domingo, 27 de abril de 2014

INTELECTUALIDADE "BACANA" E O ESPÍRITO DO TEMPO


Por Alexandre Figueiredo

De que serve a linhagem intelectual brasileira que domina hoje? De fantasias pop-socialistas? Não. Ela se serve de uma mistura de comportamento pop com mentalidade de livre mercado, que acontece mesmo em atitudes mais "provocativas", feitas supostamente para assustar os barões da mídia e seus porta-vozes, mas, na verdade, os tranquilizam mais e mais.

Atualmente, os "mestres" Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e Hermano Vianna já não estão tanto em cena, pois agora o discurso deles se multiplicou para uma série de colaboradores e discípulos que aparecem em dado momento com um texto ou um ato "provocativos".

É um cineasta que vai "sociologizar" demais sobre o "funk ostentação". É o professor de escola pública que chama uma funqueira de "grande pensadora". É o curador de exposição que chama um grupo de "funk" para abrir uma exposição sobre uma cantora de jazz. É o ativista social que faz palestra sobre a bregalização. Etc, etc, etc.

Eles ficam felizes por "fabricar polêmicas", acham que a bregalização do país irá salvar as classes populares, bastando apenas um pouco de "provocação" aqui e ali e esperar que a chuva de dinheiros e algumas consultas nas mídias sociais transformem os ídolos bregas em pós-tropicalistas transgênicos, promovidos a supostas enciclopédias pop.

E por que esses intelectuais pensam assim? Eles preferem reafirmar a "cultura de massa" - que para eles soa algo "revolucionário" - , em vez de questionar seus mecanismos, símbolos e personagens para reivindicar uma cultura popular mais transparente e realmente ligada aos vínculos comunitários.

Já descrevemos que eles seguem uma linhagem de pensamento que remete à ditadura militar. Por mais que eles reajam chorando diante dessa constatação, já que eles se acham "os mais progressistas e mais democráticos" da chamada classe pensante, a linha ideológica deles é realmente um misto do que eles absorveram dos mais velhos (como Sanches, Araújo e Vianna), crianças durante o regime militar.

Observa-se que esses intelectuais têm um repertório ideológico. Culturalmente, eles pregam a supremacia do "mau gosto popular", o que vem como herança das leituras confusas dos que viveram a infância entre 1969 e 1978, assimilando Tropicalismo, Jovem Guarda e os "populares" ídolos cafonas que apareceram nos programas de auditório da televisão da época.

Influenciados em parte por Woodstock, eles sonham com um país mais promíscuo, com livre "baseado", mais sarcástico, mais espetacularizado. Livre mercado dissolvido e adocicado em ideais "provocativos" da cultura pop, que leva a provocação como um fim em si mesmo, como se pudéssemos "chocar" a sociedade sem motivos relevantes.

Eles usam até a causa LGBT como um pretexto para promover a promiscuidade, dando como sobremesa a defesa da prostituição como uma profissão permanente, "prendendo" as mulheres pobres no meretrício em vez de dá-las condições para inserir no mercado de trabalho. E não medem escrúpulos para aceitar a espetacularização através dos estereótipos de feministas despeitadas e homossexuais alucinados vestidos de forma exótica.

E as favelas? A intelectualidade "bacana" de hoje sofre a influência do Jornal Nacional, o noticiário que a geração de Sanches, Araújo e Vianna viram e do qual se "alfabetizaram" na visão de mundo. Daí que eles mesmos promovem o contraste entre um exterior explosivo e um Brasil paradisíaco com base no que viram no famoso telejornal da Rede Globo durante a ditadura militar.

Por isso eles pensam o Oriente Médio, a Ucrânia e o caso do território da Crimeia, a América Central e outros países problemáticos afora como nações explosivas, de muitas manifestações, protestos e combates, enquanto o Brasil tem o "ativismo" do entretenimento brega, com o povo indo feito gado bovino para os galpões onde se apresentam seus ídolos.

Daí a Palestina explosiva, a Belém infernal dos conflitos entre árabes e judeus. Mas também há o Pará-iso tecnobrega da Belém de sonhos e fantasia, jogando os conflitos de terras e a tirania midiática para debaixo do tapete para o discurso intelectualoide só poder falar da "paz e amor" dos cafonas paraenses.

Isso é, de forma "cuspida e escarrada" - como diz a gíria nordestina - o Jornal Nacional saltando nas mentes da intelectualidade pró-brega, que vê os prostíbulos, os botecos sujos, o lixo no chão, as casas precárias e decadentes, das favelas promovidas a "arquitetura pós-moderna", de uma periferia miserável e problemática, como se fossem "paraísos de perfeição popular".

A intelectualidade que quer a bregalização na cultura, a liberação da maconha, a permanência da prostituição na vida das mulheres pobres, que exalta o "funk" como se fosse a última palavra em cultura pós-moderna, segue todos esses ingredientes da "cultura transbrasileira".

Eles pegam o ato de provocar do Tropicalismo, o internacionalismo provinciano e tímido da Jovem Guarda, a permissividade de Woodstock e o ilusionismo do Jornal Nacional e constroem seu repertório ideológico que espalham hoje em espaços "progressistas", como se não pudéssemos identificar nele várias heranças conservadoras.

No meio do caminho, eles também aprenderam outras coisas, como o neoliberalismo "subdesenvolvido" de Fernando Henrique Cardoso, o "fim da História" de Francis Fukuyama - sim, ele ajuda a intelligentzia a jogar pá de cal na Bossa Nova e nos antigos ritmos populares - e uma visão neoliberal das novas tecnologias digitais, que é a coisificação do homem pela Informática.

Daí a utopia de que as mídias digitais, em si, causariam a transformação da humanidade. Não mais as ações humanas, mas a da tecnologia. Para a intelectualidade "bacana", não é a tecnologia que serve de instrumento para a mobilização humana, mas a mobilização humana que serve de instrumento para o poder supostamente transformador das novas tecnologias digitais.

Com tudo isso, se sintetiza o que é a intelectualidade que quer brega, quer "baseado", quer promiscuidade e quer a supremacia das novas tecnologias. Por mais que ela se julgue "progressista" e tente falar mal dos conservadores midiáticos, a herança dela vem deles mesmos, porque a "cultura transbrasileira" se serve disso mesmo: do Jornal Nacional a Francis Fukuyama.

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