sábado, 1 de março de 2014

STF, PT E AS PAIXÕES DOS DOIS LADOS


Por Alexandre Figueiredo

A decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal de absolver os envolvidos no esquema do "mensalão" da acusação de formação de quadrilha deu margem a uma série de paixões tanto de esquerdistas quanto de direitistas, num claro desequilíbrio de compreensões.

A absolvição dos chamados mensaleiros não significa que eles saíram como heróis. A sentença não inocenta o Partido dos Trabalhadores dos erros cometidos na ocasião, apenas os juízes admitem que existem erros que não foram cometidos.

Da parte da direita, porém, a absolvição não representou uma bandalheira. Os ministros do STF não se venderam e nem o "herói" dos direitistas, o presidente do STF Joaquim Barbosa - que mais parece tratar o órgão máximo do Poder Judiciário como se fosse um partido político, numa tendenciosa promiscuidade entre os Três Poderes - , tornou-se vítima da ocasião.

Barbosa tornou-se um pretenso herói da direita, na medida em que se tornou um símbolo do combate a figuras que os direitistas odeiam. Mesmo a abusiva intenção de quererem que Barbosa se torne presidente da República tem muito mais a ver com um oportunismo politiqueiro, mais um "voto de protesto" do que um "voto de cidadania".

Fico duplamente indignado com o tratamento que esquerdas médias e direita fanática (com a adesão de alguns anti-petistas de "centro") dão ao Partido dos Trabalhadores e totens como Lula, Dilma Rousseff e José Dirceu.

Lula, por exemplo, é classificado pelas esquerdas médias como "pai dos movimentos sociais", como "líder socialista máximo da América Latina" e como herói maior de tudo que representa ativismo social e conquistas populares.

Já a direita classifica o ex-presidente e antigo líder sindical como "chefe mafioso", "maior bandido do país", "maior corrupto da História do Brasil", para não dizer palavras como "cafajeste", "vagabundo", "anta" e outros adjetivos que vêm à mente até de reaças famosos como Lobão, Diogo Mainardi e Marcelo Madureira.

Nem um, nem outro. O governo Lula tem seus méritos, com realizações sociais mais próximas de um reformismo próprio de um capitalismo humanizado do que de um avanço abertamente socialista. Mas tem seus defeitos, sobretudo a ânsia do PT de se aliar até com pessoas e grupos sem confiabilidade para obter vantagens políticas.

Foi com essa ânsia que o PT se aliou a Marcos Valério, o verdadeiro chefe do "mensalão". Ele já havia feito uma parceria com o tucano mineiro Eduardo Azeredo, que tomou tanto gosto da corrupção que depois, envergonhado com a péssima repercussão que isso iria dar, passou a defender a censura na Internet.

Graças a essas alianças, o PT tornou-se mais um partido de centro. Ele recua diante de questões mais delicadas, como o poder midiático e a concentração de terra nas mãos de oligarquias. Tenta adotar paliativos, como a Bolsa Família ou as cotas raciais no ensino superior, como se fossem medidas definitivas, quando não se encoraja em melhorar a Educação e a renda como um todo.

Mas, por outro lado, é perigosa a campanha anti-PT que se vê sobretudo na Internet, tomada de uma histeria moralista que beira ao golpismo. É a partir dessa histeria que se aproveitam vozes cada vez mais reacionárias que acabam reivindicando uma nova ditadura ou medidas antipopulares para resolver a corrupção.

Foi esse mesmo discurso que se viu já no segundo semestre de 1963, com alguns reacionários fingindo serem defensores do "cidadão comum", prometendo defender a garantia de direitos constitucionais, melhorias sociais e qualidade de vida. No decorrer dos meses, foram eles que permitiram que se instaurasse a ditadura que destruiu completamente o país.

A ditadura militar não conseguiu sequer defender a hierarquia militar, pois o mesmo temor que os generais tiveram dos sargentos revoltosos de 1964 ressurgiu no próprio aparato ditatorial, pouco mais de dez anos depois, quando membros do DOI-CODI assassinaram o jornalista Vladimir Herzog sem fazer qualquer consulta aos oficiais superiores.

Se a ditadura não recuperou a disciplina nas casernas, ela fez muito pior no âmbito civil, causando um sério prejuízo na Economia, agravou a corrupção política, destruiu a cultura brasileira, fortaleceu o coronelismo midiático e latifundiário, desnacionalizou a indústria quase por completo.

O grande perigo é esse círculo vicioso de esquerdistas ignorarem os erros dos petistas e os direitistas, por outro lado, atribuírem a eles erros que não cometeram. Em vez da direita e seus adeptos de centro discordarem naturalmente dos erros do PT, eles pregam o linchamento gratuito, confundindo discordância e crítica severa com rancor barato.

Com isso, a situação política brasileira não melhora. O deslumbramento ao PT, de um lado, e o rancor irracional ao partido, de outro, só criam um quadro vicioso que pode representar futuros prejuízos para a nação. São paixões dos dois lados que só desequilibram o debate político, esvaziando as discussões em prol de posturas extremistas.

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