sábado, 10 de maio de 2014

A BURGUESIA ACEITA MELHOR O BREGA. BREGUESIA?


Por Alexandre Figueiredo

As elites aristocráticas estão aceitando melhor o brega, agora associado aos novos-ricos "fabricados" por loterias e outras premiações excepcionais. Mas no fundo a suposta rejeição das elites a esses igualmente supostos sucessos "populares" não passa de um mito plantado por uma elite de intelectuais influentes, também igualmente elitista, mas dita "amiga das causas populares".

O brega, na verdade, só foi rejeitado mesmo por uma minoria de críticos e especialistas em música e cultura popular que questionavam o gosto duvidoso da música e da estética de seus ídolos. Eles geralmente estavam situados em cadernos culturais dos jornais ou em revistas especializadas em música.

A maioria da mídia sempre foi receptiva aos bregas. Sobretudo a mídia coronelista, patrocinado sobretudo por grandes fazendeiros que se envolvem em conflitos no campo. Deixemos de ser politicamente corretos. Até os grupos do mais alegre "forró eletrônico" são patrocinados sob o sangue derramado de agricultores, sindicalistas e ativistas rurais. Que "reforma agrária na MPB" é essa?

Mas se alguém decidir ler as revistas de fofocas e os jornais mais popularescos, ou ligar a TV aberta nas emissoras que simbolizam o poder midiático em suas regiões, verá que os ídolos bregas são sempre elogiados, sim. Da mesma forma, rádios controladas por políticos e latifundiários também endeusam tais ídolos.

Daí o caráter mentiroso, falacioso, da intelectualidade que diz que os ídolos bregas apavoraram a ditadura, ameaçam o latifúndio, horrorizam as elites e enojam os barões da mídia. Tais visões são claramente mentirosas, mesmo quando são descritas em monografias, documentários ou reportagens "sérias" e "objetivas". A reputação dos autores desses textos não ajuda, ou pelo menos não deveria.

As elites sempre gostaram do brega. As forças conservadoras também deram o maior apoio. E continuam dando, e estão dando mais do que antigamente. Para a sociedade conservadora, para as elites aristocráticas, é muito melhor a bregalização cultural porque ela é inofensiva, anestesia o povo, cria uma resignação com a miséria e o sofrimento humano, glamouriza a mediocridade.

Entre um cantor brega que canta, com sua voz pequena e os arranjos toscos, os sofrimentos amorosos de forma resignada, e um ativista rural que ameaça o poderio dos fazendeiros, as elites preferem o primeiro. Não há como equiparar um e outro, porque o brega é conformista, resignado, medíocre e conservador, e o ativista é o contrário de tudo isso.

E A MPB?

A MPB burguesa anda também apoiando muito o brega. Nos anos 80, havia muitas queixas de como a MPB que produzia um repertório vigoroso e instigante nos anos 60 e 70 havia se acomodado com fórmulas comerciais e pasteurizadas que afastaram os jovens de ouvir música brasileira.

Graças a isso, os jovens passaram a ouvir o então vigoroso e instigante Rock Brasil, ainda que muito mal mixado e sonoramente "podado" pelas gravadoras. Só que hoje até o Rock Brasil está muito mais comportado, e mesmo um punk como Clemente, que, novato, enfrentou um Gilberto Gil no auge da popularidade, ultimamente age como carneirinho até diante de Gaby Amarantos.

Houve até uma sutil alteração de discurso da intelligentzia, que antes falava mal daquela MPB que produzia letras sobre transas de casais, gravava mais músicas românticas e se influenciava mais em boleros e canções de Hollywood do que de modinhas, toadas e sambas.

Em vez de criticar a MPB mais empostada e burguesa, hoje o foco de ataques está na turma bossanovista-cepecista dos anos 60 que não compactua com o "convívio harmonioso" com as tendências comerciais. Em outras palavras, se antes o alvo era a MPB domesticada dos anos 80, hoje quem leva surra é a MPB mais instigante dos anos 60-70.

Isso foi uma estratégia bastante sutil. Pois a MPB burguesificada, pasteurizada e comportada, "podada" pelas gravadoras nos anos 80, serviu de fonte, já no final dos anos 90, para a reciclagem musical dos neo-bregas que faziam "pagode romântico" e "sertanejo" no início dos anos 90.

Desse modo, nomes como Guilherme Arantes, que eram considerados "vidraça" nos anos 80, agora são muito mais poupados do que Chico Buarque e Edu Lobo, antes muito elogiados. Não que Arantes merecesse os ataques que recebeu, mas sua música, competente mas pouco engajada, atende mais aos interesses comerciais respaldados pela intelectualidade atual.

E aí vemos mais uma prova de que a MPB comportada dos anos 80, que serviu de base para a canastrice pseudo-MPB dos neo-bregas de 1990-1992, se envolveu num dueto com um desses ídolos da "geração 90".

Pois ninguém menos que Guilherme Arantes foi relançar seu antigo sucesso, "Meu Mundo e Nada Mais", com a participação do breganejo Daniel, um cantor que nunca teve um sucesso de lavra autoral, se autopromovendo às custas de covers, embora guarde para si uma falsa reputação de "grande artista".

Isso já deixa os intelectuais pró-brega num sério impasse. Se eles se ascenderam através de uma postura contra a MPB que eles consideravam pasteurizada e elitista, por que eles passaram a apoiá-la quando a geração neo-brega dos anos 90 passou a imitar seu padrão estético e musical?

E o público mais elitista, que cada vez mais produz suas festinhas de aniversário, em seus condomínios de luxo, tocando "sertanejo universitário", "funk", "pagode romântico" e outros estilos? Onde está o tal "horror" dito pelos intelectuais "bacanas"?

De eventos de moda a feiras de agropecuária, a bregalização musical vai muito bem na conta do status quo. Não há discriminação e ninguém é "injustiçado". O brega sempre foi comercial e sempre esteve a favor do "sistema" e do mercado. E nunca apavorou as elites nem os barões da mídia, que preferem um povo brega do que uma rebelião popular de verdade.

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