sexta-feira, 11 de abril de 2014

SÉRGIO MARTINS, DA VEJA, TOMA AS DORES DA INTELECTUALIDADE "BACANA"


Por Alexandre Figueiredo

Comentários entusiasmados a Odair José. Lembranças de Waldick Soriano. Elogios ao "funk carioca" e todo o cartaz ao "funk ostentação". Tratamento vip ao tecnobrega. Uma animada e carinhosa abordagem ao arrocha. Saudades de Wando e reverências aos "sertanejos" Zezé di Camargo & Luciano. E até mixagem de DJ tentando reabilitar o É O Tchan juntando-o a samples de Smiths.

Tempos atrás, as esquerdas médias - que reuniam esquerdistas de pensamento questionador frágil e pseudo-esquerdistas vindos dos porões uspianos do PSDB - é que tentavam investir nessas abordagens, o que não vingou, porque num dado momento o comercialismo explícito de seus ídolos batia de frente com os problemas vividos pela realidade concreta das classes populares.

Mas hoje, pelo jeito, o discurso de que os brega-popularescos que dominam rádios FM e TVs abertas eram "discriminados pela grande mídia" não convenceu. Foi deixado de lado e o brega-popularesco, sem poder se vender como "movimento libertário", agora tem que reassumir o então descartado vínculo com a grande mídia conservadora.

Aí entra a Veja e seu mais recente porta-voz dos bregas, o experiente Sérgio Martins, remanescente do jornalismo musical da Abril. Ele é um dos poucos que fizeram a revista Bizz nos anos 80 que permanecem na editora, depois que outros profissionais assumiram outras atividades, da antiga MTV à Rede Globo, passando pelo Multishow, Folha de São Paulo, TV Cultura etc.

Sérgio é o farofafeiro que faz sentido. Um pouco menos neurótico e mais profissional, sem manias de rascunhar "manifestos antropofágicos" a partir de delirantes defesas do brega. Sérgio sai em defesa entusiasmada do brega, só que "com categoria". E, com seu profissionalismo, o jornalista cultural de Veja toma as dores da intelectualidade "bacana" que quer a bregalização do país.

Sérgio faz na Veja o que Pedro Alexandre Sanches tentou fazer na Carta Capital, Fórum e Caros Amigos. Paciência. Como defender ídolos que fazem sucesso até na Rede Globo para publicações que justamente contestam o poderio das Organizações Globo?

"SORVETEIRO" DA VEJA

O brega-popularesco nunca ameaçou os barões da grande mídia. Nem mesmo alguns ativistas sociais simpáticos tentaram convencer o contrário, caindo em contradições e lamentos chorosos. Desde a ditadura militar, bregas e derivados sempre tiveram o apoio sobretudo de emissoras de rádio controladas por oligarquias coronelistas e políticos conservadores.

Mesmo o aparentemente polêmico "funk" sempre contou com a ajuda das Organizações Globo desde o começo, já a partir da rádio 98 FM (atual Beat 98), que sempre apoiou o gênero. E mesmo o discurso "ativista" que envolve os funqueiros hoje foi na verdade uma retórica armada dentro das Organizações Globo e da Folha de São Paulo, nada tendo a ver com ativismo progressista.

Sérgio Martins, que agora faz propaganda dos bregas, pode ser considerado o "sorveteiro" de Veja, na medida em que dá um refresco aos leitores numa revista marcada pelo reacionarismo de articulistas como Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Rodrigo Constantino e até mesmo o roqueiro Lobão.

Só que isso não significa que o mundo do brega seja antagônico ao "paraíso" do neoliberalismo proclamado pela "nata" da revista. Até porque isso tem uma exata analogia com o que acontece nos Estados Unidos da América, a pátria maior do neoliberalismo.

Se lá existe o "pesadelo" das guerras no Oriente Médio, da proteção ao país-cliente Israel, e das intervenções aqui e ali no mundo pela CIA, lá existe o "sonho" do cinemão de Hollywood, do hit-parade pop, da Disneylândia.

Nesse âmbito ideológico, tem-se ainda a McDonald's e a Coca-Cola, que só por adotar a cor vermelha na sua concepção estética, não viraram socialistas. Como também os sorrisos de Mickey, Pateta, Minnie e Pato Donald não representariam o contraponto "progressista" às operações militares dos EUA em alguma parte do mundo.

Não serão, portanto, os bregas do passado ou os funqueiros, axézeiros, breganejos, sambregas e arrocheiros de hoje o contraponto das histerias neoliberais dos articulistas de Veja. Isso porque a bregalização cultural se construiu sob uma perspectiva rigorosamente mercantilista, comercial e tendenciosa, não sendo um discurso pseudo-ativista que irá renegar tudo isso.

Portanto, a intelectualidade "bacana" deverá relaxar. Que eles esqueçam os puxa-saquismos a ícones esquerdistas, dancem o "Lepo Lepo" e o "Beijinho no Ombro" abraçados aos barões da grande mídia, e parem de fingir que se opõem ao direitismo midiático, até porque foi por causa deste que o brega cresceu de forma vertiginosa no país. É a lei do mercado, estúpido!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...