sábado, 22 de março de 2014

O JABACULÊ ENVOLVENDO MÍDIA E FUTEBOL NA BAHIA


Por Alexandre Figueiredo

Quando eu escrevia o Preserve o Rádio AM, há uns dez anos atrás, eu já alertava sobre o jabaculê envolvendo rádio e futebol na Bahia. Naquela época, fazer tal constatação era um tabu, e o antigo sítio já foi considerado "policialesco" por lançar questões sobre essa.

Naqueles tempos, entre 2000 e 2004, o jabaculê radiofônico mudou muito. A ideia de jabaculê de ser apenas a prática de subornar programadores de rádio para tocar determinada música não era a única existente, mas mesmo assim era a única admitida até mesmo por muitos blogueiros considerados influentes na época e eu denominava de "líderes de opinião".

Falar que, por exemplo, o chamado "Aemão de FM" (ou seja, FMs que adotam, total ou parcialmente, programação tipo rádio AM) praticava jabaculê era visto como "inconcebível" por muitos. Futebol e noticiários ainda tinham a aura "sagrada" de unir "informação, entretenimento e prestação de serviço" e eram santificados em portais sobre rádio na Internet e em outros espaços virtuais.

Mas hoje já começa a admitir que o jabaculê nem sempre dança conforme a música. Até porque o jabaculê não dançaria sem música. Em tempos que a grande imprensa não é tão glamourizada ainda, nos últimos anos ocorrem denúncias sérias sobre o esquema de corrupção que envolve a mídia esportiva e os chamados "cartolas" locais, os chefões do futebol carioca.

Denúncias assim já ocorrem há muito tempo. A mais recente envolveu o esquema de corrupção entre o Esporte Clube Bahia, um dos dois principais times que monopolizam o futebol baiano (o outro é o Esporte Clube Vitória), foi denunciado pelo atual presidente do clube, Fernando Schmidt, que organiza uma devassa da administração anterior, de Marcelo Guimarães Filho.

Segundo Schmidt, o "Baêa", como é popularmente chamado o tricolor baiano, era responsável por pagar até as transmissões esportivas, além de oferecer hospedagem em hotéis conceituados, jantares em bons restaurantes e passagens aéreas para jornalistas esportivos. Os acordos não envolviam apenas a TV Bahia, afiliada local da Rede Globo, mas também emissoras de rádio, sobretudo FM. A Itapoan FM, de Pedro Irujo, foi citada na denúncia.

A situação é tão grave que hoje eu entendo por que, quando tentaram me oferecer um emprego numa agência de jornalismo esportivo, não me aceitaram por ser novato. Meus entrevistadores me informaram que era preciso "ter intimidade" com os bastidores do esporte. Queriam alguém "com experiência".

Foi divulgado, na entrevista, o valor de R$ 865 mil que financiavam crônicas esportivas e o trabalho de radialistas. A situação é tão grave que Schmidt admite que "a sujeira neste campo é pesada". Pior do que lama de campo de futebol de várzea, a lama envolvendo mídia e futebol na Bahia é podre. E o Diário do Centro do Mundo admitiu que se trata, sim, de um esquema de jabaculê.

Não é a primeira denúncia. Em dezembro de 2008, uma reportagem do Correio (antigo Correio da Bahia) denunciou outro escândalo envolvendo mídia e dirigentes esportivos, que repercutiu de tal forma que o dono da Metrópole FM, Mário Kertèsz, um dos denunciados, chegou a sofrer um infarto, ao saber que ele não gozaria da impunidade de antes.

BARÕES DA MÍDIA LOCAIS FRAUDAVAM ATÉ AUDIÊNCIA

Só o rádio baiano já conta com um bloco doméstico de "coronelismo eletrônico", com um cartel de donos de rádio que haviam sido apadrinhados, nos anos 80, pelo então ministro das Comunicações e "chefão regional" da Bahia, Antônio Carlos Magalhães.

Aparentemente "rompidos" com o falecido político, empresários como Marcos Medrado, Mário Kertèsz, Pedro Irujo e Cristóvão Ferreira Filho (o Cristovinho), além da afiliada da Rede Transamérica em Salvador, sempre se beneficiaram de transações feitas com dirigentes esportivos.

A obsessão deles de impor transmissões esportivas em FM, prejudicando a concorrência com as AMs que interviessem no setor - a única que escapava ilesa era a Rádio Sociedade - , era um mecanismo que envolvia um engenhoso esquema de jabaculê que incluía desde o silêncio da imprensa local até a formas de fraudar ou manipular índices de audiência.

O esquema de jabaculê acontecia de tal forma que havia as chamadas "audiências de aluguel". As rádios subornavam de entidades de trabalhadores até lojas de departamentos para sintonizar as FMs durante transmissão de futebol, pouco importando o contexto e a revolta dos fregueses.

Certa vez, a Metrópole FM, de Mário Kertèsz, subornou as Lojas Americanas do Shopping Iguatemi, que sintonizou a emissora durante uma transmissão esportiva no rádio posto na seção de CDs (!). A Civilização Brasileira, também no Iguatemi, fez o mesmo, irritando fregueses e leitores de livros. E, no Salvador Shopping, uma papelaria sintonizou a Transamérica FM durante uma transmissão.

Há casos de produtores dessas FMs que vão para determinados botequins e "recomendam" a sintonia das emissoras durante transmissões esportivas em troca do pagamento, por parte da rádio, de despezas como contas de luz e de distribuição de bebidas.

E, embora pareça uma prática "honesta" de permuta publicitária, o fato de lojas de departamentos sintonizarem essas rádios, sobretudo quando não são lojas de aparelhos de som, constitui numa prática de jabaculê, para forçar a audiência da rádio em ambientes de sintonia aparentemente coletiva, dentro daquela manobra de atribuir aos fregueses de loja a audiência que só serve para seu gerente.

A situação cria momentos constrangedores. Eu mesmo já circulei, no ponto de táxi nos Barris, em Salvador, durante a hora do almoço, e vi um veículo desses estacionado, com as janelas todas fechadas e sem viva alma dentro, sintonizado numa dessas FMs que passavam "resenhas esportivas". E vi também porteiros com o rádio ligado sem terem ideia do que estavam ouvindo.

O esquema jabazeiro dessas rádios faz aquele tradicional jabaculê musical parecer brincadeira de bebê. A "doutrina da emoção", que muitos definem o radialismo esportivo, não é imune a prática jabazeira, mesmo aparentemente mexendo com "informação" e "prestação de serviço".

Pelo contrário, hoje em dia o futebol rende, no rádio FM, práticas de jabaculê muitíssimo piores do que a música, que hoje procura meios auxiliares de prática jabazeira, como no caso do brega-popularesco, que hoje suborna de sindicatos de trabalhadores a acadêmicos universitários.

Segundo muitos de seus denunciadores, ainda tem muita sujeira a investigar na promíscua relação entre mídia e dirigentes esportivos em Salvador. E novas surpresas virão, para tirar o sono dos barões midiáticos baianos. Segura o coração, Mário Kertèsz!!

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