quarta-feira, 9 de abril de 2014

QUANDO SER "PROVOCATIVO" É IDIOTIZAR


Por Alexandre Figueiredo

Um incidente ocorrido hoje numa escola pública do Distrito Federal é reflexo de toda uma blindagem que a intelectualidade "bacana" faz em torno do brega-popularesco, que é uma visão etnocêntrica e estereotipada de "cultura popular".

Desta vez foi uma questão de prova, que citou a funqueira Valesca Popozuda (grafada com "W" no lugar do "V") como "grande pensadora contemporânea", algo que repercutiu muito mal nas mídias sociais. Tanto que a própria Valesca, para não pegar mal, recusou o rótulo, escreveu que era "uma bobagem" e que vai ler "um Machado de Assis para, quem, sabe, ser uma pensadora de elite".

O docente que cometeu a gafe se chama Antônio Kubitschek. Ele afirma que não tem parentesco com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, cujo governo simbolizou o espírito do tempo em que a música brasileira mais destacada era a Bossa Nova.

A escola é o Centro de Ensino Médio 03 de Taguatinga, uma das cidades-satélites (espécie de bairros) de Brasília. Antônio considerou sua atitude correta e disse várias "pérolas" politicamente corretas para justificar sua tese. Vamos lá:

"Acho que a Valesca foi muito feliz ao levantar as críticas contra o preconceito em relação ao funk e à ela, assim como quanto aos problemas dos professores".

"As discussões foram válidas. O objetivo não era se a Valesca era ou não uma grande pensadora. De acordo com alguns pensadores franceses, todo aquele que consegue produzir um conceito é um pensador. Dentro disso, sim, ela é".

"Antigamente era mais rígido [o processo de elaboração das provas], mas agora tem uma abertura para o que é a cultura popular. Não acho errado. O professor colocou algo que tinha a ver com o contexto da prova e a socieda está vivendo".

Cria-se polêmica à toa no Brasil de hoje. A banalização da polêmica e a mania de intelectuais oportunistas quererem ser "provocativos" pouco fazem com que a mediocrização cultural, que já está avançando nos índices da idiotização mais aberta, seja realmente discutida pela sociedade.

Na verdade o rótulo "provocativo" é apenas uma desculpa para os apologistas do brega empurrarem seus ídolos e fenômenos para contextos mais "sérios". Isso não traz discussão verdadeira, até porque a polêmica é diluída para ser uma estratégia de marketing. E isso só glamouriza a breguice, mais ainda, em completo prejuízo para a cultura brasileira.

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