terça-feira, 11 de março de 2014

O LIXO MATERIAL, CULTURAL E INTELECTUAL-MIDIÁTICO


Por Alexandre Figueiredo

No último fim de semana, os garis decidiram encerrar a greve de oito dias, depois que conquistaram, num acordo com a Prefeitura do Rio de Janeiro - que administra a Comlurb - um reajuste no salário-base de 37%, de  R$ 802,57 para R$ 1.100, acrescido de 40% de aumento no adicional de insalubridade.

A greve dos trabalhadores de coleta de lixo no Rio de Janeiro deixou a cidade bastante suja, em mais uma das pressões da sociedade contra os arbítrios do governo Eduardo Paes. Só neste ano a coisa foi muito pesada: pressões de sem-teto, de estudantes, de passageiros de ônibus e trem, e agora de garis. Nunca Eduardo Paes havia sentido tanta pressão popular contra ele e seus secretários.

Até mesmo o gari dançarino Renato Sorriso, que deixou a alegria de lado diante da situação dramática de seus colegas - que se expõem a sujeira e risco de doenças graves com precária remuneração - , se destacou numa manifestação cujo sentido real foi subestimado pela grande mídia.

Esta noticiou as cidades sujas como se fosse uma bronca da "zangada sociedade organizada". Como uma espécie de Rodrigo Constantino tomando as dores de Bóris Casoy - o jornalista da TV Bandeirantes que havia disparado comentários ofensivos aos garis - , o lixo limitou-se a ser visto como um subproduto da "corrupção política", que é o que eles definem a política que não é de seu partido.

Vagamente descrita como "fruto do descaso e da corrupção", motivos bastante vagos mas que atraem a "ira popular", a pregação direitista dos porta-vozes do baronato midiático não descreve os verdadeiros problemas que estão por trás dessas greves.

Eles apenas se limitam a defender a "sociedade" e o "povo" quando lhes é de sua conveniência, para derrubar políticos que não lhes agradam, sejam eles quem forem. Mas quando seus ídolos estão no poder, eles deixam o povo para lá, pouco importando o sofrimento que as classes populares são obrigadas a enfrentar.

LIXO CULTURAL

Enquanto isso, a folia carnavalesca também se encheu de lixo. O lixo cultural das músicas feitas só para durar um verão, da breguice escancarada que tentou se passar por "vanguarda" para fazer parte de uma suposta diversidade cultural que se mantém sob a pesada blindagem de uma intelectualidade que presta serviço freelancer para os barões da mídia.

E aí teve gente usando aquela camiseta do Grupo Molejo que satiriza a estética dos Ramones. Ou achando que dá para misturar New York Dolls com "beijinho no ombro". Tem até a ascensão do compositor-de-aluguel - espécie muito comum no mercado musical baiano - Felipe Escandurras, cujo sobrenome artístico bajula claramente o guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra, parceiro do arrocheiro Pablo e do grupo de "pagodão" Psirico.

O que um compositor de brega baiano tem a ver com o Ira!, grupo paulistano que em outros tempos tinha dificuldade de se popularizar até no Rio de Janeiro, é algo que não dá para entender. Mas o brega hoje está muito mais pretensioso e pedante. E há ainda muitos foliões "engraçadinhos" querendo ser levados a sério demais, contando piadas ou fazendo ironias das quais é proibido rir.

Enquanto isso, nos trios elétricos de Salvador, num canto de cisne da axé-music que precisa se realimentar com as reservas de mercado que possui em outras partes do país, como Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul para compensarem a decadência do cenário dentro da Bahia, em que só faltou o grito de "já vai tarde" para Bell Marques na sua saída da banda Chiclete Com Banana.

O próprio "funk" deixou de lado o eixo Rio-São Paulo - que diminuiu o espaço para as "musas" siliconadas - e passou a tomar emprestado a vitrine da axé-music baiana. Valesca Popozuda, MC Guimê e MC Gui, para comemorar o "beijinho no ombro" dos barões da mídia, foram se apresentar junto a nomes como Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Bell Marques e Psirico.

E isso quando o próprio "funk" encontra o "pagodão" como seu concorrente direto. Mas o "pagodão" no circuitão do Carnaval de Salvador só é representado por grupos "comportados" como Harmonia do Samba, Psirico e Parangolé, enquanto outros como Guig Guetto, Saiddy Bamba e similares, para não dizer grupos "proibidões" como Abrakadabra, vão fazer as festas nos bairros populares.

É o mesmo apelo pornográfico, e, por vezes criminoso, que unem funqueiros e "pagodeiros baianos". E que já rendeu reportagens escandalosas envolvendo New Hit, Black Style e Abrakadabra, vítimas de uma campanha antibaixaria comandada por uma deputada do PT, partido que, no âmbito paulista, mostra políticos condescendentes com as mesmas baixarias feitas pelos funqueiros.

A mediocrização tomou conta do Carnaval, a ponto de uma música entediante, "Lepo Lepo", do Psirico, que não traz o menor teor de empolgação, como também não traz o constrangedor "Beijinho no Ombro", de Valesca Popozuda. E a juventude arrogante querendo que a bregalização seja absoluta, porque é "mais divertido" e "libertário" (sic), às custas destes e outros ídolos da categoria.

Isso é o lixo cultural que glamouriza a pobreza, a ignorância, a imoralidade, mas enche de orgulho intelectuais "bacanas" de visão puramente etnocêntrica, apesar de aparentemente cordial. E a expressão "lixo cultural" ainda é vista com gracejos por "bacanas" como Eduardo Nunomura, para os quais o "mau gosto" é sinônimo de causa nobre.

Claro, não é Nunomura e seus coleguinhas que têm o barraco da favela atingido por um deslizamento de terra que destrói casas e mata quem estiver dentro. Não é ele e seus amiguinhos "tão legais" que dormem sob o sério risco de serem picados por mosquitos contaminados durante suas noites de sono nem são eles que andam pelas ruas sentindo o fedor do lixo acumulado nas ruas.

Para eles, até "mulher-fruta" dando peido nas caras dos críticos culturais é maravilhoso. Quanto mais a cultura brasileira estar entregue à imbecilização, melhor para eles. E, elitistas que "condenam" o elitismo, esses intelectuais "sem qualquer tipo de preconceito", mas muitíssimo preconceituosos, ainda riem dos problemas culturais do país. Pimenta na cultura do povo pobre é refresco.

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