quinta-feira, 3 de abril de 2014

CHICO BUARQUE É O "JANGO" DA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Prestes a completar 70 anos de idade daqui a alguns meses, Chico Buarque é um dos nomes peculiares da Música Popular Brasileira, e recentemente injustiçado por uma campanha, que chega aos tons difamatórios, comandada por uma geração de intelectuais ditos "progressistas".

São esses intelectuais que vieram da Folha, se escondem na PUC ou outras universidades, realizam documentários no qual o mais claro apoio da Globo Filmes é simplesmente omitido dos créditos técnicos, gente que "não recebe recursos" e ainda parasita o aparelho financeiro do PT sob o consentimento de seus políticos.

Mas eles são capazes de "urubologias" como de querer desmoralizar Chico Buarque só por conta de algumas posturas. No caso do Procure Saber, por exemplo. Chico manifestou-se contrário às biografias não-oficiais, disse, talvez por desatenção, que não foi entrevistado pelo queridinho da intelligentzia, Paulo César Araújo e ainda revelou que não autoriza montagens atuais da peça Roda Viva.

Talvez algumas posturas fossem fruto da opinião pessoal, como o fato de Chico achar que Roda Viva ficou datada, ou se foi zeloso demais diante de um mercado de biografias marcado pelo oportunismo sensacionalista. Mas Chico foi mesmo assim esculhambado pela intelectualidade "bacana", que o ridicularizou ao ter se esquecido que foi entrevistado pelo "papa Paulo".

Houve mesmo acusações incoerentes de Chico ser o "dono da Fazenda Modelo da MPB", vindas de um Pedro Alexandre Sanches que diz defender a "reforma agrária da MPB". Logo Sanches, discípulo de Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso e que fica endeusando ídolos tecnobregas que são abertamente patrocinados pelos latifundiários que se cercam junto ao grupo O Liberal, lá do Pará.

Chico sofreu as mesmas dores que João Goulart. Como este, nasceu de uma família aristocrática que no entanto tinha inclinações mais progressistas. Jango foi um fazendeiro, um proprietário de terras da região de São Borja, no Rio Grande do Sul, filho e herdeiro de Vicente Goulart, mas tinha uma natural e generosa inclinação de promover medidas de benefício às classes populares.

Durante sua breve carreira política, que mal conseguiu ter destaque entre os anos 50 e 60, Jango era acusado de "manipulador de sindicatos" por uma direita que gostaria de ver os sindicatos de trabalhadores extintos ou manipulados pelo capital norte-americano, não muito diferente da acusação que Chico teve recentemente como "coronel da Fazenda Modelo".

Chico, que nos tempos de Jango compunha suas primeiras músicas e sonhava ser cantor e compositor, se baseando nas lições ´poético-musicais de Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto, era filho de Sérgio Buarque de Hollanda, o historiador de Raízes do Brasil, conhecido intelectual em evidência na mesma época.

Chico poderia ser um aristocrático com jeito de galã e alguma postura de príncipe, mas sempre esteve solidário com a cultura popular e queria dialogar com a cultura do povo pobre, sem a pretensão de substitui-la.

Ele fazia sambas, fez até um samba-enredo, "Vai Passar", de 1984, mas nunca teve a pretensão de estar no lugar de um sambista no morro. Seu samba era apenas a visão sua de samba, não o modelo de samba que deveria prevalecer na cultura brasileira.

E o que fizeram os detratores de Chico Buarque? Coisa pior!! Substituíram os sambas, modinhas e outros ritmos autênticos por engodos musicais americanizados e palidamente brasileiros, que constituiu as diversas matizes do brega, dos pseudo-boleros chorosos de Waldick Soriano até os pastiches de ritmos caribenhos que geraram de Carlos Santos a Banda Calypso.

Se Chico é de origem aristocrática, pior ocorre com os empresários que promovem o suposto "popular" transbrasileiro - jargão digno da teoria de FHC - , gente de origem pobre mas que se enriqueceu como capatazes dos grandes latifundiários, a exterminar, se não os trabalhadores e sem-terra a bala, mas a cultura brasileira transmitida pelo convívio social e não pelo rádio coronelista.

E, quanto ao esquerdismo, Chico Buarque, tão humilhado por intelectuais "bacanas" que tentaram sujar as páginas da mídia progressista com seus textos pró-brega, foi muito mais fiel às forças de esquerda do que os breguinhas de ontem e de hoje tão cortejados pelos "bacaninhas" pseudo-progressistas.

Pois todo o brega, na hora mais decisiva, apunhala as esquerdas pelas costas, aderindo de corpo e alma à grande mídia, aparecendo abraçados aos barões da mídia e seus porta-vozes numa conquista de espaço que nada tem de inimiga ou conspiratória, mas de muito animada e incrivelmente amistosa.

Do brega de ontem, a memória curta é traída e dissolvida por fatos indiscutíveis. Waldick Soriano era um direitista convicto, e Odair José nada teve de revolucionário, sendo também bastante conservador. E até o "funk ostentação", que queria ser o símbolo do ativismo social de 2013, meteu o facão nas costas das esquerdas quando MC Guimê foi com muito gosto virar capa na reacionária Veja.

Enquanto isso, o "coronel da Fazenda Modelo" era solidário até mesmo em manifestações controversas em favor do PT, mas também em outras iniciativas de cunho social, outros abaixo-assinados contra arbitrariedades legais e outras posturas de cunho realmente progressista.

Esta é a história. E, quando se relembra os fatos da ditadura militar e todos os fatores de muitos problemas que atualmente existem, a memória curta, a princípio festejada, se dissolve em pó mesmo quando cria dogmas que parecem unânimes e insuperáveis.

Pois vão-se os breguinhas cortejados pelas esquerdas médias comemorarem o sucesso abraçados aos barões da grande mídia. E fica o Chico Buarque, tão "fazendeiro" quanto Jango, mas também tão realmente solidário com as causas populares. Não é preciso ser pobre para defender o povo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...