terça-feira, 11 de março de 2014

O PARÁ NADA "PARÁ-DISÍACO" QUE A INTELLIGENTZIA IGNORA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade "bacaninha" é progressista? É claro que não. Intelectuais que, no jargão sindical, são "pequenos burgueses", que adotam um discurso neoliberal mas forçam seu vínculo obsessivo com as esquerdas, bajulando líderes progressistas e fazendo falsos ataques a "urubólogos" da grande mídia.

Só porque eles usam e abusam do termo "popular", promovendo uma "cultura transbrasileira", isso não significa que eles sejam realmente progressistas. Eles são tão conservadores quanto um Rodrigo Constantino, mas têm jogo de cintura suficiente para poderem tomar chope com os membros do Centro Barão de Itararé sem que isso signifique sérias brigas ou risco de pancadaria.

Para eles, a periferia é um "paraíso". Um misto de Disneylândia com o País das Maravilhas - Wonderland, para dizer em inglês - apenas composta de residências toscas, ruas mal asfaltadas, lixo e gente maltrapilha e muitas vezes desdentada que se comporta de um jeito patético e ignorante.

E tudo isso descrito pelo "ativismo de gabinete" de antropólogos, sociólogos, jornalistas culturais, cineastas e outros "bacanas" que acham o brega o máximo e que só a bregalização irá salvar a cultura popular de nosso país.

O Pará é o símbolo disso tudo. O Farofafá, muitas vezes, descreve o Pará como um "paraíso", ou melhor, um Pará-iso. O Pará dos sonhos de Pedro Alexandre Sanches é o pará feliz, alegre, animado e hiperconectado com o mundo. Um Pará supostamente criativo, inocente, agradável, urbano, cosmopolita e divertido, que faz intelectuais da Zona Sul de São Paulo ficarem maravilhados.

Mas esse é o Pará de fantasia. O Pará real não cabe nas linhas do Farofafá e de outras expressões da intelectualidade etnocêntrica metida a bacana. É o Pará do latifúndio, do coronelismo midiático, da pistolagem, das trovoadas, das enchentes, dos deslizamentos de terra, da miséria e do analfabetismo.

Neste ano houve várias tempestades no Norte do país. O Pará está dentro. Milhares de desabrigados, muito prejuízo no já precário comércio popular e também um sério prejuízo na agricultura, o que deixará famintas muitas das famílias que se alimentam do que colhem de suas plantações. Como se não bastassem a opressão do poder latifundiário, da mídia patronal e da ameaça da pistolagem.

O que a intelectualidade " bacaninha", cheia de coisas "legais" para nos contar, autoproclamada detentora de uma visão "mais objetiva" e "imparcial" das periferias, dirá dessa situação dramática causada pelas tempestades que atingem o Norte do país?

Será que teriam coragem de dizer que as enchentes que atingem o Norte do Brasil são fruto da admirável criatividade dos paraenses, que, hiperconectados com o mundo, são capazes de trazer a cultura de Veneza, cidade italiana famosa por ser tomada pelas águas?

Ou será que a intelectualidade vai recomendar para as vítimas das enchentes que cantassem alegremente a música "Firme e Forte", do Psirico - o arroz-de-festa da atualidade - , cuja letra aborda a glamourização da pobreza através dos temporais, porque isso é uma "forma mais bonita" da população pobre reagir, de forma "criativa", aos desastres sofridos pelas chuvas?

E isso quando as autoridades inauguram a Arena Amazônia, um dos principais estádios para a Copa do Mundo Fifa 2014, localizado em Manaus. As autoridades têm dinheiro para construir estádios, mas não se esforçam em projetos de cunho urbano, social e ecológico para prevenir os sofrimentos de tanta gente que perde tantas coisas e até entes queridos por causa das chuvas.

É esse Norte do país cruel e triste. Um Norte trágico. Um Pará nada "pará-disíaco", nada "pará-dionisíaco", de pessoas que perdem até os rádios e TVs que lhes veiculam a "admirável cultura transbrazileira" elogiada pelos intelectuais burgueses pseudo-progressistas de São Paulo.

Eles não entendem a tragédia do povo. E acham que estão sendo progressistas falando de um povo pobre idealizado e supostamente feliz com sua miséria.

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