terça-feira, 20 de maio de 2014

"FUNK" E A ESQUERDA QUE A DIREITA GOSTA


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas teimam em defender o "funk". Como na anedota do corno-manso, que aceita traição da própria mulher que vai para o quarto conversar com seus "primos", as esquerdas aceitam o "funk" mesmo quando os funqueiros apunhalam os esquerdistas pelas costas, se aliando com os barões midiáticos.

O "funk", neste sentido, virou a "burguesia nacional" da hora. Quem sabe de História do Brasil sabe do que se está falando. Um dos maiores erros das esquerdas em 1964, e que se tornou crucial para o sucesso do golpe civil-militar, é acreditar na aliança com a burguesia nacional na construção de um país socialista.

Naquela época, é bom lembrar mais uma vez, a burguesia nacional, percebendo a radicalização dos movimentos sindicais, camponeses e de lideranças políticas como Leonel Brizola, preferiu se aliar à UDN e aos direitistas que militavam no IPES e contribuiu com dinheiro e outros respaldos para a efetivação do golpe e da ditadura que se seguiu por duas décadas.

Isso causou uma desilusão tão grande nas esquerdas que, sem poder controlar o contexto sócio-político - a não ser pela força, de parte de alguns militantes, através da guerrilha armada - , viram seus sonhos e ideais se dissolverem e alguns até migraram para a direita ideológica, como foi o caso do cineasta Arnaldo Jabor e do político José Serra, ambos ex-ativistas da UNE.

Hoje a história se repete como uma farsa, mas no lugar da burguesia nacional, está o "funk". Se as esquerdas de 1963-1964 (descontam-se as mais radicais) acreditavam que o apoio da burguesia brasileira iria trazer o desenvolvimento sócio-econômico, hoje as esquerdas acreditam que o "funk" trará desenvolvimento sócio-cultural. Uma utopia que já está cobrando o seu preço.

"FUNK" NÃO QUER REGULAÇÃO DA MÍDIA NEM REFORMA AGRÁRIA

No discurso, as coisas parecem muito fáceis, mas na prática não. Se alguém perguntar a um dirigente funqueiro, como MC Leonardo, se ele é a favor da regulação da mídia e da reforma agrária, ele irá fingir que é totalmente a favor, até para encaixar sua retórica de suposta defesa da cidadania.

No entanto, na prática, se observa que o "funk" é radicalmente contra as duas causas. Primeiro, porque o "funk" prefere a aliança com os barões da mídia, que lhes garante visibilidade fácil, alta e permanente. Segundo, porque muitos DJs e empresários de "funk" já estão virando latifundiários, a exemplo do que acontece com os ídolos do "sertanejo" e da axé-music.

O que as esquerdas não percebem é que o "funk" não é algo acima das ideologias. Ele é algo "acima das ideologias", conforme a ideologia "acima das ideologias" de Francis Fukuyama, e entendendo o termo "acima das ideologias" como eufemismo para uma ideologia neo-direitista, na qual se enquadra o historiador do "fim da História", o preferido (não-assumido) de Pedro Alexandre Sanches.

Por isso as esquerdas adotam uma postura frouxa, condescendente e praticamente masoquista. Elas não percebem que são traídas pelos funqueiros, que, depois de fazerem suas poses de coitados na mídia esquerdista, vão para a mídia direitista comemorarem o prestígio obtido.

Por isso ninguém deve creditar como "conspiração" ou "ocupação do espaço inimigo" o fato dos funqueiros aparecerem na Rede Globo, na Folha de São Paulo e até na capa da revista Veja. Ninguém conspira para depois sair abraçado às supostas vítimas. Se o "funk" está na grande mídia, é porque seus astros e seus barões estão muito felizes com os funqueiros.

As esquerdas, presas no corporativismo e numa visão distorcida de cultura popular, estão cada vez mais impotentes de reagir ao protesto extremo-direitista, que cresce e se torna mais sofisticado. Pois só a extrema-direita rejeita o "funk", mas a direita em geral aceita e apoia o "funk", entendendo que é melhor um pobre "descendo até o chão" do que lutando por reforma agrária.

O discurso "socializante" do "funk" foi inventado pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo. Não há como escapar disso. As esquerdas pensam que o "funk" trará o socialismo para os subúrbios cariocas, e erram covardemente com esse discurso. Acabam alimentando a reação direitista que agora forja uma suposta consciência social que os esquerdistas se recusaram a desenvolverem.

O "funk" é patrocinado tanto pela contravenção e pelo tráfico quanto pela grande mídia e pela CIA. É certo que também recebe recursos do Governo Federal petista, mas no grosso os investimentos são provenientes do capital estrangeiro de instituições como a Soros Open Society e a Fundação Ford, repassados para o Estado e para instituições não-governamentais.

Por isso não há como acreditar que o "funk" é pobrezinho e faz sucesso porque choramingou por um espaço na mídia ou porque o status quo acredita que ele promoverá uma revolução sócio-cultural. Uma visão equivocada, afinal o "funk" glamouriza a pobreza, a pornografia e a ignorância, prende os pobres em estereótipos de miséria e reduz a cultura popular a uma mesmice comercial.

Daí que o "funk" é defendido por esquerdas que deixam a direita feliz e tranquila. É a esquerda que a direita gosta e que faz o direitismo crescer muito nas mídias sociais.

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