sábado, 12 de abril de 2014

"FUNK" E A "CHORADEIRA" SOBRE EDUCAÇÃO E CULTURA


Por Alexandre Figueiredo

Depois do choque causado ao ver MC Guimê, queridinho das "esquerdas médias", virar capa da reacionária revista Veja, e após o último consolo de ver o jornalista da publicação, Sérgio Martins, se tornar o único consolo diante das reações indignadas das esquerdas "radicais", a intelectualidade "bacana" ainda aposta na "choradeira" do "funk" a partir de factoides desesperados.

Parece que foi de propósito. O professor de uma escola pública de Brasília, Antônio Kubitschek, ao elaborar um questionário a respeito de "problemas sociais" vividos no Brasil, colocou uma questão relacionada a uma música da funqueira Valesca Popozuda. Até aí, virou rotina. O que chamou a atenção foi a classificação da funqueira como "grande pensadora contemporânea".

Aí isso provocou uma reação furiosa da sociedade, que clamou sobre a imbecilização do ensino público, da cultura popular, e os chamados "urubólogos" pegaram carona e declararam a "morte" da educação pública e outros aspectos.

E aí veio a reação "tranquila" de Antônio Kubitschek em relação ao ocorrido, depois de uma reação, meio politicamente correta, meio lisonjeada, da própria funqueira, que primeiro definiu a atitude como "uma bobagem", disse que "não estava pronta para ser pensadora" mas depois se "sentiu honrada" e prometeu ler Machado de Assis para, "quem, sabe, ser uma pensadora de elite".

Antônio - que não tem qualquer parentesco com o famoso ex-presidente que ordenou a construção de Brasília - disse que o propósito é "mostrar que tipo de carniça se alimentam os urubus da mídia". Então tá.

Por sua vez, Valesca tentou minimizar a gravidade da situação: "E se o professor colocou a questão dentro do contexto da matéria? E se o professor quis ser irônico com o sucesso das músicas de hoje em dia? E se o professor quis apenas distrair a turma e fez a questão apenas pra brincar?", como se a funqueira achasse permissível que se brincasse e fizesse ironias em provas acadêmicas.

De repente, Antônio e Valesca saíram "triunfantes". Acham que fizeram uma "revolução social", ele causando uma "provocação" aos preconceitos acadêmicos e midiáticos, ela virando pivô de uma "polêmica violenta" sobre um ritmo supostamente popular. E mais uma vez entra a glamourização da ignorância, agora jogada para um outro contexto.

Afinal, o brega-popularesco, no qual Valesca Popozuda se insere, agora passa por uma fase de suposto "aprimoramento". É Alexandre Pires se passando por "sofisticado" nos palcos do Faustão. É Odair José posando de "clássico" nos palcos das "viradas". Ou então um Leandro Lehart prometendo fazer em 25 anos de carreira o que o saudoso Monsueto já fazia logo no começo.

INTELECTUAIS PRÓ-FUNQUEIROS É QUE NÃO ENTENDEM CONTEXTOS

Agora a glamourização da breguice evoca esse "aperfeiçoamento". "Vejam como nossos ídolos populares (sic) são tão informados", dizem os intelectuais apologistas, confundindo vocação artística com amplo consumo de informações na mídia (do rádio à Internet). E vemos o quanto a intelectualidade quer nos fazer crer que o pop de matizes brega será a cultura brasileira do futuro.

Chega a ser ridículo. A nossa intelligentzia, agora feliz com mais um factoide em prol do "funk", que mostrou a "sensatez" da funqueira e a "ousadia" do professor, quer agora ser a paladina da moral e da cidadania e, "vitoriosos", agora julgam que a "voz da razão" está no "funk" e que só o "funk" - ou "não só ele", mas o "pagode romântico", o tecnobrega, o "brega de raiz" etc - salvarão o Brasil.

Antônio Kubitschek ainda acusou os críticos do "funk" de adotarem a "inteligência egocêntrica" descrita no estágio intuitivo das crianças estudadas pelo pedagogo Jean Piaget. Se for apenas de gente que sonha com um Brasil mais europeizado, como Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, tudo bem. Mas engana-se que os defensores do "funk" estejam livres de qualquer etnocentrismo.

Eles mesmos não pensam a "cultura popular" que defendem conforme outros contextos. Se é "popular", para eles, tudo bem, pouco importando se fazendeiros que matam agricultores e até freiras patrocinem conjuntos de "forró eletrônico". Eles mesmos desconhecem os problemas do "outro", para eles a pobreza é apenas um "paraíso" dotado de construções improvisadas e ruas sem asfalto.

O verdadeiro contexto que está por trás dessa "cultura popular" - que agora os intelectuais querem "consertar" de forma paternalista, ensinando "boa cultura" para os bregas e seus derivados trabalharem em momentos tardios de suas carreiras - envolve coisas que a intelectualidade dominante se recusa a entender ou simplesmente despreza.

Essa "cultura popular" envolve contextos de manipulação midiática, descaso educacional, opressão econômica, alienação política (que, se não é total, impede uma reflexão mais ampla e coerente dos fatos), exploração empresarial, que transformam o povo pobre numa classe problematizada em todos os aspectos, até culturalmente.

Mas aí o intelectual ignora isso. Prefere ele glamourizar a pobreza através dos chamados "produtos culturais", pouco importando o contraste discursivo que faz entre comunidades pobres que sofrem enchentes, deslizamentos de terras, ações de violência, e aquela "pobreza feliz" que dança o "funk", o tecnobrega e coisa e tal em casas noturnas suburbanas de donos já bastante ricos.

Agora a intelectualidade não consegue explicar o que realmente quer. Será que quer ver um povo pobre mais esclarecido? O povo pobre precisa ler livros ou já lhes basta ouvir o "funk"? Ou se os ritmos mais grotescos ficarão "melhores" com injeção de dinheiro do Ministério da Cultura ou um programa trainée que transforma o bregalhão de hoje num suposto "gênio da MPB" de depois de amanhã?

Portanto, tentaram reagir "serenamente" às rejeições da sociedade ao "funk". Tentam dizer que a questão do professor Antônio foi feita "de acordo com contextos problemáticos". Tudo para tentar passar a "boa imagem" do "funk", porque para eles, o "funk" é que é "inteligente", "sensato" e "ponderado". Quem o critica é que, além de "preconceituoso", possui "inteligência egocêntrica".

Até Valesca agora pensa em remover o silicone de seus glúteos, tenta se "endireitar". É o morde-e-sopra que o brega-popularesco tenta fazer para mostrar que é "cultura séria". Mas tudo isso é tendencioso, num país que agora sonha com Michael Sullivan como "gênio maior da MPB", com a intelectualidade "bacaninha" jogando mais cal no túmulo do mestre Tom Jobim.

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