quarta-feira, 2 de abril de 2014

BREGA FOI APOIADO, SIM, PELA DITADURA MILITAR

APESAR DE TER TIDO MÚSICAS CENSURADAS, ODAIR JOSÉ NEM DE LONGE ERA UM REVOLUCIONÁRIO.

Por Alexandre Figueiredo

Definitivamente, não valeu o tendencioso revisionismo histórico de Paulo César Araújo, que no calor da Era FHC produziu o livro Eu Não Sou Cachorro, Não para tentar provar que o brega era "música de protesto" que apavorava os generais da ditadura.

A tese, lacrimosamente difundida na grande mídia, pelo próprio Araújo fazendo ele mesmo pose de "coitadinho" - "Ninguém investiu nas minhas pesquisas", lamentou ele, se esquecendo das verbas da Fundação Ford que recebeu por intermédio da UniRio - , até chegou a convencer muita gente boa e ter virado até unanimidade durante muito tempo.

Mas só depois que blogues como este mostraram o outro lado da coisa é que as teses de Araújo sobre o brega sumiram. Ele ainda se autopromoveu às custas da censura de um decadente Roberto Carlos, mas, depois de tentar seduzir as esquerdas médias para apoiarem os ídolos bregas, Araújo, como um menino que quebra a vidraça da casa vizinha, agora se esconde sob o respaldo midiático da Globo.

Pois agora o "consultor free lancer" de música brega das Organizações Globo começa a ser questionado pela sua visão delirante de que os ídolos cafonas, mesmo "despolitizados", eram "cantores de protesto", e mesmo a hipótese de que alguns sucessos bregas foram censurados não dão respaldo seguro à sua tese.

Pelo contrário. Deixando de lado a memória curta que manipula o passado ao bel prazer dos preconceitos e conveniências do presente, vemos que o brega significou, mesmo, o tipo de música desejado e apoiado abertamente pela ditadura militar. Isso é fato, não é preconceito.

Se Odair José e Waldick Soriano tiveram músicas censuradas - uma música de Waldick, de 1962, "Torturas de Amor", chegou a ser atribuída erroneamente como "protesto contra a ditadura", mesmo sendo uma canção gravada ainda com Jango como presidente de um sistema parlamentarista - , não foi por questões realmente consideradas ameaçadoras ao poder dos generais que controlavam o Executivo.

CONSERVADOR, WALDICK SORIANO TEVE UMA MÚSICA DE 1962 ATRIBUÍDA ERRONEAMENTE PELOS INTELECTUAIS DE HOJE A UM SUPOSTO PROTESTO CONTRA A DITADURA MILITAR.

DIREITA JÁ VIVIA REALIDADE CANTADA POR WALDICK E ODAIR

A censura se deu apenas por letras consideradas tabus por alguns censores. Eram letras sobre sentimentalismo amoroso exagerado ou práticas sexuais, que em si não eram tabus sociais até porque os mais reacionários indivíduos da época viviam tais situações.

Naqueles idos de 1969-1978, época de vigência do AI-5, a direita já praticava sexo antes do casamento, tomava pílulas anti-concepcionais, apreciava pornografia, sofria dor de corno, falava palavrão, usava maconha e cocaína, entre outras coisas escandalosas.

Mas Odair e Waldick, no fundo duas figuras bastante conservadoras - se hoje até Lobão é conservador, não seria Odair José um revolucionário, não é mesmo? - e, só por umas musiquinhas vetadas pela Censura Federal foram equivocadamente classificados pela intelectualidade etnocêntrica de hoje como se fossem Marighellas e Lamarcas musicais.

A direita vivia as músicas cantadas pelos ídolos cafonas. O problema é que vários censores tinham um moralismo ainda mais rígido, inflexível e exagerado. Nem todo mundo que era censurado era "subversivo" e a ditadura militar expurgou até mesmo Carlos Lacerda, um udenista radical que mais defendeu o golpe militar mas foi vítima dele.

Já na época os direitistas mais velhos, com mais de 50 anos de idade, achavam qualquer desvio de comportamento "subversivo". Boa parte da burguesia que foi às "marchas da família" em 1964, já em 1968 vivia o mesmo cotidiano "ousado" cantado por Odair José e se vestia de hippie ou psicodélico. Os membros do Comando de Caça aos Comunistas se vestiam de beatniks. Isso é "subversão"?


DOM & RAVEL SIMBOLIZARAM OS SUCESSOS MUSICAIS DO "MILAGRE BRASILEIRO".

RÁDIOS CORONELISTAS

Paulo César Araújo não conseguiu explicar de forma convincente, numa demonstração de ato falho, por que as músicas bregas tornaram-se populares no período em que vigorou o AI-5, o quinto ato institucional que tornou rígida a repressão e a censura no país.

Ele tentou argumentar que a música brega era uma "reação" aos arbítrios do regime, como se fosse fácil usar emissoras de rádio para propagar a rebelião popular. É uma tese bastante equivocada e que não tem o menor sentido de veracidade.

Se a MPB que aparecia na televisão entre 1964 e 1968 representou uma resistência ao regime militar, foi porque a própria ditadura quis adotar um verniz de "democracia" e permitiu às emissoras de TV certa liberdade de expressão. A pressão dos anunciantes, sobretudo as multinacionais, também influiu muito, e tudo isso acabou quando veio o quinto ato institucional.

Já durante a vigência do AI-5, a música brega foi tocada por emissoras de rádio e TV que já estavam identificados e solidários ao poderio militar, sobretudo rádios regionais que eram ligadas, no âmbito local, ao poder do latifúndio, o mesmo que mandava exterminar agricultores e até padres que representavam risco aos privilégios dos grandes proprietários de terras.

Hoje houve quem falasse que o brega era a "reforma agrária da MPB", uma tese ridícula e sem lógica. O brega sempre foi apoiado por rádios que estavam ligadas ao poderio dos "coronéis" regionais e das oligarquias midiáticas das grandes capitais. O pretexto do "popular" não significava que os ídolos cafonas apavoravam a ditadura militar, muito pelo contrário.

Se os ídolos bregas eram censurados, era por algo que tinha mais a ver com "pequenas travessuras". Um Odair não ameaçava o poderio militar. Muito menos um Waldick. Já Benito di Paula, Dom & Ravel, Paulo Sérgio e outros chegaram mesmo a agradar a sociedade que apoiava a ditadura.

Eles representavam uma visão estereotipada, politicamente inofensiva e comercialmente viável do "popular" defendido pela ditadura militar e pelos civis que a apoiavam. Não tinham uma identidade nacional definida, porque musicalmente eram muito confusos, e seus temas eram inofensivos, inócuos, mesmo quando tentavam falar de política.

Por isso não faz o menor sentido classificá-los hoje de "combativos" contra a ditadura. Eles eram apoiados pela ditadura, eram o modelo de "música brasileira" que a ditadura militar queria para o povo brasileiro.

Essa é a visão que apavora a intelectualidade de "bacaninhas" de hoje, mas, tirando o verdadeiro preconceito da memória curta, percebemos que os ídolos cafonas realmente atendiam aos interesses das forças dominantes que dominaram a ditadura militar, já que a música brega durante anos anestesiou corações e mentes das classes populares do nosso país. O brega foi a água com açúcar da repressão militar.

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