quinta-feira, 8 de maio de 2014

O GOLPISMO FESTIVO PARA TURISTA VER (E SOFRER)


Por Alexandre Figueiredo

Virou uma coisa séria. De repente, aqueles símbolos de tudo que foi negativo no começo da década de 1990 foram facilmente reabilitados, transformados em exemplo de suposta integridade, de pretenso idealismo e alvo até mesmo de surtos saudosistas orquestrados por elites simpatizantes na Internet.

Tudo que era sinônimo de jabaculê, fisiologismo político e tendenciosismo midiático, descontando aquelas expressões claramente reacionárias, passou a ser defendido até mesmo sob o pretexto da "modernidade progressista", mesmo quando pessoas não medem escrúpulos para defender até mesmo alguns "filhotes da ditadura".

É o caso de Jaime Lerner, Fernando Collor e, no contexto regional da Bahia, o pseudo-radialista Mário Kertèsz. Todos "filhotes da ditadura", anti-janguistas convictos na juventude, todos prefeitos biônicos (nomeados pelos generais da ditadura) e envolvidos em corrupção e demagogia.

No entanto, todos eles tiveram algum jeito, um jogo de cintura e uma multidão de incautos defensores - alguns infelizmente alinhados à esquerda, para alegria maior dos Azevedos, Constantinos e Sheherazades de plantão - e sorte suficiente para sobreviverem quase incólumes às transformações do país e aos avanços práticos da redemocratização.

Jaime Lerner e seus horríveis ônibus padronizados e seu "futurismo urbanista" digno dos tempos do "milagre brasileiro", em que uma visão de "progresso" ainda segue uma orientação retrógrada de derrubar áreas ambientais, casas populares e, se deixarem, até patrimônios históricos tombados, virou o paradigma "atual" de sistema de ônibus e de mobilidade a serem adotados nas capitais brasileiras.

Acusado de improbidade administrativa, Lerner acionou uma habilidosa equipe de advogados que, se aproveitando de brechas na lei, sair "limpo" na Justiça. Graças a isso, ele pôde colocar debaixo do tapete seu histórico de político privatista doente, que governa contra as classes trabalhadoras, que atropela a lei quando quer e não passa de um tecnocrata antiquado dos tempos do governo Médici.

Fernando Collor também se livrou de acusações de corrupção na Justiça. Ele agora posa de injustiçado e se beneficia com a imagem "duas caras" que atualmente se trabalha em relação a ele, como se o ex-presidente fosse uma pessoa completamente diferente do atual senador, mesmo sendo uma só pessoa.

Sim, porque certos cronistas políticos chegam mesmo a descrever negativamente a trajetória do ex-presidente como demagogo "fabricado" pela Folha e pela Veja e depois "popularizado" pela Rede Globo, que confiscou as poupanças dos brasileiros, quis até privatizar as Universidades federais e se envolveu num esquema de corrupção "coordenado" pelo empresário Paulo César Farias.

Para piorar, o tesoureiro de campanha de Fernando Collor e, dizem, o verdadeiro beneficiário dos depósitos financeiros dos brasileiros, foi assassinado misteriosamente em 1996 com sua então namorada, em clara intenção de "queima de arquivo". Com PC, morreram com ele informações preciosas que esclareceriam melhor a corrupção durante o governo Collor.

Nem mesmo Jânio Quadros, de um esquisito e breve governo presidencial de 1961, constantemente comparado a Collor (que seria uma versão yuppie de Jânio) e, ironicamente, falecido durante o governo do "caçador de marajás", teve uma reabilitação política tão grande, se limitando a seguir carreira, até os anos 80, como um discreto e relativamente eficaz político conservador.

Na Bahia, Mário Kertèsz, o engenheiro apadrinhado por Antônio Carlos Magalhães, virou dublê de radiojornalista, quis "comprar" para si o apoio de socialites e socialistas, bancou o "dono das esquerdas" e quis castrar as mídias progressistas vinculando-as à sua imagem. E todo mundo acreditando nele até Kertèsz soltar surtos reacionários de fazer Reinaldo Azevedo ficar boquiaberto.

Mas isso não fica somente na política, em que se reabilita políticos "fabricados" pela ARENA e, "navegando" no fisiologismo político, "compram" espaços progressistas para empastelá-los e deles obterem vantagens pessoais e tentarem vincular as transformações do país à sua imagem. Também a coisa não para em projetos resgatados da ditadura, como a Hidrelétrica de Belo Monte.

