segunda-feira, 26 de maio de 2014

CABO ANSELMO E JOSÉ SARNEY TERIAM SIDO "TRANSBRASILEIROS"?

CABO ANSELMO E JOSÉ SARNEY OLHANDO PARA A ESQUERDA...

Por Alexandre Figueiredo

Essa conversa de "cultura transbrasileira" e tantas coisas "provocativas" acabaram enfraquecendo a nossa cultura, e infelizmente as esquerdas morderam as iscas que intelectuais alienígenas, porque surgidos no seio do poderio midiático, deixaram com sua campanha pela bregalização do país.

Li o livro Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória, e estou lendo 1964: O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil (o título é assim mesmo), de Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes e comparo os temas de suas obras com os efeitos sócio-culturais que acabamos vivendo no Brasil de hoje.

Destes dois, o primeiro se dedica ao poderio acumulado por José Sarney, um pouco expressivo político maranhense da UDN, entre 1959 e 1964, que através do clientelismo político e da corrupção se tornou um dos mais poderosos "coronéis" regionais do país, tendo influído sobretudo no crescimento do coronelismo midiático dos últimos 25 anos.

Já o segundo se dedica a analisar os últimos meses do governo João Goulart, marcado pelo radicalismo de esquerda e de direita e cujo desfecho final foi impulsionado por uma estranha rebelião de sargentos fanfarrões, a pretexto de defenderem reivindicações justas para militares de baixa patente.

Dessa revolta, se ascendeu José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, um sargento (embora autoproclamado "cabo") metido a militante esquerdista que depois se revelou agente da CIA e colaborador da repressão militar. Dizem que já em 1963-1964 o Cabo Anselmo já era assim, mas se travestiu de militar comunista para armar uma cilada para Jango e abrir caminho para a ditadura.

Até o momento em que escrevo este texto, os dois estão vivos e assistem a um Brasil que acabaram preparando, desfazendo todo um caminho de progressos de toda ordem para o país. E de uma forma ou de outra, se envolveram em contextos que trouxeram consequências negativas das quais o Brasil luta para superar até hoje.

José Sarney promoveu uma farra de concessões de rádio e televisão que influíram decisivamente no desenho do cenário da "cultura popular" no Brasil, baseado na idiotização, na mediocrização, na exploração do ridículo, do grotesco e do piegas e, na melhor das hipóteses, no "aprimoramento" artístico ou comportamental de ídolos "populares" de modo tendencioso e calculado pelas elites.

Cabo Anselmo já influiu, décadas depois, num pseudo-esquerdismo, num pretenso ativismo que inspirou de funqueiros ao Coletivo Fora do Eixo. Que, como o militar, tiveram apoio da CIA, através de instituições claramente ligadas ao órgão estadunidense, como Fundação Ford e Soros Open Society.

Anselmo também inspirou toda uma intelectualidade devido aos métodos "provocativos" que ele promoveu ao comandar a aparente rebelião de sargentos e fuzileiros navais que causou uma séria crise que propiciou a reação violenta das Forças Armadas que deu origem à ditadura militar.

Militares de baixa patente que, não satisfeitos em arrancar uma anistia de João Goulart, foram desfilar para fazer pilhéria aos oficiais do Clube Naval, no centro do Rio de Janeiro, de alguma forma deixaram a raiz de "pensadores" que chegam a empurrar funqueiros até em exposições históricas.

Que diferença têm um Cabo Anselmo que deu uma "surra na bunda" na democracia e um bando de intelectuais chamando funqueiras para abrir uma exposição, dando uma "surra na bunda" na cultura de verdade, pejorativamente chamada de "alta", com o mesmo tom jocoso do sargento "marxista" que depois se revelou agente da CIA?

"DITABRANDA DO MAU GOSTO" NÃO ASSUSTA AS ELITES

A intelectualidade "bacana", que adota métodos "provocativos" de Cabo Anselmo e defende uma visão "coronelista" para a cultura popular como José Sarney, tenta manobrar seu discurso para tentar convencer a opinião pública.

Defendem o fim da MPB e a marginalização do patrimônio cultural brasileiro em museus e mansões, e querem que o povo pobre mantenha seus padrões comportamentais de pobreza, glamourizando a ideia do "mau gosto" como se fosse uma "causa nobre".

No seu discurso "atraente", querem evitar a recuperação da cultura popular que a ditadura rompeu. Criticávamos a cultura alienada, o jabaculê e a americanização de muitos ídolos "populares" brasileiros e a intelectualidade ainda gracejava, como gracejou quando se dizia que o "funk" tinha apoio da CIA, mesmo com a Fundação Ford financiando seus intelectuais etc e tal.

