quinta-feira, 24 de abril de 2014

MÍDIA E INTELECTUAIS FORÇARAM REVOLTA DAS PERIFERIAS?

ÔNIBUS QUEIMADOS DURANTE REVOLTA EM CARAMUJO, EM NITERÓI (RJ). AO LADO, CONCESSIONÁRIA QUE SERVIU DE REFÚGIO DE MORADORES E TRANSEUNTES DURANTE O INCIDENTE.

Por Alexandre Figueiredo

Dias atrás, houve tiroteio de policiais e traficantes na frente de uma casa noturna onde ocorria um "baile funk", em Caramujo, Niterói, que causou a morte de dois jovens inocentes vítimas de balas perdidas, causando uma revolta popular que resultou em ônibus e veículos queimados e uma confusão que fez muita gente correr para se abrigar numa concessionária.

Em Salvador, um grupo de assaltantes, revoltado por não achar dinheiro num estabelecimento comercial no Largo dos Mares - no caminho entre a Calçada e a Península de Itapagipe (onde fica a Ribeira e o Bonfim, com sua famosa igreja) - , provocou um incêndio no local. Antes, durante uma greve de policiais, a capital baiana viveu um surto de assaltos, vandalismo e assassinatos.

No Rio de Janeiro, o fechamento de um trecho da Av. Brasil para a conclusão de obras de um viaduto para BRTs propiciou uma série de brigas e conflitos entre favelados. A região envolvida inclui os complexos do Alemão e da Maré, cujo surto de criminalidade e violência é comparável ao terrorismo que acontece nos países do Oriente Médio, como o Iraque, por exemplo.

Mas, também no Rio de Janeiro, o admirado bairro de Copacabana teve um trágico incidente numa favela vizinha ao bairro, também situada junto à Lagoa Rodrigo de Freitas. Em circunstâncias ainda não esclarecidas, o dançarino Douglas, do programa Esquenta!, da Rede Globo, foi encontrado morto causando uma violenta revolta que se seguiu a um tiroteio que matou outro inocente.

Em São Paulo, um grupo de revoltosos invadiu uma garagem de ônibus e provocou o incêndio que atingiu nada menos que 35 veículos, numa cidade em que favelas são incendiadas supostamente em nome da especulação imobiliária e a atuação do PCC, grupo criminoso local, já chamou a atenção do país por sua periculosidade.

O que está havendo com as periferias? Aquela Disneylândia suburbana de sonho e fantasia, embora cercada de construções precárias, ruas mal asfaltadas (quando assim são), lixo no chão e pessoas maltrapilhas e até desdentadas, que só existe na imaginação de intelectuais e barões da mídia que, a pretexto de defenderem o povo, difundem essa visão ilusória que nada ajuda.

Pelo contrário, o que se vê é que, de tanto se falar em periferias, o que acontece é que as periferias dos sonhos da intelligentzia - embora tais fantasias tenham recebido a roupagem "científica" e "etnográfica" de monografias e documentários - deram lugar ao pesadelo das elites, inclusive a própria intelectualidade "bacana", que é a revolta sem controle das comunidades pobres.

Não se trata da periferia de pobretões sorridentes e quase debiloides que o discurso intelectual, mesmo travestido da mais pura objetividade, cortejava em seus produtos informativos ou acadêmicos, mas de um povo que, abandonado pelas autoridades, sem uma cultura que não aquela imposta pela mídia e que tornou-se sua única opção de entretenimento, faz sua revolta à sua maneira.

São atos até extremos, como queimar ônibus, saquear lojas, depredar agências bancárias e cometer assassinatos que mostram que o grito dos pobres nada tem a ver com a "agressividade" domesticada e estereotipada do "funk". E mostram o quanto existe uma classe abandonada por políticos e intelectuais que há muito fazem promessas que em nenhum momento são realmente cumpridas.

Na volta de um dia de praia em Piratininga, eu mesmo pude ver, na altura do Viradouro, em Niterói, duas faveladas se puxando pelos cabelos, numa briga grotesca em plena rua, num bairro onde morei nos anos 80 e que, desde os anos 90, tornou-se uma área bastante perigosa. Bairros como Viradouro e Santa Isabel, este em São Gonçalo, viraram terra de ninguém.

A intelectualidade "bacana" e "boazinha", que acha que está promovendo ativismo social passando a mão nas cabeças do povo pobre, sem saber de fato seus verdadeiros problemas, só fez expor as classes populares para a opinião pública. Discutir se este é um aspecto positivo ou negativo é controverso, mas a situação de abandono das comunidades pobres de certo modo se evidenciou.

O povo pobre já não tem a sua cultura, aquela com vínculos comunitários, porque ela foi usurpada pelas classes médias altas de formação acadêmica, depois que se rompeu o diálogo e o debate do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.

