um vídeo em que o ídolo brega elogiava a ditadura militar e reafirmava seu machismo. É apenas uma suspeita, mas há indícios de que o motivo do sumiço do vídeo seja este.

Isso porque, para combater a "velha e cansada" MPB, a intelectualidade "bacana" defende a publicação de biografias não-autorizadas. Mas, em relação ao brega, a situação é tão problemática - levando em conta a influência que a mídia sensacionalista tem no Brasil - que os ídolos quase sempre adotaram uma postura de abstenção, não declarando contra ou a favor de biografias não-autorizadas.

O que está por trás dessa polêmica - agravada pelo movimento Procure Saber, organizado pela empresária Paula Lavigne junto a medalhões da MPB - é a campanha que os intelectuais de hoje fazem para derrubar a geração 60 da música brasileira, superestimando seus erros.

Querendo extinguir a MPB e transformar a supremacia da breguice cultural numa tendência totalitária, a intelectualidade quer depreciar a MPB mais sofisticada de tal forma que ela só será revalorizada nas mãos de nomes como Michael Sullivan, o ídolo brega que zela pela MPB como uma raposa cuida de um galinheiro.

LEMBRA 1964

É certo que Roberto Carlos é conservador, defendeu a ditadura militar, zela demais pela sua imagem e causou polêmica até em comercial de carne. Mas é bom deixar claro que Roberto, já em aventuras conservadoras e pós-1975, abriu as portas para o brega e nomes como Odair José, José Augusto, Michael Sullivan, Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó nada seriam se não fosse o "Rei".

Muito da supremacia brega que a intelectualidade "bacaninha" defende se deve a Roberto Carlos já como contratado da Globo e a um Caetano Veloso já narcisista e aliado do "Rei", portanto não há como escapar e defender a bregalização cultural como se fosse uma guerrilha revolucionária.

A intelectualidade "bacana", festiva e bobo-alegre, até tentou trocar o nome da sigla VPR, de Vanguarda Popular Revolucionária para Valesca Popozuda Rebolando, animada com a definição da funqueira como "filósofa" e bagunçando com os contextos ativistas e educacionais com atos "provocativos" que inspiraram outro grupo "funk" e ser jogado num evento sobre Josephine Baker.

É o país do "beijinho no ombro", do "lepo-lepo", da idiotização cultural glamourizada por um poderoso lobby intelectual, que se julga "independente" mas está a serviço, informal, dos barões da grande mídia e dos grandes senhores do entretenimento.

Eles querem derrubar a MPB autêntica para colocar o brega no lugar. Se alguém quiser resgatar a fase sofisticada da MPB, que recorra a Michael Sullivan, o "Rei do Jabá", que quis destruir a MPB nos anos 80. Seria constrangedor ver Michael Sullivan sobrando para cantar, junto a seus capangas, canções como "Wave", de Tom Jobim, e "Arrastão", de Edu Lobo.

Isso lembra o golpe de 1964. Assim como os militares e a extrema-direita civil derrubaram o estancieiro João Goulart, solidário com as classes populares, querem derrubar Chico Buarque, o "coronel da Fazenda Modelo", solidário com a cultura do povo pobre.

A "reforma agrária" da antiga UDN, com melhores meios de indenização possíveis para os latifundiários que perdem suas propriedades, tem exata analogia à "reforma agrária na MPB", dando apoio e dinheiro para a bregalização patrocinada pelo coronelismo radiofônico e pelos próprios latifundiários.

O grande problema é que a intelectualidade "bacana" adota uma postura falsamente progressista, e em certos casos chega a influenciar as esquerdas médias a pensar como elas, criando situações constrangedoras. Se bem que nenhum desses intelectuais pró-brega ousou protestar quando blogues como este apontaram vínculos indiretos com o baronato midiático.

E assim os intelectuais "mais legais" fazem a escalada do jabaculê rumo ao monopólio absoluto na música brasileira. Derrubar uma MPB que raciocine, que tenha atitude, que seja sincera e faça música de qualidade, é a meta da intelligentzia. Tudo para colocar no lugar ídolos mais submissos às leis do mercado, por mais que num momento ou em outro, posem de ativistas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...