segunda-feira, 7 de abril de 2014

ROBERTO CARLOS E SUA ASSOCIAÇÃO COM A DITADURA MILITAR


Por Alexandre Figueiredo

A revista Época, lançada no último fim de semana, lançou uma reportagem revelando o forte apoio que Roberto Carlos deu ao regime militar e o fato dele ter sido bem tratado pelos generais, a ponto de um ministro da Justiça ordenar a liberação de um filme, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, da Censura Federal, e também do fato do "Rei" ter chegado a receber uma concessão de rádio FM.

Que Roberto Carlos teria sido um figurão conservador, desde quando era jovem, isso não é surpresa alguma. Mas com o tempo foram revelados, aos poucos, alguns aspectos do conservadorismo do cantor capixaba. Numa entrevista ao jornal Última Hora em 1970, por exemplo, Roberto assumiu ideologicamente ser "de direita".

Agora a reportagem revela outros aspectos. Um que Roberto teria sido funcionário do Ministério da Educação e Cultura nos primeiros anos do "governo revolucionário" (como era conhecida a ditadura militar em seu tempo), já em 1964, ano de surgimento da Jovem Guarda.

Segundo depoimento da jornalista Noemi Flores, que foi chefe de Roberto, ele teria trabalhado como assistente de relações públicas da rádio MEC, no Rio de Janeiro, cargo que desempenhou até 1970, quando foi exonerado. Foi a época de sua ascensão meteórica e do auge de sua popularidade.

Em 1968, o lançamento oficial do filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, produção do ano anterior, chegou a ser barrado pela Censura Federal, apenas por questões burocráticas, já que o filme não apresentava qualquer conteúdo ameaçador ao regime. E sua liberação ocorreu por iniciativa pessoal do ministro da Justiça do governo Costa e Silva, Luiz Antônio da Gama e Silva.

Gama e Silva era um entusiasmado defensor do regime ditatorial, tanto que coube a ele, no final de 1968, fazer a redação do texto do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), que estabeleceu medidas mais duras de repressão e censura e extinguiu o habeas corpus para favorecer ainda mais as punições contra os opositores do regime.

Roberto Carlos recebeu medalhas e outras homenagens, se apresentava em eventos promovidos pela ditadura militar, até mesmo para o Exército, aspectos bem mais fortes do que sua recente iniciativa de se apresentar para gente muito rica em cruzeiros marítimos.

Além disso, Roberto Carlos foi um dos primeiros nomes influentes na bregalização do país, tendo inspirado as carreiras de cantores como Odair José, Paulo Sérgio e Amado Batista, além de influir ideologicamente em outros ex-Jovem Guarda como Fevers (inclusive Michael Sullivan) e Dom & Ravel.

Até mesmo o cantor Waldick Soriano teve sua popularidade favorecida pelo fato de seu romantismo ser similar ao do "Rei", embora musicalmente o cantor capixaba apostasse numa proposta mais arrojada, que era fazer uma sonoridade mais soul. Hoje tido como "libertário", Waldick, que era direitista, gravou discos-tributo ao repertório de Roberto Carlos.

Nos anos 80 e 90 Roberto, que segundo a Época foi sócio da rádio Terra FM (até hoje no ar), contribuiu para abrir as portas das deturpações bregas da música caipira e do samba, contribuindo, quase que diretamente, na ascensão de nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano e Alexandre Pires.

A proximidade de Roberto com Michael Sullivan também é notória, através da gravação de "Amor Perfeito", de Sullivan, Paulo Massadas, Lincoln Olivetti e Robson Jorge, e depois de "Meu Ciúme", que Sullivan e Massadas, que comandavam um esquema jabazeiro para a MPB, compuseram especialmente para o cantor.

Aspectos como esses podem explicar por que Roberto não quer que publiquem biografias não-autorizadas. Se bem que o episódio contra Paulo César Araújo não pode ser vista como maniqueísmo, porque o historiador da PUC-RJ, hoje cortejado "informalmente" pelas Organizações Globo, também adotou a mesma postura a respeito de Waldick Soriano, cujo direitismo não poderia ser evocado, para o bem de sua imagem "limpinha" para a posteridade.

Portanto, há muito mais coisas a serem reveladas nos bastidores do comercialismo musical brasileiro. E que certamente deixarão muita gente de cabelo em pé e a intelectualidade "bacaninha" bastante envergonhada. O cruzeiro marítimo da cultura transbrasileira e transatlântica está à deriva.

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