sexta-feira, 16 de maio de 2014

"INDÚSTRIA CULTURAL" CRIA FALSO MANIQUEÍSMO ENTRE "FUNK" E O POP-ROCK


Por Alexandre Figueiredo

Nota-se, na sociedade influenciada pela chamada "indústria cultural", a formação de um falso maniqueísmo que polariza forças pseudo-progressistas com outras abertamente reacionárias, num suposto conflito de classes que não apresenta real ameaça ao status quo.

Esse "teatro dos conflitos" se expressa, de um lado, entre o populismo marcado pela bregalização cultural, ancorada sobretudo no "funk", e, de outro, de um neo-conservadorismo de verniz rebelde marcado pela domesticação da cultura rock pelas emissoras 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ).

Na tentativa de evitar as revoltas sociais - algo que vem se demonstrando pouco eficiente, vide as diversas tensões sociais que vivemos - , a mídia conservadora, ainda desde o auge da ditadura militar, se empenhou em promover a domesticação sócio-cultural tanto de pobres quanto de jovens.

Isso se dava de diversos modos, seja através da diluição da cultura popular, seja pelo comercialismo extremo da chamada "cultura pop" internacional, que no Brasil tentou cooptar até mesmo tendências consideradas alternativas, que eram esvaziadas na essência e transformadas em estereótipos.

Nos anos 90, isso se tornou evidente e, curiosamente, paralelo. Se, de um lado, tínhamos o crescimento vertiginoso da bregalização da cultura popular, de outro, tínhamos o processo não menos agressivo de deturpação da cultura rock, reduzindo o tom de rebeldia a aspectos formais e aparentes, mas escondendo uma ideologia de essência bastante conservadora e reacionária.

Isso se deu sobretudo quando rádios FM e emissoras de TV tiveram o apadrinhamento político do então presidente da República, José Sarney, e seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

Ambos "coronéis" políticos de seus Estados, Maranhão e Bahia - Sarney ainda tem domicílio político no Amapá - , eles presentearam aliados políticos e empresariais com novas outorgas de rádio e TV feitas sem qualquer critério técnico, mas por puro clientelismo político.

Isso influiu em boa parte do "mapa" da "cultura popular" do Brasil, com a bregalização avançando de forma avassaladora, tomando reservas de mercado maiores e estabelecendo um quase monopólio que já coloca a geração neo-brega dos anos 80 e 90 (Michael Sullivan, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Daniel, Leonardo e Raça Negra) numa ala pretensamente "emepebista".

Outro efeito desse âmbito é a glamourização do "funk carioca", antes uma tolice sem qualquer relevância, hoje produto de uma campanha discursiva engenhosa que atribui, equivocadamente mas de forma verossímil, o ritmo popularesco carioca (que já tem uma "sucursal" paulista, o "funk ostentação") a clichês do discurso etnográfico, ativista e pós-modernista.

Mas as concessões de Sarney e ACM também refletem um cenário político que favoreceu as chamadas "rádios rock". A 89 FM de São Paulo tem como um dos donos o patriarca José Camargo, que também foi político da ARENA / PDS durante a ditadura e foi afilhado político de Paulo Maluf.

Crescendo vertiginosamente apoiando o presidente Fernando Collor, no início da década de 90, a 89 FM rompeu com Paulo Maluf e hoje apoia o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, através do DEM, partido pelo qual os donos são filiados.

A Rádio Cidade também se "aventurou" no perfil "roqueiro" respaldando o poder político do PSDB e do DEM, tendo sido politicamente favorecida pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, já em 1995, que era apoiado na época pelo Jornal do Brasil. Apenas depois, quando virou afiliada da 89 FM, a Cidade manteve a mesma orientação, enquanto o jornal passava para a oposição.

