quinta-feira, 17 de abril de 2014

"FUNK" E A BANALIZAÇÃO E IDIOTIZAÇÃO DO ATO DE PROVOCAR

A CANTORA, ATRIZ, DANÇARINA E ATIVISTA JOSEPHINE BAKER (1906-1975) FOI MAIS UMA VÍTIMA DO OPORTUNISMO FUNQUEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

A banalização do ato de provocar, que beira à idiotização mais completa, faz com que uma geração de intelectuais brasileiros caia no ridículo com o apoio ao "funk" e a associação tendenciosa deste ritmo a qualquer pretexto apenas por vagas coincidências.

O "funk" sofre daquilo que os teóricos da Comunicação, ao estudarem as questões da Retórica, definem como "falácia da falsa comparação", em que pequenos e inexpressivos aspectos em comum forçam a analogia entre fenômenos que, no fundo, nada têm a ver um com o outro.

Daí a comparação com o samba, por exemplo. O "funk" nada tem a ver com o samba. O samba era artisticamente mais livre, o "funk" é tão limitado que proíbe um MC de tocar um violão, por exemplo. O "funk" é esteticamente rígido, mas tem um senso marqueteiro suficiente para convencer muita gente de parecer ser o contrário disso.

Muitas vítimas foram feitas para as falsas analogias do "funk". De Antônio Conselheiro a Andy Wahrol. E, agora, a mais recente vítima é a atriz, cantora, dançarina Josephine Baker (1906-1975), estrela norte-americana do jazz e do teatro popular que chegou a se radicar na França e a resistir contra a ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Josephine era conhecida por uma sensualidade considerada escandalosa em seu tempo. Naquela época, sobretudo os anos 1920, as pessoas se chocavam até quando jovens mocinhas mostravam seus pezinhos nus, daí o moralismo por demais rígido, que não se compara com as reações que hoje se tem às baixarias de cunho supostamente sexy.

A atriz também foi uma ativista contra a discriminação racial, contra a opressão política e apoiou o ativismo do reverendo Martin Luther King. E, quando chegou ao Brasil para sua primeira turnê no país, em 1929, ela teve um breve romance com o colega de embarcação, o arquiteto suíço-francês Le Corbusier (1887-1965).

Le Corbusier, mais tarde, seria conhecido como o orientador dos trabalhos de construção do edifício do Ministério da Educação e Saúde, no bairro do Castelo, no Rio de Janeiro, cuja concepção teve a participação de vários de seus discípulos, como Afonso Reidy e sobretudo Oscar Niemeyer. Corbusier foi um dos maiores nomes da arquitetura moderna do século XX.

E o que tem a ver o "funk" com isso? Nada. Quer dizer, nada mesmo, a não ser o oportunismo de curadores do Museu de Arte do Rio de Janeiro, que, para lançar uma exposição de fotografias, gravuras e outros registros sobre o encontro entre Josephine e Corbusier - intitulado Josephine Baker e Le Corbusier - Um Amor Transatlântico - foi chamar um grupo de "funk" para a abertura do evento.

O grupo escalado foi as Tequileiras do Funk, armação que se tornou conhecida pelo grotesco sucesso "Surra na Bunda", e que os curadores do evento arrumaram uma desculpa esfarrapada para explicar a escolha, que "incentivaria a mulher a ser dona do corpo".

Disse um dos curadores, o colombiano Carlos Maria Romero: "Em sua época, Josephine subverteu questões ao lidar com o jeito que percebemos gêneros, orientação sexual, classe e especificamente raça. O convite às Tequileiras para o evento de abertura ocorreu porque, no contexto brasileiro atual, vemos um espírito similar na manifestação delas".

Puro sinal de oportunismo e de falácia da falsa comparação. É como, por exemplo, comparar um trote telefônico dado ao Corpo de Bombeiros de uma cidade brasileira a uma tocaia de vietcongues armada contra os soldados norte-americanos, na famosa Guerra de Vietnã.

A banalização da "provocação", a transformação da polêmica em mercadoria e factoide deixa os intelectuais "bacanas" tranquilos. Como no caso do professor Antônio Kubitschek e sua "pensadora Popozuda", os curadores do MAR estão tranquilos, acreditando, até com ingenuidade quixotesca, que provocaram uma revolução sócio-cultural e que o tempo estará a favor deles.

Não, não estará. O "funk", do contrário das manifestações sócio-culturais e comportamentais aos quais o ritmo carioca é comparado, não tem algo a oferecer senão marketing e factoides. Como um pássaro doente e sem asas, o "funk" procura galhos para se apoiar no abismo e dizer para os outros que está voando.

Se você tirar a polêmica, a retórica "socializante", os factoides e toda a choradeira intelectual registrada até em monografias e documentários, além de inserções oportunistas de "funk" numa prova escolar ou numa exposição de arte, nada sobra. Nada. Só o grotesco, as baixarias, a imbecilização cultural, os baixos valores morais, tudo o que há de ruim no "funk".

Inútil fazer mais uma choradeira clamando "contra o preconceito". Perder o preconceito não é aceitar tudo de mão beijada. Quem rejeita o "funk" é bem menos preconceituoso que quem aceita. Os que aceitam só querem saber de historinhas tristes de MCs, de polêmicas "divertidas" e da espetacularização de suas baixarias.

Já os que rejeitam é que melhor percebem o que realmente é o "funk": um monte de baixarias sem qualidade artística expressos nos CDs e nos palcos. E isso tudo fala muito mais de negativo sobre o "funk" do que toda a "choradeira" e "provocação" querem mostrar de supostamente positivo. O tempo não parece muito interessado em salvar o "funk" para a posteridade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...