Tentam confundir as coisas, definindo as elites realmente questionadoras como se fossem elites aristocráticas. Confundem o saber com a riqueza. Muitas das melhores mentes não são necessariamente de gente muito rica, e no entanto quem questionava, por conhecer a cultura popular, seus descaminhos era mesmo assim classificada como "elitista".

Só que as elites realmente ricas e aristocráticas nunca se assustaram com a supremacia do "mau gosto", a "ditabranda do mau gosto" que fazia a festa da intelectualidade "bacana" às custas do "povão" que consumia os ídolos midiáticos sem reclamar.

Pelo contrário, o que tem de condomínios de luxo em suas festinhas de aniversário ouvindo "forró eletrônico", o que resta da axé-music (agora em processo irreversível de decadência), "sertanejo" e "funk" não está no blogue e mostra que, além dos barões da mídia, a aristocracia está muito feliz com a bregalização do país.

MELHOR UM POVO BREGA DO QUE UM POVO REVOLTADO

A intelectualidade "bacana" criou armadilhas que fizeram as esquerdas caírem na cilada. Como em 1964 quando a burguesia nacional deixou os esquerdistas na mão e estes ainda foram traídos pela milico-militância de Cabo Anselmo.

Criaram um modelo de "cultura popular" em que o povo ficava feliz com sua pobreza, usava o alcoolismo como válvula de escape para seus sofrimentos e os valores culturais não eram mais transmitidos pelo convívio comunitário, mas "de cima para baixo", pelas rádios e TVs "populares".

Durante muito tempo se acreditou que essas eram visões "progressistas", só porque se falava "positivamente" do povo pobre. Só que esse discurso "positivo" era traiçoeiro, porque evitava a luta do povo pobre pela verdadeira qualidade de vida, a não ser pela ajuda ostensiva das elites intelectuais paternalistas.

A ideia da intelectualidade pró-brega era dar a impressão de que defendia a "verdadeira cultura popular", com pseudo-ativismo e falsas alusões à negritude, ao feminismo e outros ativismos, quando a bregalização era só consumismo. No fundo, para a intelligentzia, melhor um povo brega, que é mais conformado, do que um povo realmente revoltado.

As próprias favelas viraram o "campo de concentração" da "nação funqueira e brega". Residências acidentais e incidentais, fruto da exclusão imobiliária, convertidas no mais descarado discurso paternalista em "arquitetura pós-moderna" e "paisagem turística" para o bom esnobismo das aristocracias.

Não se luta pela qualidade de vida, e a intelectualidade pró-brega atribuindo a qualquer bobagem pretensos ativismos. Mesmo as musas vulgares, sobretudo as do "funk", mesmo estando a serviço de uma imagem machista da mulher, se submetem ao pseudo-feminismo às custas de um celibato masoquista e forçado pelas circunstâncias.

A exemplo de Cabo Anselmo, a pregação pró-brega da intelectualidade "bacana" foi feita para confundir e enfraquecer as esquerdas e estimular a reação direitista. À exemplo dos generais e das aristocracias civis com seus rosários diante das esquerdas de 1964, as esquerdas de 2014 são enfraquecidas com seu deslumbramento brega que faz reunir uma direita mais articulada e coesa.

A direita, que sempre promoveu uma política conservadora, fazia a "caça às bruxas" durante a ditadura militar, mandando rebeldes para a prisão, tortura e morte, se rearticula em intelectuais e celebridades que agora adotam um discurso "conscientizado" que a esquerda nem de longe conseguiu fazer.

Ocupada está a esquerda com a fantasia inútil de que o brega traria a revolução social para o país, as esquerdas se enfraquecem, acreditando que basta só a "chuva de dinheiro" da Bolsa Família e da Lei Rouanet e os programas trainée para "melhorar" a conduta de ídolos bregas e sub-celebridades para criar uma "cultura popular" melhor e mais consistente.

Com isso, a direita se fortalece, porque está com um discurso mais substancial. Pode não ser um discurso sincero, mas torna-se melhor argumentado, mesmo quando sua defesa de uma cultura popular mais autêntica e um país mais cidadão sejam apenas um meio de se aproveitar das omissões do PT, do PSOL e outras forças esquerdistas quando aos projetos sócio-culturais para o país.

Mais uma vez a história se repete, embora em aspectos bem diferentes. Não saberemos o desfecho, mas sabe-se que esse papo de bregalização enfraqueceu as esquerdas, que provaram não entenderem de cultura realmente popular, defendendo um padrão que tem muito mais a ver com os interesses de grupos latifundiários e empresas multinacionais.

Portanto, o discurso um tanto tendencioso da direita e o discurso confuso e fantasioso da esquerda sobre o projeto sócio-cultural para o país só dão margem a uma pergunta: teriam sido José Sarney e Cabo Anselmo "transbrasileiros"?

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