domingo, 13 de abril de 2014

"FUNK" USA FACTOIDE PARA TENTAR SE DESVINCULAR DOS BARÕES DA MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

Depois que MC Guimê, o astro do "funk ostentação", virou capa da reacionária revista Veja, a intelectualidade "bacaninha" que aposta na bregalização do país ficou confusa. No primeiro momento, veio o susto, no segundo uma certa conformação e, depois, uma tentativa de sair da situação e promover mais "choradeira" para seduzir ativistas de esquerda.

Quando os funqueiros pareciam viver a lua-de-mel merecida e recíproca com os barões da grande mídia, eis que um factoide veio tentar devolver toda aquela campanha "ativista" que promovia os funqueiros.

O professor Antônio Kubitschek (sem parentesco com o saudoso Juscelino) criou uma questão de prova em que não só era citada uma letra de um sucesso de Valesca Popozuda como havia classificado a intérprete funqueira de "grande pensadora contemporânea".

A "provocativa" questão causou uma reação de indignação da sociedade, mas deixou professor e funqueira tranquilos, embora "mais ponderados". Antônio declarou que a questão teve como objetivo "provocar discussão" e a funqueira, "realista", disse que "não estava preparada para ser pensadora".

Outro dos propósitos era de forjar uma nova polêmica ao desgastado "funk" que já estava integrado ao establishment midiático-mercadológico. Era preciso criar uma situação "desagradável" para reativar e renovar todo aquele discurso pseudo-ativista que tanto promoveu o gênero.

Imagine, os funqueiros indo a todos os espaços em que se encontram "urubólogos", socialites moralistas, humoristas conservadores e atrizes que revelam "sentir muito medo", ou de jornalistas femininas que exaltam ações de justiceiros e querem novas "marchas das famílias" nas ruas?

No fundo isso não traz contraste algum, não causa a menor estranheza, mas tira da intelectualidade associada a capacidade de fazer do "funk" um suposto ativismo social, naquela mania pequeno-burguesa de dizer: "façamos a revolução, antes que o povo a faça".

Mas o "funk" não é "povo"? Não, exatamente. O "funk" é um ritmo dançante comercial, e seu discurso pseudo-ativista esconde o contexto que está por trás, que é de uma imagem publicitária de "movimento cultural" tramada pelos próprios empresários do gênero.

O "funk" não é um movimento ativista de verdade, ele apenas se cerca de um discurso publicitário, bastante tendencioso e contraditório, que conta com uma pesada blindagem intelectual, e a diferença é que esse discurso, que parecia gasto, tenta agora se renovar através de uma abordagem mais "sensata".

"RODRIGO CONSTANTINO DO BEM"

Ando pesquisando muito a grande mídia e outras abordagens, e se existe a "sensatez" de Antônio Kubitschek e Valesca Popozuda, há também a "sensatez" de Rodrigo Constantino e Yoani Sanchez. Todos paladinos da "cidadania mais transparente".

Antônio Kubitschek saiu-se como um "Rodrigo Constantino do bem", prometendo "discutir problemas" e "melhorar o país". Tudo bem, estamos numa democracia e existem diferentes modelos de "sensatez", mas o problema é que esses dois exemplos pecam por um certo moralismo, da parte de Rodrigo, ou de um certo sensacionalismo, por parte de Antônio.

O próprio uso do "funk" como medida de todas as coisas relacionadas às classes populares bota em xeque essa sensatez. Antigamente, as classes populares eram capazes de produzir até coisas similares ao Clube da Esquina, delicioso movimento musical melódico que hoje ficou negativamente marcado como "MPBzinha de burguês alienado".

Hoje nem as classes mais abastadas conseguem produzir uma cultura musical de qualidade. Num contexto em que as pessoas passaram a endeusar o "Rei do Jabá", Michael Sullivan, como se fosse o "gênio perdido da MPB", o "funk" reaparece como sinônimo de "sensatez" mesmo com todas as baixarias que produziu e estimulou.

