quarta-feira, 23 de abril de 2014

IRMÃOS MARINHO DÃO UMA AJUDINHA PARA A RÁDIO CIDADE


Por Alexandre Figueiredo

Nos anos 90, era muito comum, na era da supremacia quase absoluta da grande mídia, haver reportagens sobre rádio feitas sob o ponto de vista dos gerentes artísticos, por sua vez, representantes dos interesses dos seus patrões, donos das rádios. Conceitos e fórmulas eram distorcidos, mas o que prevalecia era a visão oficial, sempre exaltada nas reportagens.

Se alguém reclamava, em carta para um jornal ou revista, por que, por exemplo, tal rádio deturpava algum conceito ou por que ela tomou o lugar de uma emissora considerada genial, a tendência era o editor da seção de cartas jogar a missiva no lixo, com o mais cômodo desdém.

Com o crescimento da Internet e, sobretudo, da blogosfera, as queixas que antes iam para as cestas de lixo na forma de cartas rasgadas deram lugar a comentários registrados em fóruns virtuais e blogues que permanecem no ar durante anos e causam repercussão que antes era evitada pelas redações da imprensa escrita.

Por outro lado, decaíram as reportagens sobre rádio que mais cheiravam a peças publicitárias e sempre seguiam o ponto de vista de donos e gerentes de rádio, mesmo quando ouvintes, celebridades e estatísticos eram entrevistados. A péssima repercussão nos comentários da Internet fazia a diferença.

Mas isso não impede que, volta e meia, apareçam reportagens desse tipo, com um claro ranço jabazeiro e marqueteiro. É o que se viu no Segundo Caderno de O Globo, na edição de 20 de abril de 2014, intitulada "Rádio Cidade, o regresso nas ondas do rock", em que o velho estilão de "reportagem de mesa de negócios".

Tendo como principal entrevistado o gerente artístico Alexandre Hovoruski - conhecido por produzir CDs de pop dançante da Jovem Pan 2 - , a reportagem, escrita por Sílvio Essinger e com box de Bernardo Araújo, até admite que a Rádio Cidade prioriza o "rock de 1990 e 2000", mas exagera na "militância da rádio pelo rock".

Primeiro, porque a Rádio Cidade de 1995-2006 e da atual fase nunca foi mais que um vitrolão roqueiro. Não é uma rádio de rock no sentido de personalidade, de estado de espírito e muito menos de atitude.

Isso é tão certo que, na sua volta, o que se viu foram roqueiros estereotipados, tanto nas festas de relançamento da rádio quanto nas peças publicitárias, neste caso com criancinhas com linguinha de fora e fazendo sinal de demônio com as mãos. Ou então os rapagões tatuados por todo o corpo nas festas de comemoração, num contexto em que até MC Guimê tem o corpo todo tatuado.

"ROCK MAIS NOVO" É EUFEMISMO PARA HIT-PARADE

Evidentemente, mesmo com o avanço da Internet, os espaços de debates sobre rádio ainda estão muito conservadores. Os sítios sobre rádio ainda seguem o ponto de vista dos donos de rádio, e exaltam qualquer novidade que vier, até desestimulando qualquer questionamento. Se uma rádio histórica sai do ar, há aquelas "lágrimas de crocodilo" e depois ninguém mais discute.

Daí que prevaleceu o ponto de vista favorável ao da Rádio Cidade e a eventual reação de quem não gosta de ver a emissora sendo questionada. Afinal, a Cidade FM comete uma série de contradições e erros desde que encanou em ser "rádio de rock" e perseguir um carisma igual ao da antiga Fluminense FM, sem ter a vocação nem competência para tal.

Diante dessa complicada situação, a Rádio Cidade arrumou uma desculpa para tamanhos equívocos, que envolvem sobretudo um padrão de locução incompatível para rádios que querem se firmar no segmento roqueiro e mais próximos de uma Mix FM ou Jovem Pan 2: dizer que "prioriza o rock mais novo".

Essa desculpa, aparentemente, livra a Rádio Cidade de certas responsabilidades, e permite que seus adeptos, embora se autoproclamem "adeptos do rock", esculhambem os clássicos do rock. No fundo, dão um tiro no pé, porque músicos de bandas tocadas pela Cidade, como Foo Fighters, Pearl Jam, Green Day, Oasis e Metallica, se relacionam bem com os antigos músicos de rock.

Além disso, para quem não sabe, um dos grupos recentes tocados pela Cidade, o inglês Muse, é liderado por Matt Bellamy, ninguém menos que o filho de George Bellamy, ex-guitarrista de uma banda da pré-Beatlemania, os Tornados.

Os Tornados (não confundir com o estadunidense Tornadoes, que estava na trilha do filme Pulp Fiction) fizeram sucesso em 1962 e 1963 com músicas como "Telstar" e "Robot", que pelo uso do órgão anteciparam por duas décadas o tecnopop britânico de grupos como New Order e Depeche Mode.

Esse impasse, ignorado pelos profissionais e adeptos da Cidade - que agora sofrem a "inócua" concorrência com a Kiss FM, esta priorizando o rock mais antigo - , também se agrava na medida em que, no caso do rock mais contemporâneo, a divulgação se resuma a grandes sucessos e canções de trabalho, a ponto de, por exemplo, a Cidade (assim como a paulista 89 FM) ignorarem a existência do Beady Eye, banda formada por ex-integrantes do Oasis após a saída de Noel Gallagher.

