quinta-feira, 27 de março de 2014

TRIBUTOS À MPB: RÉQUIEM OU LIÇÃO PARA NOVAS GERAÇÕES?


Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, uma conhecida marca de cosméticos promoveu o evento gratuito "Viva o Samba", com a participação dos cantores Roberta Sá, Diogo Nogueira, Alcione e Martinho da Vila, cantando um variado repertório de sambas de diversas épocas, além de vários sucessos do repertório gravado pelos respectivos cantores.

A ideia é bem intencionada, mas a tendência da MPB autêntica praticamente se resumir, hoje em dia, a eventos de homenagens, sobretudo com a participação de Caetano Veloso e Gilberto Gil, causam uma preocupação enorme, porque algo estranho parece pairar no ar.

Homenagens são feitas para celebrar o passado, são rituais que evocam, por alguns instantes, geralmente algumas horas, aquilo que já se foi e não existe mais. E isso é que faz dar calafrios quando existem eventos de homenagens à MPB: a MPB já era?

Para piorar, a mania de homenagens contagiou até mesmo a chamada "MPB de mentirinha" dos ídolos neo-bregas dos anos 90 e seus derivados. Eles também gravam DVDs de auto-homenagens, com cantores duetando em DVDs de outros, com Neymar fazendo embaixadinha, Sabrina Sato desafinando na sua voz de taquara rachada, Xuxa saudando os "baixinhos" etc etc.

Se a pseudo-MPB de bregas arrumadinhos já não produz material inédito e vive de auto-tributos e seus seguidores, depois de uns pálidos sucessos "autorais" e inéditos (apesar de medíocres), passam a viver de DVDs ao vivo, uns iguais aos outros, imagine então a MPB autêntica que a contragosto se distanciou do diálogo direto com as classes populares?

SAMBA "BOSSIFICOU-SE"

O que se preocupa é que os nordestinos perderam a sua cultura própria. Salvo raras exceções, o nordestino comum não pode mais fazer seus baiões, xaxados, maracatus, que viraram "patrimônio" de "especialistas" universitários do Sul do país (diga-se Sul do país, abaixo de São Paulo, pois o catarineta que escreve este texto sabe da diferença existente entre Sul e Sudeste).

Sim, o que Luiz Gonzaga fazia com sua própria intuição de humilde nordestino, vivido na sua própria realidade, hoje corresponde tão somente a inclinações "populares" de universitários de classe média alta de Curitiba, Porto Alegre e similares.

Enquanto isso, ser "nordestino" hoje é juntar um amontoado de referências externas, estética de piratas de Hollywood, de cabaré do Texas, e um engodo musical que mistura country music, disco music, ritmos caribenhos e que nem o som da sanfona é nordestino, mas "importado" do Rio Grande do Sul, quase na fronteira com a Argentina.

A música caipira é sufocada por "modernas" manifestações de jovens imitando caubóis estadunidenses e com o povo moldando "sua cultura" através de rádios e TVs controladas pelo latifúndio local. Musicalmente, surgem expressões confusas que misturam country com boleros e mariachis que apenas tardiamente tentam emular tendenciosamente das velhas serestas ao Clube da Esquina.

E o samba? Considerado patrimônio cultural pelo IPHAN, ele também corre o risco de perecer e cair no esquecimento. Os velhos sambas criados nos morros, nas favelas, hoje praticamente se tornaram um patrimônio "Zona Sul", como se hoje o samba de raiz fosse tão elitista quanto a Bossa Nova acusada de deturpar o samba brasileiro.

Mesmo sambistas surgidos nos subúrbios cariocas, como Martinho da Vila e Paulinho da Viola, remanescentes e testemunhas de um tempo em que se fazia samba até com caixas de fósforos em mesas de bar, hoje mais parecem ídolos de um público elitista, de socialites, profissionais liberais e universitários de "boas famílias", sendo "estrangeiros" para a gente de suas terras.

O samba hoje só "empolga" as populações dos subúrbios - não só cariocas, niteroienses ou da Baixada, mas paulistanos, belzontinos, florianopolitanos, soteropolitanos etc - nas formas diluídas e caricatas de grupos de "pagode romântico" que, num contexto brega, diluem a soul music norte-americana com instrumentos de samba ou fazem imitações frouxas dos grandes sambistas da moda.

A situação é tão grave que, se antigamente os antigos seresteiros visitavam os morros para "comprar" sambas de compositores locais e trai-los omitindo sua autoria, hoje os "pagodeiros românticos" gravam covers de sambas antigos e arrumam arranjadores para embelezar suas músicas, com os cantores recebendo crédito de co-autoria nos arranjos que eles em nada fizeram.

A música brasileira de qualidade está distante das classes populares. Pior: se trata da música que as próprias classes populares faziam, e que só está acessível a elas quando seus ídolos deturpadores ficam ricos e "aprendem" das elites como fazer uma "musica brasileira de verdade".

É por isso que se vê os tributos à MPB autêntica mais com apreensão do que com admiração. O próprio mercado e a mídia dominante que temos prefere mais a "simplificação" do brega e de suas "linhas de montagem" que permitem fazer uma pseudo-MPB mais asséptica, inodora, insípida mas "digestível".

A não ser que as novas gerações decidam romper com a breguice e extraiam novas lições dos tributos da MPB autêntica para produzirem a cultura musical do futuro, esses tributos soam mais como um réquiem que o lobby de intelectuais, empresários e barões da mídia lançam para, como querem eles, jogar uma pá de cal sobre a MPB de verdade que desejam ver longe do "povão".

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