segunda-feira, 21 de abril de 2014

DR. JEKYLL E MR. KERTÈSZ


Por Alexandre Figueiredo

Dizem que as opiniões de Mário Kertèsz na Rádio Metrópole FM, de Salvador, não correspondem necessariamente às opiniões do dono da rádio. Pode parecer uma constatação séria, mas é uma piada, se levarmos em conta que Mário é o próprio dono da rádio.

A ditadura midiática tem suas armadilhas. Volta e meia algum oportunista quer se parecer por "transparente" ou "progressista", e cabe desconfiar muito quando um filhote da ditadura, como Mário Kertèsz, afilhado político de Antônio Carlos Magalhães e lançado pelo temível partido ARENA, na ditadura militar, tenta assumir essa postura.

Ainda falta um livro para descrever a atuação de Mário Kertèsz na destruição do Jornal da Bahia. Seus fundadores, Teixeira Gomes e João Falcão (este já falecido) foram condescendentes com Mário mesmo quando este demonstrou sua fúria decisiva ao destruir, como interventor nomeado por Magalhães, o que o Jornal da Bahia tinha de mais sagrado: sua alma, seu espírito editorial.

Mário fez, com muito gosto, o Jornal da Bahia virar um tabloide sensacionalista, policialesco e pornográfico da pior espécie. E não fez apenas para "salvar financeiramente" o jornal, como consta nas visões oficiais. Mário realizou aquilo que ACM, seu padrinho e ocasional desafeto - embora Kertèsz tenha no final se revelado admirador de ACM, com a morte deste - , tentou fazer e não pôde.

Hoje Mário age como se fosse o proprietário maior do pensamento progressista na Bahia. Se passando por um "contraponto" para os herdeiros de ACM na Rede Bahia e para o populismo "cristão" da Rádio Sociedade / TV Itapoan personificado por Raimundo Varela, Kertèsz tentou "comprar" o apoio de socialites e socialistas locais para seu pequeno império midiático.

Este império foi até relativamente maior. Com o desvio de dinheiro público que seria destinado a obras urbanas de grande porte em Salvador, o então prefeito Mário Kertèsz, junto com seu comparsa Roberto Pinho - mais tarde envolvido no "mensalão" de Marcos Valério (até perguntamos se Kertèsz também não foi beneficiário do "valerioduto") - , usou dinheiro para as contas pessoais dos dois.

Kertèsz comprou três rádios - Rádio Clube de Salvador AM, Rádio Cidade FM e Rádio Itaparica FM - ações na TV Bandeirantes de Salvador e foi nomeado por Antônio Carlos Magalhães interventor do Jornal da Bahia. Tinha um império midiático em suas mãos e era cotado para ser candidato ao governo da Bahia, em 1990, até que investigações da imprensa quebraram o sonho político dele.

A cada escândalo, Kertèsz teve que desfazer de parte de seu patrimônio. Chegou a ser apresentador do programa Jogo Aberto, da TV Bandeirantes. Em 2000, chegou a ficar apenas com a Rádio Clube e a Rádio Cidade, transformadas em duas transmissoras da Rádio Metrópole, AM e FM. Atualmente, abriu uma editora para publicar a revista Metrópole, além de ter um portal de Internet.

Kertèsz segue o perfil do jornalista conservador que, quando a conveniência permite, posa de "progressista". Tenta dar a impressão de que é o oposto do que realmente é: tendencioso, machista, bajulador, pedante, reacionário. No seu programa de rádio, ele tenta ser o oposto de tais qualidades, se passando por acolhedor de uma diversidade de opiniões, desde que a palavra final ficasse com ele.

As esquerdas baianas se iludiram muito com ele, apesar do evidente pano-de-fundo político ligado à ditadura militar, uma postura que, tudo indica, já veio desde a juventude em 1964, quando Kertèsz teria sido anti-Jango. O astro-rei da Rádio Metrópole - a rádio vive do "culto de personalidade" ao seu dono - chegou a ser locutor de campanhas eleitorais do PT.

No entanto, Kertèsz é instável. Num dia, ele é o "radiojornalista corajoso", "amigo" das forças progressistas, "amigo" das causas sindicais e até feministas, "aliado" das esquerdas baianas. Mesmo sua voz oscilante entre um tom falsamente empostado de locutor chique e a voz quase ébria de um gerente de botequim, parece ainda cativar seus partidários.

Noutro dia, porém, Kertèsz deixa a máscara cair e torna-se o reacionário furioso a fazer ataques violentos às esquerdas, num conservadorismo doentio de arrepiar até os editores de Veja. E que surpreendeu até mesmo os esquerdistas baianos Emiliano José e Oldack Miranda, antes condescendentes com Kertèsz e duramente atacados por ele no ar, para todo o Estado da Bahia.

Infeliz de quem quiser ser jornalista na Rádio Metrópole, na revista e no portal, porque, salvo se for beneficiado pela alta visibilidade, seu trabalho será deturpado e manipulado a bel prazer pelas conveniências da empresa.

Como na história de Dr. Jekyll e Mr. Ride, o "médico e o monstro" da obra de Robert Louis Stevenson, Kertèsz é muito instável para ser incluído na mídia progressista. Pelo contrário. Ele mais parece um Bóris Casoy mais "tabarel" ("provinciano", segundo a gíria baiana) que às vezes pensa ser o Mino Carta, evidentemente sem ter a consciência social do editor de Carta Capital.

Kertèsz já enfrentou escândalos políticos atacando desafetos, e já teve suspensas por um dia as transmissões da Rádio Metrópole, devido a um processo judicial. O astro-rei da Rádio Metrópole ainda tem "gatos" (energia elétrica "pirata") em sua residência e os sinais da emissora encontram vários espectros no dial FM de Salvador e dizem que interferem até em sinais nos aeroportos.

Portanto, caros baianos. Se vocês esperam alguma mídia progressista de verdade, evitem a Rádio Metrópole, a revista Metrópole (de distribuição tendenciosamente gratuita) e seu portal de Internet. "Dom Mário Corleone" é um lobo em pele de cordeiro, um pseudo-jornalista ultraconservador sob verniz progressista, cujas raízes históricas se situam na ditadura militar.

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