Por isso, o que se ouve na Cidade são os mesmos sucessos de Foo Fighters, Oasis, Pearl Jam etc junto às bandas comerciais como Guns N'Roses, grupos medianos nacionais do porte de CPM 22, medalhões do Rock Brasil e tendências como nu metal e poppy punk, dentro de uma perspectiva que claramente barra o acesso a artistas realmente alternativos.

Pouco adiantam as desculpas do tipo "a Cidade quer ousar mais, mas são os interesses comerciais", ou "até que está bom demais, quem não gostou, que vá ouvir MP3", porque são desculpas similares que fazem a televisão aberta cair em audiência, atrasar salários por meses e jogar funcionários no olho da rua, à própria sorte.

BRASIL 2000 DE 1990 E FLUMINENSE FM DE 1986 É QUE PRIORIZAVAM ROCK MAIS NOVO

Mas compreendamos. Num contexto em que até "funk" é considerado genial e um nome pouco expressivo como Rick Astley chega ao Brasil como se fosse coisa do outro mundo, sem falar que agora Michael Sullivan é "gênio da MPB" e daqui a pouco até o Big Brother Brasil erá tido como "clássico da TV brasileira", dá para perceber por que a 89 FM e a Rádio Cidade andam bastante exaltadas.

É certo que o sucesso das duas emissoras é superestimado, porque na verdade a audiência nem está tão imensa assim e a adesão de roqueiros autênticos (independente do tipo de rock que apreciam, se antigo ou novo) é praticamente nula, mas a visão dominante é de que as duas rádios são "geniais", "revolucionárias" e voltaram "em excelente momento".

Paciência. No país da "pensadora Valesca Popozuda", qualquer coisa é "genial", só são deploráveis os realmente geniais. Que se condenem não apenas João Goulart, mas também Chico Buarque, Fluminense FM, TV Excelsior, Método Paulo Freire, Sylvia Telles e Leila Diniz para o limbo. O "máximo" hoje é "lepo lepo", "beijinho no ombro", Rádio Cidade e 89 FM "roqueiras" e ponto final.

Só que o que poucos observam é que essa desculpa de "rock mais novo" faria sentido mais verdadeiro se fosse não o estilo "Jovem Pan 2 com guitarras" adotado pela 89 e Cidade, mas os trabalhos feitos pela Fluminense FM, de Niterói, em 1986, e pela rádio Brasil 2000 FM, de São Paulo, em 1990.

O contraponto que a mídia equivocadamente atribui entre a Cidade e a Kiss FM no Rio de Janeiro era realmente cumprido, em 1990, pela Brasil 2000 e pela 97 FM, no dial paulistano. Se bem que a Kiss FM, em São Paulo e no Rio de Janeiro (com outorga de São Gonçalo e jeitão de FM niteroiense), demonstra ser a única esforçada na cobertura do rock em geral.

Tanto na Fluminense FM de 1986 quanto na Brasil 2000 de 1990 havia espaço para grupos realmente alternativos, inclusive lançados por selos independentes. A Fluminense até radicalizava, tocando nomes que, embora bastante geniais e expressivos na história do rock, não foram lançados até hoje pelas gravadoras, como Monochrome Set, Teardrop Explodes e Weather Prophets.

CONTEXTO DA MÍDIA CONSERVADORA

Para um mercado radiofônico que acha Rick Astley coisa do outro mundo, é muito estranho que até hoje, por exemplo, uma banda como Buzzcocks, uma das mais importantes da história do punk rock, nunca teve uma divulgação regular em rádio, mesmo com sua música "I Believe" transformada numa versão bem local da banda baiana Camisa de Vênus, intitulada "O Adventista" de grande sucesso.

É um grande absurdo que queixas assim possam ser rebatidas, com senso de "superioridade", por internautas que explicam qualquer limitação ou deslize de emissoras FM com os tais "interesses comerciais" e que, numa atitude kamikaze, "aconselham" os descontentes a migrarem para o MP3 e para o You Tube.

Fazer o quê? O rádio FM está bastante conservador, e muitas FMs no ar no eixo Rio-São Paulo são dignas das mais coronelistas FMs do interior do Nordeste. E mesmo emissoras como Cidade e 89 FM não estão fora do contexto da mídia conservadora que trata um Luciano Huck como se fosse ganhador do Prêmio Nobel da Paz.

O Brasil da Cidade e da 89 FM é o mesmo do Big Brother Brasil, do "lepo lepo", do "beijinho no ombro", de Merval Pereira, de Rachel Sheherazade, de Marco Feliciano, de Jair Bolsonaro, dos ônibus queimados, da corrupção estatal. Não é um Brasil que se considere realmente progressista, promissor, de cabeça erguida, mas um país que opta entre a cabeça baixa e a cara feia.

A própria ajudinha das Organizações Globo na referida reportagem de O Globo, dentro de uma linha editorial que trata Merval Pereira e Rodrigo Constantino como "intelectuais de alta reputação", não tira a Cidade desse contexto de tendenciosismo midiático em que o jabaculê se torna quase uma generosidade entre "mídias amigas".

Por isso as pessoas que exaltam a Cidade e a 89 vivem no seu mundinho de fantasia. Fora dele, as FMs comerciais, os jornalões, as revistonas reaças, a TV aberta, perdem público e credibilidade. Ora, num Brasil de pilhas de Veja encalhadas e Jornal Nacional cada vez menos visto, alguém acreditaria mesmo que multidões de roqueiros iriam dar ouvidos às duvidosas Cidade e 89 FM?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...