sábado, 17 de maio de 2014

A DIREITA QUER USAR BREGA PARA "REINVENTAR" A MPB

THIAGUINHO E MARIA GADU - O sambrega tenta cooptar a MPB cada vez mais cansada.

Por Alexandre Figueiredo

A MPB está velha e cansada, mas nem por isso bregalizar é a solução. Reclamem como reclamem os internautas, intelectuais, artistas, celebridades, jornalistas etc, porque a bregalização nem de longe representa a verdadeira cultura popular.

Numa sociedade midiatizada, tudo hoje parece natural, diante da banalização e da supremacia de tantos fenômenos midiáticos. Tudo ficou hipermediatizado, até corações e mentes são pautados pelo poder midiático e isso é inserido no inconsciente coletivo de tal forma que tudo parece tão natural quanto o ar que respiramos.

Mas não é. Estamos perdendo o essencial do sentimento humano, enquanto as pessoas se carregam de pretensões diversas. Todos estão querendo ser tudo: de nerds a zapatistas, exceto ser si próprias. O pretensiosismo vanguardista passa acima de vocações, identidades e até mesmo da honestidade.

Isso se reflete na cultura brasileira da forma mais cruel e hipócrita possível. O entretenimento e o comercialismo musical hoje se pautam por pseudo-teorias que tentam justificar tudo e veem ativismo até em bobagens sem sentido, numa mania espalhada pela blindagem intelectual.

ANTES, BREGA ERA SÓ PIADA E DIVERSÃO

O brega até que não incomodava muito. Era apenas um tipo de música e de expressões comportamentais associado ao comercialismo explícito, quase humorístico e feito meramente por pura diversão.

A situação mudou muito quando o brega, em parte mesclado com arremedos de ritmos populares regionais, tornou-se hegemônico, foi levado a sério demais por uma intensa campanha midiática e intelectual, e que criou um pretensiosismo sem limites que preocupa seriamente pelo seu teor.

A situação piorou até para quem defende o brega que, em vez de curtir tranquilamente seus ídolos, se preocupam demais com as críticas e ficam "sociologizando" demais aquilo que curtem. Em vez de dizer "eu gosto de fulano ou sicrano", ficam criando teses "cabeça" e surreais sobre supostas funções ativistas ou revolucionárias desses ídolos.

Tudo virou um lobby violento que quase não temos MPB autêntica no Brasil. Artistas com opiniões fortes e uma postura insubmissa às leis do mercado estão dando lugar a ídolos "maleáveis" que aceitam tudo em nome do sucesso, mesmo quando forjam algum pretenso ativismo ou provocação.

O CANSAÇO DA MPB

A MPB que causou um grande impacto nos anos 60 e 70 hoje está reduzida a uma geração de jovens inócuos, que na prática já nem fazem música brasileira, mas um pop romântico inofensivo, às vezes simpático, mas sem qualquer criatividade plena.

Já desde os últimos anos, quando a indústria fonográfica fez a MPB sucumbir a um comercialismo pomposo, a música brasileira de qualidade tornou-se elitista, e o distanciamento das classes populares às próprias raízes musicais, iniciada durante a ditadura militar, se aprofundou cada vez mais.

A cultura popular tornou-se subordinada ao poderio midiático, às regras de mercado. Enquanto isso, o que sobra da MPB autêntica está em processo de gradual desaparecimento. Saem os artistas espontâneos, morrendo aos poucos, enquanto os últimos focos emepebistas se diluem em legados que já não são mais pós-tropicalistas, mas puro pop americanizado.

A MPB se entregou para fórmulas comerciais, se banalizou em clichês, virou imitação de seus próprios êxitos e compactuou com a breguice dominante, em busca de espaço de divulgação. Perdida, envelhecida e perdendo seus mestres, a MPB autêntica já perdeu a representatividade entre o público jovem, que o rádio fez acostumarem-se com a bregalização.

APENAS "PROFISSIONAIS"

A direita midiática, que fez crescer a bregalização, inventou o discurso "ativista". Ideólogos que apostavam na bregalização eram acadêmicos ligados a uma linha de pensamento difundida pelo PSDB ou estavam a serviço na Folha de São Paulo e na Rede Globo.