Atualmente até mesmo os funqueiros de "discurso mais direto" estão sendo domesticados. As "musas" funqueiras estão pensando em aposentar os silicones, adotar um corpo mais clean, uma retórica "menos violenta" e tudo o mais, num processo esquizofrênico que não sabe bem se continua se dizendo fiel às "raízes populares" ou se quer "conquistar as elites".

O discurso fica mais confuso ainda. O "funk" quer ingressar na grande mídia, mas luta para se desvincular a ela. A grande mídia foi sua incubadora, foi sua proveta, mas o "funk" passou anos e anos dizendo ter sofrido uma discriminação midiática que nunca existiu. Pois se até a Veja, que condena tudo que é movimento social, adota os funqueiros, essa discriminação é mais mentirosa ainda.

Outros aspectos que também questionam a "sensatez" do caso da "pensadora Popozuda" é que essa suposta coerência de pensamento esbarra em contextos ignorados pelo professor Antônio Kubitschek, que na ocasião de sua prova tentou desfazer os mitos de que o "funk" fazia apologia à ignorância.

PROFESSOR ANTÔNIO KUBITSCHEK É QUE CAIU COMO "PATINHO"

Só que o professor Antônio quis fazer marketing, e não um debate antropológico como ele tenta nos fazer crer. Ele poderia ter evitado a questão, mas a jogou para se autopromover e também jogar a intelectualidade contra os "totens sagrados da MPB".

Se Rodrigo Constantino peca, no seu "humanismo", por achar que o povo pobre será assistido pelo Grande Capital, que a privatização de tudo trará uma sociedade melhor, Antônio Kubitschek, no seu "humanismo", acha que essa "cultura popular" que está aí, mercadológica e midiatizada, garantirá a evolução sócio-cultural do povo pobre.

São duas visões? Ou são dois lados de uma mesma moeda? A Veja que acolhe MC Guimê e Valesca Popozuda é a que tem Rodrigo Constantino em sua equipe. O "funk" nada tem de progressista, nem mesmo para denunciar problemas educacionais. É apenas a mesma conversa de "vítima de preconceito" que agora ganha um tom mais "ponderado", mas mesmo assim nada verídico.

Enquanto isso, a ditadura midiática se diverte. Se o professor Antônio fez a questão para "mostrar de que tipo de carniça se alimentam os urubus da mídia", os tais "urubus" agradecem o feito. Antônio é que caiu feito "patinho" na carniça armada pelos "urubus da mídia". Estes é que arrumam seu discurso moralista para se passarem por "salvadores da humanidade".

Pois enquanto o professor Antônio fica feliz da vida com sua atitude "provocativa" e acha que deixou os "urubólogos" desnorteados, na verdade ele ofereceu os subsídios para que oportunistas como Rodrigo Constantino tentem dar um banho de suposta coerência sociológica ou que outros como o roqueiro neocon Lobão forjem uma rebeldia que no fundo soa obscurantista e retrógrada.

Aí fica o maniqueísmo discursivo. De um lado, os defensores do "funk" se dizendo amigos do povo pobre e querendo que a pobreza fique como está, só com mais investimentos financeiros sem representar qualquer mudança de qualidade na vida. Miséria patrocinada e sustentável.

De outro, os detratores do "funk" se dizendo amigos do cidadão e querendo que o povo pobre tenha qualidade de vida sem ter dinheiro suficiente para tal, buscando conforto e até melhorias culturais, mas sem representar qualquer mudança nas condições financeiras. Qualidade de vida endividada e falida.

Enquanto ocorre esse "duelo" discursivo entre duas forças não muito diferentes entre si, o povo pobre sofre seus problemas rotineiros, sem ter onde morarem e, quando têm, ainda correm o risco de perder tudo em ocasiões de tempestades. O povo pobre sofre e, uma coisa é certa: não são a APAFUNK nem o Instituto Millenium ou seus associados que irão resolver isso.

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