terça-feira, 29 de abril de 2014

ESQUERDAS, CORRUPÇÃO E AUTORITARISMO


Por Alexandre Figueiredo

Ser de esquerda e criticar as esquerdas não é atitude contraditória. Num determinado momento, essas críticas são necessárias, porque em diversos planos ideológicos, há sérios conflitos de interesses e divergências muito sérias, que não é o silêncio corporativista a solução para este problema.

Até mesmo dentro das Forças Armadas que comandaram a ditadura militar havia divergências sérias. Tanto que seu artífice pioneiro, o general Olímpio Mourão Filho, não ganhou destaque no grupo que tomou o poder depois da expulsão de João Goulart do poder, em 1964.

Além disso, do grupo civil-militar como um todo, houve expurgo de Carlos Lacerda, o maior defensor do golpe militar, e por outro lado a divergência contra o general extremista Sylvio Frota, que queria uma revitalização da linha dura. Moderados e radicais se debatiam e se divergiam dentro das altas patentes do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Quanto ao Partido dos Trabalhadores, tenho uma postura realista que incomoda tanto esquerda quanto direita. Me incomoda tanto a esquerda petista definir Lula como o "maior líder brasileiro de todos os tempos" quanto a direita definir o ex-presidente como "gângster" ou "chefe dos maiores escândalos de corrupção da História do Brasil". Nem um, nem outro.

Evidentemente, o Partido dos Trabalhadores tinha tudo para ser o melhor e mais equilibrado partido político do Brasil. Poderia ter sido o símbolo de um partido progressista de verdade, não fossem seus vícios de fazer alianças sem critérios éticos e sacrificar seus princípios em prol de vantagens políticas e eleitorais.

Da mesma forma, José Dirceu e José Genoíno, remanescentes de uma geração que lutou contra a ditadura militar, poderiam até mesmo dar a volta por cima e se tornarem grandes líderes políticos. Mas o problema é que eles até agora não explicaram por que se envolveram com o esquema de Marcos Valério e nem tiveram autocrítica suficiente diante do episódio do "mensalão".

Eles morderam a isca de Marcos Valério ou mergulharam com gosto na corrupção? Quando convinha, o PT se aliava a corruptos para obter vantagens. Paciência. O PT é uma Torre de Babel que gerou dissidências diversas, em vários caminhos ideológicos. E se há "fisiológicos" no PT, há gente bastante honesta, também.

Daí o problema. Os principais membros do PT chegam a domesticar seu projeto de governo para tornar aceitável para aliados "importantes" mas não muito confiáveis. E isso é que mancha o partido, e faz com que hoje tenha uma campanha bastante articulada para evitar a reeleição de Dilma Rousseff.

É claro que não vamos querer só o PT no poder. Mas também estranha essa histeria direitista, que atribui os males da humanidade ao esquerdismo. Chegam a dizer que o judeu Karl Marx inventou os regimes fascistas do século XX, num extremo de delírio reacionário.

Esse desequilíbrio ideológico é que incomoda. É certo que, historicamente, o Partido Comunista Brasileiro (desde os tempos em que o PCB se chamava Partido Comunista do Brasil, até "doar" esta nomenclatura ao PC do B) cometeu excessos, vivia de seu autoritarismo pragmático, cometida dirigismo ideológico e coisa e tal, mas daí a dizer que o comunismo inventou o fascismo é delírio puro.

Há a histeria militante dos esquerdistas. Larguei a Causa Operária, no qual tentei me envolver em 1992, porque teria que abandonar minha vida para ficar na militância. Fui acusado de "pequeno burguês". Tinha que ser um militante sem lar, vivendo de esmolas e só fazendo atividades ligadas ao grupo, que ainda não havia criado o PCO.

É muito complicado criticar as esquerdas sendo esquerdista e sem aderir a corporativismos ou tendências "festivas". A intelectualidade "bacana", que não é necessariamente esquerdista - gente como Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo surgiram dos porões acadêmicos do PSDB - , é que soa estranha criticando tanto as esquerdas mesmo se autoproclamando "esquerdista".

Lidar com coerência é difícil. É muito mais cômodo obedecer a impulsos e paixões do que ponderar as questões de forma objetiva. Sobretudo numa época em que o esquerdismo, depois de alguns breves anos de aparente modismo, passou a estar em baixa.

Daí que os antigos pseudo-esquerdistas passaram para a direita, descontando uns baba-ovos que dependem das verbas do Ministério da Cultura e outras instituições no momento controladas pelo PT, PSOL ou similares.

Esses pseudo-esquerdistas, que torciam por Fernando Collor em 1989 e por Fernando Henrique Cardoso em 1994, posaram de "esquerdistas eternos e convictos" em 2005 até discretamente demonstrarem simpatia "independente" por Yoani Sanchez, Rodrigo Constantino e Rachel Sheherazade.

Pessoas que, dependendo do contexto ou das conveniências, defendem tanto a classificação da funqueira como "pensadora" quanto aplaudem a entrada de Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras. Bajulam Che Guevara para forçar o falso esquerdismo, enquanto depois louvam Yoani Sanchez como "voz independente das massas".

As esquerdas erram, e muito, mas não significa que pseudo-esquerdistas se confundam com esquerdistas autênticos, mas falhos. Os pseudo-esquerdistas fazem muito mais em favor das direitas, já que no fundo integram suas fileiras. O pseudo-esquerdismo se aproveita dos pontos fracos das esquerdas e oferece munição para a direita dar sua réplica.

No momento a moda é a direita "moderna" de filósofos, roqueiros, apresentadoras de opinião forte, intelectuais privatistas que se dizem "a favor do povo" e "pit-bulls" jornalísticos. As esquerdas estagnaram-se no discurso, se achando vitoriosas.

As esquerdas foram abaladas por seus próprios erros, seja a corrupção estatal, seja a conivência com a degradação da cultura popular - a pretexto da dita "ruptura de preconceitos" - , seja a corrupção estatal, seja os antigos métodos, visões e perspectivas que transformaram o antigo comunismo numa doutrina velha e sem graça.

Depois de um breve período de ascensão, as esquerdas parecem se acomodarem. Corrupção, autoritarismo, condescendência com os erros e equívocos, tudo isso cria uma névoa para o futuro do esquerdismo no Brasil. A não ser que uma forte autocrítica possa iluminar mentes cansadas e viciadas.

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