segunda-feira, 10 de março de 2014

PSIRICO E O PRETENSIOSISMO "DESPRETENSIOSO"


Por Alexandre Figueiredo

O grupo baiano Psirico virou o hype da vez. O grupo que se ouvia nas rádios baianas, nos tempos em que eu morava em Salvador, já era o símbolo da mediocrização cultural politicamente correta, e só agora tornou-se sucesso nacional com o sucesso "Lepo Lepo". Na Bahia, o Psirico já era conhecido por sucessos como "Sambadinha" e "Mulher Brasileira (Toda Boa)".

A banda não é lá grande coisa - só para dizer um comentário mais educado - e "Lepo Lepo" chega a ser pior ainda, por ser o tipo da música cansativa que será condenada ao perecimento, soando tão velha quanto "É o Amor", de Zezé di Camargo & Luciano, "Sou Feia Mas Tô Na Moda", de Tati Quebra-Barraco, "Amar não é Pecado", de Luan Santana e "Ai Se Eu Te Pego", de Michel Teló.

Mais uma vez, como em todo ídolo brega-popularesco que recebe o "abraçaço" da mídia e a blindagem da intelectualidade "bacaninha" e etnocêntrica - para a qual as periferias devem ser uma espécie de Disneylândias suburbanas repletas de mau gosto - , o Psirico se carrega da síndrome do "coitadismo" (ou marketing da exclusão) e de todo o pretensiosismo "despretensioso".

Psirico é o queridinho da vez da chamada "máfia do dendê", o "esquemão" de apadrinhamento comandado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, no dizer de Cláudio Júlio Tognoli. É o que Álvaro Pereira Jr., outro jornalista, define como establishment caetânico.

Seu apadrinhamento se dá 25 anos depois do mesmo ter ocorrido com a banda Chiclete Com Banana, que agora deixou de ter o líder Bell Marques como seu integrante e vocalista. Bell passou a seguir carreira solo e o Chicletão tem novo vocalista.

Numa só vez, Psirico ganhou o apoio das Organizações Globo e da "máfia do dendê". No caso dos barões da mídia, o cantor do grupo, Márcio Victor, teve entrevista publicada no segundo caderno de O Globo e apareceu no Domingão do Faustão, espécie de parada obrigatória para os ídolos da Música de Cabresto Brasileira.

Criando um discurso de falsa modéstia e suposto despretensiosismo, Márcio Victor diz que "não esperava tanto sucesso" e diz que "Lepo Lepo" é uma canção "anti-capitalista" e "pró-amor". Para completar o pretensiosismo, Márcio ainda planeja carreira internacional.

Márcio Victor é tido como "genial" por Carlinhos Brown, Caetano Veloso, Gilberto Gil e até por Arto Lindsay, músico novaiorquino que havia morado alguns anos no Brasil e fala português fluentemente. No entanto, o som do Psirico é de uma mediocridade constrangedora, cujo teor "engraçadinho" faz paralelo ao do grupo carioca Molejo.

O Psirico não sai do contexto de grupos como É O Tchan, New Hit e Abrakadabra, ou de outros como Saiddy Bamba, Pagodart e outros. O grupo de Márcio Victor só é mais "politicamente correto", dentro de um gênero marcado por pesadas baixarias sexuais, marcado por expressões tipo "tapa na cara, mamãe", "é na madeirada", "me dá a patinha" e outros.

Além disso, o Psirico também é um dos poucos grupos de "pagodão" acolhidos pelos medalhões da axé-music - Márcio Victor foi percussionista de Ivete Sangalo - e se apoia pelo "bom mocismo" que envolve glamourização da pobreza e pretensões de grandeza.

Márcio usa os dois elementos discursivos. Diz que "veio da favela" - a canção "Firme e Forte" faz uma abordagem ao mesmo tempo piegas e conformista da pobreza - , numa expressão simbólica do chamado "orgulho de ser pobre", da glamourização da pobreza que transforma as favelas, produto da exclusão imobiliária, em "cenários pós-modernos" para o deleite paternalista das elites.

No entanto, ele se acha um "pesquisador musical". Quer gravar discos "experimentais", tocar com os excêntricos músicos Domenico e Kassin, gravar com Caetano Veloso e lançar DVD para o mercado internacional. Faz uma música comercial que se diz "anti-capitalista".

Um tanto pretensiosismo, outro tanto falsa modéstia. Assim o Psirico se torna mais um hype brega-popularesco da vez, enquanto o "funk" descansa de sua superexposição na carona do Carnaval. Até que "Lepo Lepo" se torne uma canção mofada, poucos meses depois, como tantos sucessos da música brega-popularesca produzida em série no país.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...