Hoje "cultura do povo pobre" passou a ser aquela ditada por rádios e TVs controladas por grupos oligárquicos, que manipulam desejos e necessidades corrompendo as classes populares às custas de produtos culturais confusos, de qualidade duvidosa, que nada trazem de valores, conhecimentos ou qualquer coisa que promova o progresso social das classes populares.

Tudo virou um pálido consumo. O povo pobre virou escravo dessa "indústria cultural" que não lhes traz cidadania, não melhora suas vidas, e que só promove o envaidecimento paternalista de intelectuais supostamente progressistas que não passam de colaboradores free lancer dos barões da mídia, por mais que insistam em vender seus pontos de vista em veículos como Carta Capital, Caros Amigo, Fórum e Brasil de Fato.

O povo pobre quer melhorias de vida e a intelectualidade perdendo tempo fazendo glamourização da ignorância, da miséria e da pobreza, prendendo o povo nas favelas e impedindo as prostitutas de optarem por empregos melhores.

É um discurso intelectual que junta o modismo trash e o politicamente correto, ambos importados dos EUA da Era Ronald Reagan, e que no Brasil ganhou roupagem falsamente progressista, que limitava as melhorias de vida das classes populares ao consumismo brega, à expressão do mau gosto e à permanência da ignorância.

O povo pobre virava um espetáculo para o deleite de intelectuais burgueses. A intelectualidade dominante dizia que "a pobreza é linda", "a ignorância é sagrada", falava de uma "pureza" da miséria popular que tranquilizava a todos. Insistiam no papo de "romper os preconceitos", mas se limitavam apenas a aceitar a pobreza, com todos seus símbolos e personagens, em vez de resolvê-la.

Só que aí as classes populares mostram seus gritos. Nada daquela glamourização da pobreza do brega, daquela "pobreza linda de se ver" com suas favelas idealizadas como "paisagens de consumo e admiração". E tudo dos atos extremos e desesperados, da revolta sem controle que mostra o caos das cidades, o pesadelo que desfaz a "periferia dos sonhos" como se desfazem castelos de areia.

São ônibus queimados, assaltos, saques, depredações, tiroteios. O crime organizado torna-se opção para jovens pobres que não conseguem emprego e não tem sequer escola para aprender valores éticos nem habilidades profissionais ou conhecimentos diversos. Os serviços de saúde, precários, matam muitos pacientes pelo descaso, pela desorganização e até por falta de higiene.

Essa explosão de revolta envolve desde a Baixada Fluminense até cidades como Florianópolis, uma cidade de estigma "europeizado" mas que possui uma periferia não muito diferente da que representam Nova Iguaçu, o Complexo da Maré ou o subúrbio ferroviário de Salvador. E que também tem suas explosões de revolta intensa, com seus atos violentos e desesperados.

Portanto, isso é uma situação para se pensar. A doce periferia da "pobreza linda de se ver", difundida pela grande mídia e por intelectuais "independentes" mas a serviço "informal" dos chefões midiáticos, se desfaz nos noticiários que, de tão fortes, estão longe de serem noticiosos, até porque não são os "urubólogos" que os divulgam, mas a prole de repórteres de visão mais objetiva e que eles mesmos não refletem necessariamente as opiniões dos seus patrões.

São notícias graves, duras e preocupantes, que não cabem nas monografias montadas em quartos refrigerados dos "etnógrafos de boutique" que lotam plateias com suas palestras de sonho e fantasia. São duras demais para a fantasia dos programas de auditório da TV aberta e realistas demais para o apetite sensacionalista dos telejornais policialescos.

O grito de revolta das periferias não tem a ver com a revolta domesticada do "funk". Tem a ver com o descontentamento com tudo, com o descaso das autoridades, com a demagogia do poder midiático, com os abusos policiais, com o paternalismo intelectual, que até agora não transformaram as periferias em áreas dignas para o desenvolvimento da cidadania e da qualidade de vida.

E isso é apenas o começo. E já chama a atenção dos noticiários estrangeiros. A situação pode complicar ainda mais, e não será uma intelectualidade organizada e articulada, com seus delírios pseudo-modernistas e pseudo-ativistas, que irá divulgar uma visão dócil e meiga das periferias do recreio brega, da "pobreza linda de se ver" e da "miséria alegre e animada".

Na vida real, as periferias explodem com a raiva popular contra um histórico de desprezo e exploração que o povo pobre sofre há décadas. É o desespero que toma conta das ruas e que desafia a tudo e a todos, o que irá sugerir a ruptura dos verdadeiros preconceitos, que são a demagogia e o paternalismo que ainda veem a pobreza ora como "algo sem importância", ora como "coisa linda de se ver".

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