domingo, 20 de abril de 2014

MICHAEL SULLIVAN E A "BREGUESIA" DA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Tornou-se um mito, espalhado de forma epidêmica pela intelectualidade "bacaninha", que o brega sofria o tal "preconceito" das elites. Mas o brega, de Waldick Soriano a MC Guimê, nunca teve uma rejeição rigorosa das elites, sendo na verdade um grande blefe desses intelectuais festejados.

Eles nem conseguem explicar direito se quem rejeita o brega é mesmo uma maioria ou uma minoria. E não conseguem explicar se as madames aceitam ou não o brega. E toda essa choradeira, na verdade, se dá por conta de uns dois ou três críticos musicais ou acadêmicos que realmente se manifestam contra as breguices que fazem sucesso nas rádios e TVs.

As elites sempre aceitaram o brega. Hoje temos Valesca Popozuda no São Paulo Fashion Week, mas ontem tivemos Waldick Soriano tocando em casas noturnas chiques e tendo um caso com a socialite Béki Klabin. Os mais ricos condomínios hoje tocam "sertanejo", axé-music, "funk" e forró-brega, enquanto as zonas mais respeitáveis das roças evitam tudo isso e tocam música caipira de verdade.

Hoje as elites que julgam "entenderem tudo" de MPB estão aceitando até o bregalhão Michael Sullivan como "gênio injustiçado da MPB". Agora músicas constrangedoras como "Deslizes", "Talismã" e "Um Dia de Domingo" são "clássicos da MPB". A repentina adesão "espontânea" das elites ao repertório de Sullivan & Massadas representa, todavia, mais um problema para nossa cultura.

MICHAEL SULLIVAN FOI UM DOS CHEFÕES MUSICAIS APOIADOS PELAS ORGANIZAÇÕES GLOBO.

NEM AS ELITES CONSEGUEM ENTENDER O QUE É MESMO MPB

Afinal, esse "reconhecimento" das elites a Michael Sullivan nem de longe pode ser um reconhecimento justo a um artista menosprezado, mas, na verdade, um reflexo de como a impunidade se reflete também no âmbito cultural.

Michael Sullivan quis destruir a MPB, de acordo com denúncias divulgadas por Alceu Valença que, mesmo sem dizer nomes, deu as informações que encaixam perfeitamente no esquema jabazeiro comandado por Sullivan e Miguel Plopschi quando eram produtores executivos na antiga RCA, nos anos 80.

Segundo Alceu, o esquema de Michael Sullivan tinha como propósito enfraquecer artistas do porte de Alceu, Chico Buarque e até Fafá de Belém para botar "novos talentos" no lugar, mais submissos à indústria de canções comerciais de Sullivan e Paulo Massadas.

É estarrecedor que hoje Michael Sullivan volte abraçado por uma elite supostamente sofisticada, porém paternalista, que agora acolhe o que as empregadas domésticas ouviram nas emissoras de rádio controladas por oligarquias político-empresariais apadrinhadas por José Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

Michael Sullivan estava a serviço de multinacionais, era patrocinado pela Rede Globo, tinha interesses puramente mercantilistas. Mas hoje ele, esperto como um político em campanha, aparece abraçado a Sérgio Ricardo, Fernanda Takai, Roberta Sá, Os Cariocas e Arnaldo Antunes, naquele mesmo esquema de "morde e assopra".

Vá ele apoiar Sérgio Ricardo nos anos 80. Impossível. Sérgio, que nunca teve o devido espaço de divulgação na mídia, teria que fazer arremedos de baladas soul, pasteurizar os arranjos com excesso de sintetizadores e gravar as rimas pobres criadas por Sullivan e Massadas e que a plateia de incautos pensa ser "clássicos da MPB".

MPB NÃO É COUVERT ARTÍSTICO

Talvez essa adesão das elites "esclarecidas" a Michael Sullivan se deva à sua noção equivocada sobre o que é MPB. Se temos uma corrente que acha que "verdadeira MPB" é todo aquele que lota plateias com facilidade, podendo ser até "mulher-fruta" do "funk", há outra que fala na "boa MPB" de crooners de restaurante, que fazem o tão conhecido couvert artístico.

É uma elite com maior poder aquisitivo e maior capacidade de digerir cultura, mas que prefere ser a burguesia brega e esnobe, um brega-chique de uma "breguesia" que se acha convencida e entendedora de tudo, mas que só quer saber da "boa música" que reconstitua aquele clima consumista dos restaurantes e boates.

Paciência. Poucas pessoas realmente ouvem música neste país. As pessoas ficam bebendo, lavando carros, conversando com amigos, jogando baralho, ninguém fica parado para realmente escutar música. E mesmo gente com nível superior nem tem noção exata do que é boa música, do que é uma boa poesia, sua noção sobre Música e Literatura é vinculada ao que há de banal na TV aberta.

E fala-se de um público mais abastado, dito "esclarecido". Que vai no Facebook e, feliz da vida, vai recomendar uma música de Michael Sullivan - para não dizer outras breguices; já começam a empurrar, por exemplo, Alexandre Pires e Zezé di Camargo & Luciano - para outros membros da comunidade sobre MPB.

Isso mostra o quanto está a cultura de nosso país. E que é uma herança da ditadura militar e seus efeitos diretos ou indiretos. Ou mesmo da influência dos EUA da Era Reagan que pauperizou os estadunidenses e, introduzido no Brasil nos anos 80, gerou toda a breguice que eclodiu nos anos 90 e que hoje nossas elites "tão cultas" acham o máximo de "requinte e sofisticação".

É bastante perigoso. Afinal, Michael Sullivan é um compositor medíocre, um cantor de terceira categoria, mas que agora recebe um tratamento vip como se fosse o "novo Tom Jobim". É preocupante, vide sua trajetória perversa de empastelar a MPB e promover a decadência gradual de nossos maiores artistas.

Querer que Michael Sullivan seja o "cavaleiro da Esperança" da MPB autêntica é apostar na memória curta e deixar que um sujeito que quis acabar com a MPB se aproprie de sua recuperação. É como deixar o galinheiro aos cuidados de uma raposa, o que trará um prejuízo certo à nossa MPB autêntica, sem espaços, sem grande público e, ainda assim, à mercê de oportunistas como Sullivan.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...