segunda-feira, 28 de abril de 2014

ATÉ PARECE DE PROPÓSITO

METIDA A PROGRESSISTA, INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA ESTARIA DANDO A DEIXA PARA PESSOAS COMO RODRIGO CONSTANTINO FAZEREM ABORDAGENS "SOCIAIS".

Por Alexandre Figueiredo

Até parece que fazem de propósito. Intelectuais que defendem a bregalização do país adotam uma postura falsamente progressista, vão para os cenários da mídia esquerdista para imporem seus pontos de vista, influenciando gente no meio, para depois abrirem caminho para a "consciência social" de direitistas como Rodrigo Constantino e Rachel Sheherazade.

Já vi situações constrangedoras de blogueiros esquerdistas que eu admirava, que adotaram posturas favoráveis a gente que nem é progressista assim, como Waldick Soriano (conservador), José Augusto (queridinho de Michael Sullivan e da Rede Globo) e até mesmo uma postura de achar que letra de axé-music composta por empresário do setor tem "tese marxista"  (?!).

Não, não virei um novo Carlos Lacerda. Continuo posicionado ideologicamente à esquerda, embora o esquerdismo tenha perdido sua força nos últimos dois anos, agravado principalmente por denúncias de corrupção que seus envolvidos não conseguem desmentir de forma definitivamente convincente. Continuo um esquerdista sem partido e mais voltado ao ceticismo do que à militância.

O que preocupa é que essa campanha que a intelectualidade dita "bacana" de promover o brega e seus derivados - inclusive o "funk" - como se fosse o movimento bolivariano-guevarista-zapatista brasieiro, além de soar bastante ridículo, ela dá a deixa para a direita, que nunca se dedicou ao povo, posar de "defensora das causas populares".

Fica um quadro meio febeapiano, em alusão aos livros de Febeapá que Sérgio Porto, sob a alcunha de Stanislaw Ponte Preta, havia escrito nos anos 60. A intelectualidade progressista comprometida não com o progresso cultural, mas com o retrocesso que mantém o povo pobre preso nos seus próprios estereótipos, e a intelectualidade conservadora que agora fala em nome do povo.

Se bem que isso também soaria uma sinopse de um filme de Luís Buñuel. A situação é tão surreal que foram precisos muitos argumentos para desmascarar certos intelectuais surgidos nos porões pré-PSDB das elites tucanas da USP, porque eles estavam à beira de convencer as elites pensantes do país de que só se fará socialismo com "funk", o que é uma visão absurda e improcedente.

A campanha pela bregalização era tal que nem mesmo o dedo da Globo Filmes, das Organizações Globo, no filme Os Dois Filhos de Francisco, intimidou a intelligentzia a convencer as esquerdas a aceitar Zezé di Camargo & Luciano. Eles até ocultaram que votaram no ruralista Ronaldo Caiado para deputado federal, na esperança de estarem vinculados a um falso zapatismo brasileiro.

E se os "pensadores mais legais do país", que chamam até funqueira para juntar-se à sua classe, acreditavam que poderia se fazer zapatismo com breganejo, eles então tentaram convencer, com tantos apelos, que o "funk" tão grotesco e brutal era a peça-chave para o "novo socialismo brasileiro", numa campanha que está longe de terminar, de tão marqueteira e tendenciosa que é.

A essas alturas, a Globo Filmes preferiu esconder sua marca no documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, talvez como estratégia para vender o filme como se fosse "independente" e feito "sem recursos", numa tática sutil de evitar o vínculo do "funk" com os barões da grande mídia.

Tornou-se um fenômeno inédito, de efeitos devastadores para nossa cultura, que a intelectualidade pró-brega, tendenciosamente posicionada para a esquerda, defendesse tanto a cafonização cultural do Brasil, com argumentos que beiram à "urubologia" mais aberta, apesar de estrategicamente difundidas nos meios esquerdistas.

Criou-se até uma situação surreal, de intelectuais esquerdistas endeusarem o direitista Waldick Soriano e esculhambarem o esquerdista Chico Buarque. Ou endeusarem os funqueiros, que apunhalam as esquerdas pelas costas para se aliarem aos barões da mídia, e depreciarem violentamente Chico Buarque, que sempre foi fiel às causas esquerdistas.

A intelectualidade pró-brega dizia condenar o preconceito, o elitismo, o moralismo, se julgava detentora da mais fiel consciência social, mas era a primeira a defender uma visão estereotipada e até idiotizada do povo pobre, como se ela fosse a "verdadeira visão" das classes populares.

Preconceituosos, elitistas e moralistas, esses intelectuais "tão legais" e "tão gente boa" desejavam que o povo ficasse preso nas favelas, ficasse preso nos seus ideais de pobreza, limitando a sua emancipação social a serviços básicos, proteção da lei contra abusos extremos e mais dinheiro para aumento de consumo.

