segunda-feira, 5 de maio de 2014

COM "FUNK" E "MENSALÃO", ESQUERDAS FAVORECEM REAÇÃO DA DIREITA


Por Alexandre Figueiredo

Parece um ciclo vicioso. Por influência de "alienígenas" como Pedro Alexandre Sanches - que aprendeu, pelo Projeto Folha de Otávio Frias Filho, o que deve ser a "esquerda amestrada" - , as esquerdas apostam na bregalização cultural, com toda a imbecilização nela expressa, sob o pretexto de que o "popular" permite tudo e tal idiotização expressaria a "inocência" e "felicidade popular".

Enquanto isso, se a intelectualidade de esquerda, comprometida com as causas progressistas, acaba sucumbindo a esse projeto de "Brasil mais cafona", como se a bregalização cultural quisesse transformar o Brasil numa "nova Cuba", ela acaba influenciando a reação de direitistas conservadores que, de repente, tornaram-se "defensores" da qualidade de vida para as classes populares.

Para começo de conversa, a bregalização nunca iria transformar o Brasil numa nova Cuba. Aquelas cidades permanentemente suburbanas, de carros antigos e comércio modesto de Havana, com toda a sua controvérsia, pouco têm a ver com a pobreza glamourizada da prostituição, do alcoolismo, das periferias sujas de casas mal-construídas e gente sem muita escolaridade do Brasil.

A bregalização só vai levar mais consumo às classes pobres. Isso é fato. A glamourização da pobreza, da ignorância, da imoralidade ou mesmo da prostituição, uma visão intelectual supostamente generosa, mas que transforma o povo pobre prisioneiro de sua própria pobreza, acaba manchando a reputação das esquerdas tanto quanto suas posturas em relação ao "mensalão".

FALTA AUTOCRÍTICA AOS "MENSALEIROS"

O que se observa nas esquerdas, no caso do escândalo do "mensalão", do esquema de propinas lançado pelo publicitário Marcos Valério, que aliciou o PT depois de ter se aliado com o arqui-inimigo dos internautas, Eduardo Azeredo, foi uma falta de autocrítica no episódio que transformou José Dirceu e José Genoíno em algumas das pessoas mais odiadas pelos brasileiros.

Vemos que os dois apenas se limitam a serem considerados "vítimas" sem que possam aproveitar seu natural direito de defesa - garantido expressamente pela Constituição - para ao menos assumir seus erros e até explicar por que erraram e por que não perceberam as consequências do que fizeram.

Eles apenas se julgaram "perseguidos". José Genoíno, "torturado moralmente", e José Dirceu, vítima de um "novo AI-5". Tudo bem, tem o oportunismo de um Joaquim Barbosa que precipita demais nos processos judiciais quando o réu é o PT, pois se fosse o PSDB o tratamento seria bem outro. Mas falta a Dirceu e Genoíno aquela autocrítica necessária para ajustar contas com a sociedade.

Num determinado momento, eles gostaram de estarem envolvidos com Marcos Valério. O PT teve esse cacoete, de se aliar com pessoas e instituições suspeitas quando visava obter vantagens imediatas, sobretudo eleitorais. E isso não é uma tese da oposição, ela é confirmada pelas mais diversas correntes que atuaram dentro do partido e que saíram por conta de divergências com as decisões centrais.

Faltou a José Genoíno e José Dirceu dizerem "sim, nos envolvemos com o 'mensalão' e, quando foi conveniente, apoiamos esse esquema, mas hoje nos arrependemos muito e sentimos muito termos traído os brasileiros que acreditaram na nossa missão histórica". Se adotassem esse posicionamento, eles talvez tivessem mais chance de darem a volta por cima em suas carreiras.

A simples defesa sentimental aos dois, sem que tal autocrítica fosse feita, é que permitiu que a direita reagisse a ponto de Marchas da Família, mesmo patéticas e impopulares, fossem feitas. E se hoje mais pobres cometem vandalismo em atos de protesto, é sinal que o governo do PT se limita a retóricas, sem resolver os problemas tanto do país quanto do próprio partido.

