segunda-feira, 14 de abril de 2014

VALESCA POPOZUDA E O FEMINISMO COMO MERCADORIA

VALESCA POPOZUDA SE ENCONTRA COM GISELE BÜNDCHEN NO SÃO PAULO FASHION WEEK 2014.

Por Alexandre Figueiredo

A "musa do verão 2014", a funqueira Valesca Popozuda, é um dos mais recentes símbolos da chamada "sociedade do espetáculo" estudada e problematizada por teóricos como Guy Debord e Jean Baudrillard, na Europa.

Se lá no exterior a chamada "sociedade do espetáculo" é contestada sem meias palavras, aqui no Brasil a intelectualidade - que já barra o acesso de similares brasileiros de Debord e Baudrillard já nas portas de entrada dos anteprojetos de mestrado - prefere endeusar essa "sociedade", analisando-a de maneira acrítica e meramente descritiva.

Daí que se permitem que surjam nomes como Valesca Popozuda, a pseudo-feminista que, de uma sósia visual de Carla Perez e musical de Tati Quebra-Barraco passou para uma espécie de Lady Gaga mais brega, e que, pasmem, virou o "maior nome da música brasileira" do momento, além de um dos símbolos do "ativismo social" no país.

Acumulando visibilidade às custas de diversos factoides, Valesca apenas mudou levemente sua "orientação". Associada ao "funk" mais grotesco, ela "lapidou" o estilo para se tornar "digestível" para as elites. Enquanto isso, trabalha seu "discurso direto" num arremedo de ativismo social que a faz supostamente "feminista".

Em entrevista à revista Época, Valesca - curiosamente tratada como "senhora" pela reportagem - declarou que "ser vadia é ser livre", usando de todos esses clichês para o "feminismo de resultados", sobretudo a aparente aversão aos homens.

A reportagem, não se sabe se por ironia ou pretensiosismo, comparou Valesca a Simone de Beauvoir, Naomi Wolf e Betty Friedan. Totalmente ridículo. Afinal, Valesca apenas adota aspectos superficiais do feminismo, se autopromovendo às custas de fatos bem conhecidos, como o estupro e a violência doméstica cometidos por homens.

Por outro lado, Valesca tenta trabalhar a ideia de que a prostituição e a erotização são "bandeiras de luta", daí o "feminismo" como mercadoria, a união do suposto "apelo sexual" do grotesco "funk" com os clichês de ativismo que não assustam em um momento sequer os "urubus da mídia". Um "feminismo" que submete a cidadania ao sexo, em vez de integrar o sexo a ideais de cidadania.

Evidentemente, ela agora adota posturas mais politicamente corretas, como admitir que a educação não vem da rua, mas de casa, ou que ela não se considera uma "pensadora", já que a funqueira agora precisa conquistar um público de elite, inclusive a classe acadêmica, daí uma dose de aparente "despretensiosismo".

Sobre a prostituição, ela argumenta que as prostitutas são "guerreiras" e que arrumarem nas boates as "oportunidades" que elas não tiveram nas ruas. Ela defende a regularização profissional, ignorando que a prostituição deveria ser vista como uma atividade transitória, e não permanente.

A defesa da prostituição como "profissão definitiva", a exemplo da defesa das favelas como "moradias permanentes" do povo pobre, é uma forma de glamourizar a pobreza, de transformar condições transitórias, emergenciais e feitas praticamente a contragosto em "trabalho definitivo", como se a prostituta quisesse ser prostituta pelo resto da vida. E a maioria delas não quer.

Completando o pretensiosismo, Valesca agora ataca a MPB, seja no episódio da questão escolar - em que a funqueira foi chamada de "grande pensadora contemporânea" - , seja na questão da temática da mulher-objeto. Aí ela comete o equívoco de achar que toda letra que deseja e exalta uma mulher é letra que a explora como "objeto sexual".

Ora, então um poeta não pode escrever uma letra de Bossa Nova para exaltar a beleza feminina. Mas a funqueira pode escrever uma letra que baixa a lenha nos homens. O lirismo da MPB agora é visto como "mais grotesco" que o "funk" mais rasteiro. Pura desculpa para promover o "funk" às custas de qualquer coisa.

Aqui há uma mania, surgida em torno de 25 anos atrás, de culpar os mestres e todos aqueles que possuem grandes virtudes, de cometerem mais pecados e erros do que a gente mais rasteira. Daí, por exemplo, que nomes como Chico Buarque são duramente atacados, enquanto um espertalhão como Michael Sullivan "compra" toda a MPB e ninguém se dá conta disso.

Isso porque o Brasil é o país que fica complacente com a mediocridade. Confunde medíocres com aprendizes e a cada ano o grotesco, o piegas e o cafona mostram exemplos que a sociedade logo se acostuma com muita conformação.

Daí o pseudo-ativismo de Valesca Popozuda, que no fundo nada acrescenta de diferencial, por exemplo, à antiga visibilidade de uma Xuxa Meneghel, por exemplo. Um "feminismo de resultados", para desviar a atenção da sociedade para temas realmente feministas. Um "feminismo" como mercadoria, para fazer de conta que existe "ativismo" no mundinho da "cultura midiática".

Aqui a "sociedade do espetáculo" não é vista como problema, chegando a ser encarada, com muita ingenuidade, como uma "solução". Mas este é o país em que a "cultura popular" é movida pelo império do jabaculê, patrocinado até mesmo pelo latifúndio mais sanguinário. Mas como tudo é aparentemente "popular", ninguém questiona.

Que falta fazem Guy Debord e Jean Baudrillard por aqui...

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