quarta-feira, 19 de março de 2014

TRUCULÊNCIA POLICIAL E TRUCULÊNCIA SÓCIO-POLÍTICA


Por Alexandre Figueiredo

Numa situação inconcebível, dias atrás uma mulher trabalhadora do subúrbio do Rio de Janeiro, ao ser baleada por bala perdida sob um intenso tiroteio entre policiais e bandidos, foi precariamente socorrida e jogada no porta-malas da viatura policial.

Só esse aspecto era bastante ridículo. Ela poderia ter sido socorrida por uma ambulância ou uma viatura dos Bombeiros também dotada de maca e outros materiais de socorro. Em vez disso, ela foi jogada em um porta-malas, que, para piorar, abriu e fez o corpo dela ser arrastado pelo chão enquanto o carro saía do subúrbio de Madureira, onde a vítima foi baleada.

O nome dela era Cláudia Ferreira da Silva. Era casada, tinha 38 anos e trabalhava como auxiliar de serviços gerais. Tinha quatro filhos, mas também tinha jogo de cintura para cuidar também de quatro sobrinhos. Com sua morte estúpida, o marido reclamou que ela foi tratada feito um animal e que a tragédia interrompeu os sonhos dela.

Evidentemente existem abusos cometidos por policiais. Os três que socorreram a jovem foram presos, e já estão sob investigação da polícia. Eles haviam agido precipitadamente ao trocarem tiros com traficantes, sem observar as pessoas inocentes à volta, e mesmo com os tiros que acertaram Cláudia - que poderia ter sobrevivido, pela forma que foi baleada - eles ainda demoraram a socorrê-la.

Mas é muito complexo criar um maniqueísmo que divide polícia e favela em, respectivamente, o mal e o bem, nesse discurso tão confortavelmente descrito por delirantes intelectuais "bacanas", que ignoram que as periferias estão longe da ideia paradisíaca com que eles imaginam serem as favelas.

Isso porque tanto truculência policial quanto as construções das favelas são igualmente produtos de um mesmo problema, a truculência sócio-política de décadas. O descaso político, o preconceito elitista, as desigualdades sociais, os problemas de Educação, Saúde, Saneamento, Segurança, temas com maiúsculas que as autoridades descrevem em formas as mais minúsculas possíveis.

A truculência policial é fruto tanto do tratamento severo dos quartéis policiais a seus soldados quanto da visão elitista e generalizada da criminalidade nas comunidades pobres. Neste sentido, há um potencial sentimento de racismo, julgando que qualquer rapaz que fosse humilde e negro fosse necessariamente um bandido em potencial.

Já as favelas foram formadas porque as classes populares foram privadas, ao longo de décadas, de morarem em edifícios e outras casas, devido ao aluguel caríssimo e a própria rejeição das elites. A exclusão imobiliária é tão cruel que os operários da construção civil nunca têm a chance de morar nos apartamentos que constroem, o trabalho que fazem é alienado em sua própria natureza.

Portanto, é muito fantasiosa, também, a idealização da favela "alegre" de DJs sorridentes, grafiteiros animadinhos, produtores de fala articulada, enquanto estes, na verdade, são apenas a "classe média" surgida nos seios das favelas, uma elite abastada que pouco diz a respeito da real situação das populações pobres do país.

Por isso não faz sentido abordar, de uma forma maniqueísta, o conflito entre a polícia truculenta e a favela em busca de auto-afirmação, comumente contada como se fosse o conflito entre a bruxa malvada e a Branca de Neve acolhida pelos sete anões.

O problema é muito mais complexo. Deveria-se pensar na desfavelização e transferir seus moradores para residências mais dignas, dando-lhes todo o apoio logístico e financeiro necessário. A favela só é "linda" para o intelectual paternalista que, "sem preconceitos", revela-se na verdade muito mais preconceituoso do que pode imaginar.

Criar programas sociais para melhorar a qualidade de vida, considerando propostas como cotas universitárias e Bolsa Família apenas como paliativos de validade provisória, enquanto se investe em Educação e Emprego de forma mais digna e ampliada, seriam ótimas maneiras de valorizar a população das periferias muito mais do que o "beijinho no ombro" de intelectuais oportunistas.

Se houvesse mais justiça social e outras melhorias, não teríamos a truculência policial que matou Cláudia da Silva. E ela poderia viver anonimamente no seu sossego, ao lado do marido, filhos, sobrinhos e todos os seus amigos do meio, com mais qualidade de vida e sossego. E com casas e estruturas urbanas muitíssimo melhores.

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