O "FUNK"

O que também permite a reação triunfal das direitas é que a defesa das esquerdas ao "funk", num discurso que já começa a cansar de tão repetitivo - aquelas alegações falsas ao "fim dos preconceitos", aquelas falsas analogias ao samba e à negritude - , numa postura completamente estranha à natureza progressista.

Isso porque o "funk" nunca foi cultura de verdade, porque ele nunca correspondeu ao verdadeiro progresso social. Esse discurso todo em favor do gênero foi inventado até pela mídia reacionária, a Rede Globo e a Folha de São Paulo. Graças a ela, se empurra "funk" até em desfiles de moda e exposição em museus de arte.

Mas o "funk", pensando objetivamente, é muito nocivo. E isso não é moralismo elitista, não. O próprio "funk" aposta numa visão caricata do povo pobre, glamourizando a pobreza, a ignorância, a imoralidade, a pornografia, a prostituição, criando paradigmas que mais fazem o povo pobre ser prisioneiro de seus próprios símbolos de pobreza do que trazer alguma melhoria.

O discurso esquerdista, quando vai em favor do gênero, é confuso, contraditório, por vezes improcedente e por outras dotado de qualquer tipo de desinformação. A repórter de Caros Amigos afirmar, por exemplo, que Mr. Catra, mesmo após várias aparições na Rede Globo, seguia "invisível aos olhos das corporações da mídia" foi de uma desinformação vergonhosa.

O bitolamento desses intelectuais, que se julgam os "mais sábios" e dizem "compreender fielmente" a cultura das classes populares, é tanto que muitos deles pensam que o povo pobre dos morros só consome duas coisas, "funk" e hip-hop. Isso com todo o legado cultural que as classes populares produziram em séculos!!

Que regulação da mídia se esperará de pessoas assim? Daí que a direita, por mais que defenda apenas a "casa grande" e pregue a supremacia do capital privado, começa a articular um discurso falsamente favorável às classes populares.

Os intelectuais, desperdiçando seu status de elite pensante, não questionam os problemas sociais e acham que a "revolução social" será feita com "funk". Chegam mesmo a distorcer os conceitos de ativismo social se aproveitando dos "rolezinhos" do "funk ostentação" ou de factoides pseudo-feministas das funqueiras.

E aí cria-se um maniqueísmo. Se Pedro Alexandre Sanches sonha com um Brasil que copie, em suas periferias, uma mistura pseudo-africanizada e pseudo-cubanizada das áreas pobres de Miami, de Austin (cidade do Texas, um dos Estados conservadores dos EUA) e dos guetos de Brooklyn, em Nova York, Rodrigo Constantino sonha com as vilas operárias da Áustria.

Ambos não pensam o Brasil como o Brasil. E se muitos esquerdistas, boboalegremente, ainda dão ouvidos a um Pedro Alexandre Sanches encharcado de Francis Fukuyama nas suas palavras, elas acabam criando condições para que o reacionarismo obscurantista de Constantino, Rachel Sheherazade e até Reinaldo Azevedo passem a ser feitos "em defesa do povo".

Já vi coisas constrangedoras de esquerdistas que, em parte, até admiro. Como defender o direitista Waldick Soriano e achar que José Augusto e Amado Batista cantam para a "gente simples". Gente que nunca sofreu uma desilusão amorosa na vida passando a defender supostos porta-vozes dos males afetivos.

Quanto a mim, que sofri tais desilusões, sempre preferi me consolar ouvindo Smiths, pois o brega nunca falou para mim, não tinha a ver com minha realidade, já que o brega sempre me pareceu patético, superficial e muito piegas.

