quinta-feira, 6 de março de 2014

REVISTA VEJA AGORA ARROCHA A CULTURA POPULAR


Por Alexandre Figueiredo

Quanto riso, oh! Quanta Alegria... A revista Veja deu um "lepo-lepo" na intelectualidade "bacaninha" que quer a bregalização do país e, depois de dar um beijaço nos ombros dos funqueiros, agora faz o mesmo com o arrocha, na primeira grande investida nacional do gênero.

Tendo na capa uma charge com José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares, a Veja ironiza a sentença do Supremo Tribunal Federal que absolveu os "mensaleiros" do crime de formação de quadrilha, e, entre suas páginas, ainda festeja um futuro livro de Diogo Mainardi.

Como refresco, a Veja traz uma reportagem bastante elogiosa sobre o arrocha, o ritmo pós-brega de Salvador. E, mais uma vez, a cúpula de Veja não se sentiu apavorada com o sucesso desse ritmo que é um dos defendidos pela intelectualidade "bacaninha".

Há uns dez anos, o arrocha faz sucesso em Salvador. É uma espécie de versão eletrônica do brega de Amado Batista, com cantores que lembram Alexandre Pires ou Zezé di Camargo, ou cantoras que lembram Joelma do Calypso.

Subproduto do mercado totalitário da axé-music - que, depois de tantos anos de monopólio, começa a sinalizar sua decadência - , o arrocha era originalmente reservado a um público mais pobre, enquanto o "pagodão" (estilo lançado pelo É O Tchan) era para um público intermediário entre as classes baixa e média e a axé-music propriamente dita era para as elites.

Surgido através de grupos como Asas Livres, Brazilian Boys, Nara Costa (espécie de Gaby Amarantos baiana) e Silvano Sales - agora conhecido como Silvanno Salles - , o ritmo hoje é popularizado através de nomes como Pablo, seu maior ídolo no momento, e Kart Love.

Uma curiosidade é a inclusão do Psirico na reportagem. O grupo faz "pagodão", mas recentemente andou incluindo influências de arrocha. A inclusão, no entanto, é um gancho para promover a música "Lepo Lepo", um dos maiores sucessos do comercialismo carnavalesco baiano e que já está sendo amplamente divulgado em todo o Brasil.

O oportunismo ocorre de tal forma que um dos compositores de sucessos do arrocha usa um sobrenome artístico de "Escandurras", em "homenagem" ao guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra, o que mostra que os bregas atuais apenas "consomem" muita informação, embora não a assimilem naturalmente a ponto de produzirem arte e cultura de qualidade.

O arrocha é descrito na reportagem como um "contraponto" ao "funk ostentação", igualmente elogiado pela revista, só porque canta "o amor" em vez dos "bens de consumo". O problema é que, fora tais diferenças, é o mesmo apelo brega e popularesco que se nota.

Coincidência? A intelectualidade tentou desconversar que a aparição de ritmos brega-popularescos na grande mídia é "acidental", ou uma "invasão conspiratória" etc. Mas se a própria mídia não se sente incomodada com isso, que "conspiração" pode haver com tantos risos e, oh, quantas alegrias?

Enquanto Veja refresca as mentes reacionárias com seu elogio à bregalização do país, defendida a gosto não só pela pena "independente" de Sérgio Martins, como pela aprovação editorial de seus patrões, o Diário do Centro do Mundo publicou a declaração de uma socióloga, Sílvia Viana, que se recusou a dar uma entrevista a Veja sobre o BBB 14. Escreveu ela o seguinte trecho:

“Respondo seu e-mail pelo respeito que tenho por sua profissão, bem como pela compreensão das condições precárias às quais o trabalho do jornalista está submetido. Contudo, considero a ‘Veja’ uma revista muito mais que tendenciosa, considero-a torpe. Trata-se de uma publicação que estimula o reacionarismo ressentido, paranoico e feroz que temos visto se alastrar pela sociedade; uma revista que aplaude o estado de exceção permanente, cada vez mais escancarado em nossa “democracia”; uma revista que mente, distorce, inverte, omite, acusa, julga, condena e pune quem não compartilha de suas infâmias – e faz tudo isso descaradamente; por fim, uma revista que desestimula o próprio pensamento ao ignorar a argumentação, baseando suas suposições delirantes em meras ofensas.

Sendo assim, qualquer forma de participação nessa publicação significa a eliminação do debate (nesse caso, nem se poderia falar em empobrecimento do debate, pois na ‘Veja’ a linguagem nasce morta) – e isso ainda que a revista respeitasse a integridade das palavras de seus entrevistados e opositores, coisa que não faz, exceto quando tais palavras já tem a forma do vírus.

Dito isso, minha resposta é: Preferiria não.”

Certo. Para uma revista que condena os movimentos sociais e, se for preciso, desmoraliza até padres, índios, cineastas independentes e ativistas sociais que contrariam os interesses ideológicos defendidos pela revista, é "coincidência" que a publicação faça reportagens elogiosas sobre "funk", arrocha, tecnobrega e similares.

Para quem acredita que a cultura popular brasileira vive numa bolha de plástico e está imune a interferências de âmbito político-econômico, essa visão é bastante perigosa. Afinal, para Veja, se o Brasil for totalmente destruído e só sobrar "bailes funk" e eventos de arrocha, tecnobrega, tchê-music etc, seus barões dormirão seus sonos tranquilos.

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