quarta-feira, 12 de março de 2014

MICHAEL SULLIVAN E A CORRUPÇÃO NA MÚSICA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade "bacana" está em silêncio. A mesma intelectualidade que fez muito barulho com o caso do "Procure Saber", que, mesmo se autoproclamando "progressista", combate Chico Buarque e endeusa Waldick Soriano, não se pronunciou à recente denúncia do conceituado músico Alceu Valença, em entrevista divulgada uns dias atrás.

Alceu Valença denunciou o esquema de jabaculê da gravadora RCA em 1987, quando artistas contratados eram obrigados a abrir mão de seu estilo para gravarem canções comerciais nos moldes do pop mercantilista dos EUA.

Em troca de vantagens como hospedagem em hotéis cinco estrelas e concessão de apartamentos de luxo, os artistas eram obrigados a se "vender" para não serem jogados no ostracismo, porque o esquema já preparava ídolos bregas que tirariam os artistas de MPB do acesso ao grande público.

Esse é um claro e gravíssimo caso de corrupção. E, juntando as peças, nota-se que, em 1987, a RCA tinha como diretor artístico Miguel Plopschi e seu principal produtor e compositor, Michael Sullivan. Ambos eram do grupo de Jovem Guarda Os Fevers, que nos anos 70 embarcou na causa brega de fazer imitações baratas do pop comercial estadunidense.

Alceu não citou nomes, mas o esquema de jabaculê que ele denuncia corresponde exatamente ao comandado por Michael Sullivan, que hoje posa de "gênio injustiçado" e articulou uma campanha de "reabilitação" de si mesmo, cooptando artistas respeitáveis da MPB para gravar um tendencioso CD-tributo do compositor, lançado há alguns meses.

Segundo a denúncia de Alceu, os artistas eram obrigados a gravar canções cada vez mais comerciais para continuarem fazendo sucesso. Caso contrário, eram postos "na gaveta", jogados para o ostracismo. Alceu sentiu na pele as pressões que o esquema fez sobre o cantor, sendo obrigado a ceder a fórmulas comerciais em troca de vantagens e de divulgação fácil em rádios e TVs.

As fórmulas musicais incluíam mixagens que deixavam os arranjos ao mesmo tempo piegas e "grandiloquentes", com ênfase nos sintetizadores, e músicas de rimas pobres dessas que tentam rimar "sentido" com "perigo". A ênfase estava sobretudo na diluição do soul norte-americano ou na composição de falsos baiões e falsos sambas canções sem qualquer expressividade real.

Alguns artistas cooptados se submeteram ao esquema, outros tentaram sem sucesso ou recusaram de primeira. Alcione, Roupa Nova, Sandra de Sá e Raimundo Fagner foram os que aderiram ao esquema, fazendo coro aos ídolos mercadológicos apadrinhados por Sullivan, como Xuxa Meneghel e o cantor brega José Augusto, da geração do final dos anos 70.

Já outros artistas, como Fafá de Belém, Gal Costa, Tim Maia e Ney Matogrosso tentaram aderir, mas não obtiveram o sucesso esperado, tendo depois que largar o esquema. Já Alceu Valença e Chico Buarque se recusaram a se submeterem ao esquema, sabendo das armadilhas que estão por trás.

Embora a RCA e a Som Livre - Michael Sullivan teve o suporte das Organizações Globo, era um prazeroso serviçal dos barões da mídia - comandem o esquema, ele tentou se expandir para outras gravadoras, como a CBS e a PolyGram (hoje respectivamente Sony Music, que também abriga a antiga RCA, e Universal Music).

Simone, por exemplo, que já era submetida às regras comerciais da CBS, foi gravar uma música de Sullivan e Massadas e outra do "cliente" de Michael Sullivan, o citado José Augusto. Já a cantora Rosana Fiengo, uma esquecida artista de soul bastante talentosa dos anos 70, passou a estar vinculada ao universo brega apadrinhada por Michael Sullivan.

Rosana também era contratada pela CBS e recebeu dos produtores a versão em português de um obscuro sucesso comercial da cantora Jennifer Rush, "The Power of Love", que se transformou em "Como uma Deusa", considerada um dos maiores hits trash da década de 80.

Na PolyGram, a influência de Michael Sullivan se estendia, mesmo de forma indireta, na contratação de ídolos bregas como Wando e Chitãozinho & Xororó. Além disso, gravadoras então existentes como Copacabana e Continental reciclavam a breguice musical usando as "novidades" lançadas por Michael Sullivan.

PROCURE SABER

Para a intelectualidade "bacana" que acha Michael Sullivan o máximo, o "novo Tom Jobim" e o ícone da "moderna MPB", entre outros delírios ideológicos, é bom deixar claro sobre sua ligação com Roberto Carlos, não fosse o fato de estarem unidos na breve aventura da Jovem Guarda.

O mesmo Roberto Carlos que defende a censura em biografias não-oficiais e que, vegetariano, foi se passar por "carnívoro" do comercial do Friboi - da empresa JBS, cujo um dos donos é marido da jornalista da Band, Ticiana Villas-Boas - , sem dar uma única mordida na carne, também foi beneficiado pelo esquemão de Michael Sullivan.

Isso se deu sobretudo quando Michael Sullivan e Paulo Massadas se juntaram com Lincoln Olivetti e Robson Jorge (outros que empastelaram a MPB) para compor a música "Amor Perfeito" - a mesma que recentemente é tocada por ídolos como Bell Marques e Cláudia Leitte - e chamaram Roberto Carlos para gravar a música.

Além dessa música, Roberto Carlos gravou "Meu Ciúme", apenas de Sullivan e Massadas, que teve razoável execução nas rádios. E, assim como Michael Sullivan, tinha o suporte das Organizações Globo e se comprometia a promover o comercialismo na música brasileira. E Roberto Carlos tinha a visibilidade necessária para ampliar processos de bregalização musical por ele apoiados.

Juntando tudo isso à política de concessões de rádio e TV a políticos e oligarquias empresariais - inclusive várias ligadas ao latifúndio - , o esquema de Michael Sullivan e a visibilidade de Roberto Carlos sob a guarita da Rede Globo abriram caminho para a mais ampla bregalização da música brasileira, entregue ao mais escancarado comercialismo que sufoca nossa cultura.

Isso se tornou claro nos anos 90, quando, apoiando cenários políticos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso ou, em âmbito regional, apoiando "coronéis" como Antônio Carlos Magalhães, tendências como a axé-music (ancorada pela lambada), "sertanejo", "funk" e "pagode romântico" cresceram e se tornaram hegemônicos num quase monopólio sobre o gosto popular brasileiro.

O problema é que muitos desses ídolos beneficiados, como Raça Negra, Zezé di Camargo & Luciano, Grupo Molejo, Luiz Caldas, Banda Calypso e tantos outros, chegaram a fazer parte do dirigismo ideológico-cultural da intelectualidade "bacana", que diz que "ninguém é obrigado" a gostar desses ídolos, mas é obrigado a "aceitar e acabar gostando".

Esse é o esquema comandado por Michael Sullivan denunciado por Alceu Valença. E que representou a glamourização do mau gosto e a apologia à ignorância que transformaram a música brasileira numa sucessão crescente de ídolos medíocres. A intelectualidade "bacaninha" gosta, até porque está entrosada nesse esquema jabazeiro. Lamentavelmente.

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