Outras coisas constrangedoras foram a defesa apaixonada de um jabazeiro traiçoeiro como Michael Sullivan, ou a crença um tanto tola de que uma antiga canção de axé-music, composta por um rico empresário, poderia constar de uma tese "marxista", algo tão tolo quanto dizer que o McDonalds é comunista porque tem vermelho na sua estética visual.

É essa esquerda que aplaude quando um professor chama uma funqueira de "grande pensadora contemporânea". E que acha que faremos socialismo com brega, com "funk", com "dança da bundinha", com "beijinho no ombro" e coisa e tal. Tanta "liberdade" acaba favorecendo a réplica da direita.

Por isso é que os farofafeiros, por exemplo, acabam sendo garotos-propaganda dos direitistas. Por mais que Pedro Alexandre Sanches faça seus falsos ataques ao Instituto Millenium, como um jogador de um time ataca o adversário pelo qual será artilheiro tempos depois, ele muito mais ajuda que atrapalha na alta reputação dos "urubus da mídia" em parte da sociedade.

É só ver o Facebook. O direitismo é tal que Reinaldo Azevedo, com todo seu jeito troleiro de escrever, atrai leitores em todo o país, sobretudo num Rio de Janeiro cada vez mais neocon. E quanto mais os intelectuais "do outro lado", mesmo apoiados num pregador de um pós-tropicalismo neoliberal que é Sanches, se sentem felizes em atacar a "urubologia", mais munição oferecem para ela.

CONCLUSÃO

Aí você junta a falta de autocrítica dos acusados de envolvimento com o "mensalão" com a complacência que intelectuais de esquerda têm com a bregalização cultural (que, para lembrar bem, é em grande parte patrocinada pelo latifúndio mais cruel) e vemos uma direita fortalecida que já começa a ameaçar seriamente a reeleição de Dilma Rousseff.

A situação brasileira já não é aquela sonhada pouco antes e noto entre os esquerdistas uma maré baixa depois de uma breve ascensão midiática. Isso de um ano para cá. As esquerdas, com seus erros mal avaliados e mantidos, permitiram a volta de uma direita repaginada, que inclui até mesmo um porta-voz roqueiro, ninguém menos que o antigo ícone de rebeldia Lobão.

Se Lobão agora virou amigo do neo-medieval Olavo de Carvalho, devemos agradecer a Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches que as esquerdas preferiram dar ouvidos. Devemos agradecer à complacência e até uma defesa neurótica de intelectuais progressistas ao "funk" e sua forma caricatural de ver as classes populares.

As esquerdas não conseguiram sequer explicar a contradição que fazem combatendo as baixarias sexuais e machistas em comerciais de TV e a defesa dessas mesmas baixarias no "funk", definindo-as, no caso, como "discurso direto". Tanto ativismo barato para Rachel Sheherazade aparecer da "casa grande" e crescer com seu moralismo obscurantista.

Portanto, as esquerdas erraram nesse sentido. Este blogue passou o tempo todo criticando, mesmo não tendo metade da visibilidade que os intelectuais pró-bregalização possuem. Fizemos muitas advertências, mas a intelectualidade esquerdista não deu ouvidos. Agora elas terão que encarar baixa reputação e chorar quando abrem o Facebook e verem tantos conservadores se expressando.

As esquerdas não contribuíram para a verdadeira transformação no âmbito cultural, ético e outras coisas. Acabaram herdando valores antiquados da ditadura militar e permitiram que a direita, mesmo a golpista, se aproveitasse dessas fraquezas do "fisiologismo" político para adotarem um discurso, verossímil mas tendencioso, de "moralidade" e "conscientização social".

Foram os erros e omissões das esquerdas que fizeram a direita se renovar, com seus roqueiros, filósofos, antropólogos, belas jornalistas, "pit-bulls" jornalísticos e "imortais" da ABL, numa roupagem intelectual bem mais articulada e coesa. As esquerdas precisam ter mais autocrítica, em vez de cantarem vitória nos escombros da derrota. Não se dá voo de Fênix bancando a vítima.

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