De resto, os intelectuais até se revoltam diante da hipótese de desfavelização ou do fim da prostituição com a inserção de suas "profissionais" em outros ramos de emprego, como serem professoras, costureiras, cozinheiras ou até advogadas.

Acham que tais visões de emancipação social "radical" - hoje desejar melhorias é "ser radical" - são sinônimos de elitismo, higienização social e outras alegações. E há um medo da intelectualidade de ver aquela música popular do passado, como sambas, baiões, modinhas e outros, serem devolvidos ao povo pobre que ficou privado deles depois que a ditadura rachou a aliança entre o povo e os intelectuais do CPC da UNE.

Já li intelectuais "progressistas" achando que o povo pobre não pode mais fazer baiões ou sambas. Já vi dirigente funqueiro cortejado pelas esquerdas - mas também colunista de um periódico das Organizações Globo - dizendo que os jovens das periferias não têm o compromisso de assumir a cultura de seus antepassados, numa visão claramente anti-cultural, porque cultura é herança, sim.

Enquanto isso acontece, surgem na direita militantes conservadores que questionam a estereotipação social das classes populares. Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade. Isso é de deixar qualquer um com a mente confusa.

Afinal, a direita sempre defendeu o grande capital e o interesse privado. Cultura popular é só um detalhe. A ditadura militar favoreceu ídolos bregas. Mas hoje a bregalização está associada à esquerda. A direita que apoiou a ditadura agora fala contra a imagem estereotipada do povo pobre. Reinaldo Azevedo falando mal da idiotização do povo pobre? É realmente isso que está acontecendo?

Daí a desconfiança. Um mesmo pano de fundo produziu Pedro Alexandre Sanches e Reinaldo Azevedo, Denise Garcia e Rachel Sheherazade, Ronaldo Lemos e Rodrigo Constantino, Paulo César Araújo e Merval Pereira.

São os mesmos valores neoliberais rachados como um sorvete napolitano servido em caixa, em que a parte da baunilha com morango fosse servida para uns e a da baunilha com chocolate fosse servida para outros. E essa "distribuição" de pontos de vista parece soar algo combinado.

Tudo parece de propósito. Afinal a bregalização do país é claramente apoiada pelos barões da mídia que os intelectuais que defendem a bregalização dizem condenar. Só que eles também não se posicionam claramente sobre assuntos como regulação da mídia, ficam cheios de dedos, achando que a "Lei dos Meios" criasse uma "areia movediça" a tragar tanto "urubólogos" quanto funqueiros.

Aí uns ficam brincando de criticar os outros. De repente, um representante da direita intelectual, o "filósofo" Luiz Felipe Pondé - integrante de um meio que se destaca com a rebeldia neocon do roqueiro Lobão, o "Carlos Lacerda" de um neo-udenismo "roqueiro" simbolizado pelas rádios 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ) - acusou os "esquerdistas festivos" de serem "pegadores de mulheres".

Por outro lado, vemos um professor como Antônio Kubitschek, que, ao classificar uma funqueira como "grande pensadora contemporânea", disse ter oferecido a "carniça" para ser mordida pelos "urubus da mídia". Tudo esse teatrinho em que intelectuais festivos e intelectuais zangados trocam supostos ataques, enquanto as periferias pegam fogo em todo o país.

Os intelectuais pró-brega atacam a direita intelectual por causa de frescuras moralistas, já os intelectuais neocon atacam a "esquerda festiva" por causa de desvios boêmios. Trocas de acusações, de ataques, feitos para desviar a opinião pública, enquanto o quadro sócio-cultural das classes populares se degrada no contexto da crise de hoje.

Fica tudo muito estranho. Parece uma combinação entre pró-bregas e "urubólogos" para que, num suposto "equilíbrio" ideológico, os mais "progressistas" defendessem o retrocesso cultural e os mais retrógrados defendessem uma "melhor consciência social".

Os porta-vozes do povo defendendo um povo caricato e os porta-vozes das elites falando em qualidade de vida para as classes populares. Não é estranho? Será uma manobra para desmoralizar as esquerdas e fortalecer a direita, através de uma suposta visão cidadã lançada no vácuo deixado pelos delírios caricaturais relativos ao povo pobre dos intelectuais pró-brega?

Isso acaba sendo mais uma dicotomia de liberais e conservadores que, nos EUA, resulta na falsa polaridade entre o Partido Democrata e o Partido Republicano. E que mostra que Coletivo Fora do Eixo e Instituto Millenium são apenas duas faces de uma só moeda.

O Brasil precisa de uma outra intelectualidade, que seja igualmente progressista e popular.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...