quarta-feira, 19 de março de 2014

NO BREGA-POPULARESCO, NÃO HÁ GRANDES ARTISTAS, MAS GRANDES EMPRESÁRIOS


Por Alexandre Figueiredo

Na música brega-popularesca, o que se observa não é a existência de grandes artistas, mas a atuação permanente e sustentável de empresários habilidosos, capazes de moldar e remoldar os ídolos que são apenas mercadorias e produtos de um entretenimento musical.

Faltam, na música brasileira de hoje, grandes artistas de impacto. A última grande força da MPB autêntica se deu nos anos 70, quando artistas de formação universitária popularizaram ritmos populares na apreciação das várias classes sociais.

A estagnação desse processo, porém, fez com que a MPB autêntica se perdesse quando ritmos populares deixaram de serem apreciadas nos lugares de origem e uma confusão de valores fez com que o povo pobre deixasse de ter sua própria cultura, queiram ou não queiram os intelectuais pró-brega com suas manias de "relativização".

O que se conhece como "cultura popular" é um sistema de valores estereotipados e padronizados dentro de um modelo caricato de população pobre, digno dos piores programas de humorismo televisivo da TV aberta. Algo que nem as chanchadas da Atlântida teriam coragem de fazer.

Para o intelectual que vive no seu apartamento confortável, vai com seu carrinho entre seu lar e o escritório refrigerado de sua instituição, isso é o "povo autêntico", é o "verdadeiro cheiro de povo". E, por isso, minimizam-se os questionamentos sobre a falta de grandes artistas na "música do povo" feita no Brasil.

"ÍDOLOS DO POVÃO"

Páginas e páginas de monografias, laudas de reportagens sucessivas e horas de documentários são inúteis para tentar classificar os "sucessos do povão" - meras mercadorias musicais lançadas pelas rádios oligárquicas das capitais e do interior - como "cultura de verdade".

Pela "expressão" de seus "artistas", o que há são fetiches musicais, produtos midiáticos. Não há grandes artistas. Claro, o intelectual "bacana" irá se revoltar, porque o "ídolo do povão" é um exímio lotador de plateias, mas está perdido na sua (suposta) missão de renovação da Música Popular Brasileira, bem mais do que cego paraplégico num cenário de grandes conflitos bélicos.

O que existe são supostos cantores e grupos que, primeiro, despejam tudo de ruim que "são capazes" de fazer na música, e que se tornam a razão de seu sucesso. Carregam na pieguice, ou então carregam no grotesco, com sucessos que, embora "certeiros", são bastante constrangedores.

Só depois de uns cinco anos de sucesso, o "artista" é remodulado, ganha um banho de loja, um banho de técnica e tecnologia, e, "repaginado", até parece um "artista popular" convertido em "novo gênio da MPB".

Mas o resultado, como já havíamos escrito várias vezes, é desastroso. O "artista" fica ainda mais perdido quando o mercado lhe dá o papel tendencioso de brincar de "fazer MPB". Grava covers sugeridos em última hora por produtores. Recorre a outros arranjadores para fazer um arremedo de "boa música" e o mercado e a grande mídia agradecem.

Só que tudo isso se deve não pela razão do "admirável" e de início "mal-aproveitado talento" do ídolo popularesco. Não dá para acreditar na desculpa que esse cantor, dupla ou grupo foram "mal-aproveitados" no começo da carreira, até porque quem realmente tem talento sempre mostra sua força no começo, não espera o sucesso vir para pensar em fazer "algo decente".

BONS EMPRESÁRIOS

O principal motivo de haver uma sucessão de "artistas" brega-popularescos comercialmente bem sucedidos e que, aparentemente, estão prontos a driblar qualquer risco de desgaste com algum factoide ou qualquer coisa que aumente sua autopromoção na mídia, não é outro senão a presença de bons empresários.

Em muitos casos, há um rodízio de empresários dependendo do estágio que o "artista" se encontre em sua carreira. Quando o ídolo brega-popularesco é emergente, ele é empresariado por agências de famosos sediadas nas suas regiões de origem, que estabelecem parcerias com outras que possuem escritórios em São Paulo.

Quando o ídolo brega-popularesco se estabiliza, geralmente seu passe é compartilhado com a grande mídia. As emissoras de TV tornam-se em parte "sócias" do ídolo, que aparece fácil em programas de TV aberta, em muitos casos alternando entre uma emissora e outra, para não deixar vazar que se tornou queridinho de uma única emissora (sobretudo se for a Rede Globo).

Mas independente de que empresário for e se ele continua o mesmo ou não, o ídolo brega-popularesco sempre procura promover e manter sua imagem da melhor maneira. Como "boas mercadorias" que precisam manter toda a "qualidade" para a satisfação de seus consumidores.

O zelo da mídia e do mercado para esses "artistas" da música é que dá a falsa impressão de que eles são "grandes artistas". Mas mesmo seus maiores sucessos não sobrevivem mais que um verão ou, quando muito, uns poucos sucessos são "institucionalizados" pela mídia, mediante interesses comerciais estratégicos, como "É o Amor", da dupla breganeja Zezé di Camargo & Luciano.

Num país com pouco hábito para ouvir música fora do contexto de fundo musical de qualquer atividade ou sob a "ajuda" de bebidas e outras "coisas", as pessoas pouco percebem a situação. Mas, numa atenção mais cuidadosa, veremos que atualmente faltam grandes artistas de MPB que juntem visibilidade, talento e popularidade.

O que existe, na verdade, são ídolos empresariados que apenas fazem um arremedo de música brasileira, com forte apelo brega-popularesco, e que apenas são moldados de forma tendenciosa para se manterem na mídia e no sucesso. Tudo comercialismo.

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