sexta-feira, 25 de abril de 2014

E SE FOSSE NA CULINÁRIA?


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante, mas "bacaninha", aquela que se julga ser a "última palavra" em consciência popular e defesa do folclore brasileiro, mas que aposta na bregalização e no "funk" como formas de suposta emancipação sócio-cultural, acredita no triunfo de suas teses sobre a "diversidade cultural" expressa nessa "cultura de massa" brasileira.

Ao longo dos tempos, identificamos diversas questões ideológicas dessa intelectualidade "admirável", relacionadas à supremacia do mau gosto e de todos os aspectos da "baixa cultura" que eles defendem e glamourizam em forma de teses que variam de documentários a reportagens, de monografias a programas de TV.

Existe até a habitual "choradeira" que pede que aceitemos essa "cultura popular" como se fosse a salvação para o país. E, de uns meses para cá, há até a promessa de que chuvas de dinheiro e alguma injeção de referenciais culturais de vanguarda resolveria o problema da bregalização.

O discurso intelectual, no entanto, continua passando por cima de questões morais, educacionais, ou mesmo questões como a manipulação midiática e os interesses mercadológicos, entre aspectos que beiram a incoerência. "Popular" é um vale-tudo que só cabe ser elogiado pela intelectualidade mais influente.

E se fosse na culinária? Será que faria sentido fazer tamanhas defesas de coliformes fecais, como se fossem formas "legítimas" de nossa diversidade culinária? E as moscas mortas nas sopas, seria uma forma de tempero, de mistura à "elitista" e "discriminatória" alta culinária?

A falta de higiene de nossos cozinheiros seria vista como uma forma de arte? E as intoxicações alimentares, por vezes graves e até mortais, seriam culpa de quem ingeriu tais alimentos e que estaria "despreparado" para pratos tão "admiráveis" e preparados de forma "tão transparente"?

Há até, no caso da "cultura" musical e comportamental do brega-popularesco, do uso pejorativo da expressão "higienista", como se a rejeição às expressões da cafonice cultural fosse um sinônimo de "limpeza social", como se desejar um cenário cultural melhor fosse sinônimo de fascismo. Mas não é.

Certo. A "admirável mistura de tudo", como uma colcha de retalhos que se constitui a tal "cultura transbrasileira", defendida com entusiasmo imenso por uma geração de intelectuais deslumbrados com o império do jabaculê brega-popularesco, mistura baixarias, debilidades, equívocos, numa falta de identidade que é "identidade" porque envolve "muitas identidades".

Parece simples esse discurso pós-tropicalista, cheio de modernices teóricas e muita sociologização de botequim. Mas, aplicada à culinária, significa o mesmo que dizer: que mal tem o cozinheiro mexer em comida depois que pega num pano de chão sujo?

Certo. Então o nosso mal-estar alimentar também é uma forma de "elitismo" (?) ou "higienismo" (?!). Somos preconceituosos porque vomitamos um alimento apodrecido ou sem higiene. Somos saudosistas quando falamos de pensões limpinhas do passado, e somos intolerantes quando chamamos a Vigilância Sanitária para interditar um restaurante que não cumpre normas de higiene.

E as moscas mortas que pousam nas sopas? Oh, estaríamos sendo absolutamente discriminatórios pela livre expressão de nossos insetos sobre nossos alimentos, recusando-nos a apreciar o convívio harmonioso com eles.

E as larvas rebolando sobre as carnes? Somos os soldados revoltosos do Encouraçado Potemkin, a recusar o prato feito de carnes podres. E o bolor nos bolos? Recusamos-nos à beleza oculta de um espetáculo em que um ser parecendo fios de algodão quase dispersos enfeite os bolos de longa data, e somos culpados por tal rejeição?

As fezes viraram caviar? Os sacos de lixo molhados de líquidos sujos - junção de caldos de laranjas apodrecidas, restos de bebidas, sangue de carne e líquidos descartados de enlatados - e vários objetos colocados junto às cozinhas sem limpeza, viraram apenas "oficinas" da "mais deliciosa bagunça culinária", da "admirável e provocativa desordem e sujeira"?

Daí a bronca que se tem. Cultura, culinária... Embora haja uma diferença, no sentido que culinária é material e cultura é imaterial, o sentido da comparação acima deveria ser considerado. Afinal, a "disenteria" social já ocorre com uma mistura confusa de valores que não representam progresso social algum.

Num dado momento sentimos mal-estar com certos fenômenos "populares" e isso não é elitismo ou higienismo, mas uma forma de reclamarmos sobre o ponto a que se chegou a dita "cultura popular", que há muito tempo rompeu com o vínculo comunitário e passou a ser manipulada por empresários, latifundiários e barões da mídia.

Por mais que nossos intelectuais "filosofem demais" sobre os fenômenos "populares" da bregalização dos últimos 45 anos, eles nada dizem a respeito da verdadeira cultura popular. Façam a choradeira que fizerem, o que essas elites "pensantes", trancadas em seus gabinetes, dizem não é o que realmente pensa a vontade popular ainda não atingida pela hipnose midiática.

O brega-popularesco não é o verdadeiro popular. Isso é definitivo. Ele é apenas popularizado, tornado "popular" pelo marketing e pelo jabaculê. Ele se popularizou por causa da persuasão das grandes corporações midiáticas.

Daí ser estranho que intelectuais pró-brega falem tanto mal de uma mídia que, na verdade, é responsável direta pelo sucesso dos ídolos tão defendidos por esses mesmos intelectuais. Vai ver que eles almoçaram comida estragada e por isso não andam associando bem as ideias.

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