sábado, 26 de abril de 2014

MEDIOCRIDADE CULTURAL TENTA "MELHORAR" SUA QUALIDADE


Por Alexandre Figueiredo

É tudo muito tendencioso. Ultimamente, os ícones do brega-popularesco, não somente músicos, mas também (sub)celebridades, tentam agora mostrar "alguma substância". Num contexto em que o bregalhão Michael Sullivan e suas rimas toscas é promovido a "gênio sofisticado da MPB", todo mundo agora quer ser "inteligente" e "mais criativo".

Valesca Popozuda deu a largada. Ela agora quer retirar o silicone, sua antiga marca registrada, para parecer "mais fina" para as elites. Até prometeu ler Machado de Assis para, quem sabe, ser a "filósofa" que a intelectualidade "bacana" sonha tanto dela. E isso com o "funk" descobrindo, só agora, o pandeiro e a gaita, através do "funk ostentação" e uma versão paródica de música de Alceu Valença.

Aliás, Valença denunciou o esquema jabazeiro de Michael Sullivan no último carnaval, e infelizmente a repercussão foi baixa. O lobby em torno do cantor e compositor dos Fevers é muito grande, pouco importando se ele tem ligações com um Roberto Carlos cada vez mais conservador. Sullivan é um dos pioneiros da supremacia brega que hoje é defendida por um poderoso lobby que envolve até acadêmicos.

E aí, com as muitas críticas ao brega-popularesco, seus ídolos agora tentam se "informar de tudo". Nomes do "sertanejo universitário", como Victor & Léo, são supostas "enciclopédias pop". Todos agora "conhecem" Byrds, Ramones, Neil Young, Clube da Esquina, Legião Urbana etc etc etc. E lá vem os bregas pioneiros Chitãozinho & Xororó puxarem o saco do saudoso Raul Seixas.

O sambrega agora entende de samba, sambalanço, Tropicalismo. Mumuzinho, o mais novo cantor do gênero, tenta trabalhar uma imagem de um neo-sambalanço nos moldes dos anos 70, na aparência. Enquanto isso, sambregas em geral se dividem entre aqueles que fazem um samba politicamente correto, sem alma mas verossímil, e outros que imitam o soul norte-americano com ritmo sambista.

E há o Leandro Lehart que só soube 20 anos depois que poderia ser "genial", de tão medíocre que é, reduzido hoje a um arremedo de sambalanço que promete fazer (e não faz) num momento tardio de sua carreira o que o saudoso Monsueto já fazia (e melhor) desde o começo.

Evidentemente, temos a Ivete Sangalo pondo o nariz dela onde não é chamada, ela que soa como uma versão piorada da antiga mania de Caetano Veloso de se apropriar em tudo que é tendência musical aqui, ali e acolá. Pelo menos Caetano mostra conhecimento de causa.

Já Ivete mostra pedantismo e uma ânsia maior de impor sua imagem a qualquer tendência. Ela apareceu até para duetar com um "holograma" de Renato Russo em tributo produzido pelo filho deste. Se deixarmos, Ivete participa até de tributo aos Ratos do Porão, com João Gordo recebendo ela de braços abertos e tudo.

Mas é uma época em que até a medíocre Rádio Cidade, no Rio de Janeiro, posa de "rádio de rock alternativo" tocando Pixies para as paredes. Ela mesma não está fora de um contexto em que os medíocres querem agora se "melhorar", todo mundo querendo ser "vanguarda" sem ter a menor ideia do que está fazendo ou quer fazer.

O súbito falecimento do ator José Wilker, dias atrás, demonstra o quanto a mediocridade parece trazer uma energia pesada para os grandes mestres. E ele se somando a uma lista de pessoas e projetos prematuramente ceifados, como Glauber Rocha, Sylvia Telles, Leila Diniz, Don Rossé Cavaca, Raul Seixas, Renato Russo, Oduvaldo Vianna Filho, João Goulart, Chico Science e Sérgio Porto, e TV Excelsior, Fluminense FM, Pan Air, Gurgel e Gradiente.

O Brasil não pode ser Brasil. Que seja apenas a eterna colcha de retalhos do resto do mundo. Que seja tudo, exceto si mesmo. Um Brasil com personalidade ofende o Departamento de Estado dos EUA. Torna o Brasil ousado demais, "complicado" para o mercado.

Daí a mediocridade de um país que só deve imitar os outros ou diluir ideias ousadas em fórmulas caricaturais. Sempre com a desculpa de que, "com tanta coisa ruim por aí, até que estamos fazendo o melhor possível".

E as "boazudas"? Agora elas ensaiam peças de teatro infantis, vão para eventos de beleza, exposições de automóveis, depois de tantos anos se autoafirmando apenas por seus corpos. Sinal de que a chamada "liberdade de corpo" - cujo sentido, no contexto sexual, equivale à "liberdade de imprensa" dos "urubólogos" - só agora é reconhecida como insuficiente para a "emancipação" dessas "musas".

Temos que suportar os medíocres que sempre arrumam um jeito para permanecerem em evidência, até mesmo fazendo hoje o que se recusariam a fazer cinco anos atrás. E que, quando estão à beira do ostracismo, encontram sempre um empresário sacando dinheiro no bolso para "ressuscitá-los" e um acadêmico para escrever teses mirabolantes sobre eles.

E aí haja cantor de sambrega que, no começo, não se importava se Wilson Simonal estava vivo ou morto, mas que hoje se autoproclama seu "herdeiro musical". E haja funqueira removendo silicone anos depois de achar isso impossível. E "boazuda" fazendo peça infantil depois de tanto tempo se "mostrando" demais.

E todo mundo ganhando programas trainée, com assessores de imprensa lhe treinando para entrevistas, consultando Wikipedia e You Tube para "saber um pouco mais", recebendo macetes, sendo adestrados conforme o ISO 9000, tudo para parecerem "mais inteligentes", "mais informados" e até "mais decentes". O brega tenta ser chique e sofisticado, sem sê-los de fato.

Não podemos ser um país de mestres, de grandes ideias. O Brasil não pode ser um país altivo e com personalidade. E a pior herança da ditadura militar é agora, com a supremacia da mediocridade cultural e essa tapeação de sub-artistas e subcelebridades de agora quererem "melhorar" tardiamente, de maneira tendenciosa e oportunista.

Daí que não recuperamos o principal que os militares derrubaram: o desenvolvimento de um Brasil com personalidade, com grandes projetos, sem medo de competência, de talentos verdadeiros, sem medo de reconhecer que nem todo mundo tem todas as habilidades.

Era um Brasil que sabia de potenciais, de limites, de desejos, um Brasil que precisa ser recuperado, não na forma das falsas melhorias para manter os medíocres de hoje, mas da superação e da ruptura desses símbolos da mediocridade para buscarmos algo bem melhor. Para que, no meio do caminho, não vejamos mais mestres "indo embora" como o inesquecível e dinâmico José Wilker.

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