sexta-feira, 4 de abril de 2014

MULTINACIONAIS, LATIFÚNDIO E GRANDE MÍDIA TENTARAM ARRUINAR A MPB


Por Alexandre Figueiredo

A Música Popular Brasileira foi empastelada pela ditadura militar, numa aliança que incluiu a indústria fonográfica, o poderio midiático e o latifúndio que controla o interior do país e que exerce seu poder em rádios interioranas, supostamente "populares".

A blindagem intelectual tentou ocultar essa realidade, usando-se de uma retórica confusa mas atraente que, a pretexto de "perder o preconceito" - que na verdade era uma postura bastante preconceituosa, na medida em que se aceita tudo sem questionamento, em nome do "popular" - , forçou a aceitação confortável da sociedade em geral de tudo que era breguice cultural.

Mas, já que ressurgem análises diversas sobre o que realmente foi a ditadura militar, quem a apoiou e como surgiram os problemas que se refletem até hoje no país, seria melhor avaliar realmente sem preconceitos, ou seja, sem a aceitação passiva das coisas, sobre o que aconteceu com a MPB que hoje se encontra numa quase silenciosa crise.

Nos primórdios da ditadura militar, até pelo simulacro de "democracia" que os generais tentaram promover no país, a MPB conseguiu se projetar e lançar novos artistas. Isso surgiu dentro de um curioso contexto em que duas forças antagônicas entre 1958 e 1964, a sofisticação da Bossa Nova e a música de raiz reciclada pelo CPC da UNE, se fundiram no que hoje é a moderna MPB.

A moderna MPB, que era um dos últimos canais de diálogo entre a classe média e as classes populares, conseguiu lançar novos artistas - alguns já falecidos, como Elis Regina, Gonzaguinha, Taiguara e Sidney Miller, e outros em atividade até hoje, como Chico Buarque, Joyce, Milton Nascimento e Edu Lobo - que perduraram no sucesso numa fase que durou até 1976.

Embora essa fase seja representativa de ricas expressões musicais, que puxaram ainda a geração dos anos 70 - Ivan Lins, Diana Pequeno, Alceu Valença, Zé Ramalho e outros - , além da abertura dos portos à globalidade pop do Tropicalismo (1967-1969), ela criou um grande problema, na medida que a música brasileira de qualidade ter passado a ser associada a artistas de elite.

As classes populares, a partir da ditadura militar, romperam com suas próprias raízes, já que o poder latifundiário, que controlava as rádios e estabelecia parcerias com rádios, TVs e gravadoras sediadas em São Paulo, decidiu impor ao povo pobre um tipo de música "não muito brasileira" e "não muito sofisticada" que encaixou perfeitamente no processo de controle social sobre as massas.

Essa música, a música brega, já mostrava, em vez de modinhas, sambas, toadas e outros ritmos autênticos, cancionetas frouxas que, nos seus primeiros sucessos, não se definiam se eram country ou bolero. Era como se péssimos artistas quisessem fazer country e bolero ao mesmo tempo, sem ter a noção exata do que era um nem outro.

A partir dos ídolos cafonas, a cultura musical brasileira passou a ser nivelada por baixo e comandada por um esquema de jabaculê (corrupção envolvendo mídia, ídolos musicais e gravadoras) que se propagou e fez o brega se multiplicar em numerosas tendências pseudo-populares, que a blindagem intelectual recente tentou creditar como o "moderno folclore transbrasileiro".

CAMINHOS PARA A SUPREMACIA

Com o apoio de ídolos da Jovem Guarda que sucumbiram ao comercialismo - sobretudo membros dos Fevers - e outros produtores fonográficos e executivos de gravadoras e agências de famosos, a música brasileira "mais popular" sucumbiu a um processo de americanização pelo brega que deixou para trás o rico patrimônio cultural, que agora era apreciado apenas pelas elites de formação universitária.

O processo fez com que o povo pobre no Brasil passasse a tomar como "sua" uma pseudo-cultura plastificada, postiça, americanizada, de ritmos estrangeiros que não eram assimilados pela vontade própria, mas pela imposição das rádios "populares" patrocinadas pelos grandes proprietários de terras de suas regiões.

Com isso, os anos 70 mostrava as áreas rurais praticamente tomadas de música brega, enquanto os focos de resistência da verdadeira música brasileira se encontrava nos centros urbanos e algumas outras regiões. Mas a bregalização queria mais.

Nos anos 80, a ajuda politiqueira de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães multiplicou as rádios controladas por oligarquias e políticos coronelistas, e fez o brega, que já conquistava os subúrbios de capitais distantes desde o fim da década anterior, a entrar, na década seguinte, ingressava nos subúrbios dos grandes centros urbanos.

A bregalização teve o apoio explícito das grandes redes de TV, da mídia mais reacionária, das grandes gravadoras com sede de lucro, com agências de famosos financiadas pelo latifúndio, pelas multinacionais que patrocinavam os bregas aqui e ali, ainda que na forma indireta dos anúncios publicados em rádios, TVs e imprensa e nos patrocínios de eventos ao vivo.

Passados os anos 90, quando os bregas da época encerravam a década com sua "MPB de mentirinha" exposta em tributos caça-níqueis transmitidos pelas redes de TV, a música brega já começava a atingir a classe média e entrava nas universidades pelas portas dos fundos. Era época em que os empresários de brega "compravam" até sindicatos e entidades estudantis para forçar a expansão do brega.

E, começando o século XXI, ainda houve a blindagem intelectual que dava um tom ao mesmo tempo melodramático e pretensamente etnográfico aos sucessos jabazeiros da bregalização, forçando a adesão das classes mais cultas ao brega mais explícito. Chegava-se a 2010 criando até tendências "universitárias" de ritmos bregas, numa imbecilzação que só existia, antes, nos sonhos dos tecnocratas do MEC-USAID dos anos de chumbo.

Agora a supremacia do brega atinge até mesmo os salões da MPB, quando se faz até tributo "emepebista" a Michael Sullivan, um dos chefões do brega dos anos 70-80 e comandou o perverso esquema jabazeiro recentemente denunciado por Alceu Valença. Pior: até o "funk", comprovadamente patrocinado pela CIA (a partir da Fundação Ford), chegou aos grandes salões.

Por isso cabe questionarmos os problemas da MPB. Se hoje a bregalização atingiu até mesmo as elites, que antes monopolizavam a apreciação da verdadeira música brasileira, é sinal que algo está errado. E o verdadeiro preconceito está não na recusa da bregalização - que envolve processos de manipulação social cruéis - mas na aceitação confortável, entusiasmada e submissa aos "sucessos do povão" em detrimento do rico patrimônio musical condenado ao esquecimento.

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