sábado, 15 de março de 2014

QUANDO SER "ALTERNATIVO" VIROU BAGUNÇA

SE FOSSE PIADA, NÃO HAVERIA PROBLEMA - Mas o Grupo Molejo quer ser levado a sério com camiseta que imita a estética dos Ramones.

Por Alexandre Figueiredo

Depois do disco "alternativo" de tributo a Raça Negra, espera-se qualquer coisa. No Brasil do Febeapá, o festival de besteiras que sobreviveu ao seu autor, Sérgio Porto (1923-1968), joga-se a breguice mais escancarada para públicos que, em tese, assumem seu compromisso com a vanguarda cultural e a postura alternativa, sem escrúpulos de sucumbir ao ridículo.

A supremacia do brega-popularesco já é um problema sério em nossa sociedade e que vicia o gosto de muitos jovens. Os ídolos fazem sucesso através de músicas medíocres ou posturas sócio-culturais constrangedoras, dominam o mercado, mas se passam por "vítimas de preconceito" para serem levados a sério pela opinião pública, através do discurso intelectual dominante.

Um grupo de universitários da Universidade Federal Fluminense já havia escolhido Valesca Popozuda como "paraninfa" de formatura. A mesma funqueira teve um sucesso recente, "Beijinho no Ombro", cantado por um coral da Universidade de São Paulo. Nada mal para uma funqueira que anda mandando beijinho nos ombros dos barões da grande mídia.

Desde que os empresários de brega-popularesco, para complementar o jabaculê nas rádios - fica difícil passar a vida inteira subornando somente os programadores de rádio - , passaram a subornar sindicatos e entidades estudantis para promover eventos com ídolos brega-popularescos, a coisa escancarou de vez agora visando o aparato cult das "viradas culturais".

Com isso, também surgem os "artistas performáticos" da EmoPB (Felipe Cordeiro, Gang do Eletro, Banda Uó, Vivendo do Ócio etc), que banalizam o discurso irônico-provocativo dos antigos (e verdadeiros) performáticos, mas não passam de filhotes da overdose de informação que absorvem referências diversas e contraditórias, sem qualquer critério criativo.

Hoje tudo se banalizou e os jovens de hoje, um tanto infantilizados, acham que estão na vanguarda cultural só porque são capazes de "ouvir" tanto um New York Dolls quanto um Raça Negra. Mas eles não estão na vanguarda cultural, até porque o brega não é vanguarda, é retaguarda, é o mainstream do mainstream do mainstream do mainstream.

Se o brega "some" da mídia, é porque ele cansa. Não tem a força artística das verdadeiras expressões artístico-culturais, sobretudo musicais, e sua mediocridade é tão grande que um dia nem quem gosta aguenta mais ouvir.

Daí que é uma hipocrisia relançar o brega como "relíquia cult". No fundo, isso fica em vão. Até agora, Odair José, só para citar o "mais festejado" dessa onda toda, não lançou um grande sucesso dessa atual fase, o pessoal só fica "cultuando" os bregas às custas de velhos sucessos.

O Grupo Molejo, vendo o caso do Raça Negra, também carregou no seu pretensiosismo. Tentando transformar ironia em discurso "sério", o Grupo Molejo - espécie de "Mamonas Assassinas" do sambrega - divulga imagens pretensiosas como uma que aponta "10 Motivos de que o Molejo é melhor que os Beatles", com os integrantes sob o fundo da rua Abbey Road, em Londres.

Mas o que se nota é que o "Molejão", como o grupo é conhecido, também está comercializando uma camiseta que imita a estética da famosa camiseta dos Ramones, incluindo um círculo em que os nomes dos integrantes estão inscritos.

Esse culto todo é uma mistura de "cultura trash" com politicamente correto que nada contribui para a renovação ou a revalorização da cultura popular. A única coisa que essa glamourização da breguice cultural fez foi fazer com que nossas elites pareçam "simpáticas" ao povo pobre, pouco se lixando se "sua cultura" é verdadeira ou não.

Do "brega de raiz" ao "funk", o brega-popularesco tenta assim atrair públicos mais seletos, que, embora tenham maior poder aquisitivo ou mesmo formação universitária, não são culturalmente mais exigentes.

Pelo contrário, a condescendência dos "bacaninhas" com a bregalização só mostra um terrível desprezo à verdadeira cultura popular, que é "velha, chata e complicada", mesmo que sejam apenas sambas de Zé Kéti ou baiões de Luiz Gonzaga.

Assim, a bagunça do brega transformado em pseudo-alternativo só complica as coisas. Os jovens confundem piada com discurso sério, e vemos uma grande crise do discurso. Mas se nossos intelectuais querem fazer marketing com monografias e documentários, é de se esperar que a juventude "descolada" queira levar a sério com ironias e piadas. Vá entender nosso país...

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