A coisa vai além. No âmbito cultural, vemos a reabilitação, mais fácil do que furtar pirulito de criança pequena, de Michael Sullivan, uma figura que tantou transformar a música brasileira num engodo comercial americanizado, e que agora foi promovido a "ícone máximo" da "boa sofisticação" e do "bom zelo" às verdadeiras expressões da MPB.

Isso é rir da cara do cidadão brasileiro. As elites "bacaninhas", que se julgam entender de "cultura popular" - sua compreensão, porém, não é diferente da de um gerente de motel de rodovia, por exemplo - fica até feliz em ver Michael Sullivan aparecendo ao lado até de Sérgio Ricardo, o contundente músico que fez a trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Gláuber Rocha.

As pessoas ficam felizes neste caso sem saber a armadilha que está por trás. Se Michael Sullivan era capaz de domesticar artistas de MPB, que respeito ele teria com a obra do sofisticado e engajado Sérgio Ricardo? Sob sua batuta, Sérgio teria que moldar sua música para letras debilmente inofensivas e com elementos musicais americanizados tirados talvez de Lionel Richie e Bee Gees.

Mas a reabilitação atinge também os "filhos" artísticos de Michael Sullivan, como os sambregas Só Pra Contrariar, Raça Negra e Grupo Molejo, que, a exemplo dos roqueiros fajutos do poser metal dos EUA, agora foram promovidos tendenciosamente pela grande mídia e pelo mercado como "música de verdade". Falsos roqueiros e falsos sambistas agora são tidos como "modernos", em vez de fajutos.

Grupos e cantores que mal traduziam as influências de Odair José e Waldick Soriano a instrumentos sambistas mal tocados, gente que não sabe a diferença entre jongo e caxambu, entre samba-de-roda e samba de gafieira, agora é tida como "samba moderno" e, pasmem, guia do samba do futuro.

O próprio "funk", que em 1990 não passava de uma tolice que parodiava o andamento de cantigas de roda, agora está sendo levado a sério até demais, sobretudo por uma intelectualidade de centro-esquerda que associa ao inócuo ritmo referenciais ausentes nele como ideias modernistas, ativismo social e revoluções comportamentais.

Isso criou um lobby tão poderoso que faz com que o "funk" volta e meia venha com algum factoide e algum fato ou fator oportunista. Criam-se "ousadias" calculadas e tendenciosas como chamar funqueira de "pensadora" numa questão escolar e colocar um grupo funqueiro para abrir uma exposição de fotografias num museu tido para ser conceituado.

De repente, temos que lidar com a mediocridade crescente que avassala o país, que já tem dificuldades de lutar por justiça social e qualidade de vida e ainda tem que enfrentar pessoas "bacanas" e instituições "transparentes" que reabilitam políticos corruptos oriundos da ditadura, produtores musicais perversos e músicos medíocres artisticamente constrangedores.

Tudo isso ocorre porque os reabilitados, longe de representarem alguma causa realmente progressista ou alguma promessa de verdadeiro desenvolvimento sócio-cultural, só prevalecem por causa de um relativo sucesso econômico ou administrativo. São apenas peças influentes para um projeto que envolve urbanismo, política, mídia, cultura, turismo e economia que agrada determinadas elites.

Só que eles acabam representando, também, um golpismo festivo, feito para turista ver e sofrer, seja se confundindo diante de diferentes empresas de ônibus que são forçadas a exibir a mesma pintura, seja aturando canções ruins e covers pessimamente arranjadas de ídolos neo-bregas "resgatados" para o mercado para alimentar os faturamentos de casas noturnas e "viradas culturais".

Esses reabilitados não promoverão o progresso social. Apenas mostrarão sua "simpática" demagogia, tentando se vincular aos novos tempos e às transformações sociais vividas pelo país não para se adaptarem a elas, mas para minimizar seus efeitos através desse vínculo oportunista e tendencioso. Tudo em nome de um Brasil plastificado a ser exibido na Copa, no próximo mês.

E assim, eles apenas promoverão o enriquecimento das elites envolvidas, só farão mover a roda financeira que envolve políticos, empresários, tecnocratas, jornalistas, músicos e intelectuais que acreditam não num Brasil mais justo, mas num Brasil financeiramente viável para eles e seus beneficiários. O povo que aceite e que fique esperando pelas migalhas do fim desta festa.

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