terça-feira, 8 de abril de 2014

EMPRESÁRIOS E ATÉ FIFA DEPOSITAM DINHEIRO NOS SAMBREGAS


Por Alexandre Figueiredo

Com a mediocrização musical atingindo níveis extremos no Brasil, o "pagode romântico", ou sambrega, agora recebe pesadas verbas empresariais de diversas fontes para tentar uma "reabilitação". A reboque dele, a sua resposta "sensual", o "pagodão baiano", tenta se alimentar do sucesso nacional do Psirico e, pasmem, usa até Smiths para tentar reabilitar o É O Tchan.

Um dos destaques desse supra sumo da mediocrização cultural é a escolha do ídolo Alexandre Pires, um dos nomes do cenário neo-brega dos anos 90, para cantar na cerimônia da Copa do Mundo de 2014. Regresso ao seu grupo de origem, Só Pra Contrariar, Alexandre Pires chegou a ser apadrinhado pelo casal cubano anti-castrista, a cantora Gloria Estefan e o produtor Emilio Estefan Jr..

Alexandre Pires, que há um bom tempo é patrocinado pela grande mídia mais conservadora - a partir das Organizações Globo, mas também sob o apoio de Caras - , agora é apadrinhado pela Fifa na segunda tentativa de mostrar o cantor para o público estrangeiro.

Junta-se a isso os métodos surreais de reabilitação de grupos como Molejo e Raça Negra, também colegas de Pires no cenário neo-brega. Tentando empurrar grupos como esses para o público alternativo, o Raça Negra chegou a ter um tributo "alternativo" com direito a capa imitando a estética do Sonic Youth. Já o grupo Molejo adotou uma camiseta imitando a estética dos Ramones.

Mas no "pagodão baiano", que depois do "Rebolation" do Parangolé, tentou o sucesso nacional com a música "Lepo Lepo", do Psirico, agora investe na tentativa de reabilitação do já decadente É O Tchan. Em que pese o Compadre Washington aparecer entre os "chatos" de uma campanha publicitária, o grupo também usa os alternativos para forçar a barra da reabilitação.

Desta vez a vítima é o cantor Morrissey, a partir da gravação de uma música dos Smiths. Os fãs do grupo seriam as últimas pessoas que aceitariam ouvir algo do É O Tchan, e se identificam tanto com o grupo quanto Reinaldo Azevedo se identifica com o Movimento dos Sem-Terra, mas a "gracinha" foi feita por um DJ "provocativo" pago para "ressuscitar" o grupo baiano com tal exotismo.

Há também o grupo Os Morenos, que agora tenta "renascer" a partir da excursão comemorativa de sua carreira, há vários anos sem o vocalista original, Waguinho, que virou pastor, político e cantor gospel. É outro grupo da safra sambrega que alimentou o cenário neo-brega da Era Collor.

Fora isso, há a ênfase dos politicamente corretos, aqueles sambregas que querem fazer "samba sério". Há o Thiaguinho, arroz-de-festa patrocinado pelas Organizações Globo, os verossímeis Péricles e Xande de Pilares (agora saindo do Revelação) e o emergente Mumuzinho, apadrinhado por uma atriz da Rede Globo de Televisão.

Só que nada disso enobrece o verdadeiro samba, que corre o risco, depois de um tributo bem-intencionado mas com algum ranço mais elitista, com quatro cantores conhecidos, a se tornar peça de museu (apesar da proteção institucional do IPHAN).

O sambrega e o "pagodão" apenas diluem e deturpam o samba, com mais ou menos sutileza, mas longe de representar tanto algum acréscimo de criatividade quanto a fidelidade às suas raízes. Pelo contrário, as eventuais covers de MPB ou de samba de raiz soam por demais oportunistas e tendenciosas.

Perde o público que espera uma renovação verdadeira do samba brasileiro. O samba de raiz reduzido a homenagens que só atraem um público de elite. Ou então sambistas originais que tocam em seus redutos de origem sob o tratamento típico de artistas estrangeiros, como Paulinho da Viola em Madureira, tratado pelo mercado como Paul McCartney tocando no Engenhão, no Méier.

Afinal, o mercado não quer saber do samba verdadeiro. O povo pobre não pode mais ouvir o samba de verdade como se fosse a sua música. O mercado e o poder midiático querem que os "doentes do pé" monopolizem o samba popular, e eles é que toquem o que o mercado, a mídia e até os "cartolas" (não os do samba, mas os do futebol) decidem do que deve fazer sucesso sob o rótulo de "samba".

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