terça-feira, 27 de maio de 2014

A COPA DE UM PAÍS EM INCERTEZAS


Por Alexandre Figueiredo

O corporativismo petista anuncia: #VaiTerCopa. Assim, em hashtags, como são conhecidas as palavras-chaves nas mídias sociais. Certo, vai ter copa. O Brasil, isto é, a Seleção Brasileira de Futebol, vai ganhar o "hexa" porque existem interesses de anunciantes em jogo, só para sentir este trocadilho.

Como em 2002, a FIFA e a CBF se empenham pela "vitória brasileira", dentro de um futebol que há muito tempo deixou de ser arte. O futebol-arte morreu em 1986 e o que veio depois foi o futebol-negócio, que encaixa no contexto em que, no Brasil, o espetáculo virou mera mercadoria.

Um detalhe a notar é que um dos astros do "penta" de 2002, Ronaldo Nazário, decepcionou as esquerdas médias ao afirmar que seu candidato para a Presidência da República é Aécio Neves, o yuppie boa vida que o PSDB tem como alternativa para enfrentar Dilma Rousseff na corrida das urnas.

A propósito, já que Dilma concorrerá à reeleição, teremos na frente o governo Michel Temer, durante alguns meses. A agenda do PMDB podou demais o governo petista, já que o PMDB, único partido remanescente da ditadura militar (era o antigo MDB levemente repaginado), é um partido sem muita identidade, mas que mistura ideais conservadores com pragmática populista.

Evidentemente, cresce o anti-petismo e uma direita organizada, nem sempre com verniz racional, já que varia entre a retórica "científica" de Rodrigo Constantino às histerias cegamente direitistas nas mídias sociais.

Mas o PT ainda permanece numa espécie de baluartismo, ou seja, acreditando em capacidades e possibilidades maiores que as que possui, ignorando os riscos e as limitações que se encontram no caminho.

O país está sob uma séria crise de valores. Extremamente violento, caótico, ainda conservador e provinciano, em completa disenteria dos valores e procedimentos originários da ditadura militar, alguns repaginados e sutis, outros não.

O que se prevê serão as manifestações de rua, que anunciaram que irão ocorrer. Em boa parte pacífica, mas há os oportunistas que se infiltram para provocar desordens. Alguns deles financiados por George Soros, o especulador financeiro "fora do eixo".

E há o problema das favelas, que só são maravilhosas aos olhos etnocêntricos da intelectualidade "bacana", que acha a pobreza linda de se ver, numa postura até pior do que os esquerdistas românticos de 1964, que, com toda sua crença pela burguesia nacional a financiar o subdesenvolvimento chique que acreditavam, pelo menos tinham algum pé no chão.

A ditadura midiática, os valores retrógrados, o machismo agonizante mas tentando se manter em pé, mesmo que seja pelo simbolismo das "boazudas", a bregalização, o coronelismo e seus conflitos no campo, o crime organizado, esses problemas são tão intensos que tornam difícil acreditar que o Brasil entrará no primeiro mundo com o hexa ou a reeleição de Dilma.

Nada disso. O país vive uma situação delicada, complexa, mal conseguindo resolver suas crises sociais. A opinião pública mal descobriu o reacionarismo juvenil na Internet, a direita já vestia uma nova roupagem faz tempo, sendo necessária a ascensão de Lobão no meio para a sociedade, e sobretudo as esquerdas, se convencerem que a direita não usava black-tie há muito tempo.

Preferimos acreditar num caminho incerto. Nem a reeleição de Dilma está garantida. As turbulências de 2013 e as crises de 2014 podem gerar desfechos inéditos. O otimismo exagerado no Brasil é uma grande fantasia, porque seria melhor que fôssemos realistas e acreditarmos que precisamos arrumar a casa antes de fazermos a festa.

Mas como muitos preferem fazer a festa primeiro, a casa ficará mais desarrumada que antes. E haverá muito mais trabalho para arrumá-la, não bastasse a bagunça que foi feita há 50 anos.

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