sábado, 19 de abril de 2014

BREGA FORÇA A BARRA AO TENTAR SE ASSOCIAR A ALTERNATIVOS

ANDERSON (GRUPO MOLEJO), LUIZ CARLOS (RAÇA NEGRA) E COMPADRE WASHINGTON (É O TCHAN) - Mercado força a barra para empurrar bregas ao público alternativo.

Por Alexandre Figueiredo

O jabaculê do brega-popularesco não encontra limites. Ele já não vai mais pelo caminho tradicional de subornar radialistas e vai muito longe, tentando empurrar seus ídolos goela abaixo para o público alternativo, querendo conquistar públicos mais conceituados "na marra".

O exemplo de Odair José foi um dos primeiros casos, mas pelo menos era verossímil, pela roupagem "roqueira" que, bem ou mal, tinha ele, com seu visual "psicodélico" banalizado. No fundo ele sempre esteve próximo do conservadorismo de um Pat Boone, mas ainda fazia algum sentido, por pior que seja, na tentativa de empurrar Odair José para o público alternativo.

Já o "funk", o "pagode romântico" e o "pagodão baiano", não. São ritmos que vão fundo ao grotesco e representam o oposto de tudo aquilo que o público de cultura alternativa acredita. Mas foram beneficiados por uma blindagem intelectual patrocinada pelo mercado e pelos barões da grande mídia - apesar da infiltração nos meios progressistas - e seu discurso bastante confuso e persuasivo.

E aí o resultado é esse: tributo "indie" do Raça Negra, camisetinha do Molejo com estética dos Ramones e agora uma montagem que junta a voz do Morrissey em "This Charming Man", dos Smiths, com samples do É O Tchan e da Banda Eva.

Para piorar, as três iniciativas são lançadas como "sérias". Quando muito, "seriamente divertidas", das quais "não" se recomenda qualquer gargalhada. Em outras palavras, nem mesmo as duas últimas medidas, a do Molejo e a do É O Tchan (esta por iniciativa do DJ Bertazi), podem ser vistas como piadas. Tudo é "cultura séria", como prega a intelectualidade "bacana" do nosso país.

Isso se torna o ponto extremo de toda a medida desesperada dos empresários de brega-popularesco em querer ampliar público e mercado de seus ídolos da bregalização. Não medem escrúpulos em comprar o apoio de sindicalistas a professores de pós-graduação, numa estratégia de jabaculê cada vez mais requintada, para compensar a péssima qualidade musical de seus clientes.

Isso é muito grave, porque se torna uma atitude bastante demagógica. Enquanto os defensores da música brega e seus ritmos derivados reclamam da falta de espaços e da intolerância contra eles, eles querem ocupar os espaços dos outros e não toleram a existência de espaços em que eles não possam invadir e criar reservas de mercado.

Nos EUA, o pop comercial possui suas próprias reservas de mercado, seus próprios espaços e, se ele quer tomar os espaços dos outros, é através de mercados de outros países. Mas pelo menos isso ocorre sempre dentro de um contexto de comercialismo e mercado hit-parade, ninguém vai ficar bancando o vanguardista e invadir na marra mercados que não são de sua afinidade.

Já no Brasil a música brega-popularesca (ou Música de Cabresto Brasileira), o nosso hit-parade, não se contenta em manter um mercado que já é hegemônico o suficiente para seus ídolos. Daí que, nos últimos dez anos, seus empresários recorreram a uma campanha que teve o apoio de universidades públicas a veículos de mídia como a Rede Globo e a revista Caras, em busca de mais mercados.

A coisa é tão grave que hoje não temos mais cenário de MPB autêntica em boa parte das regiões brasileiras. E quase não temos mais artistas populares com a visceralidade de Jackson do Pandeiro, Cartola e Luiz Gonzaga, ou a modernidade de um Jorge Veiga ou Miltinho.

Enquanto isso, o que nos resta de sambas, baiões, modinhas nas lembranças do grande público estão associados mais a especialistas, memorialistas e apreciadores de elite. O nosso rico patrimônio cultural brasileiro virou coisa de museue e de mansões.

A MPB autêntica que ainda resiste é quase toda de artistas idosos. E, se nas artes cênicas, vemos um José Wilker morrer de repente aos 67 anos incompletos, é sinal que a coisa está grave. E, para piorar, nem mesmo os cenários de cultura alternativa têm direito a uma expressão livre da breguice, pois se até as maiores aberrações da cafonice cultural tentam invadir seus redutos.

Parece aquela coisa da Margareth Thatcher: "Não existe alternativa". E Morrissey não gostava da falecida premier britânica. Da mesma forma, o cantor inglês também não gostaria do que um DJ brasileiro fez com sua voz, misturada com É O Tchan.

Mas o É O Tchan já se encontra dentro dos parâmetros sócio-culturais sonhados por Margareth Thatcher e Ronald Reagan, os artífices da "década perdida" dos anos 80 britânico-estadunidenses, que serviram de fonte para os "longos anos 90" que até agora não terminaram no Brasil. Com toda sua breguice hegemônica e próxima ao monopólio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...