"PACOTE REACIONÁRIO"

Ambos os processos buscaram respaldo não só em políticos, mas também em empresários, celebridades e artistas. Se o brega-popularesco, sobretudo o "funk", se serviu de intelectuais das ciências sociais (antropólogos, sociólogos e historiadores) de jornalistas e de famosos identificados com alguma causa pós-tropicalista (ou seja, receptiva à "cultura de massa"), o pop-rock também armou sua estrutura de propaganda.

Os contextos, no fundo igualmente conservadores, tentam parecer diferentes, como na velha dicotomia entre liberais e conservadores. Os "liberais" da bregalização tentam parecer progressistas, com seu populismo carregado de ideias neoliberais dissimuladas por pretextos supostamente modernistas, com na retórica pós-tropicalista de Caetano Veloso.

Já os conservadores do pop-rock - nome que vamos usar para o "rock comercial" da 89 e Cidade - se inserem num contexto em que a direita se serve de um elenco "mais atraente", que, nesses momentos de crises sociais e de fraco desempenho do PT, tentam adotar uma postura "mais consistente".

Pois, de um lado, tínhamos a blindagem pró-brega de jornalistas "sabedores", antropólogos "empenhados" e historiadores "batalhadores", como, respectivamente, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna e Paulo César Araújo.

Volta e meia tinha um tecnocrata tipo Ronaldo Lemos, uma militante como Ivana Bentes, um ativista tipo Capilé ou um reaça enrustido como Eugênio Raggi, ou então uma discreta Mônica Neves Leme ao lado dos fanfarrões baianos Milton Moura e Roberto Albergaria.

A reboque, os pró-bregas tinham também a contribuição de nomes como Regina Casé, Zeca Baleiro, Fernanda Abreu, Mariana Ximenes, Leandra Leal. Havia também "instituições" como o Coletivo Fora do Eixo, a Rádio Zona (FM comunitária de prostitutas) e outras engajadas na espetacularização do ativismo, incluindo Paradas Gay dotadas de homossexuais e feministas estereotipados.

Passada essa fanfarronice promovida às custas de verbas estatais do governo petista, agora é a vez da "direita zangada" mudar o tom e trazer para si o público que antes apreciava bregas e pseudo-ativistas, convertendo-os para formas domesticadas de rock que fazem a trilha sonora do "idealismo" conservador do momento.

Portanto, é a 89 FM e a Rádio Cidade que se relançam num contexto em o outrora rebelde Lobão, o intelectual Rodrigo Constantino, o agressivo Reinaldo Azevedo e a bela moralista Rachel Sheherazade empolgam a juventude exagerando nas críticas que se deve fazer ao chamado lulo-petismo.

A trilha sonora "nervosa", mas não a ponto de representar algum perigo para as classes dominantes, é o tom dessas duas rádios, juntamente com uma linguagem quase infantiloide de locutores que parecem animadores de gincanas infantis. Ou seja, "rádios rock" completamente desprovidas de qualquer estado de espírito roqueiro, associado a uma rebeldia que normalmente assusta os poderosos.

Portanto, deixado de lado o populismo um tanto romântico do discurso pró-bregalização, que defendia uma imagem estereotipada e um tanto abobalhada das classes populares, entra o discurso pop-roqueiro, que defende uma imagem não menos estereotipada da juventude brasileira, mas reduzindo a rebeldia a um estereótipo de gestos e aparência que, ideologicamente, é conservador.

No fundo, uma coisa e outra não diferem muito na essência. Em tempos de explosão dos protestos de ruas e do risco de ascensão das forças progressistas - aparentemente superado pelos erros cometidos pelas esquerdas, sobretudo por um Governo Federal pouco ousado e pouco eficiente - , domesticar pobres e jovens é a tônica do baronato midiático para a manipulação social no país.

Através dessa manipulação, as populações são inseridas num ideal de consumismo pleno, enquanto se evita a conscientização de mentes e a formação de uma sociedade preparada para reagir com inteligência aos abusos do poder dominante. Através do brega-popularesco e do pop-rock, as populações são amestradas para que possam, aos olhos das elites, serem menos ameaçadoras.

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