quinta-feira, 20 de março de 2014

O VERDADEIRO PRECONCEITO CONTRA MUSAS


Por Alexandre Figueiredo

Eis o lado sombrio que está fora da "Disneylândia das periferias", esse estranho paraíso cercado de lixo, ruas não asfaltadas, de muito analfabetismo e de uma pobreza e ignorância glamourizadas pelo discurso intelectual.

O tendenciosismo da parcela dessa intelectualidade que detém esse discurso por demais fantasioso, quando quer fazer críticas sociais, força demais a barra e, entre críticas que são até pertinentes mas parcialmente direcionadas, acabam também fazendo outras críticas que provocam tamanhas injustiças.

Um exemplo já descrito neste blogue é o fato de que certos ativistas das esquerdas médias fizeram duras críticas à exploração imbecilizada da mulher através dos comerciais de TV, inclusive alguns feitos pela supermodelo Gisele Bündchen.

No entanto, essas mesmas pessoas se omitem quando "mulheres-frutas" e outras funqueiras fazem o mesmo, até de forma ainda mais grave e extrema, e os mesmos ativistas consentem e até defendem com certo entusiasmo, com a desculpa de que elas estão "tirando sarro com o machismo" e adotando um "discurso direto" de "auto-afirmação feminista" (sic).

Ou seja, o que Gisele Bündchen faz é deplorável, caricato, pejorativo, estereotipado etc. Se Valesca Popozuda faz a mesmíssima coisa, ela é "corajosa", "combativa", "provocativa", "audaciosa", "brilhante" e outras qualidades "tudo de bom". Vá entender.


Agora é a vez da charmosíssima Nayara Justino, uma estonteante negra de 25 anos, ser duramente criticada pelas redes sociais. Tanto que chegaram a compará-la pejorativamente com um personagem masculino do filme Cidade de Deus e ser classificada de "feia". Com tantas campanhas negativas, ela hoje se isolou deprimida em sua casa.

Nayara teve o fardo de ter sido musa das vinhetas de Carnaval da Rede Globo, e ela sofreu a injustiça de pagar por este preço, quando oportunistas pseudo-esquerdistas querem esculhambar as Organizações Globo mais por modismo ou para agradar os amigos do que realmente por se opor aos abusos da corporação dos irmãos Marinho.

Esses oportunistas são os primeiros a reproduzir, em seus perfis nas mídias sociais, as charges de Carlos Latuff contra a Globo, como uma delas com o aviso "Sorria, você está sendo manipulado". São aqueles que vão lá mandando seu comentário contra o reaça da moda, seja Marcelo Madureira ou Ali Kamel, apenas porque muita gente está fazendo.

No entanto, eles se escondem vendo Caldeirão do Huck, Domingão do Faustão e Esquenta! e pautam sua compreensão sobre cultura popular pelo ponto de vista dos executivos da TV Globo. E ainda se irritam quando são chamados de neoliberais ou neocons.

É esse pessoal que, no auge das baixarias do É O Tchan - que vendia pornografia barata para o público infantil, sob o incentivo de pais e mães desavisados - , o ônus fosse repassado para uma Tiazinha cuja identidade secreta era uma dançarina clássica, então aspirante a atriz e muito mais inteligente que seu personagem sugeria, a hoje atriz Suzana Alves.

Se Suzana Alves pagou pela vulgaridade das dançarinas do Tchan, ou mesmo de uma Rosiane Pinheiro que, mesmo negra, ela, sim, se serviu à imagem de "mulher-objeto" como dançarina do grupo Gang do Samba - genérico do É O Tchan que o lobby de Hermano Vianna empurrou tendenciosamente para um documentário sobre Riachão - , Nayara agora paga pelos pecados das funqueiras e outras "boazudas".

Nayara Justino faz o perfil da negra sofisticada e bastante charmosa, que no exterior é simbolizada pela atriz Lupita Nyong'o, que de tão admirável já possui vários pretendentes, cada um anunciado pela mídia com suposto namorado. De rosto, Nayara soa como uma adaptação da raça negra ao tipo de beleza clássica da ex-concorrente do Miss Brasil 2003, a hoje atriz Mayana Neiva.

Ela apareceu até mesmo numa livraria, participando de um evento, e nem de longe expressa uma imagem de vulgaridade. Mas, juntando o posto de divulgadora de transmissões de Carnaval da Globo com a reputação que esta possui entre os detratores, Nayara Justino foi duramente criticada acusada injustamente de "vulgar" e "feia".

São as mesmas pessoas que mantém silêncio quando uma Valesca Popozuda pseudo-progressista se torna hoje a queridinha da Globo. Ela, que, supostamente ativista, tratou o episódio das denúncias do ex-funcionário da CIA, Edward Snowden, como se fosse o Big Brother Brasil. Como se Barack Obama estivesse fazendo na ocasião a função de Pedro Bial.

Daí o verdadeiro preconceito. Nem as "mulheres-frutas" sofreram tanto quando Nayara Justino. Até a Mulher-Melão, temperamental e arrogante, dá um jeito para evitar o ostracismo, mesmo quando está perto de tal situação. O rótulo "popular" dá uma imunidade para sub-celebridades reaparecerem na mídia quando já estão perto de desaparecerem para sempre.

Nayara foi vítima não só de um racismo oculto daqueles que defendem até as piores grosserias do "funk" a falam que o branquelo MC Guimê (outro neo-queridinho dos barões da mídia), mas de uma reação distorcida, caricata e tendenciosa de oportunistas que, passando por "opositores da Globo", atacam quem não deve e elogiam quem deve menos ainda.

Talvez Nayara, a exemplo de outros que de alguma forma prestam serviço à Globo, tenha até menos compromisso ideológico com a corporação, já que nem todo mundo lá compartilha com os interesses comerciais e político-ideológicos dos irmãos Marinho.

Mas são justamente essas pessoas que pagam pelos pecados cometidos pelos "urubólogos" e pelos ídolos "populares" que vão alegres ao Domingão do Faustão e Caldeirão do Huck, de veteranos do "pagode romântico" a funqueiros em ascensão, todos expressando um Brasil neoliberal de mentirinha mas que recebem a vista grossa das esquerdas médias.

Em contrapartida, Nayara Justino sofre duramente os efeitos dessa postura tendenciosa. Ela foi vista, equivocadamente, como um dos símbolos do que há de pior na Globo. E não é. Simpática, charmosa, belíssima, esforçada. Talvez ela possa ser, no futuro, uma excelente atriz ou coisas até melhores. Ela merece ter uma chance. Pena que os oportunistas do "ativismo de botequim" não deixam.

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