Foi na direita midiática - que agora tenta renegar a responsabilidade de defender a bregalização - e seus intelectuais (que tentaram se infiltrar na mídia esquerdista e também renegam o vínculo com a mídia da qual vieram) que o discurso pseudo-ativista que defendeu desde o brega de raiz até o "funk" começou a ser difundido e ampliado.

Isso já tornou o brega um quase monopólio na cultura brasileira, não só musical, mas também comportamental. O paradigma de cultura popular se subordinou a estereótipos que foram divulgados na marra, a pretexto da "ruptura de preconceitos", uma desculpa para tendências cafonas ampliarem reservas de mercado, atingindo públicos considerados "conceituados".

A partir daí, a grande mídia, que em muitos casos não mediu escrúpulos para depreciar a MPB autêntica ou, quando muito, torná-la cada vez mais figurante do espetáculo brega - logo os bregas, que eram os penetras da festa, se passam agora por "anfitriões" - que atinge até mesmo os altos rincões das elites.

Hoje o que se vê são ídolos apenas mais "profissionais". Tecnicamente corretos, mas que em nenhum momento equivalem à criatividade espontânea dos antigos emepebistas, os ídolos neo-bregas, de Chitãozinho & Xororó a Thiaguinho, apenas fazem discos "digeríveis" para públicos de elite, mas nada somam em linguagem ao que já foi produzido na MPB.

MÚ$ICA POPULAR BRASILEIRA

Os barões da mídia querem usar agora os bregas veteranos para criar um modelo de MPB mais inofensivo, mais tendencioso. A ideia é transformar a MPB numa linha de montagem para bregas veteranos imitarem, sem dar um acréscimo de criatividade.

Às vezes, pode-se até carregar na pretensão, como Leandro Lehart tentando imitar o hoje esquecido Monsueto, ou Mumuzinho querer bancar o "novo Simonal". Tudo por uma questão de boas roupas, boas roupagens, banho de loja e de técnica. E dá-lhe Daniel e Leonardo gravando covers de MPB em arranjos pasteurizados.

A grande mídia e o mercado, respaldado por multinacionais, juntamente com o patrocínio do latifúndio, quer esvaziar a MPB autêntica, seja isolando-a nas elites, seja promovendo uma imagem cada vez mais pejorativa. E a cada ano ela elitiza até mesmo os ritmos populares de outrora, jogando o samba de raiz e o baião para plateias mais ricas, privando o povo de suas raízes musicais.

Com uma campanha ideológica pró-brega e anti-MPB, com uma articulação comparável ao do antigo IPES-IBAD - eu costumo chamar os pró-bregas de "CPC do IPES" - , um lobby de intelectuais, famosos, empresários, jornalistas, acadêmicos e executivos de mídia quer extinguir a MPB e, na melhor das hipóteses, jogar o antigo patrimônio musical brasileiro para museus e mansões.

Com isso, eles tentam "zerar" a música brasileira e apostar no brega que surgiu em total desprezo com as raízes musicais, de tão ocupado estava com a imitação tardia e matuta do pop norte-americano. E fazem isso com fúria, embora com uma convicção digna de um Francis Fukuyama, seu mentor oculto de suas visões culturais.

Depois disso, eles usam os ídolos bregas para forjar os caminhos da "nova MPB" que querem: sem espontaneidade nem criatividade, mas tendenciosa, pedante e adaptável às regras de mercado, com cantores e grupos submissos, às vezes falsamente rebeldes e pseudo-ativistas, mas que não ameaçam o status quo como ameaçam ainda Beth Carvalho, Alceu Valença, Edu Lobo e Chico Buarque.

Por isso, é um processo perverso e hipócrita. A grande mídia quer matar a MPB e depois fazê-la ressurgir domesticada através dos ídolos bregas. A sociedade não percebe as armadilhas que estão por trás e acha isso maravilhoso, sem verificar que o status quo tenta reescrever a história da MPB escrevendo "música" com cifrão: MÚ$ICA POPULAR BRASILEIRA.

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