quinta-feira, 8 de maio de 2014

JAIR RODRIGUES E A VELHICE DA MPB AUTÊNTICA


Por Alexandre Figueiredo

Já escrevemos que a MPB autêntica está ficando velha, que seus artistas, que um dia eram jovens que provocaram uma revolução cultural formidável nos anos 60 e 70, já estão na terceira idade e alguns deles já estão morrendo, deixando a música brasileira órfã.

Hoje se foi mais um. Jair Rodrigues até resistiu, chegando aos 75 anos, mas hoje foi se juntar a Elis Regina e Wilson Simonal, seus amigos e "irmãos" artísticos, cujos filhos também formaram um grupo bem articulado e coeso.

O súbito falecimento de Jair Rodrigues se equipara ao do ator José Wilker, tanto pela relevância histórica quanto pela jovialidade que ambos mantiveram até o fim da vida. Embora Jair praticamente estivesse gravando discos recentes de revival de sua carreira, ele tornou-se subestimado até pelo que ele pôde fazer para a MPB.

Pois se a MPB moderna se projetou e as gerações 60 e 70 apareceram e cresceram, Jair Rodrigues é um dos maiores responsáveis por isso. Foi ele que se apresentou, com Elis Regina, o programa O Fino da Bossa, um dos espaços estratégicos de expressão, em pleno início da ditadura, de cantores e músicos que estabeleceram as diretrizes contemporâneas da MPB autêntica.

Era a época em que, devido ao arbítrio militar e à intensa repressão que os generais promoveram logo após a queda do governo João Goulart, os outrora divergentes segmentos da música brasileira, os sofisticados da Bossa Nova e os engajados da música de raiz dos CPCs da UNE, se fundiram criando os elementos musicais, artísticos e expressivos que os brasileiros conhecem até hoje.

Jair também foi um dos que impulsionaram o sambalanço à sua maneira, antecipando o rap brasileiro através da música "Deixa Isso Pra Lá", de 1964. E se projetou para o mundo vencendo, no Festival da Canção em 1966, com a contundente canção "Disparada", de Geraldo Vandré, cuja letra relata a opressão do latifúndio e a emancipação do trabalhador rural.

Jair compôs pouco, sendo mais intérprete de outros compositores. E, juntando talento e comportamento, ele estava numa das "pontas" entre os dois cantores que influenciaram Wilson Simonal, já que este conseguiu unir, a seu modo, a jovialidade moleque de Jair com a empostação sofisticada de Agostinho dos Santos. Todos os três, distintos talentos de reconhecido valor.

É verdade que Jair Rodrigues passou a fazer parte de uma ala da MPB autêntica que, mesmo de grandioso talento, é aceita pela intelectualidade "bacana" por não adotar uma postura de confronto com a bregalização. Nos anos 80, Jair aceitou gravar um dueto com os canastrões breganejos Chitãozinho & Xororó, na música "Sua Majestade o Sabiá", da também breganeja Roberta Miranda.

No entanto, Jair, até pela sua experiência nos discos dos anos 60 e 70 e nas relações que teve com diversos artistas brasileiros, até mesmo como divulgador, vale por uma contribuição ímpar, numa época em que a MPB vive uma situação bastante delicada.

Afinal, é preocupante que a MPB autêntica viva de homenagens e tributos, como se ela não fosse mais uma música presente no nosso cotidiano. E é igualmente preocupante o desinteresse das gerações mais recentes à MPB autêntica, que só aceitam quando é possível inserir nela algum vínculo, por mais patético que seja, dos ídolos bregas que a rapaziada consome hoje em dia.

Por isso Jair Rodrigues se soma a muitos mestres da MPB autêntica - que valiam não necessariamente por lotar plateias com facilidade, mas por oferecer talento e competência - que se foram, deixando órfã a música brasileira de qualidade. Órfã e quase acéfala.

Afinal, a MPB não se salvará na cena atual, com ídolos cada vez mais patéticos, nem com a tardia, tendenciosa, oportunista e pouco competente adesão de neo-bregas dos anos 90, que apenas copiam fórmulas da boa MPB em trabalhos burocráticos, "corretos" mas superficiais.

A morte de Jair, como a de Emílio Santiago e Dominguinhos tempos atrás, soam como um grande alerta para o fato de que a boa música brasileira está ficando velha, o que requer um rompimento com a breguice dominante que se tornou até um vandalismo cultural, com a mania de "provocação" de vários "artistas" e "produtores" de quinta categoria.

Convém resgatarmos a MPB autêntica na sua essência e na sua verdade artística. Antes que ela desapareça de vez, sob homenagens e tributos que soam antecipadamente fúnebres.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...